segunda-feira, abril 16, 2007

Uma Não-Notícia

Hoje foi um dia particularmente pouco buliçoso no Aeroporto de Faro. Não aconteceu:
- Despenhamento do avião proveniente de Sheffield, com chegada prevista às 15:50, com 85 passageiros bêbados a bordo. Muitos deles envergavam a camisola da selecção inglesa no momento da aterragem, que ocorreu sem problemas. Depreendeu-se, portanto, que fossem ingleses, embora um ou outro pudesse ser galês e estivesse já muito confuso. Não houve nenhum problema mesmo, nem com a cor da pele dos passageiros, já previamente equipados com uma tonalidade tipo camarão com que costumam enfrentar o sol. Pronto, talvez tenha morrido um passarito ou outro despedaçado pelas ventoinhas do aparelho. A companhia aérea em causa, uma transportadora “low-cost” sedeada nas Antilhas Holandesas, já declinou responsabilidades em eventuais danos causados à fauna local. Os passageiros, após derrubarem meia dúzia de canecas, dirigiram-se para apartamentos hoteleiros no eixo Albufeira-Tavira. Ou só Albufeira, talvez. Onde haja música alta e se possa aproveitar uma longa “happy hour”, para ser mais rigoroso;
- Malas extraviadas nos tapetes. Toda a gente não esperou mais de 10 minutos pela sua bagagem, sem se perder alguma, para desespero dos repórteres que precisavam de fazer uma peça sobre os clichés portugueses, subordinada ao tema dos atrasos e esperas. Tudo correu bem. Nem uma queixa. Quer dizer, houve uma situação. Um responsável pela secção das reclamações apresentou queixa por “manifesta falta de preparação para dias sem queixas” a si próprio, levando cerca de três horas a tranquilizar-se a si mesmo – as quais dedicou a jogar freneticamente Copas e Minesweeper. Em ambos não conseguiu averbar uma vitória sequer, tal o nervosismo provocado pela falta de stress. O stress, recorde-se, já antes o levara a vencer um jogo de copas sem apanhar nenhuma copa e derrotando todos os outros três jogadores em simultâneo, bem como a vencer o Minesweeper – Nível Especialista em apenas 147 segundos. Esse responsável acabou por confidenciar “isso só aconteceu uma vez, quando fiz esperar 52 pessoas durante cinco horas”;
- Ameaça de bomba dirigida à torre de controlo. Enquanto se aguardava por uma ameaça terrorista árabe credível, os controladores aéreos passaram o tempo a jogar às cartas e ocasionalmente ao bate-pé. E, de vez em quando, lá ajudaram um avião a aterrar, entre suspiros de tédio. Uma técnica de sistemas informáticos, alegadamente, deu um linguado no seu colega responsável pelo radar. Ele foi o próprio a confirmar a situação, mas ela negou veementemente, dizendo que ele pedira um 6 (um chocho) e não um 9 (um linguado). Pelo meio, uma empregada de limpeza moldava foi “forçada” a participar e chegou mesmo a mostrar as cuecas, para gáudio da equipa que aterrava o avião da Ibéria nesse instante. Foram os próprios indivíduos controladores que colocaram as aspas no verbo “forçar”, preferindo enfatizar a competição renhida do jogo de Uno que disputaram;
- Tráfico de droga detectado nos controlos. Nada. Nem um grama de haxixezito para amostra. Apesar da fé depositada num estranho indivíduo de dentes dourados, calças brancas, óculos escuros e na sua companheira com 50 kg. de bagagem provenientes da Colômbia, nada de especial fugiu às declarações. Pelos vistos, esse homem trazia apenas plantas medicinais e alguma farinha Maizena e o controlo aceitou as justificações, sem esconder a sua desilusão. “Temos um mecanismo que detecta cocaína em todo o lado, desde o interior das meias até às profundezas do estômago. Conseguimos inclusivamente vislumbrar qual foi o almoço do dia anterior, se o indivíduo em questão não tiver um metabolismo muito acelerado. Tanto investimento para nada… os traficantes fugiram de Portugal! Uma vergonha! Já nem somos atractivos para os senhores da droga, o Sócrates que ponha os olhos nisto”. Quando indagado sobre a redução do tráfico de droga nos aeroportos internacionais portugueses, o responsável pela segurança adiantou que “é de facto lamentável que não se criem condições para que os traficantes apareçam. Podiam colocar aqui um agente à paisana à espera nas aterragens com um cartaz «Droga da Colômbia – por aqui». Mas não. Primeiro a administração pública de Lisboa e só depois nós. Temos tudo pronto para os apanhar e eles não aparecem, preferem vir de barco. Assim nunca teremos direito aos nossos 15 minutos de fama”.
Tinha de acontecer algo, contudo; portanto, procedeu-se à detenção de um passageiro em trânsito para Málaga, proveniente de Joanesburgo. O referido indivíduo apresentou, segundo uma fonte policial, “um bafo insuportável a pasta de dentes”, que logo o levou a ser colocado de parte pelas autoridades. Depois, para agravar a situação, o seu cinto de metal apitou nos controlos, levando a equipa de piquete da policia a intervir. Os cães do piquete rosnaram de forma ameaçadora à chegada, adensando as suspeitas sobre o indivíduo, que afirmou ter 2 gatos em casa que costumavam ronronar em torno das suas pernas. Pouco convencida da autenticidade das suas declarações, a polícia exigiu que o indivíduo tirasse o cinto e, para que nada passasse em claro, as calças também. Quando o indivíduo tirou as calças, revelou uma roupa interior de uma marca cujos artigos são usualmente encontrados nas feiras da região. As autoridades pensaram imediatamente tratar-se de um produto contrafeito, embora o indivíduo tenha referido que não esteve em Portugal desde os seus 7 anos, algo que não convenceu as autoridades. Cientes que precisavam de alguma coisa com maior impacto para deter o indivíduo e possuir uma coluna no jornal semanal do Barlavento algarvio, as autoridades passaram em revista o documento de identificação do indivíduo e verificaram que este possuía várias falhas consideradas graves, a saber: inexistência de acentos ortográficos (embora não se aplicassem à situação); fotografia desactualizada (o indivíduo tinha o cabelo uns dois ou três dedos visivelmente mais comprido na foto e foi incapaz de replicar o mesmo sorriso parvo da foto, queixando-se que o cão polícia bafejava muito perto para que pudesse sorrir) e inexistência de detalhes sobre os irmãos (que o indivíduo afirmou ter; mais concretamente, declarou ter 5 irmãos e 3 irmãs, sendo que nenhum nome figurava no passaporte, embora tal aparentemente não fosse necessário). Este, segundo a polícia, foi o motivo chave que deteve o exasperado sul-africano perante os flashes das câmaras e o brilho dos telemóveis.
Indagou-se se seria mesmo um motivo válido para deter um indivíduo. As autoridades não tiveram dúvidas: “Porque não? Ainda agora, ali atrás, deixámos passar um homem com 24 garrafas de whisky, 30 volumes de tabaco e uns quantos animais predadores em vias de extinção, por ter declarado que tinha uns irmãos cá em Portugal e que eram umas prendas para lhes oferecer. Deixámo-lo passar, enternecidos pela honestidade e verificando que, à parte do tigre branco, eram tudo coisas inofensivas e sem maldade alguma. Quando as coisas são explicadas, com fundamento, nada se passa. Agora, se tentam armar-se em espertos… sai-lhes o tiro pela culatra. Vejam bem, 8 irmãos e não dizia nada à gente… é preciso ter lata”.
Foi um dia com motivos jornalísticos interessantes, afinal. Ficou aprazada uma nova visita dos jornalistas lá mais para o Verão, quando as notícias começarem a rarear. As autoridades prometeram fazer o melhor para não desapontar quem lhes pode dar um espaçozito num meio de comunicação social.

domingo, abril 15, 2007

Entulho

Posso bem com as masturbações dos outros. Mas não tolero as minhas masturbações mentais. Por todo o lado, pinceladas amarelas toldam-me o raciocínio. Guardo um orgulho secreto pelo meu entulho. Toneladas de fantasias recauchutadas deixadas ao abandono. Posso bem com as escoriações amorosas que vos são infligidas. Mas não aguento que me remexam no entulho. Não há entulho como o primeiro. As minhas paixões são resíduos facilmente inflamáveis, rastilhos de palha seca e de sangue efervescente incinerando-se em céu aberto. Atingiram-me um nervo que apodrecia por detrás da minha máscara feita de panos sujos e frutos calcinados. Aturo bem as minhocas que proliferam nos vossos corações e que rompem com a vossa carapaça de serapilheira. Mas não suporto que pilhem a escória que tão cuidadosamente armazenei no meu baldio. Recebo a poluição sem explicação. Existe um esgoto que liga directamente as suas bocas aos meus tímpanos. Parece que estou condenado a acomodar os efluentes das vossas almas. Vejo abutres e eles esperam algo de mim. Os espantalhos apertam-me os neurónios. O silêncio ensurdece-me a vista sobre o meu entulho. Filtro o cloro dos meus olhos e entrego-os ao sol. Nem me importa o ultraje da vossa patetice. Não quero saber da vossa felicidade malhada tipo ferro quente. Quero um camião de lixo despejado por cima do meu amor. Quero desfazer-me da réstia de dignidade que me resta em horário nobre. Há que implantar mais gorgulho no meu entulho. Entre farinha e farelo, pretendia ser a mó. Ao invés, esmago-me contra as paredes da conveniência. O status quo espezinha-me em migalhas de subhumanidade. Respiro por um tubo de escape e congrego salitre nos meus olhos. Partículas de fumo químico envolvem o meu horizonte. O filtro já não côa. Coou demais, cedo demais. Agora faz parte do meu entulho. Quero dois pulmões bem sujos para absorver a salubridade dos dejectos que se amontoam em redor. Tenho vontade de me inquinar numa piscina de enxofre aquecido. E depois oferecer-te uma flor. Qualquer uma que me deixe exigir-te algo em contrapartida. Não pensem que o lixo se livra assim, despejando-o no caixote mais perto. A vossa porcaria não me importa, mas a minha nunca passará impune. O meu entulho é um amigo que devo bem tratar e nunca partilhar.

domingo, abril 08, 2007

Dois Frangos Prontos Para Assar

- … e é por isso que te digo: temos muita sorte o dono da churrasqueira ter bigode.
- Tudo isso para dizer que achas que os gajos de bigode são porreiros?
- Não. Nem todos. Estes homens de bigode: com ele comprido, farfalhudo, pêlos brancos aqui e ali; homens maduros de bigode. E olha que não há muitos países onde este tipo de bigode se e
ncontre facilmente; talvez só aqui e na Hungria.
- Já foste à Hungria, por acaso? O que estás para aí a falar?
- Bolas, meu; que falta de cultura geral… já olhaste bem para um húngaro?
- Bem… assim de repente… não estou a ver.
- Pois, eu já desconfiava. Pois olha, estou farto de os ver na televisão… lembras-te do Meszaros? Grande bigode. Certamente que é uma boa pessoa. Olha que os húngaros não têm muito a ver com os outros povos do leste europeu.
- Então?
- Eles até têm uma língua diferente das demais na região; têm parecenças com o finlandês e tudo… dizem que ambas descendem de uma velha tribo bárbara que se subdividiu na sua marcha algures no tempo…
Alguém se aproxima do balcão. Cavaqueira interrompida. Gestos de mão que indicam qualquer coisa. Palavras trocadas. Acenos de cabeça. O dono da churrasqueira volta-se. Chega-se perto do assador. O frango #2 alivia-se.
- Foram as salsichas. Ainda não foi desta.
- Espera, pode ser que o cliente peça mais qualquer coisa.

- Não, só batatas fritas.
- E pão de Mafra.
- Sim, pão de Mafra.

- E tu viste o concurso “Os 100 Maiores Frangos”?
- Então não. Não se falava de outra coisa lá no aviário.
- Velho aviário… Tantas amizades… Que é feito do Tó Pinto?
- Não ficou muito mais tempo a engordar…
- Coitado… bicava milho que era uma coisa parva…
- Mas em quem é que votaste para maior frango de sempre?
- No Ricardo, claro. Um enorme contributo à causa dos frangos. Um nome conhecido em todo o mundo, amigo. Tenho orgulho nele. Ele nunca se vai deixar assar.
- Eu também votei nele. Ainda pensei no Galo de Barcelos…
- Nah. Muito colorido para o meu gosto. Acho que ele já andou a chocar ovos…
- O maricas… o Moretto ficou em primeiro lugar, contudo…
- Concurso da treta…
- Qual é teu clube, afinal?
- O Benfica! Há dúvidas? Qual é o clube das galinhas, afinal?
- Eheh, eu bem me parecia…Que mais poderia ser?
Está perto da hora do almoço. Gente entra. Fala com o dono da churrasqueira. Coça a cabeça. Não tem o que lhe pedem. Cliente indeciso. Olha para os frangos. O miúdo implora-lhe que não. O cliente roda o pescoço. O frango #1 regozija.
- Sai um pedaço de leitão!
- Bem feita. Nunca gostei muito dele. Era um porco. Que encha o estômago daqueles parvos. Vai acabar de uma forma triste.

- Se virmos bem as coisas, também nós estamos destinados a ser merda, mais cedo ou mais tarde.

- Sim, um dia seremos merda, expelida por um intestino qualquer.
- Que seja um bom intestino, ao menos. Um intestino de gente importante, de boa saúde.
- Mas só depois de sermos bolo alimentar.
- E isso só depois de nos assarem.
- E embrulharem-nos em papel celofane.
- Sim, papel celofane.
- Com picante ou sem?
- Não tenho preferência.

- Está fresquinho, não está?
- Estás maluco? É pleno Agosto! Estou a destilar. Se reparares bem, estou em pêlo. E não me queixo.
- Sim, eu também. Mas está um ventinho desagradável, não está?
- Foi o dono que ligou o exaustor. Faz um bocadinho de corrente de ar.
- Isto não faz nada bem à minha pele… já viste como estou pálido?
- Realmente, umas férias faziam-te bem, ires à praia apanhar um sol…

- Ou ir ao solário.
- Ou ir ao solário.
- Tenho ali uma boa oportunidade.
Aparece mais uma pessoa. Olha avidamente para os frangos. Saliva com desejo desbragado. Arregala as sobrancelhas enquanto ordena um franguinho assado para seu próprio deleite estival.

- Olha, lá vou eu.
- Como o tempo voa...
- É assim...
- Boa sorte, rapaz. Depois eu entrego o anel da certificação ao teu filho mais velho.
- Não te esqueças; esse anel já veio do meu bisavô, desde há cinco meses. É muito importante para mim.
- Está descansado.
- Adeus, amigo. Obrigado por tudo.
O frango #2 encaminha-se para o solário. Abraça-se à grelha naquele que será o seu bronzeado para a eternidade.

terça-feira, abril 03, 2007

Na Atmosfera Verde

Tira o casaco. Por favor, não lhe dês lume. Tira-me uma fotografia. Já entretanto passara muito tempo. O charme de um penso higiénico usado. A fraternidade da última fila e do primeiro bocejo. A temperatura está alta para o meu baixo colesterol. Dinheiro e crédito fraudulento. Míopes são os que não querem ver. Estás gorda. Ao menos, disse, não caio aos bocados. Subtil ironia, respondi, mas então onde está a tua cabeça? O comboio apitou, não parou e eu telefonei ao meu colega. Tive uma fase de mau gosto. Arrojara-se ao solo o pugilista. Bochechas vermelhas como sei lá o quê. Depois dá-me pistas. Esbofeteia-te a ti própria, histérica. E a desculpa da música a altos berros não será válida. E o teu deus? Também a ganhar pó no sótão? Se alguém tiver fome é só pedir perdão. Alguns passam… alguns olham… alguns vão… Tenho uma recordação tua. Muito gira. Mas muito merdosa. Parecia que a tua boca tinha sido esburacada com um ferro quente. Sem querer ofender-vos, nós somos transeuntes. A verdade é que não respondi. Dá uma esmola ao cego, mas atira-lhe cuspidelas na bengala. Eu sei, vão realçar o meu pouco escrúpulo. Vão colocar-me uma constituição chinesa à frente para aprender. Diz a essas pessoas que preciso de dormir.

sábado, março 31, 2007

Não Me Enganam Mais

Chega de pasmaceira. Basta de tanta ostentação gratuita. Não vai haver ninguém que me consiga parar. Vou beber o sangue dos heróis e ornamentar-me com as vísceras das vítimas. As minhas medalhas serão as vossas lágrimas petrificadas. Eis a guilhotina da vossa glória. Cheguei eu, a revolução.
Um cheiro a novo levanta-se da fogueira das vossas vaidades. Atiço o lume com os ideais pós-modernos com que me cozinharam, embebidos em álcool e ácido. A puericultura está na rua, a autoridade no esgoto. Não vai haver piedade para com desculpas esfarrapadas. A nova ordem provirá de mim, serei o senhor que vocês espezinharam ontem, mas que serão forçados a servir amanhã. Não tentem agarrar-me quando as luzes da revolta se acenderem e as bombas explodirem com os vossos incautos tímpanos.
Não vai correr mal, eu sei. Pois eu não tenho nada a perder, nem sequer o orgulho. E eles têm o mundo, a vida, o dinheiro, as ideias estúpidas que tentam vender-me embrulhadas em papel reciclado. Só posso estar confiante nos meus projectos despidos e nos meus equipamentos tecnológicos super sofisticados que não servem para nada. Só que eles nem sabem disso. Nem sabem com quem convivem. Vão saber. Vão sofrer. Vão desejar não terem expurgado este pedaço biológico dentro deles. Para a próxima estarão avisados. Se houver próxima vez.

terça-feira, março 20, 2007

Contra a Desmamificação Global

Bons atributos valem muito. Eu refiro-me à mulher de verde do genérico de abertura do “Diz Que É Uma Espécie de Magazine” quando penso em atributos valiosos.
Eu sei que já houve gente que reparou nela, já vi comentários na blogosfera sobre ela. Bom, e quem é ela, nome, idade, profissão? Não faço a mínima ideia; quem sabe de quem estou a falar também não, provavelmente. Apenas posso confirmar que não lhe foi dado o devido destaque nesse genérico – ela fica lá por trás, escondida atrás de outras beldades sixties, descaída para o lado direito do ecrã, abandonada à sua sorte. E digamos que, entre todas as indumentárias que havia por escolher, a ela calhou o trapo mais encolhido que podia. Só pode ter sido má sorte… ou talvez nem tanto.
Pois bem, e sem meias palavras: a menina tem um peito de tal modo saliente que ofusca tudo em redor. Como dois faróis máximos, encandeia o mais incauto voyeur sem piedade. O problema nem deve ser do vestido, vistas bem as coisas: dentro do modelo, até devia ser o maior vestido disponível. Mas ela é maior. Dois volumosos nacos naturalmente inchados (eu acredito que sim) balançam livremente sem soutien ao som do genérico, titubeantes mas nunca derrotados, preenchendo o imaginário masculino sedento de seios valentes e pujantes e testando perigosamente os limites de resistência do tecido verde do vestido dela. As outras bailarinas, sim senhor, bons movimentos, muita desinibição… mas meros refugos quando comparadas com a sinceridade oscilante das mamas (sim, mamas!; calemos os eufemismos!!) da menina de verde vestida, ostracizada no genérico, não fossem os mais puristas arranjar motivos de censura por esta exposição softcore e as restantes bailarinas a roerem-se de inveja, deixadas à indiferença geral.
O verde parece ser um lugar comum nessa menina, loura e prendada, mas da qual não consegui reter muitos mais traços: é fraqueza de espírito, eu sei; mas quem repara na cara ou no sorriso dela, ou mesmo no seu traseiro, quando aquilo que se nos depara são duas formações pneumático-humanas altamente provocadoras e, porque não assumir, demoniacamente tentadoras? Sim, o verde. Ou muito me engano, ou esta menina participa no anúncio que passa hoje em dia na TV relativo a um seguro automóvel por telefone, cuja anterior garota-propaganda era a sobejamente conhecida e insonsa Marta? É ela ou não? Bikini verde? Eu tenho quase a certeza que sim.
Porque os sentimentos foram os mesmos: não consegui ver a cara dela, não vi mais nada à volta, desta vez nem sequer ouvi o que ela tinha para dizer – e certamente que disse algo de extrema relevância, algo de utilidade máxima para quem pense em mudar de seguradora, mas, francamente… quem se importa com isso? Só entrevi o peito dela. O peito da “menina verde”, designação com que eu baptizo este fenómeno meio anónimo e natural da evolução mamária. Também constato que ela arranjou mais um emprego – e não deve ter sido por causa dos dotes de bailarina nem de actriz.
Serve esta menina para lançar uma discussão que tem apoquentado toda a comunidade científica mundial: o que é feito das grandes mamas? Sim, aquela robustez taxativa do peito feminino, sempre a postos para saltar para além dos confins dos decotes mais envergonhados, no Inverno, ou mais explícitos, no Verão? Aqueles inebriantes sacos de leite de base arredondada utilizados com sapiência para iludir machos sonhadores e povoar-lhes os sonhos mais ou menos húmidos, objectos de culto massivo e de adoração dedicada? Aqueles fartos pedaços carnudos que convidam as nossas mãos a revelar-lhes a beleza da sua nudez, a nossa língua a rodear os mamilos protuberantes e apetecivelmente eriçados na nossa direcção, a nossa cabeça a afundar-se como uma bigorna indefesa no fundo dos mares de prazer que ocultam entre eles? Que é feito disso? E, atenção, eu falo de peitos naturais; falar-se de silicone é falar em jogo sujo, trapaça, tramóia, complexo de inferioridade, aberração biológica, choque visual, fast food sexual, etc.. Não há nada pior do que uma mulher artificialmente inflada. Quer dizer, até há coisas piores (tipo guerras e doenças e coisas do género), mas nada satisfaz mais do que um belo e sadio par de mamas ao natural.
Pensem em como podem ajudar a recuperar este conceito de grandiosidade fálica feminina, mas não com muita força, especialmente se estiverem no emprego. Mas pensem. Qual é o conceito de beleza hoje em dia? Magreza. Elegância. Não se pode exceder determinado limite de espessura. E os peitos sofrem com isso. As mulheres procuram contrair e, regra geral, os peitos vão atrás. É ver top-models a prestar mais atenção às calorias, ao cabelo, à roupa e às tatuagens do que ao peito. É ver apresentadoras de televisão a fazer implantes por dá-cá-aquela-palha. É ver nutricionistas a defender produtos que tornam as mulheres palitos sem massa carnuda e a convidar ao desporto intensivo. Já alguém conheceu alguma atleta olímpica fisicamente atraente? É com estes maus exemplos que cerceiam as oportunidades de desenvolvimento dos seios! Urge tomar consciência deste problema e estudar formas de combate à desmamificação global!
Parece só haver três alternativas contemporâneas para o crescimento mamário, nenhuma delas claramente satisfatória: 1 – silicone (já abordado); 2 – engordar (até certo limite, tudo bem, mas receio que muitas vezes os lípidos estagnem por outras partes corporais, ficando os resultados muito aquém do esperado); 3 – engravidar (efeitos de curto prazo ou tendência para engordar no médio prazo). Eu advogo o regresso às raízes: alimentação gordurosamente saudável e natural, muito leite e cálcio e uma crença em não-sei-bem-o-quê-porque-na-realidade-não-sei-mesmo. Para ser tudo em grande, como antigamente. Para um mundo com grandes mamas dos 18 aos 40. Para que as mulheres, adolescentes ou pré-menopáusicas, não tenham vergonha das suas grande mamas. Para que eu consiga ver meninas verdes por todo o lado, dançando com o peito ao léu e sem reservas morais, qualquer música que seja.

segunda-feira, março 19, 2007

Siglas

- Já estão todos?
- Falta apenas o BA, que está a acabar o RFS para o CEO. Ele disse para começarmos sem ele.
- Ah, está bem… e o Valentim Gaspacho?
- O Valentim Gaspacho é o BA…
- Então mas ele não era o AMG da TTT?
- Não, o AMG da TTT fundiu as suas actividades com o CC da DFC de modo a dar o BA… o Valentim ficou com isso tudo.
- Então e o Bráulio Serrinha que estava no DPRH e que estabeleceu o JO para as notas de apoio ao RFS?
- Não sei. Deve estar no TPC.
- Coitado do Bráulio, sempre tão atarefado com as UDs… Bom, vamos ao que interessa… Caros amigos, convoquei-os para esta reunião para vos informar de alguns detalhes finais sobre este projecto importantíssimo para a vida da nossa empresa, o PGAT-7.
- Ena, o PGAT-7! Bem, o que eu já ouvi falar do PGAT-7! Já ouvi dizer que supera, de longe, o outro projecto, o GRD-POC! O GRD-POC não era mau, mas os BSA’s da parte final destruíram todo o potencial de URN que prometia…
- Ó Faria, esse que estás a falar era o HB de 1998… o GRD-POC nem tinha BSAs, só PSO’s…
- Ah, pois, o HB… Peço desculpa, foram muitos dias seguidos a tratar das GPFs…
- Ainda estás com GPFs, Faria? Isto já não era altura para iniciar as NXs para delinear as OTTs de Julho?
- Para já não, Gonçalves. Isso é só quando o EML libertar as DIs para completar o REC… isso é só em Maio.
- Importam-se que continue a apresentação do PGAT-7 ou vocês preferem assinar uma OEF?
- Não, chefe, uma OEF não! Nós calamo-nos!
- Então, em linhas gerais, e como deverá ser do vosso conhecimento, o PGAT-7 pega nas DUs fundamentais do projecto CAP-10 e introduz, de forma resoluta, novas variáveis KC ao PLIM delineado por alturas do GROTC de 2004. De forma simples, este PGAT-7 vai estabelecer as DFEs que os nossos UCVs irão adoptar para que os OFCF da nossa empresa atinjam os níveis preconizados no PDS passado e romper definitivamente com o esforço falhado do PQUAB, conforme atestado pelo RBB da KWY. Ah, e existe um PFGE atribuído a todos os ODMGF da FPE, que estará disponível para consulta na INTN, a partir do momento de fecho de todos os MEPGAS pendentes, e que serão, segundo as minhas contas, ainda uns oito. Dúvidas?
- Qual é o lugar das LON no PGAT-7? Estão contempladas no AQTO?
- Não, Narciso, as LON desapareceram no âmbito do PISSP apresentado na RGPAOA de Dezembro…
- Expliquei-me mal, chefe… eu queria era questionar as LOD, das LON já estou inteirado…
- As LOD… mas o que é que as LOD são para aqui chamadas, Narciso?
- Ó chefe, o ponto que o Narciso levanta é importante… Então, como é que nós, na DIC, sabemos depois se as EMEs do CIB entraram ou não no cálculo do RLA aplicável ao UUEV do TNN? Só acedendo às LOD… não estou a ver outro modo…
- Pois é, Ferreira Pinto, eu referi essas relações na reunião do GTPAC, na qual você esteve presente na qualidade de CSPCQNI, e preferiu-se avançar para um modelo em que as LON seriam substituídas progressivamente por LONNM, ou por TAAN, se os CMEAF se mantiverem em vigor até ao início dos STLTs, sem que você contestasse os impactos na DIC…
- Mas, chefe, naquela altura, nem sabíamos quais os resultados do GAN/UE…
- Lamento, Ferreira Pinto, o PGAT-7 vai aprofundar as matérias que o SIN-90-XI já fazia eco, mas sem se deter com LONs nem BITFUs… e esta é para você, Trindade Lemos.
- Bolas, chefe… já não bastava meterem-me com os IOZs em cima, agora tenho-me de aguentar às DFEs e tudo o que seja ETPs…
- Mais alguma dúvida?
- …
- Pronto. Convoco então uma nova reunião para o início do mês seguinte, cuja ordem de trabalhos será avaliar a implementação do sistema TREWASBN_LLE junto das áreas FDE, BGT, OUC e CRAL. E é bom que esse relatório chegue a tempo da RRL do CAE, Faria. Senão, temos mais POOD em cima.
- Está bem, chefe. Eu desta vez utilizo o TAKS-4 em vez do CMU-202.
- Muito bem. Agora, todos para o PRTE, antes que venha aqui a ASPCII e nos veja a CG em cima da DEJE.

quarta-feira, março 14, 2007

Chico Morno

Recordo-me do momento em que Chico deu mais nas vistas. Não naquela semana ou naquele ano, mas em toda a sua vida. Preparávamo-nos para uma entrevista de emprego. Naqueles minutos ansiosos que precedem a entrada na sala para uma reunião de grupo, aquele preceito americanizado decalcado de uma vulgar terapia (não de alcoólicos anónimos, mas de futuros quadros empresariais anónimos), houve alguém que perguntou, como forma nervosa para quebrar o gelo:
- Qual é a vossa opinião para o jogo de logo à noite?
- Vai dar empate! – atalhou um engravatado cheio de gel.
- Não, não! Nós vamos ganhar! 2-0, sem espinhas! – contrastou um robusto e distinto homem, já em jeito de preparação para a entrevista.
- Ai, que os homens só pensam em futebol… Que importância é que isso tem? – desmoralizou a senhora do decote, que bem podia destroçar facilmente as ambições de emprego de qualquer outro, fosse o entrevistador um homem adepto de pornografia barata. Mas Chico calou todos:
- Mas… nós temos opiniões?
Chico não mais abriu a boca, nem fora nem dentro da sala. Não ficou com o emprego.


Como Chico chegara àquele preâmbulo já era um mistério por si só. Chico, vim a saber, era o cúmulo da vulgaridade. Quando abriu a boca daquela vez, tinha sido, provavelmente, a altura em que mais de 3 pessoas se concentraram nele.
Chico nascera por acaso, após uma festa casual cujos pais nem deviam ter ido. O pai fugira quando soube a mãe grávida, regressou passados poucos meses, arrependido. A mãe lá lhe pariu, sem muita dor, mas também sem muita alegria. É capaz de ter provado do mamilo dela na sua infância, só que mais comuns foram as vezes em que bebera leite em pó dum biberon rasco já utilizado com a irmã mais velha. Não que a família fosse muito pobre; não era – mas não se podia dizer que fosse abastada. Cresceu numa terra que está no mapa, sim senhor, mas à qual ninguém presta muita atenção. Não era uma vila pequena, mas também não era assim tão grande para que fosse uma cidade. Não estava bem ao norte nem bem ao sul e era demasiado descentralizada para que se considerasse no centro. O clube de futebol equipava-se de cinzento, nunca tinha estado no topo e raramente tinha descido às distritais. Também nunca jogara com um grande. Chico inscreveu-se para jogar nos infantis. Não tinha mau toque de bola, mas estava longe de ser um craque. Desenvolveu uma fugaz carreira entre lateral-direito e trinco, actuando esporadicamente como guarda-redes. Sempre como suplente. Aquecia durante um jogo por 45 minutos até o treinador se esquecer dele e a equipa recolher aos balneários. Chico ia atrás. Quando Chico deixou de comparecer aos treinos, ninguém deu por isso – apenas deram pelo acréscimo de mais um colete de treino, que foi utilizado por quem lhe seguiu.
Na escola, Chico obtinha notas médias. Não era genial. Não era completamente parvo. Movimentava-se com facilidade entre os 40 e os 60%. Chumbava a uma ou outra disciplina, excedia-se numa ou noutra, mas sempre sem louvores nem reprimendas especiais. Repetiu um ou dois anos. Levava cacetada no recreio de vez em quando, mas não era o alvo preferencial. Parecia apanhar calduços por acréscimo. Não fez grandes amigos. Também não gerou grandes inimizades. Não teve namoradas, mas as raparigas também não gozavam muito com ele. Nas fotografias de turma não se incluía em nenhum grupo: colocava-se a jeito para a foto, nem muito atrás, porque não era assim tão espadaúdo; nem muito à frente, porque não era anão. No meio ficavam as raparigas, ele lá arranjava um espaço. Não participava em trabalhos extra-curriculares, não se sentia com vontade nem direito de participar, muito menos lhe pediam qualquer coisa que fosse. Não lhe conferiam responsabilidades nem ele assumia nenhuma.
Chico nem sequer tinha um nome diferente. Chicos há muitos. Não tinha um aspecto visual vistoso, possuía olhos e cabelos castanhos, uma cara e uma estrutura medianamente mediterrânica. Chico comungava de uma timidez plácida, não muito exacerbada, mas sem nunca raiar os limites da pequena irreverência. Passava amiúde despercebido. Gostava de futebol, mas não era fanático; não apreciava política, sem ser indiferente nem contestatário. Só por uma vez participou numa manifestação, que foi violentamente reprimida – mas não apanhou com os cacetetes nem com os jactos de água, nem sequer fugiu a sete pés: os polícias correram por ele e ele assistiu a tudo. Gostava de programas de matiné ao fim-de-semana. Por vezes, frequentava a assistência, mas as câmaras nunca lhe captaram a cara, preferiam focar as velhotas esganiçadas e os deficientes motores da primeira linha. E só por uma vez esteve próximo da tragédia, quando decidiu apanhar um avião para o Brasil. O avião que esteve para apanhar despenhou-se, mas Chico ficara em terra, devido a atraso seu. A televisão preferiu mostrar o cão esquecido por um dos desaparecidos no desastre numa jaula perdida no aeroporto. Chico desistiu do Brasil, voltou para casa num transporte público e não arranjou lugar sentado.
Chico é aquela pessoa que está atrás de nós na fila de supermercado, à nossa frente num engarrafamento de trânsito, ao nosso lado num concerto. Simpatizei com Chico naquela entrevista, com aquela resposta atabalhoada própria de quem desconhecia os prazeres duma personalidade vincada. Ele faz do anonimato uma profissão de fé, embora talvez não o assuma. Ele é o anonimato. Nada mais, nada menos. Uma comida nem salgada nem doce, nem quente nem fria. Para mim, ele é o Chico Morno.
Porque falo dele? Não por ter morrido, não por ter feito nada especial. Apenas faltou-me um jornal enquanto estava na casa-de-banho. É pena, Chico, lembrar-me de ti só nestas ocasiões. Fica sabendo, porém, que tens o meu respeito, se souberes o que isso é. Devo ter sido o único a prestar-te esta homenagem.

quarta-feira, março 07, 2007

Exposição de Gráficos

O mundo da cultura ficou embasbacado. Compreende-se. Foi uma iniciativa sem paralelo – a combinação do programa Microsoft ™ Excel ™ (daqui para frente designado como “ME”, só para evitar ter que recorrer constantemente ao símbolo ™, pois é uma chatice) com a arte é deveras inovador e demonstra, de forma cabal, que existem profundas preocupações estético-estilísticas sempre presentes em qualquer analista de dados de qualquer boa companhia de seguros ou corretora bolsista da nossa praça.
A iniciativa de que se fala foi a I Gala Internacional de Exibições de Gráficos do ME, levada a cabo, numa 1ª fase, no Grande Auditório da CGD (1ª semana de Fevereiro), depois transferida para o CCB (2ª semana de Fevereiro e fins-de-semana subsequentes), posteriormente deslocada para a Fundação de Serralves (2ª semana e meia até à 4ª semana de Fevereiro), tendo tido o seu final previsto no caixote do lixo do bar da estação ferroviária Coimbra B (último dia de Fevereiro e dias seguintes, se a recolha de lixo entretanto se atrasou). Contando com o apoio da própria Microsoft ™ (não consegui evitar mais este ™), de proeminentes críticos de arte internacionais e de diversos analistas, esta Gala reuniu várias obras (em rigor, foram quatro ou cinco, se for incluído o índice alfabético dos participantes colocado na porta de acesso à exposição) provenientes de autores, na sua maioria, desconhecidos pelo grande público e mesmo pelos respectivos chefes das empresas onde trabalham, que suspeitavam, mas não acreditavam, que os seus funcionários não ficavam até altas horas da noite no seu posto apenas para trabalhar em prol da empresa.

“Foi uma surpresa, reconheço”, admitiu Gervásio Mangueira, um ingénuo director-geral de uma PME da zona de Leiria. “O Malaquias sempre foi uma pessoa reservada e pensei que ficasse em frente ao computador apenas para não ter que ouvir a mulher dele lá em casa a queixar-se da sua sinusite. Afinal, foi pela arte”, deduziu o Dr. Mangueira, em sinal de empatia para com o seu notável funcionário. É que Malaquias conduziu Portugal ao 3º lugar da exposição com este excelente gráfico sobre a cotação do Brent, o famoso índice petrolífero. Os críticos foram unânimes na definição dos pontos fortes deste gráfico: simplicidade, não-legendagem e a curva solitária vermelha numa progressão ascendente sobre fundo branco. Um trabalho semi-anarquista, uma ode ao grafismo alternativo e uma ruptura com o neo-classicismo vigente nas consultoras actuais. O holandês Jan Vanderhaeghe, excelso crítico de arte gráfica do ME da escola flamenga, foi mais longe e afirmou que Malaquias “devolveu o ME às massas” e que este gráfico constitui, pelo seu desprendimento visual, “um sinal claro que os gráficos em linha voltaram ao patamar cimeiro do ME de uma forma estrondosamente forte e clara, suplantando a filosofia estática dos pie charts”. Apesar de tudo, outros críticos não foram tão eloquentes para com a poupança de recursos demonstrada por Malaquias, preferindo realçar a forma “cruel, e, ao mesmo tempo, algo preguiçosa” como o índice de Brent foi representado por Malaquias. O dinamarquês Kurt Svengaard, duma empresa de bolachas de Aalborg, foi o mais acérrimo crítico do trabalho do português, contribuindo para que Malaquias não passasse do 3º lugar. “Esta originalidade conduz a poucos efeitos práticos. Por exemplo, não está claro quais os anos a que se refere o gráfico do índice de Brent. Nem tão pouco se o barril de petróleo está cotado em dólares, como é comum. Não é um gráfico perceptível a quem não esteja familiarizado com os mercados de matérias-primas.”
A medalha de prata ficou reservada para Maurice Lefèvre-Alves, casado com um neto de emigrante português radicado em Lausanne, Suíça, com um portentoso gráfico ME ainda no mesmo estilo do anterior, mas mais elaborado. O cuidado de incluir Portugal, desprezando a “sua” Suíça, não só demonstra o grau de sofisticação inerente ao próprio impacto visual da obra-gráfico, mas também à preparação que esteve por detrás da sua elaboração propositadamente para esta Gala.

“Remete muito para o impressionismo proto-resultadista”, comentou um membro do júri, o francês Cédric Laspalles, contabilista em Le Havre, francamente deliciado com o gráfico que ilustra o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor em diversos locais, desde o Portugal anfitrião até à Europa dos 27, EUA e Japão, num quase arco-íris repleto de espontaneidade criativa e dolência burocrática. “De facto, é harmoniosa a lata de Maurice, ao engraxar desta forma veemente o país onde se desenrola esta Gala… Parece quase um gráfico português dos finais do século XX, que bebe as mesmas influências de irregularidade e continuidade do gráfico de Malaquias. Foi mesmo feito para agradar ao público da casa. Quase que ganhava só por isso. Ainda assim, um soberbo gráfico, muito completo. Admiro particularmente as barras que ilustram a diferença entre a Zona Euro e Portugal; dão outro colorido e acrescentam uma nova dimensão de análise ao gráfico; o contraste entre o positivo e o negativo torna-se evidente”. Já o australiano Bruce Schwaddabadenbeck, ou apenas “Becky”, revelou dúvidas: “O BCE já conheceu melhores momentos, não devia ser a principal fonte de informação para este gráfico… Mas pronto, o Eurostat compensa essa falta de rigor”. Apesar de tudo, “Becky” atribuiu uma boa classificação ao gráfico: “É um bom gráfico sobre um tema pertinente que sempre intrigou todos os bons open-spaces onde se tratam indicadores estatístico-financeiros”. O 1º lugar foi para o misterioso gráfico de Iñaki Urrutia, um basco que não quis prestar declarações. Introduzindo cor de fundo, linhas e barras coloridas, dois eixos das ordenadas, cada um com a sua escala, e um eixo das abcissas que possivelmente representa os meses do ano, o gráfico de Iñaki foi considerado o mais arrojado da Gala. Isso mesmo atesta o único português do júri, Higino Outeiro: “Não há dúvidas: foram utilizadas muitas técnicas do ME, o grafista basco perdeu mais de 15 minutos para completar este gráfico… é uma antítese à naturalidade romântica dos restantes gráficos em exposição, inserido dentro do panorama do expressionismo yuppie de Nova Iorque”. O mistério em torno do gráfico, sobre o que ele realmente representa, parece ter fascinado o público, bem como o próprio júri. O americano Todd Valiens não conseguiu explicar: “Pode ser a produção dual dentro duma linha de montagem combinada com as vendas ou o comércio entre dois países combinado com a pluviosidade mensal… o que torna excitante este gráfico é exactamente isto, o facto de ser deixada ao apreciador do gráfico a escolha do tema”. Esta falta de objectividade não podia ser penalizante para a classificação deste gráfico? Valiens acha que não: “Interessa-me, enquanto júri, o impacto que o gráfico pode gerar junto dos fãs de gráficos e não o seu significado intrínseco. E este gráfico gera emoções que não são reproduzíveis nos gráficos que usualmente são publicados no Financial Times, por exemplo.”Uma menção honrosa coube a este estranho gráfico que chegou às mãos da Comissão Administrativa da Gala. O catalão Josep Bordi explicou. “Foi uma rapariga chamada Paloma que nos enviou este gráfico, dizendo-nos que o pai gostaria de estar presente nesta Gala com uma obra sua, mas que, infelizmente, não sobreviveu o tempo suficiente. Nós aceitámos a sua participação por simpatia, embora este gráfico não tenha muita qualidade”. Higino Outeiro parecia mesmo incomodado com o gráfico em questão: “Isto não é nada, não tem ordenação nenhuma, não há números nem evoluções que se consigam discernir. Parecem gatafunhos pré-escolares!”. O mesmo Higino previu um futuro pouco brilhante para o autor: “Talvez tenha algum sucesso junto de certas tendências surrealistico-analíticas, mas terá de evoluir muito para ser reconhecido nos bons gabinetes”.
A Gala foi um sucesso e a Microsoft ™ (cá está o ™ outra vez…) mostrou-se agradada com a publicidade positiva que gerou com o evento: cerca de 23 pessoas compareceram, 2 delas enganadas. Um sucesso, portanto. Um responsável da organização referiu que planeia repetir o evento no próximo ano, contando que surjam “mais e maiores gráficos”. O sonho deste responsável é receber “um gráfico com conezinhos vermelhos a ilustrar o número de vacinas ministradas na região demarcada do Douro desde 1980”.

quinta-feira, março 01, 2007

Os Anos 80 Já Acabaram

Maria de Lourdes apontou na sua lista de supermercado, a seguir ao feijão frade e antes do pão ralado: “1 lata de laca”. As suas filhas protestaram. Não por se ter incluído um produto químico entre dois produtos alimentares, quebrando o seguimento lógico do rol. Nada disso.
- Mãe, já ninguém usa laca…
Pois é, Maria de Lourdes. Os anos 80 já acabaram.
Nostalgia das nostalgias. Saudade das saudades. “Será mesmo possível?”, interrogou-se Maria de Lourdes para si própria. Sim, Maria de Lourdes, é possível uma vida sem laca no século XXI. É corriqueiro esquecermo-nos que esse complemento capilar existiu hoje em dia. Um abalo súbito percorreu toda a volumosa cabeleira de Maria de Lourdes, já estafada de tanta permanente e mise.
O que era estranho para Maria de Lourdes era o facto de ela não conseguir discernir o mundo em evolução à sua volta – para ela, a moda atingiu o zénite lá por 1986 e a partir daí desapareceu. A moda soçobrara com um clique, uma vez atingido o cume do bom-gosto. Esfumara-se. Desintegrara-se. O conceito morrera. Era como o “fim da história” de Marx, com concretização real e indolor. Apenas Maria de Lourdes parecia ter estado atenta.
Assim se tinha deixado cristalizar: latas e latas de laca despejadas furiosamente por cima do seu cabelo a atirar para o louro; unhas das mãos e dos pés pintadas com um verniz encarnado-vivo, orgulhosamente exibidas a par dos lábios matizados no mesmo tom; olhos cercados por um tom verde seco que às vezes podia ser azul-marinho; e, acima de tudo, uma forma de vestir macabramente kitsch, combinando cores inusuais com padrões indizíveis e feitios semi-circenses.
A única suspeita de Maria de Lourdes tinha sido em relação à roupa: já tinha de certa forma acomodado a escassez de camisas verdes com motivos que recordavam as savanas de África e os vestidos folheados de inspirações colegiais em cor-de-rosa com florzinhas lilazes a salpicar, entre outras peças do mesmo género – vivaças, extrovertidas, a roçar o apalhaçado. Uma vez por outra, lá dava de caras com saias azuis celeste com botões castanhos impregnadas com um cheiro a mofo numa caixa abandonada nos confins de uma megastore. Sentia-se particularmente bem com o preço de saldo das peças, mas ao mesmo tempo uma sensação de desconforto por ver aquele vestuário tão alegre e bem-disposto arredado das montras, dos expositores e mesmo daquele espaço onde se amontoavam peças com ligeiros defeitos a 1€. Noutros tempos, era relativamente fácil.
O cabelo era como uma imagem de marca: volumoso, comprido, encaracolado, ondulado, ruivo ou louro… tinha de ser vistoso e indefectível perante o vento. Que belas cabeleiras se viam para aí. Mesmo a Margaret Thatcher, do alto da sua imponência de ferro, se aprumava caprichosamente defronte do espelho todos os dias, religiosamente, para que nem um fio se soltasse. Sim, porque o estilo era vital para a satisfação de uma pessoa. E a laca o produto miraculoso para chegar à redenção. O gel é somente um substituto distante e ineficaz.
Mesmo os homens tinham outro charme: fatos-de-treino de marcas sombrias preenchiam o imaginário popular, fartos bigodes para estilos rústicos, mullets no cabelo para os mais modernos e ainda os caracóis para os ousados da nossa praça. Depois, fatos formais de todas as cores comportáveis numa paleta, reforçados com volumosos chumaços para confortar os ombros. Havia alegria e um sentimento de liberdade total na moda; não existia qualquer restrição nas combinações, nas invenções, nas provocações; e entre o vídeo “Wake Me Up Before You Go-Go” dos Wham! e a apresentação do Clube Amigos Disney pelo Júlio Isidro era muito difícil escolher – Maria de Lourdes ia, contudo, pelos Wham!, porque todo o seu imaginário adolescente ainda se revolvia em torno do George Michael.
- Mãe, o George Michael é gay. Ele está a borrifar-se para mulheres.
Como? Ainda iriam dizer a Maria de Lourdes que o Michael Jackson é branco, não? Bolas. Deve ter surgido outra corrente na moda, entretanto. Como fora possível deitar abaixo toda uma conquista cultural de uma geração? Como fora possível rejeitar os conceitos de despreocupação e extravagância que polvilharam aquela parcela importante da sua vida, desde o “Playback” de Carlos Paião ao “Conquistador” dos Da Vinci? O que é feito dos Da Vinci, por falar neles, que tão bem imitavam os Eurythmics? E os Renaults 5 vermelhos com autocolantes do “Correio da Manhã” estampados atrás avisando “BEBÉ A BORDO”? E o “1,2,3” com o Carlos Cruz? Um grande apresentador com óculos bem à sua medida…
- Mãe, o Carlos Cruz? O mesmo da Casa Pia?
Maria de Lourdes interrompeu a conversa. Não vale a pena. Se existe choque de gerações, que seja um choque cheio de força, vamos assumir o desnível. Maria de Lourdes sentia-se bem consigo, iria lutar pelas suas convicções. Os outros que se deleitassem nesse mau gosto de cabelos curtinhos, barbas aparadas, roupas Dior e fatos Boss. Um dia, julgava, arrepender-se-iam de terem profanado a cultura do passado e de a terem subvertido em nome da simples ruptura com a geração antecedente. Iriam pagar caro pela ousadia e Marco Paulo e David Hasselhoff voltariam em beleza, pujantes e icónicos, um com o microfone e o outro com um carro inteligente e falador a debitar palavras mecânicas sobre uma banda-sonora composta por sintetizadores.
Mas a verdade nua e crua é que é mesmo difícil obter laca para o cabelo. Talvez numa loja chinesa, de qualidade duvidosa… Maria de Lourdes solucionou:
- A laca deixem-na comigo; tragam um Denim para o vosso pai em substituição.