sexta-feira, junho 15, 2007

As Interrogações dum Actor Pornográfico

Porque é que insistes em perguntar-me se estou a gostar?
Porque é que tens essa tendência irritante para corroborar o êxtase do nosso acto sexual, afirmando ofegante “É bom não é?”
Porque é que a tua amiga nos olha de boca aberta, lambuzando o seu batôn vermelho vivo, enquanto acaricia, com os seus dedos das mãos ostentando unhas pontiagudas e berrantemente envernizadas, o clítoris bojudo a descoberto dos pêlos púbicos podados com perícia meticulosa que exibe, alarve, no sofá do Ikea, não ousando sequer retirar os sapatos de salto alto nem o cinto de ligas que teimosamente preserva em cada menàge-á-trois que ocasionalmente praticamos por aqui e por ali, respondendo com olhos semi-cerrados pela suposta excitação profunda que retira em observar-nos, numa dolência possuída: “É muito booooooom…”? Como é que ela sabe que nós achamos que é bom?
Porque é que mènage-á-trois é a única coisa que sei parafrasear em francês?
Porquê é que repetes “Sim! Sim! Sim!” em simulações orgásmicas apenas pelo vislumbrar do meu corpo ou de outros corpos desnudos que aparecem em género de carrossel hedonista e leviano à tua volta, como se tudo fosse novidade para ti: “Ai, que grande mastro que tu tens…”?
Porque é que alternas súbitos momentos de altruísmo corporal, manifestados através da tua extrema disponibilidade em acorrer a todos os pénis que surgem perante ti, com intensas demonstrações de egoísmo, ao quereres açambarcar as actividades desenvolvidas pelas tuas colegas: “Não chupes tudo, que eu também quero”?
Porque é que te alongas em comentários desbragados à tua própria voluptuosidade, com cínicos e pretensiosos louvores pessoais às tuas características despudoradamente exibidas, tipo “Gostas de ver a minha ratinha molhada toda aberta para ti?”, como se alguém retirasse enorme satisfação pela tua auto-adulação verbal, ou como se todos alcançassem um clímax reforçado pela simples sonoridade das tuas sugestões?
Porque é que reclamas que te dê sempre com mais força nesses orifícios sub-lombares? Será que queres que te rebente com todos os hímens imaginários que ainda pensas deter ou queres que te faça cócegas no esófago?
Porquê essa notável confusão entre sexo e amor, tu que tratas todos por “amor”, mesmo que seja a primeira vez que os vês, é “amor” para aqui, “amor” para acolá, “fazer amor” assim, “toma lá amor” assado, mas afinal só queres é sexo, sexo e sexo? E, já agora, ainda mais sexo?
Porquê esse fascínio pelo masoquismo do “Fode-me! Fode-me toda!”, se já não é isso que te estou a fazer nesse momento? Será que o sexo violento te faz assumir uma outra personagem que, paradoxalmente, só pensa em sexo violento, numa espécie de espiral para o infinito tipo lata de fermento Royal?
E porque é que não manténs essa atitude masoquista no teu dia-a-dia e não pretendes ser “fodida” toda a tua vida, em toda e qualquer situação, por toda e qualquer pessoa, de forma a, pelo menos, atingir um certo grau de coerência, mesmo que, se assim fosse, a tua vida seria um autêntico pantanal sub-humano (e talvez até já seja)?
Porque é que não resistes quando me vês chegar, sozinho ou em grupo, e não tens a mínima veleidade ou vergonha de acasalarmos em qualquer ocasião, seja ela uma recepção protocolar a um bispo evangélico, uma reunião de alcoólicos anónimos, uma familiar ceia natalícia ou mesmo quando chegas cansada após um corriqueiro dia de trabalho?
Porque é que manténs essa curiosa tendência para te masturbares em qualquer situação que presencias outro alguém a procriar, sem qualquer pejo em destapar e apalpar os teus seios nem em, mais uma vez, acariciar o teu sexo, por muito inconveniente que seja o local e o tempo?
Porque é que te rodeias de outras mulheres ainda mais deslambidas e atraentes que tu e não te importas minimamente em partilhar-me com elas, com o eventual ciúme a surgir apenas muito após a inevitável orgia?
De onde vem esse inusitado descontrolo de emoções que te leva a amar profundamente sob a forma de sexo oral qualquer estranho que se aproxime de ti quando estás em pleno acto sexual?
Porque é que nunca te cansas de sexo em grupo, com duplas e triplas penetrações simultâneas, com todas as tuas amigas a assistir e com estas, corajosamente mas sem constrangimentos alguns, a participarem activa e alegremente nas tuas orgias que espontaneamente cultivas em todos os eventos sociais em que participas?
Porque é que te sentes atraída por chineses anões, pretos gigantes, animais inocentes e barbas de ZZ Top de igual forma sem nunca emitires um sinal de desagrado nem parares de gemer ou contorcer-te de forma sonora e veemente?
Porquê é que o lesbianismo nunca foi um tabu para ti?
Porque é que retiras enorme prazer em lamber qualquer parte de qualquer corpo humano e te comprazes com os fluidos vaginais das tuas primas e tias, da mesma forma como te regalas com o sémen, urina, champanhe, fezes, iogurte, ovos moles de Aveiro, qualquer coisa que o teu garanhão te derrama em cima dos olhos e da boca? Nunca te ensinaram que os verdadeiros suplementos vitamínicos vendem-se na farmácia?
Enfim, não devias ser-me um ente estranho. Apenas acho que finges demasiado mal. Ao menos, que o dinheiro te faça jeito.

quarta-feira, junho 13, 2007

Eu Sou Arraçado do José Couceiro

Pais, Sidónio (SI) – Não me conformo!
Dassaev, Rinat (DA) – Toma um rebuçado Dr. Bayard e isso passa.
SI – Irra, pá! Isto deve ser a minha sina por ter tentado ser um protótipo de ditador popular em plena Guerra Mundial!... Malditos rapazes republicanos!...
DA – O Dr. Bayard era até há pouco tempo produzido no coração da Amadora. Tem selo de garantia. Medalhas de distinção. Prestígio consolidado.
SI – Não tenho nenhum problema de estômago. O meu problema é sexual.
DA – Ah é, SI?
SI – Sim, DA. Não consigo ter um bom desempenho sexual com a minha mulher.
DA – Nem com um rebuçadinho do Dr. Bayard a caminho do Portugal dos Pequeninos?
SI – Qual quê. Tenho sinais perturbantes de perda de erecção. A impotência progride com uma sádica voracidade sobre o meu outrora robusto ornamento fálico.
DA – Eu sou daquelas pessoas que não consegue andar de cabeça levantada no Portugal dos Pequeninos. Aquele empreendimento fascizante oprime a minha dignidade.
Luís Gomes – Sou ou não sou parecido com o José Couceiro?
SI – Se calhar, o problema não é só meu. Noutro dia, dei com a milha mulher a retirar o seu tampão e vi-a a menstruar-se. O conteúdo da sua menstruação não me agradou. O sangue, além de fétido, parecia coagular-se com pedaços de…
DA - … rebuçados Dr. Bayard?
SI – Não, diria mais pezinhos de coentrada. Ou peixinhos da horta. O que é que parece mais nojento?
DA – A receita dos rebuçados Dr. Bayard é o quarto segredo de Fátima. Directamente do santuário para um edifício habitacional reconvertido numa praceta da Amadora.
SI – O sangue vertia pelas suas pernas como se estivéssemos a abrir uma lata de concentrado de tomate: maioritariamente, uma solução líquida; porém, com inquietantes pedaços sólidos que ribombavam quando se esparramavam no bidé. Depois de presenciar aquele horror gráfico, ainda tentei uma confraternização pacata, fomos colocar amendoins na tromba do elefante no Jardim Zoológico. Mas quando dei por mim…
DA – (Olha lá só isto que eu vou fazer) Estás a ouvir, pá, confias mais no Dr. House ou no Dr. Bayard?
Fox Mulder – Doctor Who?
DA – Pois, vocês os das séries são todos uns corporativistas, é o que é.
SI - … quando olhei à volta, reparei que a minha mulher estava a praticar sexo oral com o paquiderme, enquanto eu me entretinha a alimentá-lo. Foi deveras desanimador, até senti o riso das hienas perpassar a minha pele. Mas o que realmente considerei abjecto foi a quantidade de sémen segregada por aquele quadrúpede imponente, quase que afogou a minha esposa numa pasta viscosa esverdeada carregada de espermatozóides gigantes. Não que ela se importasse; aliás, ela absorveu todo aquele repuxo como se de uma monção sagrada se tratasse, lambendo encarecidamente todas as gotículas que lavavam os seus óculos Ray-Ban e todos os pequenos resquícios que se demoravam no interior da uretra. E isso enojou-me, fez-me perder o interesse, tanto por ela, como pela zoologia enquanto uma ciência que estuda comportamentos e relações animais.
DA – Por mim, África só será África com rebuçados Dr. Bayard. E não digo isto por dá cá aquela palha.
Luís Gomes – Eu só quero que me digam se não sou parecido com o José Couceiro.
SI – E a forma como ela corta as unhas dos pés? Sabeis que os Adiafa não ficcionaram para compor o êxito “As Meninas da Ribeira do Sado”? Foi a minha esposa que lavrou as terras para eles. Depois de muita sodomização colectiva, evidentemente. Não compreendo qual o prazer da sodomização em função das actividades agrícolas. Ainda por cima, sodomização fomentada por uma cooperativa agrícola que utilizou meios de produção nacionalizados nos tempos da Reforma Agrária. Não devia haver misturas: arado é na terra, sodomizar é enterra.
DA – Para um desenvolvimento sustentado das unhas dos pés recomendo amor, carinho e rebuçados Dr. Bayard. Ou não fosse eu um completo cliché.
SI – Mas a maneira como ela trincava as fatias de unhas, que ela mesma arrancava em delírios contorcionistas dos seus próprios dedos calejados e invadidos por joanetes de cariz semi-impressionista, isso sim, aplicava o golpe de misericórdia na minha libido. Aqueles nacos infectos e mal-lavados a acotovelarem-se por todas as suas cavidades dos dentes e a refulgirem ao sol, riscando o batôn dos seus lábios e sintonizando-se num perfeito contraste com os dentes apodrecidos que ela tão briosamente lutava por conservar…
DA – Dizem que na compra de um cinto de ligas da Sloggi ganhamos um saco de rebuçados Dr. Bayard.
Robert Mugabe – Will you just shut the fuck up?
DA – Mais um que não sabe apreciar a lingerie… enfim…
Luís Gomes – Tenho ou não tenho evidentes semelhanças físicas com o José Couceiro?
DA – Bolas, que este gajo é repetitivo! Que é que queres afinal? É bom que tenha algo a ver com rebuçados Dr. Bayard…
Luís Gomes – Se me disserem que eu não sou parecido com o José Couceiro, eu escuso de me vestir todos os dias com esta farda de sargento. Eu só uso a farda todos os dias como factor de diferenciação.
SI – O hábito não deve fazer o monge. Mas, pronto, eu digo que não, só para poderes ir à vontade com a tua criança ao parque de diversões envergando uma roupa menos ridícula que não a embarace.
Luís Gomes – Obrigadíssimo. Podeis retomar o diálogo.
SI – Falávamos sobre o quê?
DA – Ou era sobre a inutilidade das grandes enciclopédias na sala de estar ou sobre os rebuçados Halls Mentho-Lyptus.
SI – Não era Dr. Bayard?
DA – Eles venderam-se ao grande capital. São um logro. Burgueses cheios de jactância.
SI – Está bem… Faz-se tarde, tenho de apanhar o transporte para Ranholas.
DA – Fazes bem, Meleças não é sítio para ti, respira-se muito fumo intelectual. Vais apanhar o transporte a Entrecampos?
SI – Não, pá, vou apanhar o comboio na Estação do Rossio.
DA – Se fosse eu a ti não ia para a Estação do Rossio. A História diz-nos que tu morres lá. E, para além disso, está fechada.
SI – Mas nós não queremos mudar a história, pois não?
DA – É melhor não. Depois ainda aparece algum maluco qualquer com uma factura histórica para nós pagarmos e é o ver se te havias. Vai lá morrer como deve ser.
SI – Vens comigo?
DA – Não, deixa estar. Vou ficar por aqui a ver se a fila para os Pastéis de Belém começa a avançar. Queres um rebuçado Halls Mentho-Lyptus?

Balde de Mel

Digamos que não há ex-passos certos. Há bilhetes de identidade trocados em plena revolução tecno-ilógica. Onde está o choque? Aqui atrás, bem em cheio no pára-choques, o airbag da realidade lá me acomodou sem evitar-me uma ferida bem sexy no sobrolho, foi um comboio de palavras desenfreadas em velocidade de cruzeiro que me abalroou neste Domingo à tardinha, mas a gasolina bem que pode aumentar que o meu motor continuará a bombar. Dás-me o teu corpo e eu dou-te o meu bacio que religiosamente conservo sob a mesa-de-cabeceira. A urina morna parece-me mel, e a ti, que te parece? Uma partilha de defecações mentais não nos faria pior. Estamos ou somos? Vamos ser honestos o suficiente para assumirmos que nos deliciamos com as lúgubres carícias do show-bizz. Que nem nos importamos de figurarmos como entidades super-supra-sumamente inconscientes lá bem no fundo do nosso metropolitano neurológico. E, já que conseguiste penetrar mas levaste com as cancelas no lombo, percorramos a via láctea de todos os nossos neurónios à procura de novas espécimes desodorizantes da nossa alma. Cheira-me que o rebanho tem fascínio pelo lobo, mas este apenas sabe o que é ver séries juvenis pré-noticiário das oito. E fica para os anúncios sem perceber porquê. Parecemos todos diferentes mas afinal a impressão não conta para nada. Imprimem-me a laser num papel reciclado e sirvo para acumular pó no curral das suas vicissitudes mundanas. Isto quando não me encravo nas rotativas, alavancas e patilhas da sua imperfeita máquina de vaidades. É bonito, foi bonito, sentimo-nos todos muito bem quando nos aconchegam o pêlo pelo pêlo. Quando quiseres, fecha a porta, que eu faço de conta que não te vi a engolir o teu próprio vómito.

quinta-feira, junho 07, 2007

Os Profissionais da Ajuda

Naquelas distracções diárias, Firmino abandonou o seu livro em cima de uma máquina de pagamento, das muitas do parque de estacionamento de uma grande superfície comercial. Dois indivíduos nas imediações aperceberam-se do sucedido. Pegaram no livro e chamaram por Firmino, antes que este alcançasse a viatura.
- Senhor! Ei! Ó chefe!
Firmino voltou-se e imediatamente reconheceu o seu lapso. Agradeceu pela atenção alheia.
- Muito obrigado – e, dito isto, encaminhou-se de novo para o seu automóvel.
Os dois indivíduos ficaram perplexos, entreolhando-se com admiração, espanto e, lá bem no fundo, indignação.
- Mas o que isto, pá? – soltou o mais alto dos dois. Descrevamos a personagem: Aurélio Flexiseguro, natural do Fogueteiro, idade incerta, 81 kg., 184 cm., tem namorada e gosta de tratar de peixes. Sabe confeccionar maravilhosamente Bacalhau à Gomes de Sá.
- Este gajo passou-se! – aquiesceu o outro. Não descrevamos esta personagem, não vale a pena. Este é somente “o outro”. Pronto. É só isto.

Não, não digo mais nada.

Já disse que não vale a pena. Ele é “o outro” e mais nada. É um tipo perfeitamente normal.

Não há nenhum mistério. Descrevi o Aurélio e este não me apetece descrever, só isso. Não há nada de mais com isso. Já chega.

Não, não estou a fazer birra. Não o descrevo.

Ponto final.

Vamos continuar com a estória?

Não sei se devo escrever “história” ou “estória”… Adiante.
- Ó amigo! – clamou o outro.
Firmino virou-se outra vez, pensando que se esquecera também da caixa de preservativos com sabor a morango em cima de um sítio qualquer. Ou dos comprimidos para a memória, talvez. Quais preservativos? Ele precisava de preservativos? Para quê? Ele nem gostava de morango… Esperem aí: e seria ele a chupar o pedaço de látex? Como assim? E que comprimidos? Teria ele problemas de memória? O que quereriam aqueles dois?
- Então como é que isto, chefe? – questionou Aurélio, retoricamente, abeirando-se de Firmino. Este, por seu turno, olhou em interrogação a dupla.
- Isto o quê?
- Isto o quê?!? – repetiu, num tom mais acintoso, o outro – Então mas ainda tens a lata de perguntar, pá?!?
- N… Não estou a perceber… - perturbado, Firmino não percebia patavina – O que aconteceu?
- O que aconteceu foi que te fizemos um favor agora mesmo, ou já não te lembras? Estás esquecido, é? – prosseguiu, num registo muito retórico, Aurélio, gesticulando com movimentos vigorosos.
- Vocês também encontraram os preservativos, foi isso? – arremessou Firmino, numa ténue esperança de ter acertado em cheio no submarino. Mas isto não é batalha naval. Sim, não há porta-aviões em “T” nem barcos de três canos numa folha quadriculada. De qualquer forma, foi em cheio na água, chapa de pança dilatada pela cerveja em esplanadas à beira-mar no Verão na parede do mar, em choque directo com ondas impregnadas de sedimentos minerais diversos nas praias do barlavento. Onde é que ia Firmino? Ah, na cerveja na esplanada… não!, nos preservativos, nos preservativos é que ia.
- Preservativos? Ó amigo, tu não estás lá muito bem, pois não? Mas nós não queremos saber disso, nós queremos é que tu nos agradeças como deve ser, ‘tás a perceber? Preservativos… pfff! – enojou-se o outro, desagradado com a petulância idiota de Firmino.
- É mê’m’isso, chefe! Um agradecimento como deve ser. Afinal de contas salvámos-te o livro… - e Aurélio, após reparar no livro que Firmino ainda agarrava nas suas mãos, retirou-lho bruscamente da sua posse – E vê lá tu, o outro, que o livro até nem parece muito mau. Já viste, o outro?
- Qual outro? – perguntou o outro. Aurélio deu largas à exasperação que começava a ferver no seu sangue:
- O outro és tu, animal! Eu não tenho culpa que nem te tenham descrito como deve ser! Não te estava a perguntar pela opinião de outro livro qualquer, estava-te a perguntar se já tinhas visto este livro que eu tenho aqui, que é “Salazar e Maradona Partilham Um Risco de Coca – Um Conto Infantil”, da Editorial Vereda Tropical. Um livro jeitoso…
- Eh, pá, esse ainda não. Mas por acaso já tenho vindo a reparar que a Editorial Vereda Tropical anda claramente a tentar recuperar o terreno perdido no segmento infanto-juvenil… ainda no mês passado, editou a colectânea das tiras de banda-desenhada do João Baptista-Morgue, aquela do Capitão Vasilhame, um hipopótamo assassino residente no porto de Brugges. Muito bom, especialmente nos acabamentos, que incluem uma capa inteiramente produzida com restos de pele de criança vietnamita e sangue verdadeiro dum wombat australiano nas ilustrações das páginas centrais. Foi uma pedrada no charco, não tenho dúvidas.
- Muito melhor que o Noddy – assentiu Aurélio.
- Ah, doutra galáxia… - quantificou o outro. Firmino quis intervir:
- E vocês deviam ter lido o livro “As Mil e Uma Peripécias do Ratinho Peidinho”, é só rir do princípio ao…
- Está bem, ó amigo. Já vimos que prezas o teu livro. Então ainda nos dás mais razões para não compreendermos porque é que tu não nos agradeceste à maneira…
- Mas eu agradeci!... Disso eu lembro-me! – verbalizou Firmino a sua defesa, consciente de ter cumprido todas as regras da boa educação. Mas e se ele deixara os preservativos ao alcance das crianças? O que fariam elas com o achado? Deitariam os preservativos pela sanita abaixo? Reutilizariam os preservativos como balões de água? Aproveitariam a oportunidade para debutarem no amor com as suas priminhas de maminhas arrebitadas do Minho? Para quê uma dúzia, não teria bastado uma caixa de seis?
- Olha para ele… agradeceu… chamas àquilo um agradecimento? “Muito obrigado, uma merda para a tua cara, és um totó”? Nem tiveste a veleidade de sorrir nem nada, foi um cumprimento ressentido e amarelo, tu nem sequer sentiste o que disseste…
- Não notei um pingo de intensidade dramática… - juntou-se o outro, explicando as razões da interpelação do par a Firmino – Podias ter ao menos dado um “passô-bem”, uma palmada nas costas, eh pá, alguma coisa mais substancial. A mim pareceu-me que estavas um pouco nervoso e que quiseste despachar-nos… Ficou-te mal…
- Queremos mais do que isso. Tu consegues fazer melhor – incentivou Aurélio. Firmino acalmou-se: ahá!, talvez os preservativos tenham ficado no carro, afinal. No resguardo da sua porta. Esperem lá: a porta não tem resguardo. Ou tem? Mas qual foi a sua ideia de deixar os preservativos no carro? Como é que Firmino fode no seu carro? Nunca experimentou… Ou já? Ou serão os comprimidos para a sinusite que estarão no guarda-luvas? Não eram comprimidos para outra coisa qualquer?
- Pronto, se é isso que querem… - Firmino abraçou Aurélio e o outro, dando simpáticas palmadinhas na zona da omoplata a ambos, sussurrando aos dois:
- Muuuuuuito obrigado!! Espectacular! Vocês salvaram-me a vida! Este livro é tudo para mim! Como é que vos posso agradecer?
- Agora estiveste bem. Estiveste no limiar da bajulação insidiosa, quase a perpassar o risco da adulação irritante; pronto, estiveste muito perto de passar do agradecimento para a graxa, mas, no cômputo geral, esse agradecimento motivou-me para praticar mais boas acções no futuro – avaliou o outro.
- É, eu também acho que sim. Acho que todos nos engrandecemos enquanto seres humanos neste momento. – concluiu Aurélio. Firmino preparou-se para retomar o seu caminho.
- Ó amigo, já agora… - interrompeu Aurélio – Você disse-nos ao ouvido como é que nos podia agradecer… e nós sabemos como.
- Pois é. É que, ‘tás a ver, nós somos, tipo, profissionais do agradecimento; prestamos ajuda não totalmente voluntária, no fim queremos sacar um agradecimento das pessoas… é esta nossa vida, por aí, pelas ruas, pelos parques de estacionamento como este aqui, ajudando pessoas preocupadamente a pensar na retribuição que nos possam dar…
- Nós vivemos para nos agradecerem, percebes? Somos justiceiros benquistos a actuar na sombra, tipo isso – atalhou o outro. Aurélio prosseguiu:
- Mas isto de viver da alimentação do ego não nos alimenta o estômago. Não tens aí uns troquinhos para comprarmos um bife do lombo? Uns centimozitos, devem chegar…
- Eh pá, lamento muito, deixei o resto na máquina, ao pagar o estacionamento… - desculpou-se Firmino. Ou não? Não importa, o que Firmino queria era despachar-se, ainda tinha que procurar pelos preservativos.
- Não há mesmo nada, nada? – insistiu Aurélio.
- Não, desculpem lá.
- Pronto, nós trabalhamos para o “obrigado” e temos de saber conviver com o “desculpem lá”. – cedeu Aurélio – Vamos, o outro, vamos bazar, que há muito mais gente por aí com vontade de nos agradecer pela nossa ajuda.
Afastados de Firmino, o duo cochichou entre si:
- Guardaste a caixa dos preservativos que eu achei, o outro?
- Guardei, Aurélio. Só não percebo é porque não fizemos o gajo agradecer-nos por isto também…
- Os preservativos são valiosos, o outro! Isto de vivermos dos agradecimentos é uma coisa bonita, mas nós também precisamos de foder em segurança, ou não? Eu não me arrisco naquelas ratas lá do bairro à maluca, podes crer nisso!
- Tudo bem, mas estes preservativos sabem a alho… serão assim tão valiosos?
- Ainda têm o seu valor, o outro. Há quem aprecie.

Firmino não encontrou os preservativos, depois de muitas voltas na sua viatura. Além do mais, todo este enredo impediu-lhe de sair do parque nos quinze minutos úteis que sucedem à extracção do ticket amortizado da máquina. O que se passou a seguir foi de uma brutalidade assombrosa. Verdadeiramente devastador. Firmino caíra nas teias demoníacas do destino.

Mas por agora não vou contar.

Não vale a pena. É apenas violência gratuita.

sexta-feira, junho 01, 2007

Debandemos Em Massa

É uma chatice viver em Portugal. Pessoas aborrecidas e desinteressantes, invejosas e mesquinhas, sem perfil de liderança nem capacidade de obediência. Albert Uderzo retratou os Lusitanos em Astérix como sendo indivíduos baixinhos e gordos (“Todos os imigrantes portugueses que conheci eram assim”, referiu). Simples, mas eficaz, Uderzo não estava louco e acertou em cheio. Bem que podíamos absorver um pouco da sua serenidade e seriedade analítica.
Não há paciência para “reality shows” estapafúrdios, “talk shows” inenarráveis, danças folclóricas boçais, chico-espertismo como a modalidade nacional preferida antes do futebol, génios adiados, poetas decadentes, pontas-de-lança inexistentes para tanta fartura de extremos e fraco espírito comunitário.
Se somos pessoas de bem, devíamos ter vergonha em ser portugueses. O que é que temos para mostrar, para além das belezas naturais que nada fizemos por merecer? Um elevado despesismo público e clientelismo nas esferas do poder? Ferraris a conviver com bairros sociais impenetráveis? Pão e vinho sobre a mesa da casinha bem-cheirosa e com o fado de Alfama a ecoar no incontornável bidé presente em qualquer WC? Os Jerónimos? O último lote de estrelas d’ “Os Morangos Com Açúcar”? Um seleccionador nacional estrangeiro? Estarmos perto de Espanha? Estarmos na Europa, nem que seja a fugir Atlântico adentro? A nossa miraculosa hospitalidade, que, por acaso, nunca é mostrada ao compatriota mais próximo na rua? A tendência para os homens ficarem gordos, carecas e bigodudos enquanto se acumulam nas tabernas para esquecer as suas mulheres gordas e sorumbáticas que se agregam em torno da televisão, por entre mais uma refeição desleixadamente confeccionada? O que temos, afinal? Não temos nada.
Vamos emigrar. Debandemos em massa. Vamos maturar-nos enquanto seres humanos para fora daqui e voltarmos apenas em Agosto com um DVD do Tony Carreira no porta-luvas do Mercedes.
Mas não emigremos ao desbarato, para sítios pejados de portugueses de primeira, segunda, terceira e sabe-se-lá-até-quando gerações. Locais banalíssimos como Paris, Londres, Dortmund, Newark, Lausanne, Luanda, etc.. Assim não dá: os portugueses parecem só dar-se bem quando isolados, quando aquele sentimento estranho de identificação nacional finalmente cresce dentro do português solitário, quando a saudade se transcende e passa de pieguice para valentia estóica. Isto tudo depois do mesmo indivíduo ter reiteradamente espezinhado esse mesmo sentimento de amor à Pátria durante toda a sua vida na terra natal, dizendo cobras e lagartos de todo o mundo lusitano, como justificação para os seus desatinos e azares (excepto quando joga a selecção, ocasião em que somos todos totalmente patriotas). Todavia, isolado dos compatriotas, o português é como milhafre ferido na asa – junta as suas forças e, mesmo gordo e oleoso, acaba por surpreender. No meio de semelhantes, o desmazelo é total e insanável. O rebanho divaga por críticas mútuas e culpabilização ostensiva sem nunca concretizar a intenção de partir em busca de novos prados. No fundo, como este texto que se limita ao óbvio e ao fácil: critico porque sim, porque me desresponsabiliza enquanto cidadão, porque incrimino o abstracto sem ferir nenhuma susceptibilidade particular e porque não estou para ter trabalho em pesquisar a verdadeira origem do mal. Prossigamos.
Tenho duas novidades a comunicar aos portugueses: duas terras onde a sua vergonha pode ser devidamente enterrada, onde a luz lusitana pode finalmente fulgir, qual Estrela Polar no firmamento. Duas terras onde, espero, nenhum português habita (quanto muito, haverá um brasileiro que jogue à bola).
A primeira é a simpática localidade de Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch, ou se quiserem abreviar, apenas Llanfairpwllgwyngyll. Esta vila do País de Gales, com as suas 58 letras, nas quais se encontram várias consoantes seguidas, de acordo com a boa escola galesa, certamente que será um excelente porto de abrigo ao português farto de vulgaridades como Almada ou Valongo. O nome significa “igreja de Santa Maria no fundão do aveleiro branco perto de um redemoinho rápido e da Igreja de São Tisílio da gruta vermelha”. Isto é, não sabemos bem ao certo o que significa, mas certamente que significará qualquer coisa – nem que seja um sinal de perigo, pela sua extensão e pela proximidade que nos apercebemos que existe entre o redemoinho, duas igrejas e uma gruta colorida num tom vermelho que, suponho, só poderá ser sangue, tal a gravidade do étimo.
Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch tem uma estação de caminhos-de-ferro. Reza a lenda que a vila obteve o seu longo nome propositadamente, de forma a ser reconhecida como “a estação ferroviária com a placa mais extensa de todo o Reino Unido”; normalmente, os galeses nem são assim tão absurdamente idiotas. Turistas deslocam-se lá de propósito, de forma a serem fotografados junto à enorme placa, ou seja, é tudo parte dum embuste publicitário e de uma orquestração turística. Para além do mais, a vila divide-se em Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch-uchaf, ou “vila-de-cima”, e Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch-isaf, ou “vila-de-baixo”. Uma forma engenhosa de multiplicarem placas ainda mais extensas e mais apelativas.
Sei que Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch pode não agradar aos portugueses em busca de novas sensações; afinal, trata-se de uma pequena vila com 3000 habitantes e no mesmo continente que o nosso. “Não é grande mudança; para isso, mudava-me para Santa Marta de Penaguião ou, num desvario sem precedentes, até mesmo para Aldeia Nova de S. Bento”, protestam alguns descrentes. Pois bem, querem coisas mesmo exóticas e insólitas, mudanças radicais… então tomem lá com Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokai-whenuakitanatahu. (Não tem hífen, mas foi preciso colocá-lo por motivos de formatação).
Ah, pois é, não há desculpas. Ou melhor, a única desculpa que existe é não conseguirem ler o nome da terra para onde se mudaram. É que, apesar de existirem mais vogais do que em Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch, o nome que mencionei não deixará de colocar muito boa gente sem fôlego.
Em rigor, Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokai-whenuakitanatahu nem sequer é uma terra, é um monte. Um banal monte de 300 metros de altitude. Mas não vejo nenhum inconveniente em habitar-se no sopé de um pequeno monte, se pensarmos que o objectivo final é fugir o mais longe possível do último resquício português. Este monte é neo-zelandês, nos antípodas deste cantinho, logo, o mais afastado possível do nosso rectângulo. O nome significa, traduzido do maori indígena, “o cume da colina onde Tamatea, o homem de joelhos grandes, que desceu, escalou e engoliu montanhas, [para viajar pela terra], que é conhecido como comedor de terra, tocou flauta nasal para sua amada”.
Os maoris não são, portanto, homens sintéticos. Para um monte vulgar, prestam homenagem a um homem de joelhos grandes (uma espécie de Mantorras após uma vintena de operações e injecções), descrevem as suas actividades quotidianas (percorrer e depois deglutir acidentes geográficos), as suas preferências gastronómicas (enfardar porções de terra) e actividades lúdicas (tocar flauta nasal – nasal, atente-se bem) como serenata à sua gaja. Sim, porque isto de comer terra e percorrer locais acidentados não amacia nem o mais empedernido coração de gigante. E as mulheres apreciam, para além de grandes protuberâncias corporais (os joelhos, não esquecer), um pouco de sensibilidade musical. Tudo isto concretizado num nome dum monte, que, refira-se, deve ter a altura aproximada duma mera colina de Lisboa.
A placa identificativa que bordeja o monte também já é famosa, mas, ao contrário de Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch, Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokai-whenuakitanatahu parece não ter tido origem em manobras comerciais e sim em tradições locais. É, oficialmente, o étimo topográfico mais extenso do mundo, com as suas 92 orgulhosas letras. Garantem-me que não há nenhum português por perto.
Portanto, forneci duas boas indicações como destino, dois sítios nada corriqueiros. Outros podiam ter sido sugeridos, mas, por restrições de espaço, deixo apenas estes dois. Refúgios quase perfeitos, onde a portugalidade poderá dar largas às suas qualidades e ambições. Por cá, curvamo-nos perante a insignificância de possuir um otorrinolaringologista anticonstitucionalissimamente colocado em Vila Real de Santo António. Agora, basta marcar o voo…e boa viagem!
(Fonte: Wikipedia)

quarta-feira, maio 30, 2007

Bom Dia

- Cá estou eu, Óscar Alhinho, para mais um programa da manhã. Como está o trânsito, Ilda Masnãofoi?
- Bom dia. É o caos total.
- Caos total?
- Sim, caos total.
- Mas… está assim tão mau? Estás aonde?
- Não sei bem. Vendaram-me os olhos e ataram-me as mãos, meteram-me o microfone à frente e deixaram-me com os auscultadores. Estou completamente despida, repito, estou completamente despida. Todavia, devo alertar que não estou com frio. Prometo regressar às minhas condições térmicas dentro de alguns minutos, assim que trouxerem o termómetro.
- Bem, mas ó Ilda… o que vem a ser isso?
- É uma violação em grupo. Esteve um russo em cima de mim mesmo agora… ouço algumas movimentações… penso ser um africano o senhor que se segue… isto é um caos. Já não há respeito.
- Bem, vamos a outro ponto da cidade… Bernardo Lássefoi, como vão as coisas?
- Vão bem. Estou no helicóptero a sobrevoar os principais acessos à cidade. O pessoal dos helicópteros é um fartote, fartamo-nos de cuspir lá para baixo. É só rir.
- E o trânsito, Bernardo?
- Quero lá saber do trânsito, Óscar!... Estou a divertir-me imenso, mexendo nestes botões. Mas parece estar mau.
- Está mau, é verdade, este é o ponto de situação do trânsito. O trânsito está mau. Obrigado, Bernardo. Vamos já lançar a pergunta da manhã para o fórum seguinte - o que é pior: língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani? Liguem já para o 808 777 444 111. Para já, aqui fica o novo single da Banda Filarmónica de São Gião do Vouga, intitulado “Língua de Vaca Assada É do Melhor”.

- Temos o primeiro ouvinte para o fórum… como se chama?
- Eu não tenho nome. A sociedade tirou-me o nome. A sociedade tirou-me tudo.
- Hã… Pois… O que é pior? Língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- A questão não é essa, Óscar. Já leste Matthias Jiranek ou qualquer autor da escola kankanditrista? Tu estás muito ao lado do cerne da questão, Óscar! Isto é tudo uma mentira! A realidade não existe! Tu não és eu e eu não sou tu e tu nem sequer chegas a ser tu e ele definitivamente que não sou eu nem está perto de ser tu como tu pensas, Óscar, e, no fim da linha do tempo, ninguém é tudo e nós não seremos qualquer coisa! Nós não somos nós, nós estamos noutro lado, num vazio transdimensional paralelo. Este programa não existe segundo a lógica thorstiniana e rantanplanística descrita por Tudor & Filhos no seu ensaio épico sobre mutilações de mamutes em ambientes tropicais! Nós precisamos de ser mutilados física e psicologicamente, Óscar! Precisamos de ser perversos antes de sermos pervertidos por esta sociedade, Óscar!
- Está bem, Sr.. Mas responda à pergunta e não deprima os nossos ouvintes, por favor…
- Mas qual depressão? A depressão não existe! É um conceito ultrapassado! Quanto muito existe uma transfiguração da percepção onírica que me percorre a espinha dorsal e que…
- Ohhhh! Que pena! Este simpático senhor foi abaixo… sem responder à pergunta. Sim, a realidade é tramada mas nós não queremos saber de conversas fiadas para explicar as suas frustrações… nós queremos respostas! Temos mais um ouvinte. Como se chama?
- Eu tenho a rapariga.
- Sim? Língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- Eu quero entregar a rapariga.
- Sim… entrega lá a rapariga. Mas por favor responda: língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- Eu não quero esta rapariga. Quero outra. Outra ainda mais nova. Mais loura.
- Bem, parece que estou a falar com um raptor pedófilo, certo?
- Correcto.
- A rapariga está bem?
- Afirmativo.
- Você quer trocar esta rapariga por outra?
- Efectivamente.
- E o que é pior:
língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- Você não está a perceber, eu começo-me a enervar e depois…
- Nós não queremos pessoas nervosas, sr. raptor pedófilo. Sr. raptor pedófilo? Olha… foi abaixo…. Estamos com azar, ainda ninguém respondeu à pergunta. Vamos ouvir as previsões meteorológicas enquanto aguardamos por uma resposta que tarda em chegar. De permeio, eis o som que está a colocar toda a Europa de Leste em polvorosa: o duo hermafrodita Caracolzein a cantar uma versão dos Rammstein à cappella. Recorde-se que este duo foi, até à semana passada, constituído por Björn e Anna, mas agora Björn é Utte e Anna é Christopher da cintura para baixo e Rubens Barrichello da cintura para cima. Espectacular, como só eles sabem.

- Como está o tempo, Zélia Aversetehavias?
- Vento moderado de leste de manhã e vento forte de noroeste com o decorrer do dia nas regiões altas a norte do cabo Carvoeiro, com previsão de ocorrência de aguaceiros nas regiões altas, mas com abertas para o fim da tarde nas regiões altas. Temperatura agradável para a época nas regiões altas, com a mínima a situar-se nos 9 graus e a máxima nos 21. É provável a formação de neblina ou nevoeiro matinal nas zonas adjacentes às regiões altas do litoral. Nas regiões baixas não faço ideia. Está fresquinho, pelo que sei.
- Está fresquinho, pelo que ela sabe. Agasalhe-se bem, sr. ouvinte. E já sabe o que é pior: língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani? Eis uma nova chamada. Quem fala?
- Horácio Fuimasjánãovou, de Paio Pires.
- Sr. Fuimasjánãovou, o que é pior: língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- Isso é um absurdo incomparável. Eu queria antes contar uma anedota para entreter os ouvintes…
- Não, Sr. Fuimasjánãovou, aqui quem diz as piadas sou eu. E, já agora, sabe como é que os alentejanos fazem toucinho do céu?
- Bolas, era mesmo essa que eu…
- Atiram o porco ao ar! Ahahahahahahah! Isto é humor! Isto é… Bom Dia, na Rádio Plutão, 203.4 MhZ, com Óscar Alhinho! Outro ouvinte em linha… será que é agora que vamos decidir o que é pior: se língua de vaca assada ou a nova música de Gwen Stefani? Bom dia, como se chama?
- Eulália Aiaiaiquevoucair, de Borba. Não gostei da sua piada. Você deve pensar que somos todos parvos, não é?
- Ora essa, Sra. Aiaiaiquevoucair!... Precisamos de nos rir de nós próprios, não é? Diga-nos o que é pior: língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- É preciso ser descarado! Também sei uma anedota: sabe como é que um lisboeta leva no cu de…
- Parece que a Sra. Aiaiaiquevoucair… caiu mesmo! Estamos mesmo com azar, Miriam Decoteaberto…
- De facto, Óscar. Vamos pôr mais uma música a rodar no ar. E quero ver todos de mãos em cima nos transportes públicos com esta que vamos passar! É uma loucura! São os Madredeus acompanhados pelo Coro Fúnebre constituído por Vitorino, João Gil e Rui Veloso a gemer “Ai Que Este Furúnculo Anal Não Se Vai Embora”. Fiquem lá com esta malha!

- Bem, estamos no fim de mais uma hora de entretenimento puro na Rádio Plutão, 203.4 MhZ, este é o Bom Dia com Óscar Alhinho. E ainda não sabemos o que é pior, se língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani. Temos mais alguém a querer participar… Bom dia, como se chama?
- Aníbal Estábemestá. Eu tenho uma opinião muito bem definida sobre essa temática.
- Muito bem, Sr. Estábemestá. Diga-nos o que é pior: se língua de vaca assada ou a nova música da Gwen Stefani?
- Claramente, a língua da Gwen Stefani é pior que a nova música da vaca assada.
- Como?
- Perdoe-me, o que eu queria dizer era que a Gwen Stefani assada é pior que a música da língua de vaca.
- Sr. Estábemestá, você está bem?
- Sim. Estou bastante confuso. Estou de greve. Estou mais ou menos. Não sei.
- Bem, o Sr. Estábemestá não conseguiu aguentar a pressão que envolve esta questão que colocámos para o fórum de discussão, Miriam Decoteaberto.
- É verdade, Óscar. O grande público foge aos momentos das grandes decisões. Se calhar, vou passar o “Final Countdown” dos Europe… que é para o público espevitar.
- Bolas, Miriam, cá entre nós: escusas de passar essa porcaria todos os dias. Desde 1986 que ninguém pode com isso.
- Só mais uma vez, Óscar. Vamos tornar esta manhã a manhã mais alegre e radiante de sempre!
- Que se lixe… fiquem lá com o “Final Countdown” dos Europe.

PS: Língua de vaca assada é pior que a nova música da Gwen Stefani, por uma escassa margem de 4 votos contra 3. Refira-se que Gavin Rossdale votou na nova música da Gwen Stefani.

segunda-feira, maio 28, 2007

Taça é Taça

Confesso que me assolou um pensamento impuro aquando da vitória do Sporting na Taça de Portugal. Impuro por ser uma afronta ao meu coração verde e branco, um sacrilégio às minhas convicções enraizadas desde o século passado no Estádio José de Alvalade. Mas não nego que me soube bem, este meu pensamento sportinguisticamente obsceno.
Era muito simples e consistia no seguinte: na majestosa e inusitada (e, refira-se, assaz despropositada para o cariz do troféu) festa de consagração, os jogadores preparavam-se para entrar um a um no relvado de Alvalade. Estava lá tudo a postos: o brilho dos holofotes, o som dos Delfins mais o seu “Fogo do Leão”, entrecortado com o CD da Juve Leo (já com cinco anos), videoscreens com as imagens de glória verde-brancas, “barely legal” cheerleaders apetitosas, saltitantes e sorridentes com os seus pompons verdes e as exíguas saias brancas (para condizer com a cuequinha), público ansioso e delirante arremessando confettis coloridos e os incasáveis animadores de programa, sempre de microfone em punho, incentivando uma malta já de si muito animada.
Foi nesse cenário, e imaginando uma câmara de TV de frente para a saída dos balneários, que me ocorreu o tal pensamento. Passo a explicar o contexto: a câmara já lá estava, no lusco-fusco, aguardando a saída triunfal dos jogadores do balneário, para gáudio do público, até das cheerleaders impúberes. Um rufar de tambor ecoava pelas bancadas. O animador espicaçava os nervos ao alongar-se com insistência: “Eeeeeeeeeeeeeee agoraaaaaaaaa… quem vem lá com a taçaaaaaaaaaaa?... Queeeeeeeeeeeeeeem serááááááááááááááá?…”.
Deu-me para isto, não sei se pelo nome, se pelo cabelinho que pede meças ao próprio treinador, se pela angelical cara que disfarça os instintos mais ou menos violentos, normalmente escondidos no fundo de um bom central de marcação… mas lembrei-me do Tonel, diminutivo de António Leonel, sinónimo de pipa, natural de Lourosa, formado no Futebol Clube do Porto, actual número 13 do plantel. Um bom central. Filmei mentalmente esse momento fictício. O animador exulta finalmente: “Éééééééé eleeeee… aí vem ele com a taçaaaaaaa… Aí está: Toneeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeelllllllllllllllllllll!!!!!!!!!!”. Tonel surge, rápido e sorridente, com a sua carinha de menino tímido e bem comportado, subindo as escadas de taça orgulhosamente erguida, sob o brilho dos flashes e a música dos momentos de vitória. Por norma, não seria o jogador a iniciar as hostilidades, mas para efeitos desta fantasia foi ele o escolhido. As câmaras filmam tudo com uma proximidade perturbante. É aí que o caldo se entorna: Tonel, inebriado pela conquista, tropeça no último degrau de acesso ao relvado, cai desalmadamente na primeira relva do rectângulo, bate desamparadamente com a cabeça no chão e deixa cair a taça para a vala protectora do estádio. A câmara treme com o incidente e volta-se para o animador, que, atrapalhado, tenta sorrir com a situação. O estádio emudece. As cheerleaders tapam a boca de espanto e os videoscreens param as imagens. Tonel fica agarrado à boca, gemendo sonoramente e contorcendo-se com dores; tinha embatido violentamente com a cara voltada para o chão. A música volta rapidamente a ecoar na aparelhagem, mas o mal estava feito: auxiliado por paramédicos, Tonel fica a saber que partiu os dois dentes incisivos frontais e perdeu parte da língua ao trincar-se, o que explica o sangue abundante, e é provável que não volte a jogar futebol por não conseguir encarar-se a si próprio nem o gozo dos colegas no treino; a taça, essa, escangalhou-se no cimento do fosso de Alvalade e nem as fitinhas decorativas se aguentaram – ficou feita em pedaços e nem a melhor cola do mercado fará alguma coisa de razoável com os destroços. Partidinha de todo, com lágrimas de leão a servir de mortalha à sua memória. Paulo Bento nem queria acreditar. Soares Franco pensou em devolver a taça partida à Federação como retribuição pela atribuição de bilhetes para o Jamor. O sonho leonino de acabar com mais um título na sua galeria terminava assim, com a subida de Tonel ao relvado para aclamação. Houve título, mas não houve taça. Um a um, os adeptos saem cabisbaixos do estádio, após uma festa que acabou antes e muito pior do que começara. Em casa, a risota é geral, especialmente a dos invejosos vermelhos, que assim garantiram o único título da época: rir-se às custas do rival vencedor por conta dum insólito.
Eu ri-me e ri-me a pensar isto cá para comigo, num delírio perfeitamente sado-masoquista. Concluí que talvez não devesse ter tomado nada enquanto via o jogo.
Mas do que eu gostei mesmo foi da conquista da taça. O “Outra Louça” presta assim o seu singelo tributo aos vencedores.

quarta-feira, maio 23, 2007

O Elixir do Tiroteio Despropositado

- Prof. N’Gonka, está aqui um paciente para atender. A cara dele não me é estranha.
O Prof. N’Gonka afasta uns quantos amuletos da sua mesa, incluindo um papagaio malawiano empalhado, disponibilizando assim espaço para apoiar os cotovelos, e abre a cortina de veludo escuro, deixando a luminosidade penetrar e iluminar o seu pequeno escritório numa zona degradada de baixas rendas em Lisboa.
- Manda o paciente entrar, Kabumba.
O paciente entra, cumprimenta o Prof. N’Gonka, que retribui delicadamente, quase sem emitir um som. Identifica-se como sendo Raimundo Retrovisor, o tal que atraía todas as maleitas possíveis.
- Não se lembra de mim, Professor? – questionou Raimundo.
- Sabe, eu comunico com várias pessoas por dia… - respondeu, vagarosamente, N’Gonka – É você o Sr. do mau-olhado lançado pela vizinha do lado?
- Oh!, se tivesse sido só isso, Professor!... No último ano, foi mau-olhado, desgostos amorosos, despedimentos, várias doenças crónicas e agudas do foro hepático, sanguíneo, nervoso, cardiovascular, pulmonar e gástrico, falta de auto-estima, problemas monetários, depressões ocasionais, macumba, vudu, cegueira, surdez, mudez, mau hálito, infertilidade, impotência, vários pneus furados por dia, obesidade mórbida, falta de fé num deus qualquer, sisudez, mongolismo, autismo, baixa responsabilidade cívica, libertação de gases em momentos inconvenientes, violações, raptos, contagem de anedotas sem graça, negação da personalidade jurídica, paludismo, escorbuto, vítima de ataques de animais supostamente dóceis, diabetes, alergia ao esparguete e à morcela, fortes odores corporais, gravação de sons obscenos em festas de aniversário de crianças desconhecidas, alcoolismo, toxicodependência, lepra, tremeliques em plataformas ferroviárias, sinusite, extrema transpiração nas axilas em pleno Inverno, esquizofrenia, personalidade bipolar, caspa, utilização imprópria de lavabos públicos, bulimia, acessos momentâneos de pedofilia nos feriados municipais, menstruação desregulada e fortes reacções cutâneas ao vinagre. O Professor curou-me de tudo! Não se lembra de mim?
- Ah, sim, claro! – iluminou-se N’Gonka – O meu úni… er, o meu melhor cliente! Como vai, Sr. Raimundo? Está melhor da constipação?
- Sim, Prof. N’Gonka. Graças às gotas óleo de rim de aborígene australiano e a duas caixas inúteis de antibiótico, consegui melhorar. Agora tenho um problema bem maior, Professor. Algo que me tem atormentado nos últimos tempos… para aí desde as 9:30 de hoje – e Raimundo, abatido, passa pelo mão no cabelo, tenuemente desesperado, expirando bofes de desagrado.
N’Gonka, algo admirado, reclina-se na cadeira forrada a pele de leopardo, junta as mãos e assume uma postura de ouvinte atento.
- Ora diga lá então o que a medicina alternativa deste humilde Professor doutorado na Universidade de Ciências Ocultas de Monróvia com aproveitamento máximo e inigualável por mais alguém pode fazer por si, Sr. Raimundo…
- Sabe, Professor… a vida tem estado muito fácil para mim. Eu quero que o Professor me arranje um mal qualquer. Um mal que não consiga sarar facilmente.
- Como? – espanta-se N’Gonka.
- Eu sinto a falta dos meus queixumes. Hoje em dia obtenho mulheres com um estalar dos dedos. Acordei como o homem mais rico do mundo por não ter feito nada. Toda a gente é amiga e compreensiva para comigo, tenho filhos inteligentes e amorosos, descobri várias fórmulas científicas que atrapalhavam os grandes cérebros mundiais a ver uma competição de pólo aquático, salvei personalidades importantíssimas da morte certa sem sequer reparar, não invejo ninguém, não tenho medo de nada, possuo uma saúde de ferro que serve de referência a toda a classe médica, cresceram-me os dois dentes da frente que tinha partido há 10 anos, fui designado o “Português do Século” sem nunca ter entrado na votação… não tenho nada para me queixar.
- Sr. Retrovisor, peço desculpa, está aqui um indivíduo a querer oferecer-lhe um avião e a sua voluptuosa filha de 19 anos por o Sr. ter segurado a porta de entrada do prédio para ele… devo deixá-lo entrar? – interrompe Kabumba.
- Não, obrigado… Diga que eu depois lhe telefono… Está a ver, Professor? Eu não fiz nada para ser tão bom, eu quero voltar a sentir algum insucesso outra vez… - comentou Raimundo, abatido pela sua sorte estupidamente imbatível.
- Estou a ver… Mas, como sabe, a minha especialidade é curar e reabilitar as pessoas… eu exorcizo o mal, afugento-o… não consigo atraí-lo – adverte N’Gonka, ajustando a sua camisa multicolorida.
- Professor! O Professor consegue! Você é um grande especialista! Curou-me de tudo e mais alguma coisa! Quem percebe tanto destes desígnios humanos, deve, com certeza, saber inverter os procedimentos de forma a causar mal… - implora Raimundo, segurando nas mão de N’Gonka. Este, incomodado, levanta-se da cadeira e põe-se a pensar.
- Sr. Raimundo, devo avisá-lo que esta situação não é normal… Tem a certeza que quer ter problemas?
- Sim, Professor! Eu não sou normal! Estou à procura de preocupações, desatinos e aflição! Por favor, faça-me algo mau! Torne-me feio! Tire-me a vontade de viver! Eu já não aguento ser tão bom e adorado!
- Hmm… deixe-me pensar – e N’Gonka afasta-se, esconde-se por detrás de uma cortina decorada com penas de pavão.

Detrás da cortina, a salvo dos olhares de Raimundo, sussurra para o seu assistente Kabumba:
- Estou tramado. Acho que fiz um trabalho bom demais com o tipo… e agora, Kabumba? Não devia estar aqui para o mal… quer dizer, também não devia estar para o bem, só devia dançar como um maluco, falar monossílabos desprovidos de sentido, vender chás baratos como poções milagrosas e artefactos de madeira rasca como ídolos sagrados… Mas não posso desapontar o cliente, senão ficamos sem sustento para a renda e voltamos para as obras…
- É lixado, Professor – anui Kabumba – Temos de inventar um novo mal para o gajo. Já o metemos como sócio do Benfica?
- O gajo está tão bem na vida que já nem liga a futebol, vê lá…
- Hmm… e se lhe colocarmos um papão à noite no quarto?
- Qual papão, Kabumba?
- Sei lá. Olha, o Zé Tikotiko, que é grande como o caraças…
- Ó Kabumba, o Zé Tikotiko a partir das seis da tarde está a cair de bêbado, quer lá ir fazer de papão a casa de um maluco qualquer…
- Então temos de lhe criar uma doença qualquer, alguma coisa séria…
- Mas o quê? O gajo já teve de tudo! Depois de ficar doente, volta cá e eu curo-o, como já o curei!
- Tudo, tudo, Professor? Ele já teve raiva, piolhos e febre aftosa?
- Já! E já experimentou a morte súbita dos bebés que dormem de barriga para baixo… e ressuscitou! Não sei, Kabumba… - constata N’Gonka, inquieto por estar em vias de perder o seu cliente.
- Eh, pá, estes gajos só mesmo com um tiro na cabeça, de tão parvos que são!…
- É isso, Kabumba! – exalta um entusiasmado Professor – O tipo ainda não foi psicopata assassino! Temos de torná-lo num psicopata!
- Boa! Mas como?

- Ó Kabumba, não sejas parvo também! – zanga-se N’Gonka – Só temos é que fazê-lo acreditar que se vai tornar num psicopata! Ao fim de algum tempo ele descobre que não é e volta cá para arranjarmos qualquer coisa mais! Entretanto, vamos pensando noutro mal qualquer. Está bem?
- Excelente, Professor! E como vamos enganá-lo?
- Enche aí esse frasco com água e coloca uns corantes e umas folhas de louro lá para dentro – vai ser “O Elixir do Tiroteio Despropositado”. Que tal?
- Muito bem, Professor! – deleita-se Kabumba, orgulhoso por fazer parte daquela trama sinistra – O Professor é uma máquina!

- Sr. Raimundo – diz, grave, o Professor, aproximando-se – isto de fazer o mal não é eticamente correcto no seio da Classe dos Grandes Mestres Curandeiros… mas, excepcionalmente, vou entregar-lhe este portentoso e obscuro elixir… o infame “Elixir do Tiroteio Despropositado”, receita secreta de tribo senegalesa… irá torná-lo num psicopata assassino, capaz de matar cirurgicamente personalidades públicas…
- Isso é óptimo! Grande ideia! – empolga-se Raimundo – Já me estou a ver todo preocupado a fugir da polícia e a esconder-me! Mas, já agora, o que seria mesmo bom era ser um genocida! Se é para me preocupar, quero preocupar-me a sério! Matar gente à grande!
- Genocida, hã? Também se arranja… Kabumba, anda cá – Kabumba chega e o Professor ordena – Reforça o elixir, se fazes favor.
- Como?
- Põe mais corante nisso – sibila ao ouvido o Professor.
Kabumba mistura mais corante à solução atrás da cortina, adiciona-lhe uma pitada de açafrão pelo sim pelo não, fazendo o elixir adquirir uma tonalidade amarela viva. Entrega o frasco a N’Gonka e este, solene, entrega-o a Raimundo.
- Cá está, Sr. Raimundo. O senhor será um futuro genocida de renome. É só tomar um colher de sopa todos os dias antes e depois das refeições, virado para oeste e sem nenhuma galinha branca por perto.
- Professor, o Sr. é fantástico! Resolve tudo! Muito obrigado! – saúda um agradecido Raimundo – Quanto lhe devo?
- Ora, 500 euros pelo aconselhamento, 175 euros pela taxa de assento no meu consultório, 76,4 euros pelo tempo, 42,32 euros pela chatice, 75 cêntimos pelo valioso elixir… são 1500 euros, por favor.
- Tome – providencia Raimundo, sem discutir – Você merece, Professor, você merece! Preocupações, venham elas!

N’Gonka e Kabumba fazem agora contas à vida. O negócio prospera. N’Gonka quase que nem acredita na ingenuidade de Raimundo. Mas aconteceu. O pequeno escritório torna-se grande na alegria.
- Sabes, Kabumba – confidencia N’Gonka – acho que vou ver um professor a sério, o Mestre Abdul Kabidelah. Acho que ele consegue saber até que ponto eu sou um grande professor. Já reparaste? Pelos vistos, curei mesmo o gajo de tudo! Quais são as hipóteses de tudo ter acontecido apenas por sorte?
- O Professor tem mesmo poderes, acredite – tranquiliza Kabumba – o Mestre Abdul Kabidelah só o irá confirmar.
- Vamos ver, vamos ver. Até logo, Kabumba. Vai pensando numas doenças esquisitas, entretanto.
Quando N’Gonka sai do consultório, encaminha-se para as escadas. No fim do primeiro lanço de escadas, encontra Raimundo parado à sua espera, perturbado, olhar furioso nos seus olhos, dentes cerrados e lábios secos, de arma na mão.
- Sr. Raimundo, então ainda por aqui? – cumprimenta, afável, N’Gonka.
- Pensavas que escapavas desta, não, macaco? MORRAM, PRETOS!!!!!!!
Com seis disparos à queima-roupa, Raimundo fulmina N’Gonka, que cai perfurado no chão de madeira, formando uma piscina de sangue. Raimundo não exibe remorsos alguns, larga uma sonora gargalhada e dá mostras de pretender prosseguir com o rasto da morte pelos subúrbios da capital. Raimundo tornara-se um genocida primário, apenas com uma colher de sopa do Elixir do Tiroteio Depropositado. Fabuloso.
N’Gonka morreu. Porém, morreu honrado, satisfazendo todas as necessidades dos seus clientes, transformando enfermos em heróis e heróis em genocidas. Mesmo que não tivesse sido esse o objectivo.

terça-feira, maio 22, 2007

Lambedor de Janelas

Procuro carne. Carne da boa. Sem aditivos transgénicos mcdonaldescos. Só preciso do corpo, o resto deito fora.
Não preciso das caras. São todas iguais.
Não preciso das almas. Foram todas vendidas ao diabo.
Necessito um loop permanente dentro do teu sexo. Sem pretensões intelectuais, a minha única filosofia é usar, gastar e abandonar. Rápido e sem rodeios.
Não me importo de ser usado para os mesmos fins. Eu já não me importo com nada que seja importante.
Não me incomodo com falsas reservas morais. Perdi a moralidade há vários desgostos atrás.
Há quem me considere parasita da sociedade, vil amostra da corrupção de valores tão afecta ao quotidiano urbano-decadente. Eu não sei se sou. Talvez seja. E se for, isso implica a perda do meu prazer? Não? Então não vale a pena aborrecerem-me.
Esquece-te das caras e dos corações, são apenas acessórios. Aproveita o teu hedonismo como uma bênção da sociedade contemporânea. Dança com os ruídos mecânicos das tuas hormonas, mesmo que ninguém te tenha ensinado a dançar. A dança é apenas um movimento insano. Dança sob o brilho de um sol fumarento em lenta combustão.
Não permitas que os teus acessórios se tornem indispensáveis neste mundo realmente virtual.

quarta-feira, maio 02, 2007

Piscina de Fígado

Imaginem uma claque de futebol a cantar a brejeirice foleira, passe o pleonasmo, de “Tu Nunca Andarás Sozinho”. E depois a incentivar “Piscina de Fígado! Piscina de Fígado! Piscina de Fígado!”. Parece mal, não parece? Mas se cantar “You’ll Never Walk Alone” e incentivar “Liverpool! Liverpool! Liverpool!” parecerá bem melhor. No limite, até merecerá louvores.
O campeonato inglês é pródigo em nomes que, em tradução muito livre, se assemelham a profundas barbaridades em português. Eis alguns exemplos: Queimadura Negra (onde joga o Benny McCarthy, ironia das ironias), Castelo Novo, Homem Unido (em versão abreviada), Presunto do Oeste, Os Passeadores de Bolton, A Boca do Porto e Lendo. Mas é a Piscina de Fígado que me enche as medidas.
Que belo nome. Nós, por cá, apostamos no pueril sufixo “-ense” para múltiplas equipas. Não tem o mesmo efeito. Piscina de Fígado, isso sim! Que bom seria ter um modesto Barril de Escrotos em Leiria ou um tímido Alguidar de Pâncreas em Aveiro – aposto que os estádios teriam mais gente, nem que fossem adeptos fervorosos de filmes de terror hard-gore. O Piscina de Fígado é o clube de qualquer assassino em massa que se preze. Com camisola vermelha e tudo, lembrando o sangue da vítima que penou em ver o seu fígado retirado a sangue frio, sem anestesia. Sim, porque quem tem a veleidade de conceber uma piscina de fígados tem de ser suficientemente macabro para retirá-los a vítimas ainda vivas, dadoras de órgãos incautas (tipo Monty Python n’ “O Sentido da Vida”), e amontoá-los numa piscina onde todos pudessem contemplar os belos assassinatos perpetrados. Uma personagem tão mórbida que, quando nos abeirássemos dele em pleno Verão, perguntávamos:
- Eh pá, que grande casa que tu aí tens! E está cá um calor… Posso dar um mergulho na tua piscina?
E ele respondia-nos:
- Eh pá, é melhor não… depois de tantos assassinatos, comecei a colocar os fígados na piscina. Água só na torneira… a banheira tem os rins e a garagem as cabeças. Posso cortar a tua mão para fazer um cinzeiro?
- Pois não, corta-me a esquerda, por favor! Preciso da direita para serrar pescoços de crianças desdentadas! – esta última parte já não faz parte da fantasia, mas adiciona um toque ainda mais negro.
Conclusão: os adeptos da Piscina de Fígado são psicopatas ou descendentes deles. E ainda por cima, arriscam-se a ganhar mais uma Liga dos Campeões e a pintar de sangue o tapete verde de Atenas. Os jogadores da Piscina de Fígado são autómatos, vide Robbie Fowler e Peter Crouch. Não têm fígado. Se na Académica da lusitana Coimbra a praxe passa por receberem uns calduços na entrada em campo, enquanto correm em cima de batinas pretas, na Piscina de Fígado a praxe aos jogadores novos passa pela remoção das vísceras. Os adeptos exultam, os jogadores dissecados metamorfoseiam-se em mortos vivos com movimento, devido à ajuda de menos alguns gramas de órgãos que antes dificultavam a locomoção. O próprio norueguês Riise parece exangue por efeito dessa operação.
Os Beatles, ou “Os Ezcaravelhus”, provinham da Piscina de Fígado. Além do mais, o bar onde tocavam inicialmente designava-se “A Caverna” – tudo é sintomático do negrume espiritual associado à cidade. Os Beatles são produtos genuínos dessa terra atroz. Os Beatles merecem todo o desprezo que a Igreja lhes quis dar nos anos 60 só por esta razão ímpia. O John Lennon veio depois com os dias de cama pela paz, mas levou um tiro de um fanático que não lhe perdoou a traição aos princípios. O George Harrison rendeu-se lá aos deuses hindus e a toda uma espiritualidade de reconvertido, mas também já bateu as botas. O Paul McCartney, como castigo, nunca mais teve sucesso a solo. E o Ringo Starr optou pela penumbra e ninguém nos garante que já não pratique a acumulação de fígados na sua piscina.
Mais famoso que os Beatles nem Jesus; mais sádica que a sua terra nem Wayne Gacy. O próprio rio que banha a cidade é o Mersey, que é um quase, quase homónimo de “Misericórdia” em inglês. Razão: primeiro, os desprevenidos iam à “caverna” ouvir “os ezcaravelhus” com “Ama-me, Ama-me Sim”, assim como quem embala bebés. Depois, “os ezcaravelhus” e os vândalos do estádio da equipa de futebol, sediado em Anfield Road (ou “Estrada de Uma Campo”), conduziam as vítimas horrorizadas para as margens do rio e arrancavam-lhes as entranhas, perante pedidos de “misericórdia” (daí o “Mersey”). Os fígados, para a piscina; o resto, para o rio, para alimentar os peixinhos esfomeados.
Demasiada forçada esta relação? Certamente. Porém, já conheceram alguém que tivesse ido à Piscina de Fígado e tenha desejado regressar? Não, pois não? E já alguém lá foi? Não, pois não? Viagens para a Inglaterra só em low-costs para Londres, com voos de regresso a horas indizíveis da madrugada. A Piscina de Fígado não é como Portugal, onde acreditamos piamente que 90% dos turistas, quando não 100%, desejam ardentemente regressar ao nosso prendado país.
Quanto mais não seja, pela diversão. Por exemplo, ver um jogo de futebol entre o Close To The Sea e o Goodstay, que iria despertar risos no súbdito mais etilicamente carregado de Sua Majestade, fossem estes nomes mesmo traduzidos para o inglês. Ou entre um Sporting of the Birds – Goodsight. Um dos grandes tem um nome inglês, mas é um nome muito olímpico: é simplesmente “desportivo”. Um outro tem um nome demasiado simples: “Port”. “Port” de nada, nem sequer é porto de boca, de cotovelo ou de bexiga. O outro grande, sim, esse possui um nome que dá para ser glosado, ou não fosse um bairro de matriz arquitectónica urbano-depressiva-anos 60 da capital (como é, como demonstrei acima).
Mas pronto, risos são risos, são efémeros; nada se compara a um esventramento de um órgão humano, que é uma imagem forte. Espectacular, a visão de uma Piscina de Fígados ao sol, aquele vermelho vivo a escorrer sangue e o derreter daquela pasta gelatinosa consumida pelos inícios de uma cirrose hepática fulminante, sob os gritos lancinantes dos estropiados que gotejam sangue pelos dentes e sob os aplausos ébrios dos apoiantes de cachecol vermelho que nunca deixarão a sua paixão andar sozinha, não vá ela ficar igualmente sem fígado… Força Piscina de Fígado, os carniceiros estão contigo.