quinta-feira, junho 07, 2007

Os Profissionais da Ajuda

Naquelas distracções diárias, Firmino abandonou o seu livro em cima de uma máquina de pagamento, das muitas do parque de estacionamento de uma grande superfície comercial. Dois indivíduos nas imediações aperceberam-se do sucedido. Pegaram no livro e chamaram por Firmino, antes que este alcançasse a viatura.
- Senhor! Ei! Ó chefe!
Firmino voltou-se e imediatamente reconheceu o seu lapso. Agradeceu pela atenção alheia.
- Muito obrigado – e, dito isto, encaminhou-se de novo para o seu automóvel.
Os dois indivíduos ficaram perplexos, entreolhando-se com admiração, espanto e, lá bem no fundo, indignação.
- Mas o que isto, pá? – soltou o mais alto dos dois. Descrevamos a personagem: Aurélio Flexiseguro, natural do Fogueteiro, idade incerta, 81 kg., 184 cm., tem namorada e gosta de tratar de peixes. Sabe confeccionar maravilhosamente Bacalhau à Gomes de Sá.
- Este gajo passou-se! – aquiesceu o outro. Não descrevamos esta personagem, não vale a pena. Este é somente “o outro”. Pronto. É só isto.

Não, não digo mais nada.

Já disse que não vale a pena. Ele é “o outro” e mais nada. É um tipo perfeitamente normal.

Não há nenhum mistério. Descrevi o Aurélio e este não me apetece descrever, só isso. Não há nada de mais com isso. Já chega.

Não, não estou a fazer birra. Não o descrevo.

Ponto final.

Vamos continuar com a estória?

Não sei se devo escrever “história” ou “estória”… Adiante.
- Ó amigo! – clamou o outro.
Firmino virou-se outra vez, pensando que se esquecera também da caixa de preservativos com sabor a morango em cima de um sítio qualquer. Ou dos comprimidos para a memória, talvez. Quais preservativos? Ele precisava de preservativos? Para quê? Ele nem gostava de morango… Esperem aí: e seria ele a chupar o pedaço de látex? Como assim? E que comprimidos? Teria ele problemas de memória? O que quereriam aqueles dois?
- Então como é que isto, chefe? – questionou Aurélio, retoricamente, abeirando-se de Firmino. Este, por seu turno, olhou em interrogação a dupla.
- Isto o quê?
- Isto o quê?!? – repetiu, num tom mais acintoso, o outro – Então mas ainda tens a lata de perguntar, pá?!?
- N… Não estou a perceber… - perturbado, Firmino não percebia patavina – O que aconteceu?
- O que aconteceu foi que te fizemos um favor agora mesmo, ou já não te lembras? Estás esquecido, é? – prosseguiu, num registo muito retórico, Aurélio, gesticulando com movimentos vigorosos.
- Vocês também encontraram os preservativos, foi isso? – arremessou Firmino, numa ténue esperança de ter acertado em cheio no submarino. Mas isto não é batalha naval. Sim, não há porta-aviões em “T” nem barcos de três canos numa folha quadriculada. De qualquer forma, foi em cheio na água, chapa de pança dilatada pela cerveja em esplanadas à beira-mar no Verão na parede do mar, em choque directo com ondas impregnadas de sedimentos minerais diversos nas praias do barlavento. Onde é que ia Firmino? Ah, na cerveja na esplanada… não!, nos preservativos, nos preservativos é que ia.
- Preservativos? Ó amigo, tu não estás lá muito bem, pois não? Mas nós não queremos saber disso, nós queremos é que tu nos agradeças como deve ser, ‘tás a perceber? Preservativos… pfff! – enojou-se o outro, desagradado com a petulância idiota de Firmino.
- É mê’m’isso, chefe! Um agradecimento como deve ser. Afinal de contas salvámos-te o livro… - e Aurélio, após reparar no livro que Firmino ainda agarrava nas suas mãos, retirou-lho bruscamente da sua posse – E vê lá tu, o outro, que o livro até nem parece muito mau. Já viste, o outro?
- Qual outro? – perguntou o outro. Aurélio deu largas à exasperação que começava a ferver no seu sangue:
- O outro és tu, animal! Eu não tenho culpa que nem te tenham descrito como deve ser! Não te estava a perguntar pela opinião de outro livro qualquer, estava-te a perguntar se já tinhas visto este livro que eu tenho aqui, que é “Salazar e Maradona Partilham Um Risco de Coca – Um Conto Infantil”, da Editorial Vereda Tropical. Um livro jeitoso…
- Eh, pá, esse ainda não. Mas por acaso já tenho vindo a reparar que a Editorial Vereda Tropical anda claramente a tentar recuperar o terreno perdido no segmento infanto-juvenil… ainda no mês passado, editou a colectânea das tiras de banda-desenhada do João Baptista-Morgue, aquela do Capitão Vasilhame, um hipopótamo assassino residente no porto de Brugges. Muito bom, especialmente nos acabamentos, que incluem uma capa inteiramente produzida com restos de pele de criança vietnamita e sangue verdadeiro dum wombat australiano nas ilustrações das páginas centrais. Foi uma pedrada no charco, não tenho dúvidas.
- Muito melhor que o Noddy – assentiu Aurélio.
- Ah, doutra galáxia… - quantificou o outro. Firmino quis intervir:
- E vocês deviam ter lido o livro “As Mil e Uma Peripécias do Ratinho Peidinho”, é só rir do princípio ao…
- Está bem, ó amigo. Já vimos que prezas o teu livro. Então ainda nos dás mais razões para não compreendermos porque é que tu não nos agradeceste à maneira…
- Mas eu agradeci!... Disso eu lembro-me! – verbalizou Firmino a sua defesa, consciente de ter cumprido todas as regras da boa educação. Mas e se ele deixara os preservativos ao alcance das crianças? O que fariam elas com o achado? Deitariam os preservativos pela sanita abaixo? Reutilizariam os preservativos como balões de água? Aproveitariam a oportunidade para debutarem no amor com as suas priminhas de maminhas arrebitadas do Minho? Para quê uma dúzia, não teria bastado uma caixa de seis?
- Olha para ele… agradeceu… chamas àquilo um agradecimento? “Muito obrigado, uma merda para a tua cara, és um totó”? Nem tiveste a veleidade de sorrir nem nada, foi um cumprimento ressentido e amarelo, tu nem sequer sentiste o que disseste…
- Não notei um pingo de intensidade dramática… - juntou-se o outro, explicando as razões da interpelação do par a Firmino – Podias ter ao menos dado um “passô-bem”, uma palmada nas costas, eh pá, alguma coisa mais substancial. A mim pareceu-me que estavas um pouco nervoso e que quiseste despachar-nos… Ficou-te mal…
- Queremos mais do que isso. Tu consegues fazer melhor – incentivou Aurélio. Firmino acalmou-se: ahá!, talvez os preservativos tenham ficado no carro, afinal. No resguardo da sua porta. Esperem lá: a porta não tem resguardo. Ou tem? Mas qual foi a sua ideia de deixar os preservativos no carro? Como é que Firmino fode no seu carro? Nunca experimentou… Ou já? Ou serão os comprimidos para a sinusite que estarão no guarda-luvas? Não eram comprimidos para outra coisa qualquer?
- Pronto, se é isso que querem… - Firmino abraçou Aurélio e o outro, dando simpáticas palmadinhas na zona da omoplata a ambos, sussurrando aos dois:
- Muuuuuuito obrigado!! Espectacular! Vocês salvaram-me a vida! Este livro é tudo para mim! Como é que vos posso agradecer?
- Agora estiveste bem. Estiveste no limiar da bajulação insidiosa, quase a perpassar o risco da adulação irritante; pronto, estiveste muito perto de passar do agradecimento para a graxa, mas, no cômputo geral, esse agradecimento motivou-me para praticar mais boas acções no futuro – avaliou o outro.
- É, eu também acho que sim. Acho que todos nos engrandecemos enquanto seres humanos neste momento. – concluiu Aurélio. Firmino preparou-se para retomar o seu caminho.
- Ó amigo, já agora… - interrompeu Aurélio – Você disse-nos ao ouvido como é que nos podia agradecer… e nós sabemos como.
- Pois é. É que, ‘tás a ver, nós somos, tipo, profissionais do agradecimento; prestamos ajuda não totalmente voluntária, no fim queremos sacar um agradecimento das pessoas… é esta nossa vida, por aí, pelas ruas, pelos parques de estacionamento como este aqui, ajudando pessoas preocupadamente a pensar na retribuição que nos possam dar…
- Nós vivemos para nos agradecerem, percebes? Somos justiceiros benquistos a actuar na sombra, tipo isso – atalhou o outro. Aurélio prosseguiu:
- Mas isto de viver da alimentação do ego não nos alimenta o estômago. Não tens aí uns troquinhos para comprarmos um bife do lombo? Uns centimozitos, devem chegar…
- Eh pá, lamento muito, deixei o resto na máquina, ao pagar o estacionamento… - desculpou-se Firmino. Ou não? Não importa, o que Firmino queria era despachar-se, ainda tinha que procurar pelos preservativos.
- Não há mesmo nada, nada? – insistiu Aurélio.
- Não, desculpem lá.
- Pronto, nós trabalhamos para o “obrigado” e temos de saber conviver com o “desculpem lá”. – cedeu Aurélio – Vamos, o outro, vamos bazar, que há muito mais gente por aí com vontade de nos agradecer pela nossa ajuda.
Afastados de Firmino, o duo cochichou entre si:
- Guardaste a caixa dos preservativos que eu achei, o outro?
- Guardei, Aurélio. Só não percebo é porque não fizemos o gajo agradecer-nos por isto também…
- Os preservativos são valiosos, o outro! Isto de vivermos dos agradecimentos é uma coisa bonita, mas nós também precisamos de foder em segurança, ou não? Eu não me arrisco naquelas ratas lá do bairro à maluca, podes crer nisso!
- Tudo bem, mas estes preservativos sabem a alho… serão assim tão valiosos?
- Ainda têm o seu valor, o outro. Há quem aprecie.

Firmino não encontrou os preservativos, depois de muitas voltas na sua viatura. Além do mais, todo este enredo impediu-lhe de sair do parque nos quinze minutos úteis que sucedem à extracção do ticket amortizado da máquina. O que se passou a seguir foi de uma brutalidade assombrosa. Verdadeiramente devastador. Firmino caíra nas teias demoníacas do destino.

Mas por agora não vou contar.

Não vale a pena. É apenas violência gratuita.

sexta-feira, junho 01, 2007

Debandemos Em Massa

É uma chatice viver em Portugal. Pessoas aborrecidas e desinteressantes, invejosas e mesquinhas, sem perfil de liderança nem capacidade de obediência. Albert Uderzo retratou os Lusitanos em Astérix como sendo indivíduos baixinhos e gordos (“Todos os imigrantes portugueses que conheci eram assim”, referiu). Simples, mas eficaz, Uderzo não estava louco e acertou em cheio. Bem que podíamos absorver um pouco da sua serenidade e seriedade analítica.
Não há paciência para “reality shows” estapafúrdios, “talk shows” inenarráveis, danças folclóricas boçais, chico-espertismo como a modalidade nacional preferida antes do futebol, génios adiados, poetas decadentes, pontas-de-lança inexistentes para tanta fartura de extremos e fraco espírito comunitário.
Se somos pessoas de bem, devíamos ter vergonha em ser portugueses. O que é que temos para mostrar, para além das belezas naturais que nada fizemos por merecer? Um elevado despesismo público e clientelismo nas esferas do poder? Ferraris a conviver com bairros sociais impenetráveis? Pão e vinho sobre a mesa da casinha bem-cheirosa e com o fado de Alfama a ecoar no incontornável bidé presente em qualquer WC? Os Jerónimos? O último lote de estrelas d’ “Os Morangos Com Açúcar”? Um seleccionador nacional estrangeiro? Estarmos perto de Espanha? Estarmos na Europa, nem que seja a fugir Atlântico adentro? A nossa miraculosa hospitalidade, que, por acaso, nunca é mostrada ao compatriota mais próximo na rua? A tendência para os homens ficarem gordos, carecas e bigodudos enquanto se acumulam nas tabernas para esquecer as suas mulheres gordas e sorumbáticas que se agregam em torno da televisão, por entre mais uma refeição desleixadamente confeccionada? O que temos, afinal? Não temos nada.
Vamos emigrar. Debandemos em massa. Vamos maturar-nos enquanto seres humanos para fora daqui e voltarmos apenas em Agosto com um DVD do Tony Carreira no porta-luvas do Mercedes.
Mas não emigremos ao desbarato, para sítios pejados de portugueses de primeira, segunda, terceira e sabe-se-lá-até-quando gerações. Locais banalíssimos como Paris, Londres, Dortmund, Newark, Lausanne, Luanda, etc.. Assim não dá: os portugueses parecem só dar-se bem quando isolados, quando aquele sentimento estranho de identificação nacional finalmente cresce dentro do português solitário, quando a saudade se transcende e passa de pieguice para valentia estóica. Isto tudo depois do mesmo indivíduo ter reiteradamente espezinhado esse mesmo sentimento de amor à Pátria durante toda a sua vida na terra natal, dizendo cobras e lagartos de todo o mundo lusitano, como justificação para os seus desatinos e azares (excepto quando joga a selecção, ocasião em que somos todos totalmente patriotas). Todavia, isolado dos compatriotas, o português é como milhafre ferido na asa – junta as suas forças e, mesmo gordo e oleoso, acaba por surpreender. No meio de semelhantes, o desmazelo é total e insanável. O rebanho divaga por críticas mútuas e culpabilização ostensiva sem nunca concretizar a intenção de partir em busca de novos prados. No fundo, como este texto que se limita ao óbvio e ao fácil: critico porque sim, porque me desresponsabiliza enquanto cidadão, porque incrimino o abstracto sem ferir nenhuma susceptibilidade particular e porque não estou para ter trabalho em pesquisar a verdadeira origem do mal. Prossigamos.
Tenho duas novidades a comunicar aos portugueses: duas terras onde a sua vergonha pode ser devidamente enterrada, onde a luz lusitana pode finalmente fulgir, qual Estrela Polar no firmamento. Duas terras onde, espero, nenhum português habita (quanto muito, haverá um brasileiro que jogue à bola).
A primeira é a simpática localidade de Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch, ou se quiserem abreviar, apenas Llanfairpwllgwyngyll. Esta vila do País de Gales, com as suas 58 letras, nas quais se encontram várias consoantes seguidas, de acordo com a boa escola galesa, certamente que será um excelente porto de abrigo ao português farto de vulgaridades como Almada ou Valongo. O nome significa “igreja de Santa Maria no fundão do aveleiro branco perto de um redemoinho rápido e da Igreja de São Tisílio da gruta vermelha”. Isto é, não sabemos bem ao certo o que significa, mas certamente que significará qualquer coisa – nem que seja um sinal de perigo, pela sua extensão e pela proximidade que nos apercebemos que existe entre o redemoinho, duas igrejas e uma gruta colorida num tom vermelho que, suponho, só poderá ser sangue, tal a gravidade do étimo.
Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch tem uma estação de caminhos-de-ferro. Reza a lenda que a vila obteve o seu longo nome propositadamente, de forma a ser reconhecida como “a estação ferroviária com a placa mais extensa de todo o Reino Unido”; normalmente, os galeses nem são assim tão absurdamente idiotas. Turistas deslocam-se lá de propósito, de forma a serem fotografados junto à enorme placa, ou seja, é tudo parte dum embuste publicitário e de uma orquestração turística. Para além do mais, a vila divide-se em Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch-uchaf, ou “vila-de-cima”, e Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch-isaf, ou “vila-de-baixo”. Uma forma engenhosa de multiplicarem placas ainda mais extensas e mais apelativas.
Sei que Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch pode não agradar aos portugueses em busca de novas sensações; afinal, trata-se de uma pequena vila com 3000 habitantes e no mesmo continente que o nosso. “Não é grande mudança; para isso, mudava-me para Santa Marta de Penaguião ou, num desvario sem precedentes, até mesmo para Aldeia Nova de S. Bento”, protestam alguns descrentes. Pois bem, querem coisas mesmo exóticas e insólitas, mudanças radicais… então tomem lá com Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokai-whenuakitanatahu. (Não tem hífen, mas foi preciso colocá-lo por motivos de formatação).
Ah, pois é, não há desculpas. Ou melhor, a única desculpa que existe é não conseguirem ler o nome da terra para onde se mudaram. É que, apesar de existirem mais vogais do que em Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch, o nome que mencionei não deixará de colocar muito boa gente sem fôlego.
Em rigor, Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokai-whenuakitanatahu nem sequer é uma terra, é um monte. Um banal monte de 300 metros de altitude. Mas não vejo nenhum inconveniente em habitar-se no sopé de um pequeno monte, se pensarmos que o objectivo final é fugir o mais longe possível do último resquício português. Este monte é neo-zelandês, nos antípodas deste cantinho, logo, o mais afastado possível do nosso rectângulo. O nome significa, traduzido do maori indígena, “o cume da colina onde Tamatea, o homem de joelhos grandes, que desceu, escalou e engoliu montanhas, [para viajar pela terra], que é conhecido como comedor de terra, tocou flauta nasal para sua amada”.
Os maoris não são, portanto, homens sintéticos. Para um monte vulgar, prestam homenagem a um homem de joelhos grandes (uma espécie de Mantorras após uma vintena de operações e injecções), descrevem as suas actividades quotidianas (percorrer e depois deglutir acidentes geográficos), as suas preferências gastronómicas (enfardar porções de terra) e actividades lúdicas (tocar flauta nasal – nasal, atente-se bem) como serenata à sua gaja. Sim, porque isto de comer terra e percorrer locais acidentados não amacia nem o mais empedernido coração de gigante. E as mulheres apreciam, para além de grandes protuberâncias corporais (os joelhos, não esquecer), um pouco de sensibilidade musical. Tudo isto concretizado num nome dum monte, que, refira-se, deve ter a altura aproximada duma mera colina de Lisboa.
A placa identificativa que bordeja o monte também já é famosa, mas, ao contrário de Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch, Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokai-whenuakitanatahu parece não ter tido origem em manobras comerciais e sim em tradições locais. É, oficialmente, o étimo topográfico mais extenso do mundo, com as suas 92 orgulhosas letras. Garantem-me que não há nenhum português por perto.
Portanto, forneci duas boas indicações como destino, dois sítios nada corriqueiros. Outros podiam ter sido sugeridos, mas, por restrições de espaço, deixo apenas estes dois. Refúgios quase perfeitos, onde a portugalidade poderá dar largas às suas qualidades e ambições. Por cá, curvamo-nos perante a insignificância de possuir um otorrinolaringologista anticonstitucionalissimamente colocado em Vila Real de Santo António. Agora, basta marcar o voo…e boa viagem!
(Fonte: Wikipedia)

quarta-feira, maio 30, 2007

Bom Dia

- Cá estou eu, Óscar Alhinho, para mais um programa da manhã. Como está o trânsito, Ilda Masnãofoi?
- Bom dia. É o caos total.
- Caos total?
- Sim, caos total.
- Mas… está assim tão mau? Estás aonde?
- Não sei bem. Vendaram-me os olhos e ataram-me as mãos, meteram-me o microfone à frente e deixaram-me com os auscultadores. Estou completamente despida, repito, estou completamente despida. Todavia, devo alertar que não estou com frio. Prometo regressar às minhas condições térmicas dentro de alguns minutos, assim que trouxerem o termómetro.
- Bem, mas ó Ilda… o que vem a ser isso?
- É uma violação em grupo. Esteve um russo em cima de mim mesmo agora… ouço algumas movimentações… penso ser um africano o senhor que se segue… isto é um caos. Já não há respeito.
- Bem, vamos a outro ponto da cidade… Bernardo Lássefoi, como vão as coisas?
- Vão bem. Estou no helicóptero a sobrevoar os principais acessos à cidade. O pessoal dos helicópteros é um fartote, fartamo-nos de cuspir lá para baixo. É só rir.
- E o trânsito, Bernardo?
- Quero lá saber do trânsito, Óscar!... Estou a divertir-me imenso, mexendo nestes botões. Mas parece estar mau.
- Está mau, é verdade, este é o ponto de situação do trânsito. O trânsito está mau. Obrigado, Bernardo. Vamos já lançar a pergunta da manhã para o fórum seguinte - o que é pior: língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani? Liguem já para o 808 777 444 111. Para já, aqui fica o novo single da Banda Filarmónica de São Gião do Vouga, intitulado “Língua de Vaca Assada É do Melhor”.

- Temos o primeiro ouvinte para o fórum… como se chama?
- Eu não tenho nome. A sociedade tirou-me o nome. A sociedade tirou-me tudo.
- Hã… Pois… O que é pior? Língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- A questão não é essa, Óscar. Já leste Matthias Jiranek ou qualquer autor da escola kankanditrista? Tu estás muito ao lado do cerne da questão, Óscar! Isto é tudo uma mentira! A realidade não existe! Tu não és eu e eu não sou tu e tu nem sequer chegas a ser tu e ele definitivamente que não sou eu nem está perto de ser tu como tu pensas, Óscar, e, no fim da linha do tempo, ninguém é tudo e nós não seremos qualquer coisa! Nós não somos nós, nós estamos noutro lado, num vazio transdimensional paralelo. Este programa não existe segundo a lógica thorstiniana e rantanplanística descrita por Tudor & Filhos no seu ensaio épico sobre mutilações de mamutes em ambientes tropicais! Nós precisamos de ser mutilados física e psicologicamente, Óscar! Precisamos de ser perversos antes de sermos pervertidos por esta sociedade, Óscar!
- Está bem, Sr.. Mas responda à pergunta e não deprima os nossos ouvintes, por favor…
- Mas qual depressão? A depressão não existe! É um conceito ultrapassado! Quanto muito existe uma transfiguração da percepção onírica que me percorre a espinha dorsal e que…
- Ohhhh! Que pena! Este simpático senhor foi abaixo… sem responder à pergunta. Sim, a realidade é tramada mas nós não queremos saber de conversas fiadas para explicar as suas frustrações… nós queremos respostas! Temos mais um ouvinte. Como se chama?
- Eu tenho a rapariga.
- Sim? Língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- Eu quero entregar a rapariga.
- Sim… entrega lá a rapariga. Mas por favor responda: língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- Eu não quero esta rapariga. Quero outra. Outra ainda mais nova. Mais loura.
- Bem, parece que estou a falar com um raptor pedófilo, certo?
- Correcto.
- A rapariga está bem?
- Afirmativo.
- Você quer trocar esta rapariga por outra?
- Efectivamente.
- E o que é pior:
língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- Você não está a perceber, eu começo-me a enervar e depois…
- Nós não queremos pessoas nervosas, sr. raptor pedófilo. Sr. raptor pedófilo? Olha… foi abaixo…. Estamos com azar, ainda ninguém respondeu à pergunta. Vamos ouvir as previsões meteorológicas enquanto aguardamos por uma resposta que tarda em chegar. De permeio, eis o som que está a colocar toda a Europa de Leste em polvorosa: o duo hermafrodita Caracolzein a cantar uma versão dos Rammstein à cappella. Recorde-se que este duo foi, até à semana passada, constituído por Björn e Anna, mas agora Björn é Utte e Anna é Christopher da cintura para baixo e Rubens Barrichello da cintura para cima. Espectacular, como só eles sabem.

- Como está o tempo, Zélia Aversetehavias?
- Vento moderado de leste de manhã e vento forte de noroeste com o decorrer do dia nas regiões altas a norte do cabo Carvoeiro, com previsão de ocorrência de aguaceiros nas regiões altas, mas com abertas para o fim da tarde nas regiões altas. Temperatura agradável para a época nas regiões altas, com a mínima a situar-se nos 9 graus e a máxima nos 21. É provável a formação de neblina ou nevoeiro matinal nas zonas adjacentes às regiões altas do litoral. Nas regiões baixas não faço ideia. Está fresquinho, pelo que sei.
- Está fresquinho, pelo que ela sabe. Agasalhe-se bem, sr. ouvinte. E já sabe o que é pior: língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani? Eis uma nova chamada. Quem fala?
- Horácio Fuimasjánãovou, de Paio Pires.
- Sr. Fuimasjánãovou, o que é pior: língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- Isso é um absurdo incomparável. Eu queria antes contar uma anedota para entreter os ouvintes…
- Não, Sr. Fuimasjánãovou, aqui quem diz as piadas sou eu. E, já agora, sabe como é que os alentejanos fazem toucinho do céu?
- Bolas, era mesmo essa que eu…
- Atiram o porco ao ar! Ahahahahahahah! Isto é humor! Isto é… Bom Dia, na Rádio Plutão, 203.4 MhZ, com Óscar Alhinho! Outro ouvinte em linha… será que é agora que vamos decidir o que é pior: se língua de vaca assada ou a nova música de Gwen Stefani? Bom dia, como se chama?
- Eulália Aiaiaiquevoucair, de Borba. Não gostei da sua piada. Você deve pensar que somos todos parvos, não é?
- Ora essa, Sra. Aiaiaiquevoucair!... Precisamos de nos rir de nós próprios, não é? Diga-nos o que é pior: língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- É preciso ser descarado! Também sei uma anedota: sabe como é que um lisboeta leva no cu de…
- Parece que a Sra. Aiaiaiquevoucair… caiu mesmo! Estamos mesmo com azar, Miriam Decoteaberto…
- De facto, Óscar. Vamos pôr mais uma música a rodar no ar. E quero ver todos de mãos em cima nos transportes públicos com esta que vamos passar! É uma loucura! São os Madredeus acompanhados pelo Coro Fúnebre constituído por Vitorino, João Gil e Rui Veloso a gemer “Ai Que Este Furúnculo Anal Não Se Vai Embora”. Fiquem lá com esta malha!

- Bem, estamos no fim de mais uma hora de entretenimento puro na Rádio Plutão, 203.4 MhZ, este é o Bom Dia com Óscar Alhinho. E ainda não sabemos o que é pior, se língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani. Temos mais alguém a querer participar… Bom dia, como se chama?
- Aníbal Estábemestá. Eu tenho uma opinião muito bem definida sobre essa temática.
- Muito bem, Sr. Estábemestá. Diga-nos o que é pior: se língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- Claramente, a língua da Gwen Stefani é pior que a nova música da vaca assada.
- Como?
- Perdoe-me, o que eu queria dizer era que a Gwen Stefani assada é pior que a música da língua de vaca.
- Sr. Estábemestá, você está bem?
- Sim. Estou bastante confuso. Estou de greve. Estou mais ou menos. Não sei.
- Bem, o Sr. Estábemestá não conseguiu aguentar a pressão que envolve esta questão que colocámos para o fórum de discussão, Miriam Decoteaberto.
- É verdade, Óscar. O grande público foge aos momentos das grandes decisões. Se calhar, vou passar o “Final Countdown” dos Europe… que é para o público espevitar.
- Bolas, Miriam, cá entre nós: escusas de passar essa porcaria todos os dias. Desde 1986 que ninguém pode com isso.
- Só mais uma vez, Óscar. Vamos tornar esta manhã a manhã mais alegre e radiante de sempre!
- Que se lixe… fiquem lá com o “Final Countdown” dos Europe.

PS: Língua de vaca assada é pior que a nova música da Gwen Stefani, por uma escassa margem de 4 votos contra 3. Refira-se que Gavin Rossdale votou na nova música da Gwen Stefani.

segunda-feira, maio 28, 2007

Taça é Taça

Confesso que me assolou um pensamento impuro aquando da vitória do Sporting na Taça de Portugal. Impuro por ser uma afronta ao meu coração verde e branco, um sacrilégio às minhas convicções enraizadas desde o século passado no Estádio José de Alvalade. Mas não nego que me soube bem, este meu pensamento sportinguisticamente obsceno.
Era muito simples e consistia no seguinte: na majestosa e inusitada (e, refira-se, assaz despropositada para o cariz do troféu) festa de consagração, os jogadores preparavam-se para entrar um a um no relvado de Alvalade. Estava lá tudo a postos: o brilho dos holofotes, o som dos Delfins mais o seu “Fogo do Leão”, entrecortado com o CD da Juve Leo (já com cinco anos), videoscreens com as imagens de glória verde-brancas, “barely legal” cheerleaders apetitosas, saltitantes e sorridentes com os seus pompons verdes e as exíguas saias brancas (para condizer com a cuequinha), público ansioso e delirante arremessando confettis coloridos e os incasáveis animadores de programa, sempre de microfone em punho, incentivando uma malta já de si muito animada.
Foi nesse cenário, e imaginando uma câmara de TV de frente para a saída dos balneários, que me ocorreu o tal pensamento. Passo a explicar o contexto: a câmara já lá estava, no lusco-fusco, aguardando a saída triunfal dos jogadores do balneário, para gáudio do público, até das cheerleaders impúberes. Um rufar de tambor ecoava pelas bancadas. O animador espicaçava os nervos ao alongar-se com insistência: “Eeeeeeeeeeeeeee agoraaaaaaaaa… quem vem lá com a taçaaaaaaaaaaa?... Queeeeeeeeeeeeeeem serááááááááááááááá?…”.
Deu-me para isto, não sei se pelo nome, se pelo cabelinho que pede meças ao próprio treinador, se pela angelical cara que disfarça os instintos mais ou menos violentos, normalmente escondidos no fundo de um bom central de marcação… mas lembrei-me do Tonel, diminutivo de António Leonel, sinónimo de pipa, natural de Lourosa, formado no Futebol Clube do Porto, actual número 13 do plantel. Um bom central. Filmei mentalmente esse momento fictício. O animador exulta finalmente: “Éééééééé eleeeee… aí vem ele com a taçaaaaaaa… Aí está: Toneeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeelllllllllllllllllllll!!!!!!!!!!”. Tonel surge, rápido e sorridente, com a sua carinha de menino tímido e bem comportado, subindo as escadas de taça orgulhosamente erguida, sob o brilho dos flashes e a música dos momentos de vitória. Por norma, não seria o jogador a iniciar as hostilidades, mas para efeitos desta fantasia foi ele o escolhido. As câmaras filmam tudo com uma proximidade perturbante. É aí que o caldo se entorna: Tonel, inebriado pela conquista, tropeça no último degrau de acesso ao relvado, cai desalmadamente na primeira relva do rectângulo, bate desamparadamente com a cabeça no chão e deixa cair a taça para a vala protectora do estádio. A câmara treme com o incidente e volta-se para o animador, que, atrapalhado, tenta sorrir com a situação. O estádio emudece. As cheerleaders tapam a boca de espanto e os videoscreens param as imagens. Tonel fica agarrado à boca, gemendo sonoramente e contorcendo-se com dores; tinha embatido violentamente com a cara voltada para o chão. A música volta rapidamente a ecoar na aparelhagem, mas o mal estava feito: auxiliado por paramédicos, Tonel fica a saber que partiu os dois dentes incisivos frontais e perdeu parte da língua ao trincar-se, o que explica o sangue abundante, e é provável que não volte a jogar futebol por não conseguir encarar-se a si próprio nem o gozo dos colegas no treino; a taça, essa, escangalhou-se no cimento do fosso de Alvalade e nem as fitinhas decorativas se aguentaram – ficou feita em pedaços e nem a melhor cola do mercado fará alguma coisa de razoável com os destroços. Partidinha de todo, com lágrimas de leão a servir de mortalha à sua memória. Paulo Bento nem queria acreditar. Soares Franco pensou em devolver a taça partida à Federação como retribuição pela atribuição de bilhetes para o Jamor. O sonho leonino de acabar com mais um título na sua galeria terminava assim, com a subida de Tonel ao relvado para aclamação. Houve título, mas não houve taça. Um a um, os adeptos saem cabisbaixos do estádio, após uma festa que acabou antes e muito pior do que começara. Em casa, a risota é geral, especialmente a dos invejosos vermelhos, que assim garantiram o único título da época: rir-se às custas do rival vencedor por conta dum insólito.
Eu ri-me e ri-me a pensar isto cá para comigo, num delírio perfeitamente sado-masoquista. Concluí que talvez não devesse ter tomado nada enquanto via o jogo.
Mas do que eu gostei mesmo foi da conquista da taça. O “Outra Louça” presta assim o seu singelo tributo aos vencedores.

quarta-feira, maio 23, 2007

O Elixir do Tiroteio Despropositado

- Prof. N’Gonka, está aqui um paciente para atender. A cara dele não me é estranha.
O Prof. N’Gonka afasta uns quantos amuletos da sua mesa, incluindo um papagaio malawiano empalhado, disponibilizando assim espaço para apoiar os cotovelos, e abre a cortina de veludo escuro, deixando a luminosidade penetrar e iluminar o seu pequeno escritório numa zona degradada de baixas rendas em Lisboa.
- Manda o paciente entrar, Kabumba.
O paciente entra, cumprimenta o Prof. N’Gonka, que retribui delicadamente, quase sem emitir um som. Identifica-se como sendo Raimundo Retrovisor, o tal que atraía todas as maleitas possíveis.
- Não se lembra de mim, Professor? – questionou Raimundo.
- Sabe, eu comunico com várias pessoas por dia… - respondeu, vagarosamente, N’Gonka – É você o Sr. do mau-olhado lançado pela vizinha do lado?
- Oh!, se tivesse sido só isso, Professor!... No último ano, foi mau-olhado, desgostos amorosos, despedimentos, várias doenças crónicas e agudas do foro hepático, sanguíneo, nervoso, cardiovascular, pulmonar e gástrico, falta de auto-estima, problemas monetários, depressões ocasionais, macumba, vudu, cegueira, surdez, mudez, mau hálito, infertilidade, impotência, vários pneus furados por dia, obesidade mórbida, falta de fé num deus qualquer, sisudez, mongolismo, autismo, baixa responsabilidade cívica, libertação de gases em momentos inconvenientes, violações, raptos, contagem de anedotas sem graça, negação da personalidade jurídica, paludismo, escorbuto, vítima de ataques de animais supostamente dóceis, diabetes, alergia ao esparguete e à morcela, fortes odores corporais, gravação de sons obscenos em festas de aniversário de crianças desconhecidas, alcoolismo, toxicodependência, lepra, tremeliques em plataformas ferroviárias, sinusite, extrema transpiração nas axilas em pleno Inverno, esquizofrenia, personalidade bipolar, caspa, utilização imprópria de lavabos públicos, bulimia, acessos momentâneos de pedofilia nos feriados municipais, menstruação desregulada e fortes reacções cutâneas ao vinagre. O Professor curou-me de tudo! Não se lembra de mim?
- Ah, sim, claro! – iluminou-se N’Gonka – O meu úni… er, o meu melhor cliente! Como vai, Sr. Raimundo? Está melhor da constipação?
- Sim, Prof. N’Gonka. Graças às gotas óleo de rim de aborígene australiano e a duas caixas inúteis de antibiótico, consegui melhorar. Agora tenho um problema bem maior, Professor. Algo que me tem atormentado nos últimos tempos… para aí desde as 9:30 de hoje – e Raimundo, abatido, passa pelo mão no cabelo, tenuemente desesperado, expirando bofes de desagrado.
N’Gonka, algo admirado, reclina-se na cadeira forrada a pele de leopardo, junta as mãos e assume uma postura de ouvinte atento.
- Ora diga lá então o que a medicina alternativa deste humilde Professor doutorado na Universidade de Ciências Ocultas de Monróvia com aproveitamento máximo e inigualável por mais alguém pode fazer por si, Sr. Raimundo…
- Sabe, Professor… a vida tem estado muito fácil para mim. Eu quero que o Professor me arranje um mal qualquer. Um mal que não consiga sarar facilmente.
- Como? – espanta-se N’Gonka.
- Eu sinto a falta dos meus queixumes. Hoje em dia obtenho mulheres com um estalar dos dedos. Acordei como o homem mais rico do mundo por não ter feito nada. Toda a gente é amiga e compreensiva para comigo, tenho filhos inteligentes e amorosos, descobri várias fórmulas científicas que atrapalhavam os grandes cérebros mundiais a ver uma competição de pólo aquático, salvei personalidades importantíssimas da morte certa sem sequer reparar, não invejo ninguém, não tenho medo de nada, possuo uma saúde de ferro que serve de referência a toda a classe médica, cresceram-me os dois dentes da frente que tinha partido há 10 anos, fui designado o “Português do Século” sem nunca ter entrado na votação… não tenho nada para me queixar.
- Sr. Retrovisor, peço desculpa, está aqui um indivíduo a querer oferecer-lhe um avião e a sua voluptuosa filha de 19 anos por o Sr. ter segurado a porta de entrada do prédio para ele… devo deixá-lo entrar? – interrompe Kabumba.
- Não, obrigado… Diga que eu depois lhe telefono… Está a ver, Professor? Eu não fiz nada para ser tão bom, eu quero voltar a sentir algum insucesso outra vez… - comentou Raimundo, abatido pela sua sorte estupidamente imbatível.
- Estou a ver… Mas, como sabe, a minha especialidade é curar e reabilitar as pessoas… eu exorcizo o mal, afugento-o… não consigo atraí-lo – adverte N’Gonka, ajustando a sua camisa multicolorida.
- Professor! O Professor consegue! Você é um grande especialista! Curou-me de tudo e mais alguma coisa! Quem percebe tanto destes desígnios humanos, deve, com certeza, saber inverter os procedimentos de forma a causar mal… - implora Raimundo, segurando nas mão de N’Gonka. Este, incomodado, levanta-se da cadeira e põe-se a pensar.
- Sr. Raimundo, devo avisá-lo que esta situação não é normal… Tem a certeza que quer ter problemas?
- Sim, Professor! Eu não sou normal! Estou à procura de preocupações, desatinos e aflição! Por favor, faça-me algo mau! Torne-me feio! Tire-me a vontade de viver! Eu já não aguento ser tão bom e adorado!
- Hmm… deixe-me pensar – e N’Gonka afasta-se, esconde-se por detrás de uma cortina decorada com penas de pavão.

Detrás da cortina, a salvo dos olhares de Raimundo, sussurra para o seu assistente Kabumba:
- Estou tramado. Acho que fiz um trabalho bom demais com o tipo… e agora, Kabumba? Não devia estar aqui para o mal… quer dizer, também não devia estar para o bem, só devia dançar como um maluco, falar monossílabos desprovidos de sentido, vender chás baratos como poções milagrosas e artefactos de madeira rasca como ídolos sagrados… Mas não posso desapontar o cliente, senão ficamos sem sustento para a renda e voltamos para as obras…
- É lixado, Professor – anui Kabumba – Temos de inventar um novo mal para o gajo. Já o metemos como sócio do Benfica?
- O gajo está tão bem na vida que já nem liga a futebol, vê lá…
- Hmm… e se lhe colocarmos um papão à noite no quarto?
- Qual papão, Kabumba?
- Sei lá. Olha, o Zé Tikotiko, que é grande como o caraças…
- Ó Kabumba, o Zé Tikotiko a partir das seis da tarde está a cair de bêbado, quer lá ir fazer de papão a casa de um maluco qualquer…
- Então temos de lhe criar uma doença qualquer, alguma coisa séria…
- Mas o quê? O gajo já teve de tudo! Depois de ficar doente, volta cá e eu curo-o, como já o curei!
- Tudo, tudo, Professor? Ele já teve raiva, piolhos e febre aftosa?
- Já! E já experimentou a morte súbita dos bebés que dormem de barriga para baixo… e ressuscitou! Não sei, Kabumba… - constata N’Gonka, inquieto por estar em vias de perder o seu cliente.
- Eh, pá, estes gajos só mesmo com um tiro na cabeça, de tão parvos que são!…
- É isso, Kabumba! – exalta um entusiasmado Professor – O tipo ainda não foi psicopata assassino! Temos de torná-lo num psicopata!
- Boa! Mas como?

- Ó Kabumba, não sejas parvo também! – zanga-se N’Gonka – Só temos é que fazê-lo acreditar que se vai tornar num psicopata! Ao fim de algum tempo ele descobre que não é e volta cá para arranjarmos qualquer coisa mais! Entretanto, vamos pensando noutro mal qualquer. Está bem?
- Excelente, Professor! E como vamos enganá-lo?
- Enche aí esse frasco com água e coloca uns corantes e umas folhas de louro lá para dentro – vai ser “O Elixir do Tiroteio Despropositado”. Que tal?
- Muito bem, Professor! – deleita-se Kabumba, orgulhoso por fazer parte daquela trama sinistra – O Professor é uma máquina!

- Sr. Raimundo – diz, grave, o Professor, aproximando-se – isto de fazer o mal não é eticamente correcto no seio da Classe dos Grandes Mestres Curandeiros… mas, excepcionalmente, vou entregar-lhe este portentoso e obscuro elixir… o infame “Elixir do Tiroteio Despropositado”, receita secreta de tribo senegalesa… irá torná-lo num psicopata assassino, capaz de matar cirurgicamente personalidades públicas…
- Isso é óptimo! Grande ideia! – empolga-se Raimundo – Já me estou a ver todo preocupado a fugir da polícia e a esconder-me! Mas, já agora, o que seria mesmo bom era ser um genocida! Se é para me preocupar, quero preocupar-me a sério! Matar gente à grande!
- Genocida, hã? Também se arranja… Kabumba, anda cá – Kabumba chega e o Professor ordena – Reforça o elixir, se fazes favor.
- Como?
- Põe mais corante nisso – sibila ao ouvido o Professor.
Kabumba mistura mais corante à solução atrás da cortina, adiciona-lhe uma pitada de açafrão pelo sim pelo não, fazendo o elixir adquirir uma tonalidade amarela viva. Entrega o frasco a N’Gonka e este, solene, entrega-o a Raimundo.
- Cá está, Sr. Raimundo. O senhor será um futuro genocida de renome. É só tomar um colher de sopa todos os dias antes e depois das refeições, virado para oeste e sem nenhuma galinha branca por perto.
- Professor, o Sr. é fantástico! Resolve tudo! Muito obrigado! – saúda um agradecido Raimundo – Quanto lhe devo?
- Ora, 500 euros pelo aconselhamento, 175 euros pela taxa de assento no meu consultório, 76,4 euros pelo tempo, 42,32 euros pela chatice, 75 cêntimos pelo valioso elixir… são 1500 euros, por favor.
- Tome – providencia Raimundo, sem discutir – Você merece, Professor, você merece! Preocupações, venham elas!

N’Gonka e Kabumba fazem agora contas à vida. O negócio prospera. N’Gonka quase que nem acredita na ingenuidade de Raimundo. Mas aconteceu. O pequeno escritório torna-se grande na alegria.
- Sabes, Kabumba – confidencia N’Gonka – acho que vou ver um professor a sério, o Mestre Abdul Kabidelah. Acho que ele consegue saber até que ponto eu sou um grande professor. Já reparaste? Pelos vistos, curei mesmo o gajo de tudo! Quais são as hipóteses de tudo ter acontecido apenas por sorte?
- O Professor tem mesmo poderes, acredite – tranquiliza Kabumba – o Mestre Abdul Kabidelah só o irá confirmar.
- Vamos ver, vamos ver. Até logo, Kabumba. Vai pensando numas doenças esquisitas, entretanto.
Quando N’Gonka sai do consultório, encaminha-se para as escadas. No fim do primeiro lanço de escadas, encontra Raimundo parado à sua espera, perturbado, olhar furioso nos seus olhos, dentes cerrados e lábios secos, de arma na mão.
- Sr. Raimundo, então ainda por aqui? – cumprimenta, afável, N’Gonka.
- Pensavas que escapavas desta, não, macaco? MORRAM, PRETOS!!!!!!!
Com seis disparos à queima-roupa, Raimundo fulmina N’Gonka, que cai perfurado no chão de madeira, formando uma piscina de sangue. Raimundo não exibe remorsos alguns, larga uma sonora gargalhada e dá mostras de pretender prosseguir com o rasto da morte pelos subúrbios da capital. Raimundo tornara-se um genocida primário, apenas com uma colher de sopa do Elixir do Tiroteio Depropositado. Fabuloso.
N’Gonka morreu. Porém, morreu honrado, satisfazendo todas as necessidades dos seus clientes, transformando enfermos em heróis e heróis em genocidas. Mesmo que não tivesse sido esse o objectivo.

terça-feira, maio 22, 2007

Lambedor de Janelas

Procuro carne. Carne da boa. Sem aditivos transgénicos mcdonaldescos. Só preciso do corpo, o resto deito fora.
Não preciso das caras. São todas iguais.
Não preciso das almas. Foram todas vendidas ao diabo.
Necessito um loop permanente dentro do teu sexo. Sem pretensões intelectuais, a minha única filosofia é usar, gastar e abandonar. Rápido e sem rodeios.
Não me importo de ser usado para os mesmos fins. Eu já não me importo com nada que seja importante.
Não me incomodo com falsas reservas morais. Perdi a moralidade há vários desgostos atrás.
Há quem me considere parasita da sociedade, vil amostra da corrupção de valores tão afecta ao quotidiano urbano-decadente. Eu não sei se sou. Talvez seja. E se for, isso implica a perda do meu prazer? Não? Então não vale a pena aborrecerem-me.
Esquece-te das caras e dos corações, são apenas acessórios. Aproveita o teu hedonismo como uma bênção da sociedade contemporânea. Dança com os ruídos mecânicos das tuas hormonas, mesmo que ninguém te tenha ensinado a dançar. A dança é apenas um movimento insano. Dança sob o brilho de um sol fumarento em lenta combustão.
Não permitas que os teus acessórios se tornem indispensáveis neste mundo realmente virtual.

quarta-feira, maio 02, 2007

Piscina de Fígado

Imaginem uma claque de futebol a cantar a brejeirice foleira, passe o pleonasmo, de “Tu Nunca Andarás Sozinho”. E depois a incentivar “Piscina de Fígado! Piscina de Fígado! Piscina de Fígado!”. Parece mal, não parece? Mas se cantar “You’ll Never Walk Alone” e incentivar “Liverpool! Liverpool! Liverpool!” parecerá bem melhor. No limite, até merecerá louvores.
O campeonato inglês é pródigo em nomes que, em tradução muito livre, se assemelham a profundas barbaridades em português. Eis alguns exemplos: Queimadura Negra (onde joga o Benny McCarthy, ironia das ironias), Castelo Novo, Homem Unido (em versão abreviada), Presunto do Oeste, Os Passeadores de Bolton, A Boca do Porto e Lendo. Mas é a Piscina de Fígado que me enche as medidas.
Que belo nome. Nós, por cá, apostamos no pueril sufixo “-ense” para múltiplas equipas. Não tem o mesmo efeito. Piscina de Fígado, isso sim! Que bom seria ter um modesto Barril de Escrotos em Leiria ou um tímido Alguidar de Pâncreas em Aveiro – aposto que os estádios teriam mais gente, nem que fossem adeptos fervorosos de filmes de terror hard-gore. O Piscina de Fígado é o clube de qualquer assassino em massa que se preze. Com camisola vermelha e tudo, lembrando o sangue da vítima que penou em ver o seu fígado retirado a sangue frio, sem anestesia. Sim, porque quem tem a veleidade de conceber uma piscina de fígados tem de ser suficientemente macabro para retirá-los a vítimas ainda vivas, dadoras de órgãos incautas (tipo Monty Python n’ “O Sentido da Vida”), e amontoá-los numa piscina onde todos pudessem contemplar os belos assassinatos perpetrados. Uma personagem tão mórbida que, quando nos abeirássemos dele em pleno Verão, perguntávamos:
- Eh pá, que grande casa que tu aí tens! E está cá um calor… Posso dar um mergulho na tua piscina?
E ele respondia-nos:
- Eh pá, é melhor não… depois de tantos assassinatos, comecei a colocar os fígados na piscina. Água só na torneira… a banheira tem os rins e a garagem as cabeças. Posso cortar a tua mão para fazer um cinzeiro?
- Pois não, corta-me a esquerda, por favor! Preciso da direita para serrar pescoços de crianças desdentadas! – esta última parte já não faz parte da fantasia, mas adiciona um toque ainda mais negro.
Conclusão: os adeptos da Piscina de Fígado são psicopatas ou descendentes deles. E ainda por cima, arriscam-se a ganhar mais uma Liga dos Campeões e a pintar de sangue o tapete verde de Atenas. Os jogadores da Piscina de Fígado são autómatos, vide Robbie Fowler e Peter Crouch. Não têm fígado. Se na Académica da lusitana Coimbra a praxe passa por receberem uns calduços na entrada em campo, enquanto correm em cima de batinas pretas, na Piscina de Fígado a praxe aos jogadores novos passa pela remoção das vísceras. Os adeptos exultam, os jogadores dissecados metamorfoseiam-se em mortos vivos com movimento, devido à ajuda de menos alguns gramas de órgãos que antes dificultavam a locomoção. O próprio norueguês Riise parece exangue por efeito dessa operação.
Os Beatles, ou “Os Ezcaravelhus”, provinham da Piscina de Fígado. Além do mais, o bar onde tocavam inicialmente designava-se “A Caverna” – tudo é sintomático do negrume espiritual associado à cidade. Os Beatles são produtos genuínos dessa terra atroz. Os Beatles merecem todo o desprezo que a Igreja lhes quis dar nos anos 60 só por esta razão ímpia. O John Lennon veio depois com os dias de cama pela paz, mas levou um tiro de um fanático que não lhe perdoou a traição aos princípios. O George Harrison rendeu-se lá aos deuses hindus e a toda uma espiritualidade de reconvertido, mas também já bateu as botas. O Paul McCartney, como castigo, nunca mais teve sucesso a solo. E o Ringo Starr optou pela penumbra e ninguém nos garante que já não pratique a acumulação de fígados na sua piscina.
Mais famoso que os Beatles nem Jesus; mais sádica que a sua terra nem Wayne Gacy. O próprio rio que banha a cidade é o Mersey, que é um quase, quase homónimo de “Misericórdia” em inglês. Razão: primeiro, os desprevenidos iam à “caverna” ouvir “os ezcaravelhus” com “Ama-me, Ama-me Sim”, assim como quem embala bebés. Depois, “os ezcaravelhus” e os vândalos do estádio da equipa de futebol, sediado em Anfield Road (ou “Estrada de Uma Campo”), conduziam as vítimas horrorizadas para as margens do rio e arrancavam-lhes as entranhas, perante pedidos de “misericórdia” (daí o “Mersey”). Os fígados, para a piscina; o resto, para o rio, para alimentar os peixinhos esfomeados.
Demasiada forçada esta relação? Certamente. Porém, já conheceram alguém que tivesse ido à Piscina de Fígado e tenha desejado regressar? Não, pois não? E já alguém lá foi? Não, pois não? Viagens para a Inglaterra só em low-costs para Londres, com voos de regresso a horas indizíveis da madrugada. A Piscina de Fígado não é como Portugal, onde acreditamos piamente que 90% dos turistas, quando não 100%, desejam ardentemente regressar ao nosso prendado país.
Quanto mais não seja, pela diversão. Por exemplo, ver um jogo de futebol entre o Close To The Sea e o Goodstay, que iria despertar risos no súbdito mais etilicamente carregado de Sua Majestade, fossem estes nomes mesmo traduzidos para o inglês. Ou entre um Sporting of the Birds – Goodsight. Um dos grandes tem um nome inglês, mas é um nome muito olímpico: é simplesmente “desportivo”. Um outro tem um nome demasiado simples: “Port”. “Port” de nada, nem sequer é porto de boca, de cotovelo ou de bexiga. O outro grande, sim, esse possui um nome que dá para ser glosado, ou não fosse um bairro de matriz arquitectónica urbano-depressiva-anos 60 da capital (como é, como demonstrei acima).
Mas pronto, risos são risos, são efémeros; nada se compara a um esventramento de um órgão humano, que é uma imagem forte. Espectacular, a visão de uma Piscina de Fígados ao sol, aquele vermelho vivo a escorrer sangue e o derreter daquela pasta gelatinosa consumida pelos inícios de uma cirrose hepática fulminante, sob os gritos lancinantes dos estropiados que gotejam sangue pelos dentes e sob os aplausos ébrios dos apoiantes de cachecol vermelho que nunca deixarão a sua paixão andar sozinha, não vá ela ficar igualmente sem fígado… Força Piscina de Fígado, os carniceiros estão contigo.

segunda-feira, abril 30, 2007

Teodoro, Ou Como Se Ganha a Vida Denunciando a Destruição de Ninhos de Cegonhas

Teodoro. Uma no cravo e outra na ferradura. Orgulho nacional sombriamente recolhido lá para os lados de Alcácer do Sal. Fervor e ecologia. Tempo livre e bizarrias. Teodoro não gosta de jogar às cartas no jardim. Embirração e sisudez. Teimosia e curiosidade. Teodoro não trabalha. Não estuda pelos livros, estuda pela vida.
- Estas aves não mudam de parceiro, não mudam de casa – confia-nos, com a sedução ornitológica impregnada na sua voz.
Fidelidade e admiração. Culto e devoção. Teodoro dedica-se à observação de cegonhas. As aves que trazem bebés de Paris. Espécie protegida até ao tutano. Podemos sacrificar vilas e cidades inteiras. Mas não o ninho da cegonha. Preservação e conservação. Prioridade e primazia. Teodoro. Onde haja um poste de alta tensão à beira da auto-estrada, estará Teodoro com os seus binóculos, recolhendo fragmentos da intimidade das cegonhas. Olhos alertas. Espionagem e voyeurismo. Cuidados e cautelas.
- Eu processo quem ousar chegar perto dos ninhos. Esses malandros da EDP já me conhecem.
Na EDP, efectivamente, todos conhecem Teodoro. Também na REN, na Quercus, em vários Institutos nacionais. Lá vai Teodoro. Mais uma atrocidade cometida contra as cegonhas – desta vez, queriam mandar abaixo um poste ferrugento junto ao rio Sado. Não pode ser. Inquietação e indignação. Processos e manifestações. Não interessa se o poste iria servir para melhorar a vida de 15.000 pessoas, no mínimo. Não. Interessa que iria prejudicar uma família de cegonhas. E depois, onde estaria a imagem da harmonia familiar, donde viriam os bebés, quem iria tratar dos peixes e lagostins do rio? Denúncias e exposições. Mediatização e consternação.
- Não podia deixar passar em claro – explica-nos Teodoro – Na 3ª feira, lá pelas 5 da manhã, levantei-me para ver como estava a família do 4º poste a contar da ponte, umas cegonhas porreiras, pássaros elegantes e bem formados. E dei de caras com uma equipa furtiva de engenheiros a fazer marcações. Aproximei-me. Os tipos, surpreendidos por verem alguém por ali àquelas horas, borraram-se logo todos. E eu, “Então, o que estão para aí a medir? É bom que não tenha nada a ver com aquele poste… Sabem porquê?”, e os gajos, todos acagaçados, já a quererem fugir, a gaguejar, lá sabiam porquê, “Por causa das cegonhas?”, responderam a medo. E eu disse-lhes, “Ah, pois é. Digam-me para onde trabalham e vou processá-los por atentado contra a Natureza”. E assim foi.
Obstinação e raiva. Amor e princípio. As cegonhas sentem-se seguras. Policiamento e segurança. Por amor à Natureza, Teodoro já impediu várias urbanizações, linhas de transporte eléctrico renovadas, campos de golfe, fábricas, bordéis, escolas de arte plástica, um novo campus universitário, tanta coisa que já não se lembra. E tudo porquê?
- Pelas cegonhas. E também pela publicidade. É que depois de ter impedido tanta coisa, não sei porquê, as coisas não se desenvolvem cá pela terra. É só coisas antigas lá na vila, as pessoas fogem daqui, fogem de mim, inadvertidamente fiz com que dois amigos meus falecessem numa discussão acalorada com a minha bazuca de bolso, tenho de combater a modorra, apesar do número de cegonhas ter crescido bastante nos últimos tempos e do meu trabalho de observação ter aumentado das 12 para as 14 horas diárias, excepto ao Domingo. Ah, e cerca de 20% das indemnizações que recolhi foram para mim. Sim, também pelo dinheiro. Nem todos os seres são perfeitos. Só a monogamia das cegonhas, claro, isso não falha. Animais fantásticos!
Fantasia e realidade. Teodoro. O inquinador de projectos. Espalha-brasas inveterado. É esta a sua vida. Vivam as cegonhas, viva Teodoro, vivam as forças de bloqueio. Em prol de qualquer coisa superior. Pode ser essa ave migratória, fomentadora da natalidade. Liberdade e acusação. Determinação e caricatura. Loas a Teodoro.

segunda-feira, abril 23, 2007

Burro

Aceita o teu papel. Deves submeter-te à rotina. Deves produzir. Deves servir. Deves estar satisfeito com o teu progresso. Com a tua casa. Com o teu carro. Com a tua mulher que passa horas ao telefone. Horas no cabeleireiro. Horas nas montras. Horas a debitar palavras sem grande sentido. Mas não serás tu também um ser oco? Oco de objectivos? Oco de conhecimentos? Onde está a tua história? Para onde vai o teu futuro? Sentes-te igual, sentiste uma vontade súbita de ser diferente. Mas nunca foste. Para quê aborreceres-te? Para teres complicações? Atrasos? Desprezos? Humilhações? Desafiar o quê, afinal? O que há para desafiar? Mas quem é que se deve desafiar? Onde está o poder? Onde está a reacção? Mas o que é que estão para aí a dizer? Será que o erro é apenas teu? Assume que o erro é só teu. Sê eficiente na atribuição da culpa. O mundo construiu-se pela justaposição de convicções muito correctas, disso não duvides. Não vale a pena tentares encontrar infiltrações nesta sociedade. A sociedade é um buraco negro em si mesma, absorve tudo, não deixa passar nada aos olhos de quem a aceita tal como ela é. Deixa-te ir como tens vindo. A chave para a tua saúde mental está na resignação. É muito mais simples deixar o peso recair sobre ti do que andar à procura de outro burro de carga. Ou a carga vai acabar por apodrecer no chão. Prefere o grão de arroz certo à sapateira desconhecida. Remete os teus sonhos para uma matiné do fim-de-semana e puxa o lustro ao teu soalho enquanto o peso da frustração te vai inclinando em direcção ao chão. O que mais te faz falta? Mas queres ser o quê, uma realeza dos contos de fadas? Queres o quê? Reconhecimento pela tua nulidade? Parabéns pela tua mediocridade? Abraços pela tua rudeza? Tens uma parede de elástico à tua frente que devolve todos os teus pensamentos menos próprios de volta à proveniência. Emites sons que não se ouvem no vácuo quotidiano. Tens uma cenoura à tua frente que cintila de vez em quando e que nunca te passará despercebida. Mas tens essa estranha veleidade de revelar laivos de inconformismo de tempos em tempos. Inconformismo? Para ti é-te suficiente escrever pataquadas? Vestir trapos? Idolatrar mortos? Frequentar comícios de bandeira ao vento? Ser o outro lado do espelho dos mongolóides que atacas no teu quarto? Isso é o teu inconformismo? O que é isso? É melhor que aceites o teu papel.

quarta-feira, abril 18, 2007

Antes Quebrar Que Torcer

O futebol sempre foi pródigo em expressões peculiares. As célebres tiradas de cariz Gabriel-Alvista, do género “remate com o pé mais à mão”, “pontapé de ressaca da meia-lua”, “colocar toda a carne no assador” ou o contemporâneo “autocarro em frente da baliza”.
(Uma nota antes de prosseguir: o Senhor Gabriel Alves não merecia ser escorraçado como um cão velho e doente, depois de tantos e tão bons serviços prestados, de tanta dedicação e de tanta metáfora atirada para o ar no auge do seu delírio apaixonado pelo jogo… para mais, havendo por aí alguns pseudo-comentadores que só dão vontade de colocar a televisão em “mute”.)
A expressão que propunha lançar em cima da mesa para reflexão não é exclusiva do futebol. Mas certamente que já utilizámos sobre determinado jogador, ou treinador, a frase feita – “antes quebrar que torcer”.
Esta descrição, quando aplicada a um jogador de futebol, revela-se cinematográfica. Geralmente, visualizamos na nossa cabeça um jogador de sobrancelhas carregadas, lábios cerrados, um pouco de baba a escorrer pelo canto da boca, peito autoritário e inchado, punhos fechados, resistência física assinalável e, acima de tudo, um dom profícuo para jogar com os pitons levantados, acertando mais nos outros corpos e menos na bola. Um jogador com reconhecidas limitações técnicas, mas com uma enorme disponibilidade para o choque e ávido pelo confronto corpo-a-corpo. Um jogador sem conhecimento do conceito de “fair-play”, mas com elevada probabilidade de cair no goto dos adeptos mais assanhados da sua equipa, tal a fúria destrutiva e o desprezo por qualquer esboço de misericórdia pelo adversário. Enfim, imaginamos Paulinho Santos (na foto, é o tipo de azul e branco; não confundir com Rosicky, o checo que joga à bola e não quebra nem torce).
Paulinho Santos era um jogador que “antes quebrava que torcia”. Literalmente. Mas se torcesse um pescoço aqui ou além também ficava feliz. Todavia, a quebrar é que ele se especializou. As caneleiras nos anos 90 em Portugal eram produtos já de certa forma evoluídos, mas nunca nenhuma conheceu um antídoto anti-Paulinho Santos por detrás da sua massa carbónica. E Paulinho quebrava o que lhe aparecia à frente com um brutal instinto assassino. Depois das caneleiras, partiam-se as próprias pernas adversárias e canas do nariz, rebentavam-se uns cocurutos e rasgavam-se umas camisolas. Sim, porque ao artista do “antes quebrar que torcer” exige-se um reportório mais alargado que o simples carrinho sem timing ou a corriqueira cotovelada marota nas costas do árbitro.
Paulinho Santos gostava de quebrar. Era assim, o miúdo. Mesmo nas comemorações dos golos da sua equipa, Paulinho não condescendia. Domingos Paciência, nos seus tempos áureos, chorava quando marcava um golo. Primeiro, de alegria. Depois, de dor – é que Paulinho Santos felicitava o marcador do golo com sonoras cacetadas de mão aberta na cabeça do referido, no qual era coadjuvado por outros nomes ilustres na arte do festejo em bruto, como Fernando Couto, Secretário, Folha ou João Pinto, assumindo-se como um líder das tendências no balneário. Era ver Domingos a fugir e Paulinho, qual voraz caçador felino, correndo atrás dele como se estivesse a perseguir João Vieira Pinto, a espetar-lhe com um, dois, três, quatro calduços bem aplicados. E toda a gente achava-lhe imensa graça.
Quer dizer, nem tanto assim. É que isto do “antes quebrar que torcer” tem um toque eufemista. Para os adeptos do jogo viril (outra maneira de dizer jogo a descambar para a violência), Paulinho era um rapaz humilde, com espírito de equipa e de vitória, fiel a 100% para com o emblema que defendia com unhas e dentes (e pitons e murros e o que fosse preciso), incapaz de dar um lance como perdido ou de parar de correr durante os 90 minutos. Porém, para muita gente não adepta do FC Porto, Paulinho era apenas “sarrafeiro”, “sanguinário” ou “%&#$%&!”, sem qualquer valor intrínseco enquanto futebolista, estando no campo apenas com o intuito de desbastar pernas, amassar ossos e tingir de sangue os seus dentes. Isso do “quebrar antes que torcer” era apenas para entreter os parvos, conversa fiada impingida pelo “sistema”, porque na realidade o Paulinho devia ser banido antes de entrar em campo, apenas tendo em consideração o espírito de preservação do bem-estar físico dos seus adversários. E, para esses mesmos adeptos, Paulinho será para sempre o exemplo acabado do “trauliteiro”.
Não que Paulinho Santos fosse o único a “quebrar antes que torcer”. Hoje em dia, temos o novo profeta da expressão, o homem que arrastou o conceito do campo para o banco das tácticas: Jaime Pacheco (na foto é o careca). Se Paulinho impunha a sua “stamina” no relvado, Pacheco gesticula de olhos abertos junto à linha. Se Paulinho ia de perna levantada, Pacheco vai de fato de treino a exigir menos “jogo bonito”. Se Paulinho reclamava testa-a-testa com o árbitro no relvado, Pacheco reclama testa-a-testa com o árbitro no túnel de acesso. Irmãos ideológicos, ambos partilham a máxima do “antes quebrar que torcer” na sua plenitude. Se Paulinho ainda jogasse à bola, Pacheco reservar-lhe-ia um lugar cativo no onze, em qualquer lugar da defesa ou meio-campo. E de certeza que os avançados contrários iriam temer esse jogo.
Atentem bem nas personagens que “antes quebram que torcem”. Quase todas são nortenhas. Praticamente todos os utilizadores desta expressão são nortenhos. Em paragens mais meridionais não é usual encontrar muitos casos de “quebrar antes que torcer”. Coincidência? É um tema que fica para meditar.
É por estas e por outras que o futebol é rei – mesmo sem bola dá que falar e que pensar. Imaginem falar de automobilismo sem motor ou de boccia sem cadeira-de-rodas…