quarta-feira, maio 23, 2007

O Elixir do Tiroteio Despropositado

- Prof. N’Gonka, está aqui um paciente para atender. A cara dele não me é estranha.
O Prof. N’Gonka afasta uns quantos amuletos da sua mesa, incluindo um papagaio malawiano empalhado, disponibilizando assim espaço para apoiar os cotovelos, e abre a cortina de veludo escuro, deixando a luminosidade penetrar e iluminar o seu pequeno escritório numa zona degradada de baixas rendas em Lisboa.
- Manda o paciente entrar, Kabumba.
O paciente entra, cumprimenta o Prof. N’Gonka, que retribui delicadamente, quase sem emitir um som. Identifica-se como sendo Raimundo Retrovisor, o tal que atraía todas as maleitas possíveis.
- Não se lembra de mim, Professor? – questionou Raimundo.
- Sabe, eu comunico com várias pessoas por dia… - respondeu, vagarosamente, N’Gonka – É você o Sr. do mau-olhado lançado pela vizinha do lado?
- Oh!, se tivesse sido só isso, Professor!... No último ano, foi mau-olhado, desgostos amorosos, despedimentos, várias doenças crónicas e agudas do foro hepático, sanguíneo, nervoso, cardiovascular, pulmonar e gástrico, falta de auto-estima, problemas monetários, depressões ocasionais, macumba, vudu, cegueira, surdez, mudez, mau hálito, infertilidade, impotência, vários pneus furados por dia, obesidade mórbida, falta de fé num deus qualquer, sisudez, mongolismo, autismo, baixa responsabilidade cívica, libertação de gases em momentos inconvenientes, violações, raptos, contagem de anedotas sem graça, negação da personalidade jurídica, paludismo, escorbuto, vítima de ataques de animais supostamente dóceis, diabetes, alergia ao esparguete e à morcela, fortes odores corporais, gravação de sons obscenos em festas de aniversário de crianças desconhecidas, alcoolismo, toxicodependência, lepra, tremeliques em plataformas ferroviárias, sinusite, extrema transpiração nas axilas em pleno Inverno, esquizofrenia, personalidade bipolar, caspa, utilização imprópria de lavabos públicos, bulimia, acessos momentâneos de pedofilia nos feriados municipais, menstruação desregulada e fortes reacções cutâneas ao vinagre. O Professor curou-me de tudo! Não se lembra de mim?
- Ah, sim, claro! – iluminou-se N’Gonka – O meu úni… er, o meu melhor cliente! Como vai, Sr. Raimundo? Está melhor da constipação?
- Sim, Prof. N’Gonka. Graças às gotas óleo de rim de aborígene australiano e a duas caixas inúteis de antibiótico, consegui melhorar. Agora tenho um problema bem maior, Professor. Algo que me tem atormentado nos últimos tempos… para aí desde as 9:30 de hoje – e Raimundo, abatido, passa pelo mão no cabelo, tenuemente desesperado, expirando bofes de desagrado.
N’Gonka, algo admirado, reclina-se na cadeira forrada a pele de leopardo, junta as mãos e assume uma postura de ouvinte atento.
- Ora diga lá então o que a medicina alternativa deste humilde Professor doutorado na Universidade de Ciências Ocultas de Monróvia com aproveitamento máximo e inigualável por mais alguém pode fazer por si, Sr. Raimundo…
- Sabe, Professor… a vida tem estado muito fácil para mim. Eu quero que o Professor me arranje um mal qualquer. Um mal que não consiga sarar facilmente.
- Como? – espanta-se N’Gonka.
- Eu sinto a falta dos meus queixumes. Hoje em dia obtenho mulheres com um estalar dos dedos. Acordei como o homem mais rico do mundo por não ter feito nada. Toda a gente é amiga e compreensiva para comigo, tenho filhos inteligentes e amorosos, descobri várias fórmulas científicas que atrapalhavam os grandes cérebros mundiais a ver uma competição de pólo aquático, salvei personalidades importantíssimas da morte certa sem sequer reparar, não invejo ninguém, não tenho medo de nada, possuo uma saúde de ferro que serve de referência a toda a classe médica, cresceram-me os dois dentes da frente que tinha partido há 10 anos, fui designado o “Português do Século” sem nunca ter entrado na votação… não tenho nada para me queixar.
- Sr. Retrovisor, peço desculpa, está aqui um indivíduo a querer oferecer-lhe um avião e a sua voluptuosa filha de 19 anos por o Sr. ter segurado a porta de entrada do prédio para ele… devo deixá-lo entrar? – interrompe Kabumba.
- Não, obrigado… Diga que eu depois lhe telefono… Está a ver, Professor? Eu não fiz nada para ser tão bom, eu quero voltar a sentir algum insucesso outra vez… - comentou Raimundo, abatido pela sua sorte estupidamente imbatível.
- Estou a ver… Mas, como sabe, a minha especialidade é curar e reabilitar as pessoas… eu exorcizo o mal, afugento-o… não consigo atraí-lo – adverte N’Gonka, ajustando a sua camisa multicolorida.
- Professor! O Professor consegue! Você é um grande especialista! Curou-me de tudo e mais alguma coisa! Quem percebe tanto destes desígnios humanos, deve, com certeza, saber inverter os procedimentos de forma a causar mal… - implora Raimundo, segurando nas mão de N’Gonka. Este, incomodado, levanta-se da cadeira e põe-se a pensar.
- Sr. Raimundo, devo avisá-lo que esta situação não é normal… Tem a certeza que quer ter problemas?
- Sim, Professor! Eu não sou normal! Estou à procura de preocupações, desatinos e aflição! Por favor, faça-me algo mau! Torne-me feio! Tire-me a vontade de viver! Eu já não aguento ser tão bom e adorado!
- Hmm… deixe-me pensar – e N’Gonka afasta-se, esconde-se por detrás de uma cortina decorada com penas de pavão.

Detrás da cortina, a salvo dos olhares de Raimundo, sussurra para o seu assistente Kabumba:
- Estou tramado. Acho que fiz um trabalho bom demais com o tipo… e agora, Kabumba? Não devia estar aqui para o mal… quer dizer, também não devia estar para o bem, só devia dançar como um maluco, falar monossílabos desprovidos de sentido, vender chás baratos como poções milagrosas e artefactos de madeira rasca como ídolos sagrados… Mas não posso desapontar o cliente, senão ficamos sem sustento para a renda e voltamos para as obras…
- É lixado, Professor – anui Kabumba – Temos de inventar um novo mal para o gajo. Já o metemos como sócio do Benfica?
- O gajo está tão bem na vida que já nem liga a futebol, vê lá…
- Hmm… e se lhe colocarmos um papão à noite no quarto?
- Qual papão, Kabumba?
- Sei lá. Olha, o Zé Tikotiko, que é grande como o caraças…
- Ó Kabumba, o Zé Tikotiko a partir das seis da tarde está a cair de bêbado, quer lá ir fazer de papão a casa de um maluco qualquer…
- Então temos de lhe criar uma doença qualquer, alguma coisa séria…
- Mas o quê? O gajo já teve de tudo! Depois de ficar doente, volta cá e eu curo-o, como já o curei!
- Tudo, tudo, Professor? Ele já teve raiva, piolhos e febre aftosa?
- Já! E já experimentou a morte súbita dos bebés que dormem de barriga para baixo… e ressuscitou! Não sei, Kabumba… - constata N’Gonka, inquieto por estar em vias de perder o seu cliente.
- Eh, pá, estes gajos só mesmo com um tiro na cabeça, de tão parvos que são!…
- É isso, Kabumba! – exalta um entusiasmado Professor – O tipo ainda não foi psicopata assassino! Temos de torná-lo num psicopata!
- Boa! Mas como?

- Ó Kabumba, não sejas parvo também! – zanga-se N’Gonka – Só temos é que fazê-lo acreditar que se vai tornar num psicopata! Ao fim de algum tempo ele descobre que não é e volta cá para arranjarmos qualquer coisa mais! Entretanto, vamos pensando noutro mal qualquer. Está bem?
- Excelente, Professor! E como vamos enganá-lo?
- Enche aí esse frasco com água e coloca uns corantes e umas folhas de louro lá para dentro – vai ser “O Elixir do Tiroteio Despropositado”. Que tal?
- Muito bem, Professor! – deleita-se Kabumba, orgulhoso por fazer parte daquela trama sinistra – O Professor é uma máquina!

- Sr. Raimundo – diz, grave, o Professor, aproximando-se – isto de fazer o mal não é eticamente correcto no seio da Classe dos Grandes Mestres Curandeiros… mas, excepcionalmente, vou entregar-lhe este portentoso e obscuro elixir… o infame “Elixir do Tiroteio Despropositado”, receita secreta de tribo senegalesa… irá torná-lo num psicopata assassino, capaz de matar cirurgicamente personalidades públicas…
- Isso é óptimo! Grande ideia! – empolga-se Raimundo – Já me estou a ver todo preocupado a fugir da polícia e a esconder-me! Mas, já agora, o que seria mesmo bom era ser um genocida! Se é para me preocupar, quero preocupar-me a sério! Matar gente à grande!
- Genocida, hã? Também se arranja… Kabumba, anda cá – Kabumba chega e o Professor ordena – Reforça o elixir, se fazes favor.
- Como?
- Põe mais corante nisso – sibila ao ouvido o Professor.
Kabumba mistura mais corante à solução atrás da cortina, adiciona-lhe uma pitada de açafrão pelo sim pelo não, fazendo o elixir adquirir uma tonalidade amarela viva. Entrega o frasco a N’Gonka e este, solene, entrega-o a Raimundo.
- Cá está, Sr. Raimundo. O senhor será um futuro genocida de renome. É só tomar um colher de sopa todos os dias antes e depois das refeições, virado para oeste e sem nenhuma galinha branca por perto.
- Professor, o Sr. é fantástico! Resolve tudo! Muito obrigado! – saúda um agradecido Raimundo – Quanto lhe devo?
- Ora, 500 euros pelo aconselhamento, 175 euros pela taxa de assento no meu consultório, 76,4 euros pelo tempo, 42,32 euros pela chatice, 75 cêntimos pelo valioso elixir… são 1500 euros, por favor.
- Tome – providencia Raimundo, sem discutir – Você merece, Professor, você merece! Preocupações, venham elas!

N’Gonka e Kabumba fazem agora contas à vida. O negócio prospera. N’Gonka quase que nem acredita na ingenuidade de Raimundo. Mas aconteceu. O pequeno escritório torna-se grande na alegria.
- Sabes, Kabumba – confidencia N’Gonka – acho que vou ver um professor a sério, o Mestre Abdul Kabidelah. Acho que ele consegue saber até que ponto eu sou um grande professor. Já reparaste? Pelos vistos, curei mesmo o gajo de tudo! Quais são as hipóteses de tudo ter acontecido apenas por sorte?
- O Professor tem mesmo poderes, acredite – tranquiliza Kabumba – o Mestre Abdul Kabidelah só o irá confirmar.
- Vamos ver, vamos ver. Até logo, Kabumba. Vai pensando numas doenças esquisitas, entretanto.
Quando N’Gonka sai do consultório, encaminha-se para as escadas. No fim do primeiro lanço de escadas, encontra Raimundo parado à sua espera, perturbado, olhar furioso nos seus olhos, dentes cerrados e lábios secos, de arma na mão.
- Sr. Raimundo, então ainda por aqui? – cumprimenta, afável, N’Gonka.
- Pensavas que escapavas desta, não, macaco? MORRAM, PRETOS!!!!!!!
Com seis disparos à queima-roupa, Raimundo fulmina N’Gonka, que cai perfurado no chão de madeira, formando uma piscina de sangue. Raimundo não exibe remorsos alguns, larga uma sonora gargalhada e dá mostras de pretender prosseguir com o rasto da morte pelos subúrbios da capital. Raimundo tornara-se um genocida primário, apenas com uma colher de sopa do Elixir do Tiroteio Depropositado. Fabuloso.
N’Gonka morreu. Porém, morreu honrado, satisfazendo todas as necessidades dos seus clientes, transformando enfermos em heróis e heróis em genocidas. Mesmo que não tivesse sido esse o objectivo.

terça-feira, maio 22, 2007

Lambedor de Janelas

Procuro carne. Carne da boa. Sem aditivos transgénicos mcdonaldescos. Só preciso do corpo, o resto deito fora.
Não preciso das caras. São todas iguais.
Não preciso das almas. Foram todas vendidas ao diabo.
Necessito um loop permanente dentro do teu sexo. Sem pretensões intelectuais, a minha única filosofia é usar, gastar e abandonar. Rápido e sem rodeios.
Não me importo de ser usado para os mesmos fins. Eu já não me importo com nada que seja importante.
Não me incomodo com falsas reservas morais. Perdi a moralidade há vários desgostos atrás.
Há quem me considere parasita da sociedade, vil amostra da corrupção de valores tão afecta ao quotidiano urbano-decadente. Eu não sei se sou. Talvez seja. E se for, isso implica a perda do meu prazer? Não? Então não vale a pena aborrecerem-me.
Esquece-te das caras e dos corações, são apenas acessórios. Aproveita o teu hedonismo como uma bênção da sociedade contemporânea. Dança com os ruídos mecânicos das tuas hormonas, mesmo que ninguém te tenha ensinado a dançar. A dança é apenas um movimento insano. Dança sob o brilho de um sol fumarento em lenta combustão.
Não permitas que os teus acessórios se tornem indispensáveis neste mundo realmente virtual.

quarta-feira, maio 02, 2007

Piscina de Fígado

Imaginem uma claque de futebol a cantar a brejeirice foleira, passe o pleonasmo, de “Tu Nunca Andarás Sozinho”. E depois a incentivar “Piscina de Fígado! Piscina de Fígado! Piscina de Fígado!”. Parece mal, não parece? Mas se cantar “You’ll Never Walk Alone” e incentivar “Liverpool! Liverpool! Liverpool!” parecerá bem melhor. No limite, até merecerá louvores.
O campeonato inglês é pródigo em nomes que, em tradução muito livre, se assemelham a profundas barbaridades em português. Eis alguns exemplos: Queimadura Negra (onde joga o Benny McCarthy, ironia das ironias), Castelo Novo, Homem Unido (em versão abreviada), Presunto do Oeste, Os Passeadores de Bolton, A Boca do Porto e Lendo. Mas é a Piscina de Fígado que me enche as medidas.
Que belo nome. Nós, por cá, apostamos no pueril sufixo “-ense” para múltiplas equipas. Não tem o mesmo efeito. Piscina de Fígado, isso sim! Que bom seria ter um modesto Barril de Escrotos em Leiria ou um tímido Alguidar de Pâncreas em Aveiro – aposto que os estádios teriam mais gente, nem que fossem adeptos fervorosos de filmes de terror hard-gore. O Piscina de Fígado é o clube de qualquer assassino em massa que se preze. Com camisola vermelha e tudo, lembrando o sangue da vítima que penou em ver o seu fígado retirado a sangue frio, sem anestesia. Sim, porque quem tem a veleidade de conceber uma piscina de fígados tem de ser suficientemente macabro para retirá-los a vítimas ainda vivas, dadoras de órgãos incautas (tipo Monty Python n’ “O Sentido da Vida”), e amontoá-los numa piscina onde todos pudessem contemplar os belos assassinatos perpetrados. Uma personagem tão mórbida que, quando nos abeirássemos dele em pleno Verão, perguntávamos:
- Eh pá, que grande casa que tu aí tens! E está cá um calor… Posso dar um mergulho na tua piscina?
E ele respondia-nos:
- Eh pá, é melhor não… depois de tantos assassinatos, comecei a colocar os fígados na piscina. Água só na torneira… a banheira tem os rins e a garagem as cabeças. Posso cortar a tua mão para fazer um cinzeiro?
- Pois não, corta-me a esquerda, por favor! Preciso da direita para serrar pescoços de crianças desdentadas! – esta última parte já não faz parte da fantasia, mas adiciona um toque ainda mais negro.
Conclusão: os adeptos da Piscina de Fígado são psicopatas ou descendentes deles. E ainda por cima, arriscam-se a ganhar mais uma Liga dos Campeões e a pintar de sangue o tapete verde de Atenas. Os jogadores da Piscina de Fígado são autómatos, vide Robbie Fowler e Peter Crouch. Não têm fígado. Se na Académica da lusitana Coimbra a praxe passa por receberem uns calduços na entrada em campo, enquanto correm em cima de batinas pretas, na Piscina de Fígado a praxe aos jogadores novos passa pela remoção das vísceras. Os adeptos exultam, os jogadores dissecados metamorfoseiam-se em mortos vivos com movimento, devido à ajuda de menos alguns gramas de órgãos que antes dificultavam a locomoção. O próprio norueguês Riise parece exangue por efeito dessa operação.
Os Beatles, ou “Os Ezcaravelhus”, provinham da Piscina de Fígado. Além do mais, o bar onde tocavam inicialmente designava-se “A Caverna” – tudo é sintomático do negrume espiritual associado à cidade. Os Beatles são produtos genuínos dessa terra atroz. Os Beatles merecem todo o desprezo que a Igreja lhes quis dar nos anos 60 só por esta razão ímpia. O John Lennon veio depois com os dias de cama pela paz, mas levou um tiro de um fanático que não lhe perdoou a traição aos princípios. O George Harrison rendeu-se lá aos deuses hindus e a toda uma espiritualidade de reconvertido, mas também já bateu as botas. O Paul McCartney, como castigo, nunca mais teve sucesso a solo. E o Ringo Starr optou pela penumbra e ninguém nos garante que já não pratique a acumulação de fígados na sua piscina.
Mais famoso que os Beatles nem Jesus; mais sádica que a sua terra nem Wayne Gacy. O próprio rio que banha a cidade é o Mersey, que é um quase, quase homónimo de “Misericórdia” em inglês. Razão: primeiro, os desprevenidos iam à “caverna” ouvir “os ezcaravelhus” com “Ama-me, Ama-me Sim”, assim como quem embala bebés. Depois, “os ezcaravelhus” e os vândalos do estádio da equipa de futebol, sediado em Anfield Road (ou “Estrada de Uma Campo”), conduziam as vítimas horrorizadas para as margens do rio e arrancavam-lhes as entranhas, perante pedidos de “misericórdia” (daí o “Mersey”). Os fígados, para a piscina; o resto, para o rio, para alimentar os peixinhos esfomeados.
Demasiada forçada esta relação? Certamente. Porém, já conheceram alguém que tivesse ido à Piscina de Fígado e tenha desejado regressar? Não, pois não? E já alguém lá foi? Não, pois não? Viagens para a Inglaterra só em low-costs para Londres, com voos de regresso a horas indizíveis da madrugada. A Piscina de Fígado não é como Portugal, onde acreditamos piamente que 90% dos turistas, quando não 100%, desejam ardentemente regressar ao nosso prendado país.
Quanto mais não seja, pela diversão. Por exemplo, ver um jogo de futebol entre o Close To The Sea e o Goodstay, que iria despertar risos no súbdito mais etilicamente carregado de Sua Majestade, fossem estes nomes mesmo traduzidos para o inglês. Ou entre um Sporting of the Birds – Goodsight. Um dos grandes tem um nome inglês, mas é um nome muito olímpico: é simplesmente “desportivo”. Um outro tem um nome demasiado simples: “Port”. “Port” de nada, nem sequer é porto de boca, de cotovelo ou de bexiga. O outro grande, sim, esse possui um nome que dá para ser glosado, ou não fosse um bairro de matriz arquitectónica urbano-depressiva-anos 60 da capital (como é, como demonstrei acima).
Mas pronto, risos são risos, são efémeros; nada se compara a um esventramento de um órgão humano, que é uma imagem forte. Espectacular, a visão de uma Piscina de Fígados ao sol, aquele vermelho vivo a escorrer sangue e o derreter daquela pasta gelatinosa consumida pelos inícios de uma cirrose hepática fulminante, sob os gritos lancinantes dos estropiados que gotejam sangue pelos dentes e sob os aplausos ébrios dos apoiantes de cachecol vermelho que nunca deixarão a sua paixão andar sozinha, não vá ela ficar igualmente sem fígado… Força Piscina de Fígado, os carniceiros estão contigo.

segunda-feira, abril 30, 2007

Teodoro, Ou Como Se Ganha a Vida Denunciando a Destruição de Ninhos de Cegonhas

Teodoro. Uma no cravo e outra na ferradura. Orgulho nacional sombriamente recolhido lá para os lados de Alcácer do Sal. Fervor e ecologia. Tempo livre e bizarrias. Teodoro não gosta de jogar às cartas no jardim. Embirração e sisudez. Teimosia e curiosidade. Teodoro não trabalha. Não estuda pelos livros, estuda pela vida.
- Estas aves não mudam de parceiro, não mudam de casa – confia-nos, com a sedução ornitológica impregnada na sua voz.
Fidelidade e admiração. Culto e devoção. Teodoro dedica-se à observação de cegonhas. As aves que trazem bebés de Paris. Espécie protegida até ao tutano. Podemos sacrificar vilas e cidades inteiras. Mas não o ninho da cegonha. Preservação e conservação. Prioridade e primazia. Teodoro. Onde haja um poste de alta tensão à beira da auto-estrada, estará Teodoro com os seus binóculos, recolhendo fragmentos da intimidade das cegonhas. Olhos alertas. Espionagem e voyeurismo. Cuidados e cautelas.
- Eu processo quem ousar chegar perto dos ninhos. Esses malandros da EDP já me conhecem.
Na EDP, efectivamente, todos conhecem Teodoro. Também na REN, na Quercus, em vários Institutos nacionais. Lá vai Teodoro. Mais uma atrocidade cometida contra as cegonhas – desta vez, queriam mandar abaixo um poste ferrugento junto ao rio Sado. Não pode ser. Inquietação e indignação. Processos e manifestações. Não interessa se o poste iria servir para melhorar a vida de 15.000 pessoas, no mínimo. Não. Interessa que iria prejudicar uma família de cegonhas. E depois, onde estaria a imagem da harmonia familiar, donde viriam os bebés, quem iria tratar dos peixes e lagostins do rio? Denúncias e exposições. Mediatização e consternação.
- Não podia deixar passar em claro – explica-nos Teodoro – Na 3ª feira, lá pelas 5 da manhã, levantei-me para ver como estava a família do 4º poste a contar da ponte, umas cegonhas porreiras, pássaros elegantes e bem formados. E dei de caras com uma equipa furtiva de engenheiros a fazer marcações. Aproximei-me. Os tipos, surpreendidos por verem alguém por ali àquelas horas, borraram-se logo todos. E eu, “Então, o que estão para aí a medir? É bom que não tenha nada a ver com aquele poste… Sabem porquê?”, e os gajos, todos acagaçados, já a quererem fugir, a gaguejar, lá sabiam porquê, “Por causa das cegonhas?”, responderam a medo. E eu disse-lhes, “Ah, pois é. Digam-me para onde trabalham e vou processá-los por atentado contra a Natureza”. E assim foi.
Obstinação e raiva. Amor e princípio. As cegonhas sentem-se seguras. Policiamento e segurança. Por amor à Natureza, Teodoro já impediu várias urbanizações, linhas de transporte eléctrico renovadas, campos de golfe, fábricas, bordéis, escolas de arte plástica, um novo campus universitário, tanta coisa que já não se lembra. E tudo porquê?
- Pelas cegonhas. E também pela publicidade. É que depois de ter impedido tanta coisa, não sei porquê, as coisas não se desenvolvem cá pela terra. É só coisas antigas lá na vila, as pessoas fogem daqui, fogem de mim, inadvertidamente fiz com que dois amigos meus falecessem numa discussão acalorada com a minha bazuca de bolso, tenho de combater a modorra, apesar do número de cegonhas ter crescido bastante nos últimos tempos e do meu trabalho de observação ter aumentado das 12 para as 14 horas diárias, excepto ao Domingo. Ah, e cerca de 20% das indemnizações que recolhi foram para mim. Sim, também pelo dinheiro. Nem todos os seres são perfeitos. Só a monogamia das cegonhas, claro, isso não falha. Animais fantásticos!
Fantasia e realidade. Teodoro. O inquinador de projectos. Espalha-brasas inveterado. É esta a sua vida. Vivam as cegonhas, viva Teodoro, vivam as forças de bloqueio. Em prol de qualquer coisa superior. Pode ser essa ave migratória, fomentadora da natalidade. Liberdade e acusação. Determinação e caricatura. Loas a Teodoro.

segunda-feira, abril 23, 2007

Burro

Aceita o teu papel. Deves submeter-te à rotina. Deves produzir. Deves servir. Deves estar satisfeito com o teu progresso. Com a tua casa. Com o teu carro. Com a tua mulher que passa horas ao telefone. Horas no cabeleireiro. Horas nas montras. Horas a debitar palavras sem grande sentido. Mas não serás tu também um ser oco? Oco de objectivos? Oco de conhecimentos? Onde está a tua história? Para onde vai o teu futuro? Sentes-te igual, sentiste uma vontade súbita de ser diferente. Mas nunca foste. Para quê aborreceres-te? Para teres complicações? Atrasos? Desprezos? Humilhações? Desafiar o quê, afinal? O que há para desafiar? Mas quem é que se deve desafiar? Onde está o poder? Onde está a reacção? Mas o que é que estão para aí a dizer? Será que o erro é apenas teu? Assume que o erro é só teu. Sê eficiente na atribuição da culpa. O mundo construiu-se pela justaposição de convicções muito correctas, disso não duvides. Não vale a pena tentares encontrar infiltrações nesta sociedade. A sociedade é um buraco negro em si mesma, absorve tudo, não deixa passar nada aos olhos de quem a aceita tal como ela é. Deixa-te ir como tens vindo. A chave para a tua saúde mental está na resignação. É muito mais simples deixar o peso recair sobre ti do que andar à procura de outro burro de carga. Ou a carga vai acabar por apodrecer no chão. Prefere o grão de arroz certo à sapateira desconhecida. Remete os teus sonhos para uma matiné do fim-de-semana e puxa o lustro ao teu soalho enquanto o peso da frustração te vai inclinando em direcção ao chão. O que mais te faz falta? Mas queres ser o quê, uma realeza dos contos de fadas? Queres o quê? Reconhecimento pela tua nulidade? Parabéns pela tua mediocridade? Abraços pela tua rudeza? Tens uma parede de elástico à tua frente que devolve todos os teus pensamentos menos próprios de volta à proveniência. Emites sons que não se ouvem no vácuo quotidiano. Tens uma cenoura à tua frente que cintila de vez em quando e que nunca te passará despercebida. Mas tens essa estranha veleidade de revelar laivos de inconformismo de tempos em tempos. Inconformismo? Para ti é-te suficiente escrever pataquadas? Vestir trapos? Idolatrar mortos? Frequentar comícios de bandeira ao vento? Ser o outro lado do espelho dos mongolóides que atacas no teu quarto? Isso é o teu inconformismo? O que é isso? É melhor que aceites o teu papel.

quarta-feira, abril 18, 2007

Antes Quebrar Que Torcer

O futebol sempre foi pródigo em expressões peculiares. As célebres tiradas de cariz Gabriel-Alvista, do género “remate com o pé mais à mão”, “pontapé de ressaca da meia-lua”, “colocar toda a carne no assador” ou o contemporâneo “autocarro em frente da baliza”.
(Uma nota antes de prosseguir: o Senhor Gabriel Alves não merecia ser escorraçado como um cão velho e doente, depois de tantos e tão bons serviços prestados, de tanta dedicação e de tanta metáfora atirada para o ar no auge do seu delírio apaixonado pelo jogo… para mais, havendo por aí alguns pseudo-comentadores que só dão vontade de colocar a televisão em “mute”.)
A expressão que propunha lançar em cima da mesa para reflexão não é exclusiva do futebol. Mas certamente que já utilizámos sobre determinado jogador, ou treinador, a frase feita – “antes quebrar que torcer”.
Esta descrição, quando aplicada a um jogador de futebol, revela-se cinematográfica. Geralmente, visualizamos na nossa cabeça um jogador de sobrancelhas carregadas, lábios cerrados, um pouco de baba a escorrer pelo canto da boca, peito autoritário e inchado, punhos fechados, resistência física assinalável e, acima de tudo, um dom profícuo para jogar com os pitons levantados, acertando mais nos outros corpos e menos na bola. Um jogador com reconhecidas limitações técnicas, mas com uma enorme disponibilidade para o choque e ávido pelo confronto corpo-a-corpo. Um jogador sem conhecimento do conceito de “fair-play”, mas com elevada probabilidade de cair no goto dos adeptos mais assanhados da sua equipa, tal a fúria destrutiva e o desprezo por qualquer esboço de misericórdia pelo adversário. Enfim, imaginamos Paulinho Santos (na foto, é o tipo de azul e branco; não confundir com Rosicky, o checo que joga à bola e não quebra nem torce).
Paulinho Santos era um jogador que “antes quebrava que torcia”. Literalmente. Mas se torcesse um pescoço aqui ou além também ficava feliz. Todavia, a quebrar é que ele se especializou. As caneleiras nos anos 90 em Portugal eram produtos já de certa forma evoluídos, mas nunca nenhuma conheceu um antídoto anti-Paulinho Santos por detrás da sua massa carbónica. E Paulinho quebrava o que lhe aparecia à frente com um brutal instinto assassino. Depois das caneleiras, partiam-se as próprias pernas adversárias e canas do nariz, rebentavam-se uns cocurutos e rasgavam-se umas camisolas. Sim, porque ao artista do “antes quebrar que torcer” exige-se um reportório mais alargado que o simples carrinho sem timing ou a corriqueira cotovelada marota nas costas do árbitro.
Paulinho Santos gostava de quebrar. Era assim, o miúdo. Mesmo nas comemorações dos golos da sua equipa, Paulinho não condescendia. Domingos Paciência, nos seus tempos áureos, chorava quando marcava um golo. Primeiro, de alegria. Depois, de dor – é que Paulinho Santos felicitava o marcador do golo com sonoras cacetadas de mão aberta na cabeça do referido, no qual era coadjuvado por outros nomes ilustres na arte do festejo em bruto, como Fernando Couto, Secretário, Folha ou João Pinto, assumindo-se como um líder das tendências no balneário. Era ver Domingos a fugir e Paulinho, qual voraz caçador felino, correndo atrás dele como se estivesse a perseguir João Vieira Pinto, a espetar-lhe com um, dois, três, quatro calduços bem aplicados. E toda a gente achava-lhe imensa graça.
Quer dizer, nem tanto assim. É que isto do “antes quebrar que torcer” tem um toque eufemista. Para os adeptos do jogo viril (outra maneira de dizer jogo a descambar para a violência), Paulinho era um rapaz humilde, com espírito de equipa e de vitória, fiel a 100% para com o emblema que defendia com unhas e dentes (e pitons e murros e o que fosse preciso), incapaz de dar um lance como perdido ou de parar de correr durante os 90 minutos. Porém, para muita gente não adepta do FC Porto, Paulinho era apenas “sarrafeiro”, “sanguinário” ou “%&#$%&!”, sem qualquer valor intrínseco enquanto futebolista, estando no campo apenas com o intuito de desbastar pernas, amassar ossos e tingir de sangue os seus dentes. Isso do “quebrar antes que torcer” era apenas para entreter os parvos, conversa fiada impingida pelo “sistema”, porque na realidade o Paulinho devia ser banido antes de entrar em campo, apenas tendo em consideração o espírito de preservação do bem-estar físico dos seus adversários. E, para esses mesmos adeptos, Paulinho será para sempre o exemplo acabado do “trauliteiro”.
Não que Paulinho Santos fosse o único a “quebrar antes que torcer”. Hoje em dia, temos o novo profeta da expressão, o homem que arrastou o conceito do campo para o banco das tácticas: Jaime Pacheco (na foto é o careca). Se Paulinho impunha a sua “stamina” no relvado, Pacheco gesticula de olhos abertos junto à linha. Se Paulinho ia de perna levantada, Pacheco vai de fato de treino a exigir menos “jogo bonito”. Se Paulinho reclamava testa-a-testa com o árbitro no relvado, Pacheco reclama testa-a-testa com o árbitro no túnel de acesso. Irmãos ideológicos, ambos partilham a máxima do “antes quebrar que torcer” na sua plenitude. Se Paulinho ainda jogasse à bola, Pacheco reservar-lhe-ia um lugar cativo no onze, em qualquer lugar da defesa ou meio-campo. E de certeza que os avançados contrários iriam temer esse jogo.
Atentem bem nas personagens que “antes quebram que torcem”. Quase todas são nortenhas. Praticamente todos os utilizadores desta expressão são nortenhos. Em paragens mais meridionais não é usual encontrar muitos casos de “quebrar antes que torcer”. Coincidência? É um tema que fica para meditar.
É por estas e por outras que o futebol é rei – mesmo sem bola dá que falar e que pensar. Imaginem falar de automobilismo sem motor ou de boccia sem cadeira-de-rodas…

segunda-feira, abril 16, 2007

Uma Não-Notícia

Hoje foi um dia particularmente pouco buliçoso no Aeroporto de Faro. Não aconteceu:
- Despenhamento do avião proveniente de Sheffield, com chegada prevista às 15:50, com 85 passageiros bêbados a bordo. Muitos deles envergavam a camisola da selecção inglesa no momento da aterragem, que ocorreu sem problemas. Depreendeu-se, portanto, que fossem ingleses, embora um ou outro pudesse ser galês e estivesse já muito confuso. Não houve nenhum problema mesmo, nem com a cor da pele dos passageiros, já previamente equipados com uma tonalidade tipo camarão com que costumam enfrentar o sol. Pronto, talvez tenha morrido um passarito ou outro despedaçado pelas ventoinhas do aparelho. A companhia aérea em causa, uma transportadora “low-cost” sedeada nas Antilhas Holandesas, já declinou responsabilidades em eventuais danos causados à fauna local. Os passageiros, após derrubarem meia dúzia de canecas, dirigiram-se para apartamentos hoteleiros no eixo Albufeira-Tavira. Ou só Albufeira, talvez. Onde haja música alta e se possa aproveitar uma longa “happy hour”, para ser mais rigoroso;
- Malas extraviadas nos tapetes. Toda a gente não esperou mais de 10 minutos pela sua bagagem, sem se perder alguma, para desespero dos repórteres que precisavam de fazer uma peça sobre os clichés portugueses, subordinada ao tema dos atrasos e esperas. Tudo correu bem. Nem uma queixa. Quer dizer, houve uma situação. Um responsável pela secção das reclamações apresentou queixa por “manifesta falta de preparação para dias sem queixas” a si próprio, levando cerca de três horas a tranquilizar-se a si mesmo – as quais dedicou a jogar freneticamente Copas e Minesweeper. Em ambos não conseguiu averbar uma vitória sequer, tal o nervosismo provocado pela falta de stress. O stress, recorde-se, já antes o levara a vencer um jogo de copas sem apanhar nenhuma copa e derrotando todos os outros três jogadores em simultâneo, bem como a vencer o Minesweeper – Nível Especialista em apenas 147 segundos. Esse responsável acabou por confidenciar “isso só aconteceu uma vez, quando fiz esperar 52 pessoas durante cinco horas”;
- Ameaça de bomba dirigida à torre de controlo. Enquanto se aguardava por uma ameaça terrorista árabe credível, os controladores aéreos passaram o tempo a jogar às cartas e ocasionalmente ao bate-pé. E, de vez em quando, lá ajudaram um avião a aterrar, entre suspiros de tédio. Uma técnica de sistemas informáticos, alegadamente, deu um linguado no seu colega responsável pelo radar. Ele foi o próprio a confirmar a situação, mas ela negou veementemente, dizendo que ele pedira um 6 (um chocho) e não um 9 (um linguado). Pelo meio, uma empregada de limpeza moldava foi “forçada” a participar e chegou mesmo a mostrar as cuecas, para gáudio da equipa que aterrava o avião da Ibéria nesse instante. Foram os próprios indivíduos controladores que colocaram as aspas no verbo “forçar”, preferindo enfatizar a competição renhida do jogo de Uno que disputaram;
- Tráfico de droga detectado nos controlos. Nada. Nem um grama de haxixezito para amostra. Apesar da fé depositada num estranho indivíduo de dentes dourados, calças brancas, óculos escuros e na sua companheira com 50 kg. de bagagem provenientes da Colômbia, nada de especial fugiu às declarações. Pelos vistos, esse homem trazia apenas plantas medicinais e alguma farinha Maizena e o controlo aceitou as justificações, sem esconder a sua desilusão. “Temos um mecanismo que detecta cocaína em todo o lado, desde o interior das meias até às profundezas do estômago. Conseguimos inclusivamente vislumbrar qual foi o almoço do dia anterior, se o indivíduo em questão não tiver um metabolismo muito acelerado. Tanto investimento para nada… os traficantes fugiram de Portugal! Uma vergonha! Já nem somos atractivos para os senhores da droga, o Sócrates que ponha os olhos nisto”. Quando indagado sobre a redução do tráfico de droga nos aeroportos internacionais portugueses, o responsável pela segurança adiantou que “é de facto lamentável que não se criem condições para que os traficantes apareçam. Podiam colocar aqui um agente à paisana à espera nas aterragens com um cartaz «Droga da Colômbia – por aqui». Mas não. Primeiro a administração pública de Lisboa e só depois nós. Temos tudo pronto para os apanhar e eles não aparecem, preferem vir de barco. Assim nunca teremos direito aos nossos 15 minutos de fama”.
Tinha de acontecer algo, contudo; portanto, procedeu-se à detenção de um passageiro em trânsito para Málaga, proveniente de Joanesburgo. O referido indivíduo apresentou, segundo uma fonte policial, “um bafo insuportável a pasta de dentes”, que logo o levou a ser colocado de parte pelas autoridades. Depois, para agravar a situação, o seu cinto de metal apitou nos controlos, levando a equipa de piquete da policia a intervir. Os cães do piquete rosnaram de forma ameaçadora à chegada, adensando as suspeitas sobre o indivíduo, que afirmou ter 2 gatos em casa que costumavam ronronar em torno das suas pernas. Pouco convencida da autenticidade das suas declarações, a polícia exigiu que o indivíduo tirasse o cinto e, para que nada passasse em claro, as calças também. Quando o indivíduo tirou as calças, revelou uma roupa interior de uma marca cujos artigos são usualmente encontrados nas feiras da região. As autoridades pensaram imediatamente tratar-se de um produto contrafeito, embora o indivíduo tenha referido que não esteve em Portugal desde os seus 7 anos, algo que não convenceu as autoridades. Cientes que precisavam de alguma coisa com maior impacto para deter o indivíduo e possuir uma coluna no jornal semanal do Barlavento algarvio, as autoridades passaram em revista o documento de identificação do indivíduo e verificaram que este possuía várias falhas consideradas graves, a saber: inexistência de acentos ortográficos (embora não se aplicassem à situação); fotografia desactualizada (o indivíduo tinha o cabelo uns dois ou três dedos visivelmente mais comprido na foto e foi incapaz de replicar o mesmo sorriso parvo da foto, queixando-se que o cão polícia bafejava muito perto para que pudesse sorrir) e inexistência de detalhes sobre os irmãos (que o indivíduo afirmou ter; mais concretamente, declarou ter 5 irmãos e 3 irmãs, sendo que nenhum nome figurava no passaporte, embora tal aparentemente não fosse necessário). Este, segundo a polícia, foi o motivo chave que deteve o exasperado sul-africano perante os flashes das câmaras e o brilho dos telemóveis.
Indagou-se se seria mesmo um motivo válido para deter um indivíduo. As autoridades não tiveram dúvidas: “Porque não? Ainda agora, ali atrás, deixámos passar um homem com 24 garrafas de whisky, 30 volumes de tabaco e uns quantos animais predadores em vias de extinção, por ter declarado que tinha uns irmãos cá em Portugal e que eram umas prendas para lhes oferecer. Deixámo-lo passar, enternecidos pela honestidade e verificando que, à parte do tigre branco, eram tudo coisas inofensivas e sem maldade alguma. Quando as coisas são explicadas, com fundamento, nada se passa. Agora, se tentam armar-se em espertos… sai-lhes o tiro pela culatra. Vejam bem, 8 irmãos e não dizia nada à gente… é preciso ter lata”.
Foi um dia com motivos jornalísticos interessantes, afinal. Ficou aprazada uma nova visita dos jornalistas lá mais para o Verão, quando as notícias começarem a rarear. As autoridades prometeram fazer o melhor para não desapontar quem lhes pode dar um espaçozito num meio de comunicação social.

domingo, abril 15, 2007

Entulho

Posso bem com as masturbações dos outros. Mas não tolero as minhas masturbações mentais. Por todo o lado, pinceladas amarelas toldam-me o raciocínio. Guardo um orgulho secreto pelo meu entulho. Toneladas de fantasias recauchutadas deixadas ao abandono. Posso bem com as escoriações amorosas que vos são infligidas. Mas não aguento que me remexam no entulho. Não há entulho como o primeiro. As minhas paixões são resíduos facilmente inflamáveis, rastilhos de palha seca e de sangue efervescente incinerando-se em céu aberto. Atingiram-me um nervo que apodrecia por detrás da minha máscara feita de panos sujos e frutos calcinados. Aturo bem as minhocas que proliferam nos vossos corações e que rompem com a vossa carapaça de serapilheira. Mas não suporto que pilhem a escória que tão cuidadosamente armazenei no meu baldio. Recebo a poluição sem explicação. Existe um esgoto que liga directamente as suas bocas aos meus tímpanos. Parece que estou condenado a acomodar os efluentes das vossas almas. Vejo abutres e eles esperam algo de mim. Os espantalhos apertam-me os neurónios. O silêncio ensurdece-me a vista sobre o meu entulho. Filtro o cloro dos meus olhos e entrego-os ao sol. Nem me importa o ultraje da vossa patetice. Não quero saber da vossa felicidade malhada tipo ferro quente. Quero um camião de lixo despejado por cima do meu amor. Quero desfazer-me da réstia de dignidade que me resta em horário nobre. Há que implantar mais gorgulho no meu entulho. Entre farinha e farelo, pretendia ser a mó. Ao invés, esmago-me contra as paredes da conveniência. O status quo espezinha-me em migalhas de subhumanidade. Respiro por um tubo de escape e congrego salitre nos meus olhos. Partículas de fumo químico envolvem o meu horizonte. O filtro já não côa. Coou demais, cedo demais. Agora faz parte do meu entulho. Quero dois pulmões bem sujos para absorver a salubridade dos dejectos que se amontoam em redor. Tenho vontade de me inquinar numa piscina de enxofre aquecido. E depois oferecer-te uma flor. Qualquer uma que me deixe exigir-te algo em contrapartida. Não pensem que o lixo se livra assim, despejando-o no caixote mais perto. A vossa porcaria não me importa, mas a minha nunca passará impune. O meu entulho é um amigo que devo bem tratar e nunca partilhar.

domingo, abril 08, 2007

Dois Frangos Prontos Para Assar

- … e é por isso que te digo: temos muita sorte o dono da churrasqueira ter bigode.
- Tudo isso para dizer que achas que os gajos de bigode são porreiros?
- Não. Nem todos. Estes homens de bigode: com ele comprido, farfalhudo, pêlos brancos aqui e ali; homens maduros de bigode. E olha que não há muitos países onde este tipo de bigode se e
ncontre facilmente; talvez só aqui e na Hungria.
- Já foste à Hungria, por acaso? O que estás para aí a falar?
- Bolas, meu; que falta de cultura geral… já olhaste bem para um húngaro?
- Bem… assim de repente… não estou a ver.
- Pois, eu já desconfiava. Pois olha, estou farto de os ver na televisão… lembras-te do Meszaros? Grande bigode. Certamente que é uma boa pessoa. Olha que os húngaros não têm muito a ver com os outros povos do leste europeu.
- Então?
- Eles até têm uma língua diferente das demais na região; têm parecenças com o finlandês e tudo… dizem que ambas descendem de uma velha tribo bárbara que se subdividiu na sua marcha algures no tempo…
Alguém se aproxima do balcão. Cavaqueira interrompida. Gestos de mão que indicam qualquer coisa. Palavras trocadas. Acenos de cabeça. O dono da churrasqueira volta-se. Chega-se perto do assador. O frango #2 alivia-se.
- Foram as salsichas. Ainda não foi desta.
- Espera, pode ser que o cliente peça mais qualquer coisa.

- Não, só batatas fritas.
- E pão de Mafra.
- Sim, pão de Mafra.

- E tu viste o concurso “Os 100 Maiores Frangos”?
- Então não. Não se falava de outra coisa lá no aviário.
- Velho aviário… Tantas amizades… Que é feito do Tó Pinto?
- Não ficou muito mais tempo a engordar…
- Coitado… bicava milho que era uma coisa parva…
- Mas em quem é que votaste para maior frango de sempre?
- No Ricardo, claro. Um enorme contributo à causa dos frangos. Um nome conhecido em todo o mundo, amigo. Tenho orgulho nele. Ele nunca se vai deixar assar.
- Eu também votei nele. Ainda pensei no Galo de Barcelos…
- Nah. Muito colorido para o meu gosto. Acho que ele já andou a chocar ovos…
- O maricas… o Moretto ficou em primeiro lugar, contudo…
- Concurso da treta…
- Qual é teu clube, afinal?
- O Benfica! Há dúvidas? Qual é o clube das galinhas, afinal?
- Eheh, eu bem me parecia…Que mais poderia ser?
Está perto da hora do almoço. Gente entra. Fala com o dono da churrasqueira. Coça a cabeça. Não tem o que lhe pedem. Cliente indeciso. Olha para os frangos. O miúdo implora-lhe que não. O cliente roda o pescoço. O frango #1 regozija.
- Sai um pedaço de leitão!
- Bem feita. Nunca gostei muito dele. Era um porco. Que encha o estômago daqueles parvos. Vai acabar de uma forma triste.

- Se virmos bem as coisas, também nós estamos destinados a ser merda, mais cedo ou mais tarde.

- Sim, um dia seremos merda, expelida por um intestino qualquer.
- Que seja um bom intestino, ao menos. Um intestino de gente importante, de boa saúde.
- Mas só depois de sermos bolo alimentar.
- E isso só depois de nos assarem.
- E embrulharem-nos em papel celofane.
- Sim, papel celofane.
- Com picante ou sem?
- Não tenho preferência.

- Está fresquinho, não está?
- Estás maluco? É pleno Agosto! Estou a destilar. Se reparares bem, estou em pêlo. E não me queixo.
- Sim, eu também. Mas está um ventinho desagradável, não está?
- Foi o dono que ligou o exaustor. Faz um bocadinho de corrente de ar.
- Isto não faz nada bem à minha pele… já viste como estou pálido?
- Realmente, umas férias faziam-te bem, ires à praia apanhar um sol…

- Ou ir ao solário.
- Ou ir ao solário.
- Tenho ali uma boa oportunidade.
Aparece mais uma pessoa. Olha avidamente para os frangos. Saliva com desejo desbragado. Arregala as sobrancelhas enquanto ordena um franguinho assado para seu próprio deleite estival.

- Olha, lá vou eu.
- Como o tempo voa...
- É assim...
- Boa sorte, rapaz. Depois eu entrego o anel da certificação ao teu filho mais velho.
- Não te esqueças; esse anel já veio do meu bisavô, desde há cinco meses. É muito importante para mim.
- Está descansado.
- Adeus, amigo. Obrigado por tudo.
O frango #2 encaminha-se para o solário. Abraça-se à grelha naquele que será o seu bronzeado para a eternidade.

terça-feira, abril 03, 2007

Na Atmosfera Verde

Tira o casaco. Por favor, não lhe dês lume. Tira-me uma fotografia. Já entretanto passara muito tempo. O charme de um penso higiénico usado. A fraternidade da última fila e do primeiro bocejo. A temperatura está alta para o meu baixo colesterol. Dinheiro e crédito fraudulento. Míopes são os que não querem ver. Estás gorda. Ao menos, disse, não caio aos bocados. Subtil ironia, respondi, mas então onde está a tua cabeça? O comboio apitou, não parou e eu telefonei ao meu colega. Tive uma fase de mau gosto. Arrojara-se ao solo o pugilista. Bochechas vermelhas como sei lá o quê. Depois dá-me pistas. Esbofeteia-te a ti própria, histérica. E a desculpa da música a altos berros não será válida. E o teu deus? Também a ganhar pó no sótão? Se alguém tiver fome é só pedir perdão. Alguns passam… alguns olham… alguns vão… Tenho uma recordação tua. Muito gira. Mas muito merdosa. Parecia que a tua boca tinha sido esburacada com um ferro quente. Sem querer ofender-vos, nós somos transeuntes. A verdade é que não respondi. Dá uma esmola ao cego, mas atira-lhe cuspidelas na bengala. Eu sei, vão realçar o meu pouco escrúpulo. Vão colocar-me uma constituição chinesa à frente para aprender. Diz a essas pessoas que preciso de dormir.