quarta-feira, janeiro 31, 2007

Chamem o Guinness

Somos grandes. Enormes. O nosso apelido podia ser “Grandeza”. Ou “Grandiloquência” – é um substantivo mais bonito e comprido, devidamente proporcional ao nosso ego nacional.
Para quê negar? Portugal nasceu para arrecadar records do Guinness.
Julgo não serem necessárias provas, mas eis alguns exemplos concretos: o maior centro comercial do mundo, a maior ponte do mundo, a maior refeição alguma vez servida em cima da maior ponte do mundo, a maior árvore de Natal do mundo, o maior clube de futebol do mundo (que até já teve a ideia de conglomerar o maior número de Pais Natais do mundo), a maior corrente humana do mundo a acompanhar a sua selecção de futebol, a maior taxa de sinistralidade rodoviária do mundo, e por aí fora.
Mesmo que alguns desses celebérrimos feitos estejam já desactualizados, o nosso orgulho incha sempre que nos referimos a eles, o brilhozinho no olhar confirma o nosso agrado, uma lagrimazinha marota escapa-se-nos quando associamos esse facto à nossa bandeira verde-rubra. Pela seguinte razão: foi lindo sermos record mundial e acreditamos que voltaremos a sê-lo. Desunhar-nos-emos para que tal suceda.
O objectivo deste país, aliás, não é, como muita gente pensa, “a coesão social”, “o progresso”, “Maastricht, Roma, Nice e a convergência para o modelo europeu”. Isso é apenas distracção. O que nos une como portugueses é a perseguição de mais um record. Do Guinness, já que não aceitamos livros de records menores. É por aí o caminho, Sr. Primeiro-Ministro. Vamos esquecer a política de contenção e a corrupção; queremos mais fenómenos no Entroncamento e mais um mega-investimento público para sermos, finalmente, o recordista dos records. Veremos toda a população mobilizada, vá por mim.
O pessoal que compila records do Guinness já sabe quem nós somos. Quando toca o telefone ou quando se recebe um mail por lá, todos já sabem donde provém a comunicação: de Portugal, evidentemente. Aprenderam à força onde nós ficávamos e ao que nos dedicávamos. Benditos sois, records!, que tanto propagam o nosso nome pelos quatro cantos desta Terra redonda, pensamos nós, embevecidos. Estes portugueses são o nosso sustento, se não fossem eles estávamos a observar comboios nas terras altas da Escócia, pensam os Guinness-enses.
O interessante é a quantidade de records mais ou menos oficiosos que grassam por aí à espera de uma paginazinha no livro. Um autêntico filão de oportunidades mediáticas que repousa inanimado, à espera de reconhecimento. Um reservatório de publicidade fácil à espera de saciar a nossa sede de moral instantâneo. Podíamos ter o record da ostentação – sendo um país relativamente pobre, gostamos de crédito fácil, carros novos e telemóveis topo-de-gama; o record da gabarolice – o Benfica vai ganhar o campeonato com 100 pontos de avanço enquanto eu, com o 9º ano, sou o director-financeiro de uma multinacional e ganho 2000 contos por mês; o record da falta de memória – onde um talentoso humorista comunista e benfiquista (e creio que também bom chefe de família) entra na lista dos mais ilustres portugueses, quando há 3 anos era um maluco desconhecido como os outros; o record de jornais desportivos diários, sendo que um deles tem o descaramento de se chamar… “Record”; o record de estratagemas inventados para fugir às responsabilidades; o record das terras com mais records, Entrocamento, Fátima, o sítio do sobreiro que chorava lágrimas de santo, etc.. Vejam lá se chega. Se não chegar, nós inventamos mais uns quantos. O record do desenrascanço é nosso, convém recordar.
Mesmo este blog, aparentemente inofensivo e perdido no espaço cibernauta, almeja um record: mais de 2500 visitas e apenas 5 pessoas o conhecem – isto é, uma média de 500 visitas por pessoa. Extraordinário. Mas podemos ser ainda mais ousados. Se vos disser que eu e o Muntubila fizemos 2000 dessas visitas, no mínimo, isso dá 1000 visitas por cada um de nós. Um número assombroso, um record de comentários e de visitas cruzadas espera-nos de braços abertos. E não é tudo. A própria ausência sabática de Muntubila não é inocente. Estou em posição de assegurar que Muntubila quer quebrar o record do tempo passado sem escrever para o seu blog. Neste momento, o blog do Gato Fedorento vence. Mas esse record, enquanto for deles, não interessa.
O que necessitamos é de um record genuinamente nosso. Mais meu do que teu. Mais português do que ibérico. Para mostrar que só nós é que não conhecemos limites. Para dizer “presente!”. Para podermos esfregar na cara dos outros aquilo que eles não são capazes de fazer. Mesmo que eles apenas achem pitoresco. Mesmo que eles não saibam o que é o Guinness. Mesmo que pareça uma tarefa digna do “Jackass” da MTV. Desconfio que esses gajos da MTV são todos descendentes de portugueses.
Isto tudo apenas para referir que está mais um record na calha: o maior coração do mundo, a exibir na Baixa lisboeta, por alturas da Dia de S. Valentim. Verdadeiro e imaginativo. Grandioso e amoroso. Mais uma ideia exorbitante dum grande português. Chamem o Guinness, melhor, digam ao Guinness para se mudar para cá, gasta menos em viagens.
Aposto que, seguindo esta peculiar ideia, teremos um record por cada evento mais ou menos festivo. Por exemplo, na Páscoa surgirá um coelho gigante algures no país, capaz de defecar ovos de chocolate Kinder para alegria da criançada e dos pais, satisfeitos por poderem usufruir de mais leite e menos cacau. É nestas alturas que me apetece ouvir o hino e colocar a mão direita sobre o coração.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Pai, Eu Meti-me Na Política

Havia algo que, ultimamente, levantava suspeitas a Alcindo: o comportamento do seu filho Guilherme.
- Deixa lá, Alcindo… sabes como são os miúdos, quando eles são novos são muito esquisitos… – confortava Celeste, a sua mulher.
Alcindo também fora jovem, por isso sabia bem o que são as “esquisitices” da juventude. Uma bebedeira tramada de vez em quando, uma ou outra aventura fora-de-horas, um desgosto amoroso aqui e ali, uns pozinhos de excesso sortido quanto baste. O que se passava com Guilherme parecia ultrapassar, contudo, os limites do razoável. Mesmo que Celeste não desconfiasse, a teimosa natureza de Alcindo, o seu olhar clínico sobre o mundo envolvente, deixava Alcindo inquieto na busca de uma explicação.
- Tu viste o estado em que ele chegou ontem a casa, Celeste? – perguntou Alcindo, baixinho, não fossem as paredes terem mais ouvidos do que normalmente têm.
- Não, por acaso não reparei… mas ele acordou muito bem disposto, deu-me dois beijinhos na cara, ofereceu-me uma esferográfica e até quis dançar comigo uma música do Quim Barreiros…
- Pronto! Já sei o que se passa! Agora não tenho dúvidas! – interrompeu, exaltado, Alcindo, para espanto da sua mulher, que parou imediatamente de molhar o biscoito no galão. Alcindo levantou-se da cadeira, coçando o queixo, movimentando-se nervosamente à volta da mesa, perante uma assustada Celeste. Alcindo prometeu novidades nessa noite, uma vez que Guilherme voltasse da Faculdade.
Quando Guilherme finalmente apareceu em casa, os seus pais aguardavam-no com um tom excepcionalmente grave. Guilherme deteve-se um pouco, Celeste deixava transparecer alguma angústia nos olhares que dirigia alternadamente ao seu filho e ao seu marido e Alcindo, tomando a iniciativa, avançou para Guilherme, de dedo apontado.
- Meu filho, nós sabemos que se passa algo de estranho contigo. Por favor, senta-te aqui e conta-nos tudo.
- Mas… mas… do que estão vocês a falar? – gaguejou o surpreendido Guilherme.
- Nós vemos bem, filho – prosseguiu Alcindo – Deves pensar que andamos distraídos, mas nós percebemos bem… Esses comportamentos estranhos não indiciam nada de bom… por isso é melhor contares-nos tudo de uma vez só! – ameaçou Alcindo, com o tom de voz a elevar-se e a cara a ruborescer. Celeste começou a choramingar, deixando Guilherme ainda mais boquiaberto.
- Mas… não estou a perceber? Que tipo de comportamentos? – retorquiu um atarantado Guilherme, encolhendo os ombros, clamando inocência.
- Guilherme, Guilherme – sorriu cinicamente Alcindo – então tu achas que esses hábitos passam despercebidos…
- Mas o que foi? O que fiz? – atrapalhou-se Guilherme, estendendo os braços, com suores frios a invadirem-lhe a testa.
- Eu vou-te dizer: excesso de retórica, muitas promessas, discursos e atitudes populistas, demasiado cuidado da imagem, amigos seleccionados a dedo… diz-nos Guilherme, tu andas metido na política?
- Como?!? Política? Aonde foram buscar essa ideia? – reagiu Guilherme, abismado. Celeste já tinha puxado do lenço, os seus olhos avermelharam-se. Soluçando, requisitou sinceridade ao filho:
- Conta-nos tudo, filho. Somos os teus pais, queremos-te bem como mais ninguém… Precisamos de saber tudo e procurar ajuda… – e aqui começou a chorar a sério.
Alcindo manteve a sobriedade.
- Como é que te deixaste cair nessa miséria humana, Guilherme? Tu és uma pessoa inteligente, nunca te faltou nada cá em casa, sempre te demos toda a atenção deste mundo… Porquê, Guilherme?
- Eu… eu… eu acho que há aqui um equívoco. Não gostaria de prestar mais declarações nesta altura, a quente – tentou evitar Guilherme. Porém, sabia que a sua vida dupla tinha sido fatalmente exposta e Alcindo não estava pelos ajustes. Queria saber tudo.
- Não me venhas com esses discursos evasivos de político, filho! Lá na tua Associação de Estudantes podes dizer o que quiseres, mas aqui em casa tem de haver respeito! Respeito, hã!?! Por isso, o melhor é começares a falar! E já! – ordenou Alcindo, já muito vermelho. Celeste só chorava e começava a assoar-se com frequência. Guilherme apercebeu-se que teria que desembuchar.
- Pronto, é verdade, ando metido na política. Mas só na política local, nada de grandes organizações internacionais – confessou Guilherme, extravasando sinais de arrependimento.
- Eu sabia, eu sabia! – berrou Alcindo, contente pelo seu poder dedutivo, mas assaz decepcionado com a sua descoberta. Enquanto Celeste derramava ranho, baba e lágrimas apoiada no ombro de Alcindo, este inquiriu Guilherme mais um pouco – E então, já dás nos grupos parlamentares, já fazes discursos para congressos?
- Oh, pai – desagradou-se Guilherme – pensas muito mal de mim… ainda estou na política há pouco, por enquanto só ambiciono ser presidente da junta… tive um ou outro plenário onde intervim, nada mais…
- Pois, pois… ao princípio são todos assim… quando dão por eles, já estão em feiras a dar beijinhos às velhotas, querendo ser deputado… Não tens vergonha? No outro dia, chegaste a casa todo sorridente, anunciando que irias dar um novo rumo à juventude do teu bairro e eu vi logo: “Cá para mim, já experimentou a política”. Infelizmente, não me enganei – e, prosseguindo com um tom paternalista, Alcindo quis ir um pouco mais além – Então como começaste com esse fado? Começaste a ler “O Expresso”, foi?
- Sim – anuiu Guilherme, submetido ao vexame – comecei a reparar naquelas colunas de opinião… os textos longos e sem conteúdo fascinaram-me…
- Mas eu pensei que tu, Guilherme, com formação, bem-educado, não te interessasses por isso… Isso não é um modelo, filho…
- Eu gostava daqueles fatos, daquelas gravatas e daqueles carros de alta cilindrada, pai! Quem não gosta? – irrompeu Guilherme, já um pouco emocionado.
- Ninguém gosta, Guilherme! Ouviste? NINGUÉM! São só imagens para convencer os jovens, mas no fim acabam todos esquecidos e desprovidos de cargos, sem cobertura mediática… Essa gente mete NOJO! São NOJENTOS!!! – gritou Alcindo. Celeste esparramou-se em cima do sofá, em pranto:
- Oh Guilherme… porque nos fizeste isto? A nós, que te queremos tão bem…
- Desculpa, mãe… Eu pensava que podia salvar o país… e depois de ler “O Expresso”, comecei a ter ideias para pintar o muro da minha faculdade com alguma coisa anti-América… – admitiu Guilherme.
- Ah, quer dizer que andas a comprar filosofias de esquerda, não é? – prosseguiu Alcindo com o seu exercício de inspector.
- Sim, pai. Eu juro, juro pela minha saúde!, que só tenho ideias de esquerda, não quero saber da democracia cristã para nada! Social-democracia para mim é que não! – sublinhou Guilherme, para que o seu julgamento fosse mais brando.
- Não precisas de jurar, Guilherme, isso é mesmo coisa de político – corrigiu Alcindo. Virando-se para Celeste, Alcindo disse acreditar em Guilherme.
- Eu acho que ele está a dizer a verdade, Celeste… ainda não o vi a vestir-se com fatos caros, nem a fazer força para ir a uma tourada, nem a falar como se fosse de Cascais… Isto de começar-se à esquerda é natural, todos costumam ir por aí… – e, voltando-se para Guilherme, acrescentou – Mas depois de uma fase esquerdista, vêm os tiques de neo-burguês… ou tu não sabes disso, filho?
- Sei, pai… Mas eu não ia deixar que isso acontecesse… Eu ainda só discuti um par de ideias revolucionárias, nada de moções nem nada do género…
- Bah! – indignou-se Alcindo – Balelas! Descambam todos no mesmo! – bradou, antes de continuar – Quando desses por ti, já estavas ao leme de uma associação de empresários, almoçando em restaurantes de luxo e a receber luvas por debaixo da mesa! São todos iguais, essa escumalha de políticos, essa corja de intelectuais! Trastes! – vociferou. Celeste via renascer a sua esperança entre mais um soluço.
- Filho, tu podes deixar a política… Ainda só és meio socialista… Vamos ajudar-te antes que acabes como aqueles desgraçados de direita… Tanta tristeza que por ali vai… – e retomou o choro, após visualizar mentalmente o aspecto de um político neo-liberal. Guilherme deu a conhecer as suas dificuldades:
- Tentem ver o meu lado… se deixar o associativismo político juvenil, perco toda uma multiplicidade de contactos que são fulcrais ao meu desenvolvimento… eu não posso perder a socialização adquirida até aqui, quando estou em franco crescimento cívico…
- NÃO ME VENHAS FALAR CARO!!!! – explodiu Alcindo, furioso, fazendo tanto Celeste como Guilherme recuarem uns centímetros – Pareces um daqueles governantes que se vêem na televisão a fazerem figuras tristes! É isso que tu queres, É ISSO QUE TU QUERES? Ver o nome da nossa família espezinhado na rua, a vergonha nas nossas caras… “Olha, aqueles são os pais do Guilherme, o político que prometeu baixar os impostos… coitados, o Guilherme deu-lhes um grande desgosto”… “Olha, aquele é o Guilherme, o político que autorizou a construção de uma urbanização em plena paisagem protegida… apetece-me bater-lhe com força, se ele não estivesse assim tão bem vestido e se eu não morasse lá… Olhem bem aquela vaidade degradante…”
- Desculpa pai. Eu posso ter ido longe de mais. Desculpa pai. Desculpa mãe. Eu vou deixar de ver o Rogério e a Clorinda – anuiu Guilherme, pausadamente, sensibilizado pelos argumentos do seu progenitor.
- Está a prometer algo, filho? – questionou Celeste, lá do fundo do sofá.
- Não, não! – emendou Guilherme, de olhos bem abertos – Eu vou tentar deixar os meus amigos.
- Assim está melhor, já é um começo – agradou-se Alcindo – E quem são o Rogério e a Clorinda?
- O Rogério é o filho do Presidente da Câmara, está a tirar um mestrado em direito empresarial, não fuma, não bebe, não faz amor e não faz praticamente nada na vida, apesar de andar sempre com grandes carros. Quanto à Clorinda, só sei que se veste bem e que vai muitas vezes ao estrangeiro. Diz que conhece muitos embaixadores e que já jantou com eles várias vezes. Também não fuma nem bebe, mas suspeito que faça amor… na verdade, acho que ela é ninfomaníaca por corpos diplomáticos.
- Ai, as más companhias, filho… – constatou Celeste, de voz embargada, enquanto secava as pálpebras.
- Não digas mais nada! – torpedeou Alcindo – Vamos já descobrir um clínica de reabilitação longe daqui e trazer-te de volta para aquilo que sempre foste: um rapaz humilde, educado, bem-formado e sem vícios ambiciosos! E é mesmo para já! – avisou, pegando na lista telefónica.
Guilherme não tinha escapatória. Abalou para uma terra perdida com vistas para o Marão na procura de uma cura para o seu problema. Aí, teria de perder o hábito de ler textos opinativos, abolir qualquer filiação partidária ou corporativa, evitar contacto visual com crachás, pins, cartazes e outros artefactos propagandísticos, abandonar a tentação por um debate e rejeitar qualquer ideologia extremista, por muito bem intencionada que fosse. Teria igualmente que largar o seu círculo de amigos e nem podia pensar em ter almoços onde se discutissem assuntos considerados de relevo. Obviamente que qualquer tipo de acto levemente corrupto ou qualquer indício de compadrio ou favorecimento por meio de amizades estabelecidas estavam rigorosamente proibidos. Os seus novos companheiros seriam os pastores que apenas conseguiam grunhir três palavras por cada frase e os animais do campo.
Essa clínica de reabilitação para a vida civil tinha muito sucesso – sendo flagrante o caso do ex-autarca de Mogadouro que agora consegue podar videiras com uma mestria assinalável e que adquiriu fobia a gabinetes e reuniões. Guilherme não podia desiludir os pais. Agarrou esta hipótese com as duas mãos. E, daquela vez, não prometeu nada a ninguém, nem sequer beijou nenhuma velhota. Não. Guilherme iria vencer aquele flagelo.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Vidas de Cão

Movemo-nos como cães. O nosso combustível é o instinto. De poste em poste nos espalhamos. Atrás uns dos outros nos guiamos. Dizemos para nós mesmos que iremos ganhar este osso. Exigimos que o nosso corpo pague. A nossa cabeça dispara ordens carregadas de orgulho cego:
- PAGA!
Fazemos por nos esquecer apenas da parte obscura da História. Tentamos recordar apenas a mão amiga que nos alimentou mas o que nos vem à memória são as pesadas correntes ferrugentas que nos aprisionaram. Apercebemo-nos que não nos conseguimos libertar delas sem a ajuda preciosa do tempo. O tempo nunca mais se vai. O tempo nunca mais vem. Damo-nos por nós a dizer alto:
- Houve um tempo em que…
E de tempos em tempos nos entregamos ao sabor do tempo, passeando altivamente pelas estradas da vida. O olho que já esteve no burro está agora no horizonte e o que esteve no cigano está a sonhar, dolente, anestesiado pela calmaria de um dia suave. Viagens despreocupadas sem bagagem de mão. E depois volta o tempo, as nuvens, a incerteza.
Já não sabemos onde enterrámos o nosso sustento. Provavelmente, revelámos o nosso mapa do tesouro a alguém. Devemos ter falado demasiado a quem não devíamos. Quando abrimos os olhos já é de noite, passámos o dia inteiro a perseguir não se soube bem o quê. A cauda que abanou já não abana mais. O que nos fez correr está agora atrás de nós. O que nos interessou antes está desajustado agora. Estamos embrenhados em interrogações.
- Será que dissemos algo que não devíamos?
- Foi alguma coisa que fizemos?
- Teremos ido longe demais?
Quando chega a noite, ninguém quer dar as respostas que só nós podemos achar. Gostávamos de ter um faro apaziguador de instintos, porém só o acicatamos ainda mais. Tudo o que nos interessa cheira a problemas. E o perturbante é que os problemas parecem-nos incrivelmente tentadores. Sentimo-nos atraídos pela diferença, pelo irreal que se nos insinua pela fresta da porta. Para nós, não há monstros, há donzelas puras: cândida e estúpida presunção que não nos larga. Os monstros só aparecem muito depois. Sabemos que sim, embora julguemos que não. Em jeito de auto-justificação mental nos iludimos sem esperança, continuadamente:
- Desta vez é que vai ser.
Não foi. Olhem bem, os nossos corpos, os nossos focinhos – isto é tudo. Não devia ser nada ou muito pouco. Mas é tudo. Maldita consciência, aparece-nos quando menos devia e agora, que devia impor-se, recolhe-se lá atrás, no fundo, ao canto, incógnita, serva do instinto que nos mói. Não pensamos em nada que não seja imediato. O desespero, quando acontece, é aterrador. Cerram-se os dentes e lá vamos nós, à força.
- A reconciliação é impossível. Chegámos ao ponto de ruptura.
Venham-nos dizer que é fácil. Digam-nos o quanto nos invejam. Vós nem sabeis. Vós pensais que viver como nós é sentir o deleite supremo da despreocupação, assumir a irresponsabilidade como o último recurso para quem não tem capacidade para mais do que isso. Relativizam-nos e olham-nos de soslaio, tratam-nos como assunto menor, qual iluminação deste mundo. Ainda bem que vós vos separastes do instinto, criaturas privilegiadas.
- Ai quem me dera… é só fazer assim e já está.

A Âncora

(Quadro de Roy Liechtenstein)


Eu consigo dar-te o que tu queres. Não precisas de te preocupar mais. Tens aqui o que andaste à procura. E porque continuas a deixar-me num plano secundário, se eu tenho comigo a segurança da certeza, a certeza da satisfação?
A ti não te chega ires comigo ao espaço. Nós já corremos os campos da lua com os nossos corpos impregnados de libertinagem, tocámos de raspão nos raios de sol sem nos queimarmos, absorvemos nos nossos cérebros a leveza de gases raros que nos propulsionaram para fora das nossas órbitas mentais. Dançámos em tua honra em cima das estrelas, acima de todo o mundo. Juntos. Trocando saliva e suor. Abri-me em toda a plenitude e envolvi-me seriamente nas brincadeiras que desenvolvi em especial para ti. Todo eu especializei-me em ser o teu posto certo de atendimento. Cobri-te com os meus acetinados cobertores e tentei proteger-te dos ventos frios enregeladores da tua alma. Suavizei-te dos calores tépidos proporcionados por aquelas fontes de calor dúbias e doentias. Cada dia era uma festa de ano novo que organizava meticulosamente em tua honra.
Defini-te como objectivo. Quis-te tanto só para mim e tu para mais ninguém. Assim que te percebi à deriva, atirei-me a ti feito âncora. Desejei afundar-me contigo num poço de prazer e sentir os nossos pulmões a rebentar de êxtase. Agarrar-me a ti tipo lapa. Prender-te de vez a mim. Disse-te, quando tocámos os limites do bom-senso, “Agora vou querer ainda mais do tu queres” e tu abriste a boca em deslumbramento. Fomos de costa à costa de uma assentada e pensei para mim que tu não podias fugir. Dei-te tudo o que se pode pensar, tudo o que era possível e impossibilitei qualquer hipótese de insatisfação. Fortaleci a minha disponibilidade dando mais um nó, crivando mais um prego, colhendo mais um fruto.
Mas não te saiu um agradecimento sincero. Não consegui arranjar água suficientemente pura para limpar o teu sorriso amarelo. Permanecem perdidas na tua cabeça as chaves do teu cofre sentimental inexorável. E que mais te posso fazer? Se não te chega o que faço por ti? Eu abandonei os meus objectivos próprios só para te ter aqui. E tu, aí, sem vontade de seres feliz, sem vontade de alcançar os teus sonhos, sempre com o irritante hábito de menosprezar os meus esforços e de ignorar a tranquilidade que te entrego de mão beijada. Não tens presente o bom que tens, o bem onde estás.
Eu consigo dar-te tudo o que tu queres. Mas tu não precisas. Tu só queres fazer de mim uma etapa e quero-te como meta. Não te interessa o paraíso, interessa-te questionar como se chega lá, entreter-te com os motivos ao longo do percurso e estudar alternativas inúteis. E não consegues perceber que tenho comigo a senha exclusiva que te leva lá. Faço-te ver todos os dias que não há nada melhor. Explico-te todas as horas que não pode haver nada melhor. E como retribuição recebo a tua apatia. É como se estivesse a entregar-me para o vazio. Como se estivesse a mergulhar de cabeça para um mar profundo e sem água. Como se fizesse da tua indiferença a força que me move, mesmo que saiba que me movo por um projecto sem retorno.
O problema é que tu queres outro alguém que te leve, rotativamente, por estas estradas de prazer. Eu, mesmo sendo o melhor, não te chego. Torno-me na rotina. Mas continuo a insistir em dar-te tudo o que te faz falta. Fazendo das minhas privações fartura para te cortar desse espaço lúgubre onde te deixas perder. A minha fé em ti é grande demais, não tenho mais nada a perder a não seres tu. Eu não me interesso mais.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Pobre Bock

A vida é isto mesmo, Fernando Oliveira.
Um golo mais, um gole a mais.
Fartura e esplendor, espuma e gás. Um ponta-de-lança com propensão para trocadilhos fáceis.
Fernando Oliveira nasceu no Porto, nos idos de 1975. Formou-se como jogador no clube local. Aí, presume-se, ganhou aptidões únicas. Uma relação orgásmica com o golo. Um epíteto que marca, de forma indelével, todo o futebol nortenho. Fernando é Bock, recebeu de braços e goelas abertas a sua notável alcunha. Bock é, sem complacências, um super goleador esquecido, poeta maldito do golo, homónimo de cerveja famosa, tudo num só corpo sedento de sentir as redes a balouçar.
Podia ser ficção. Talvez um Robin Hood das divisões inferiores. Quiçá um modesto Hercule Poirot a detectar as pistas do golo. Ou um rebelde incompreendido, o James Dean de Vizela. Mas não. Bock e a sua desdita são cruelmente reais, como mais um despiste no IP4.
A Bock só lhe faltou ser, realmente, super. Domingo após Domingo, Bock cirandou pelas hospitaleiras localidades entre Douro e Minho, no seu afã habitual por entre defesas incautos e guarda-redes desamparados. Labutou, porfiou, alcançou. Bock não parou. Bock facturou e facturou, encheu de alegria os adeptos locais. Glória. Esplendor. O terror dos adversários, sempre com um sorriso humilde a transbordar-lhe da boca.
Chuteiras afinadas e remates certeiros, a vida de Bock confunde-se com o golo, para ele vive, dele sobrevive. Bock libertou Freamunde dos jugos neo-imperialistas de Paços de Ferreira, vizinhos aburguesados da Primeira Liga, deu-lhes uma razão para acreditar que era possível ser maior e melhor.
Uma eterna promessa que aguardou pela concretização… A história de Bock é tão linda quanto trágica, porquanto Bock obteve um sucesso local esmagador que nunca extravasou os muros imaginários da II Divisão, a despeito de tanto golo, tanta alegria proporcionada, tanto abraço de companheiro e aficionado.
Bock podia ser mais uma atracção da tasca, mais um jogador de sueca ou dominó. Mas não; não se resignou e forneceu-nos, a todos nós, o verdadeiro sentido da vida: nunca desistir, sonhar até morrer. Em Freamunde ou em Castelo de Vide, resiste e esquece-te que te chamas Hilário Silva, a vida brilhará àquele que estende a esperança e a alegria aos que lhe seguem, figuras sombrias do fado que é esta vida de anonimato.
Este predador perdido no obscurantismo, vampiro da grande área, marcou que se fartou. Sempre mais ou menos ignorado pelos menos informados, mais interessados em produtos instantâneos ao olhar, nos grandes e caros artigos de montra, tipo Postigas, Nunos Gomes e Pauletas. Bock lá estava, atrás, furando marcações, atento à linha do fora-de-jogo, remetido para as prateleiras mais recônditas. Um modesto culto da personalidade, bem à sua imagem, desenvolveu-se à sua volta, reclamando-lhe o estatuto.
Passou por Maia, Amarante e Lixa, dali abalou como folha caduca voando ao vento, já com o olhar em Freamunde, onde explodiria, versejando ao ritmo do último toque em direcção às malhas. Pensavam os adeptos, este tem mesmo que sair, é muito bom, com demasiado gás para conseguirmos retê-lo por aqui, nos confins do semi-profissionalismo futebolês lusitano. Um Bock topo de gama. Saiu para o que muitos consideravam uma escalada progressiva rumo ao topo do mundo. O que se seguiu foi Trofense, Marco, Ermesinde, Marco e Leixões. A arrancada tardava. Bock lá ia amansando a bola, indicando-lhe com meiguice “o golo é já aqui”. Mas o sucesso, o reconhecimento, onde ficam?
A massa associativa de Freamunde resgatou de novo o seu filho adoptivo pródigo. Relançou de novo todo o seu instinto goleador. Hoje, a contabilidade dos golos já ultrapassa os cem, foi duas vezes melhor goleador dos campeonatos nacionais, médias inclusivamente superiores a um golo por jogo. E, já a perspectivar o ocaso desta incompreensivelmente desconhecida carreira, regressou ao segundo escalão português. Podia ser desta. Tinha voltado a subir o degrau, as ambições eram legítimas. Debalde. As nuvens não tardaram.
Os últimos ecos deram conta de um desaguisado entre o treinador dessa equipa, o Vizela, por sinal carente de golos, e Bock. Bock, pura e simplesmente… não jogava! Não tinha oportunidade de explanar todo o seu manancial de remates e cabeceamentos fatais, não podia fazer o que mais gostava. Mais uma vez, todas as portas ilustres se fecharam, desprezando o seu currículo construído com suor e golos. Não teve alternativa: empacotou a trouxa e regressou, outra vez, aonde lhe conseguiam dar crédito: Freamunde. A propósito da despedida, o amargurado Bock confidenciou:
“No dia da rescisão o técnico fugiu de mim, evitou falar comigo e não esteve na reunião que tive com a direcção. Tive de pedir ao presidente para me permitir ir ao balneário despedir dos colegas.”
Em Freamunde agradeceram. Com muita comiseração, assistem ao seu actual símbolo de volta aos únicos balneários onde sempre se sentiu acarinhado, mesmo sabendo que tal só é possível por manifesta desatenção dos grandes senhores do futebol. Ninguém quer saber de Bock. Ninguém quer olhar para os golos que Bock marca. Ninguém quer um avançado português competente nas suas fileiras. Ninguém quer mais um nome esquisito para ombrear com Sokotas, Kikins ou Buenos.
Bock resignou-se, enfim. 31 anos já não dão azo a grandes utopias. Está destinado a ser o profeta dos mais fracos, um anti-herói forçado pelas circunstâncias mais ou menos funestas que se atravessam no percurso da gente esforçada, mas sem o favorecimento dos astros. Uma história que acabou estranhamente como tantas outras, depois de tanto fulgor evidenciado.
Bock desabafou: “Encontro-me no auge das minhas capacidades como jogador e goleador e só lamento não conseguir concretizar o sonho de jogar na SuperLiga. Cada um nasce para o que nasce, e se calhar, por muito que dê nas vistas, não sairei deste escalão. Mas se tiver que ser assim, que seja sempre ao serviço do Freamunde”.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Dedos Pegajosos

Quando chegava ao fim de mais um dia, Eurico limpava os ouvidos. Não utilizava cotonete, servia-se do próprio mindinho. Esticava o dedinho e lá partia ele às entranhas auriculares, removendo todo o tipo de aglomerações resinosas que se acumulavam na orelhinha.
Pensava ele, filosófico, para com o tecto que fitava enquanto exercitava o seu mindinho incrustado de cera amarelada – tudo isto tem explicação, todo este nojo resinoso que extraio dos meus ouvidos aparece em quantidade proporcional às conversas que ouvi hoje. Eurico retirava cera dos ouvidos todos os dias, há largos meses. Qual prisioneiro, marcava todos os dias. Os dias particularmente porcos eram aqueles quando se estava numa aula, numa palestra, numa reunião, fosse ela de condóminos ou não. E depois os dias limpinhos, especialmente aos fins-de-semana.
- Ó Eurico, o que fizeste aos dedos? Estão pegajosos!
Eurico desculpava-se por este hábito questionável do ponto de vista higiénico. Leu numa revista que podia furar os tímpanos com aquela brincadeira. Ponderava. Valeria a pena sacrificar este medidor de interesse factual de conversas humano que é o ajuntamento de cera nos meus ouvidos? Em prol da saúde? Bem, mas se eu conseguir identificar correctamente quais as conversas que devo evitar, após análise da larga amostragem que já disponho, a minha saúde será óptima! Ouço aquilo que quero e estou certo que irei viver até aos 100!
- Está bem, Eurico, eu acredito. Para a próxima diz-me que eu guardo os teus rebuçados. Não precisas de andar sempre com eles nos bolsos, depois derretem.
Eurico acreditava em si. No seu método infalível. Em vender livros, ser guru de uma nova legião. Na ponta do dedo ao fim do mundo iria, dissecando o conteúdo semântico de cada conversa pelo meio. Do café ao cinema, do grupo de amigos ao emprego, Eurico planeou criar uma base de dados de lugares e gente, sublinhando pontos de interesse e de infâmia.
- Eurico, o chefe queixou-se de si. Diz que está sujo. Por causa de si, imagine.
Quiseram tramar os instintos de Eurico. Não reconheceram potencial comercial na tese de despiste de conversas desinteressantes pela limpeza de cariz otorrinológico de Eurico. Insistiu. Persistiu demasiado na sua tese, até a um ponto em que chegou ao pé do chefe e disse que a última reunião tinha-lhe deixado com a pele gasta de tanto esfregar os ouvidos. A gota de água que se seguiu não apanhou Eurico a nadar desprevenido no copo. Estava feliz por ter conseguido manter uma posição firme, apesar de ter perdido. Animou-se. Moral, moral, eu não ligo à moral puritana e vou continuar a tirar cera dos meus coratinhos, se tal for necessário para o meu bem-estar.
- Eurico… podes descolar o teu dedo do meu cabelo?
Eurico sentia a pressão da sociedade sobre si, cada vez mais gente a criar-lhe cada vez mais cera, caíram-lhe bolas de cera dos ouvidos enquanto andava na rua, tinha-se tornado um ser ultrajante de tanta abjecção.
- Estás bem, filho? Eurico… Fala comigo.
Perdera o controlo, todo o corpo era um bloco de cera viscosa em erupção, com epicentro nos seus ouvidos. Uma lava de cera brotou em Eurico, explodiu com toda a cera dentro de si. Ironicamente, quando Eurico pensava ter a solução, tinha afinal apenas garantido as razões para a sua morte. Quando descobriu a doença já não foi a tempo de ir buscar o remédio. Não tinha sido capaz de fugir às conversas desinteressantes. Estabelecera patamares pessoais de interesse que não conseguia acompanhar. Em todo o lado eram conversas parvas e chatas. Não existiria alguém que falasse consistentemente aquilo que Eurico queria ouvir? Isto Eurico não conseguiu prever.
Eurico foi devolvido à terra e com ele toda a cera de que se iriam alimentar os bichinhos. Deixou muitas sementes connosco, contudo. Quem não conhece alguém, pelo menos uma pessoa, que não passe o dedinho pelo ouvidito? Já alguém pensou verdadeiramente no significado que essas pessoas dão ao acto? Sabem que podem estar a pisar terrenos proibidos se pensarem mesmo a sério como o Eurico? A cera levar-nos-á à rendição. Queremos ter orgulho na nossa fé, compreensão perfeita das falas humanas nos nossos ouvidos.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Escusas de Tocar Outra Vez, Sam

Deleitem-se os subúrbios. Olá Brandoa, como vais Charneca?, Miratejo, tudo fixe?, props para o Bairro de Angola. O abraço mais sentido vai para Chelas, berço de personalidades ímpares na cena nacional. Creio que o próximo primeiro-ministro será de Chelas; a zona do abecedário em concreto, J, K ou L, de que ele ou ela provirá é que ainda está por decidir.
Porque se devem deleitar os subúrbios, e mais concretamente o betão colorido com graffittis de Chelas? Não, não é por causa do futuro primeiro-ministro, mas por causa de Samuel Mira e do seu novo álbum, apropriadamente acompanhado por um videoclip ultra sugestivo.
Sam, como é conhecido, estreou-se no mundo do hip-hop/ rap/ vontade incontrolável de rimar com gestos desengonçados (riscar o que não interessa; daqui em diante, designarei esta corrente artística como “YO” – para simplificar) muito cedo, daí o seu apodo “The Kid”. Tal e qual como o cowboy que lhe deve ter servido de inspiração, Sam foi intrépido e marcante logo no debute, com isso granjeando ouvidos e ouvidos que lhe deram um status privilegiado no mundo do “YO”.
Entre skates, graffittis e mais um leitor MP3 roubado numa paragem de autocarro, Sam debita versos a uma velocidade superior à da quebra dos vidros das janelas de um prédio de habitação social. É mais incisivo que uma ponta-e-mola, mais intimidador por si próprio do que quando acompanhado pela sua pandilha de aspirantes a delinquentes e mais observador que o agente policial que teima em aborrecê-lo. Ele é tão profícuo a nível lexical que os seus álbuns têm nomes que não cabem numa só palavra, tendo de as decompor em duas: “Entre(tanto)”, “Sobre(tudo)” e “Pratica(mente)”. Fabuloso. Genialidade criativa superlativa. Aposto que o próximo álbum será “Guarda(chuva)”, para aí.
Este Sam já não é a next big thing do “YO” português; ele já é a big thing. Vejam o videoclip dele. Não sei o título da música (?), nem do que ele fala (percebem-se algumas palavras soltas no meio do comboio de sons vocais que sai da boquinha afiada dele), mas suspeito que está a falar mal dos artistas portugueses que cantam em inglês e a defender os que cantam em português. Para tal, rodeou-se da sua trupe de vizinhos de Chelas, da qual nunca um bom “YO” se separa e sem a qual parece perder a faculdade de respirar, e foi assaltar uma emissora de rádio, expulsando tudo e todos do ar e transmitindo a sua mensagem de uma forma, no mínimo, um pouco agressiva. Não se coibiu de passar pelo estacionamento onde 4 personagens faziam o mesmo que eu aqui, dizer mal do mestre Sam, aparentemente à espera que o mesmo Sam fosse ter com eles e os educasse num tom ríspido – momento hilariante que recomendo. Também obteve a solidariedade, paga ou não, devidamente contextualizada ou não (quero acreditar que não, mas nunca fiando…), de Pacman, Rui Veloso, Zé Pedro e do jornalista Pedro Mourinho para a elaboração do videoclip e, eventualmente, para a tomada da estação emissora. Ecos distantes do Verão Quente, quiçá, com Pacman a dizer, num registo claramente responsável e didacta, que esse é o caminho a seguir, invadir um espaço público para impor os gostos pessoais de Sam, The Master (Formerly Known As The Kid).
Agora, permitam-me caluniar um pouco mais o Sam, já que actuo sob pseudónimo e ele já confessou não ler muito, o que me faz sentir deveras seguro deste furacão das palavras que é Sam.
O “YO” português é capaz de ser tão bom ou melhor que o “YO” americano ou francês, que nos chega ao conhecimento através desse excelente, mas levemente repetitivo, canal da grelha da TV Cabo que é o MCM. A principal diferença será que os “YO's” portugueses não conseguem arranjar carros suficientemente espalhafatosos nem mulheres deslumbrantes com grandes mamas e pequenas saias para se fazerem acompanhar. Cá não há Cadillacs abertos em Hollywood, com um clone ainda mais azeitado que a própria Jennifer Lopez dum lado e o pittbull do outro; há Citröens Saxo “tuning-ficados" a passar no Martim Moniz e as irmãs gordas do vizinho a mascar pastilha enquanto brincam com o seu novo piercing no lábio – e se conseguirem arranjar uma “dama” suficientemente provocadora, então ela tornar-se-á o objecto central do videoclip. O pittbull lá se consegue arranjar, pelo menos. Mas apesar do “YO” português estar ao nível dos demais, isso não quer dizer que o “YO” seja bom. Também não será necessariamente mau (embora para o meu gosto seja, e o meu gosto vale o que vale); é o espelho da cultura que temos hoje em dia.
E a cultura que temos hoje em dia está pelas horas da morte. Nem me refiro ao conceito “cultura” como uma forma de expressão humana; falo mesmo do estado das mentalidades contemporâneas. Particularmente num país onde reina a indiferença, o laxismo e o compadrio. Claro que Sam, e os seus amigos “YO”, se julgam virtuosos no mundo onde estão. Só que Sam e os “YO” estão apenas a aproveitar-se da degradação vigente, onde uma estação televisiva que tem como nome “Music Television” só passa, a níveis limitados, o que tem potencial comercial, por entre “reality shows” verdadeiramente execráveis importados da terra das coisas boas, os EUA, e onde o excesso de mau gosto quebra recordes emissão após emissão.
No que concerne à música em particular, é perfeitamente hipócrita a mensagem de Sam. É claro que ele defende-se com argumentos válidos, do género “não percebes nada”, ameaçando de permeio com uma carga de porrada (sempre com os seus compinchas a apoiar), Como bem notado pelas 4 personagens no estacionamento, se Sam fosse coerente, chamar-se-ia “Sam, o Cachopo”. Mas não, foi atrás dos dogmas “YO” americanos. Se Sam fosse contra a corrente, expressar-se-ia numa forma não necessariamente na moda como é o “YO” (embora Sam, que gosta de se vitimizar, considere que o “YO” ainda é “alternativo” – será que a televisão e a rádio já chegaram a Chelas, afinal?). Se Sam fosse mesmo bom, escusava de acusar outros companheiros de vida (admitindo que ele é mesmo músico). Se Sam não fosse invejoso, não se preocuparia com o sucesso dos Moonspell.
Sam diz que as grandes influências para ele são Carlos do Carmo e Ary dos Santos. Nota-se. Até diz que ouve Marco Paulo. Isto é, só portugueses. Talvez mesmo Paco Bandeira, o Demis Roussos alentejano! Este rapaz é mesmo sectário, nem os brasileiros, que também se expressam em português, lhe interessam: apenas e só produto luso. Certamente que mesmo Linda de Suza deve ter sido samplada numa ou noutra ocasião. A questão é que o “YO”, musicalmente, é mesmo isso: apropriação do trabalho dos outros. Se noutras áreas musicais ainda podemos falar em influências, em produtos demasiadamente parecidos com outros já feitos, no “YO” só falamos em influências – pois o “YO” nunca cria nada de novo, limita-se a parasitar-se em algo já feito e adicionar umas palavras que rimam e que parecem ser muito urbanamente poéticas e sagazes. Chamem-lhe o que quiserem, mas até o Emanuel é mais criativo a nível musical que o “YO” e qualquer escritor, tipo Margarida Rebelo Pinto, deve ter mais conteúdo nos seus trabalhos que este “poeta da nova geração” que é Sam, que se limita a rimar sem restrições auxiliado por um dicionário. A própria glorificação da malta “YO” como o derradeiro bastião de divulgação da língua portuguesa é algo que me incomoda e que me dá o quadro real do estado da arte da língua portuguesa: pavoroso. É a arte entregue aos bichos, literalmente.
Cá para mim, Sam só se exprime em português porque não consegue fazê-lo em inglês. Não consegue construir frases ou versos noutra língua que não a sua, e mesmo na sua língua, que é a minha, não o consigo entender. Falta-lhe conhecimento. Falta-lhe… cultura. Ele bem que queria expressar-se em inglês como o David Fonseca, os Blind Zero ou os Moonspell, ou mesmo como os Mind Da Gap já fizeram… mas não consegue e enerva-se. José Cid queixava-se que os portugueses não passam na rádio. Agora até passam, mas isto não quer dizer que cantem em português – cantam naquilo que lhes apetece e naquilo que lhes soa melhor. Sam, qual novo Cid, reclama igual atenção. Orgulhos patrióticos à parte, até a demanda de Sam parece desajustada nesta altura. Não gostas de ouvir portugueses a cantar inglês? Muda de estação – eu já nem ouço rádio, por exemplo. Muda de país – há rádios para emigrantes portugueses que só passam o que Sam gosta. Faz-me esse favor.
Deviam os visados reagir perante a ameaça de Sam? Não, senão desceriam ao nível deste rapaz conflituoso. Deveriam eles parar tudo e ignorar o que fizeram só para ouvir Sam e perceber que no português é que está o caminho? Isso seria tão absurdo como ver os Moonspell a cantar fado. E, já agora ó Sam, porque não cantas fado, esse sim, produto genuinamente português? Porque é que fazes de macaquinho de imitação dos “YO” da terra do Tio Sam? Só virtudes, este(s) Sam(s).
O rock morreu? É capaz. Levem-me ao seu funeral e deixem-me ficar por lá. Permitam aos subúrbios rejubilar com o mediatismo do “YO” do seu Sam e protejam os vossos haveres. É um conselho pacífico que Sam parece não estar disposto a dar.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

O Café e o "Café"

De entre todos os fenómenos com implicações sociológicas contemporâneas, o café será o mais enraizado. É um pretexto para inúmeros encontros, sejam eles de cariz profissional ou pessoal. É praticamente impossível discutir algo hoje em dia sem ser à mesa dum “café”, ou melhor, tasca, bar ou restaurante que foi apropriadamente renomeado como homónimo do seu produto com mais saída (e dos que mais margem comercial retribui aos donos dos estabelecimentos), como se o produto mais importante açambarcasse todo o espaço para si, desprezando outros pares como a cerveja, o tabaco, as moelas ou os pipis, só para citar alguns itens da parafernália que usualmente se encontra disponível.
- Eh pá, não estou certo que a contenção de custos passe pela reestruturação da área comercial. Não queres tomar um café para falarmos disso? – diz o director-adjunto para outro director-adjunto.
- Há quanto tempo não nos víamos! Vamos tomar um café para colocar a conversa em dia? – diz o ex-emigrante para o seu conterrâneo, ao encontrá-lo a passear junto ao adro da igreja.
Ou então no bilhetinho:
“Ronalda: gostava de te conhecer melhor. Queres ir tomar um café aqui ao café da esquina? PS: não fui eu que te apalpei no intervalo, foi o Chico Ranhoso”.
O fascínio pelo café é transversal a todas as idades, credos e estatutos sociais. Vício moralmente aceite, desperta mentes e espevita espíritos. Ganhou claramente a batalha do politicamente correcto a produtos de balcão como o tabaco e a cerveja, embora manche os dentes, contribua para hálitos imundos e esteja, consoante o gosto mais ou menos aventureiro, impregnado de cafeína. Mas o café é o café e a cafeína uma droga tida como menor. Nem sequer interessa que o seu preço generalizado tenha passado de 50 escudos para 50 cêntimos de euro em 4 anos, uma subida de 100% que nem o tabaco, que sofre de uma elevada carga tributária, conseguiu igualar – pagamos o que for preciso para sentir aquele líquido fervente a escorrer-nos pela garganta, por muito parcos que sejam aqueles breves mililitros de café. O café é um bem precioso, indispensável, é mais do que um simples prazer, não restem dúvidas.
- Então, ó Clotilde, não se trabalha? – indaga um chefe rezingão.
- Ó chefe, deixe-me tomar o cafezinho a seguir ao almoço, senão fico com tremeliques! – desculpa-se,
- Ah, então está bem. Eu aproveito para ir consigo.
A máquina de café. Altar sagrado de confraternização laboral. Por vezes, o único lugar onde se conhecem mesmo os colegas de trabalho é junto da máquina de café.
O bar que serve bicas e cimbalinos, italianas e pingados, “o café”, como é conhecido, é a maior atracção social do momento. Pululam como coelhos na planície os estabelecimentos do género. Cada subúrbio que se preze terá 10 ou 15 “cafés” na mesma rua e mesmo no interior escondido haverá um “café” central, quando não 2 ou 3. Por cada boutique de pronto-a-vestir que encerre, abrir-se-á uma loja de chineses. Ou um “café”. Toda a gente conhece, pelo menos, um gerente de “café”, mesmo que nem se beba café e só se fique pela imperial com tremoços e o cigarrinho enrolado da praxe. Já todos devemos conhecer o ritual da extracção de um café, os manípulos que há que manipular, as rodas que há que rodar, nem que seja só pela repetida observação. Todos nós nos encontramos, com menor ou maior frequência, num “café”. É lá que nos reunimos com familiares, para que não sujem a nossa casa. É lá que marcamos engate com uma mulher, convencidos do anonimato inerente a um simples casal numa mesa a beber café. É lá que nos encontramos com os amigos, porque o café que sacamos em casa não presta. Como tudo é falacioso: geralmente os estabelecimentos estão sujos, sabe-se que a gente que bebe café tem como ocupação principal espiar a mesa da frente ou do lado e o café sabe mal em todo o lado, por muito que nos tentem convencer do contrário e por muitos produtos que se adicionem.
- E suave, negro, espesso… sente-se aquela ligeira torrefacção característica dos cafés das zonas tropicais… - diz a menina do anúncio. É mentira. O café é água a ferver e suja por bagos moídos de uma planta remota e ainda por cima tem contornos aditivos. Porque não uma mania semelhante pelo chá, que também é água quente aromatizada por ervas exóticas?
- Ah, não, o chá é para meninas (Roberto, camionista).
- O chá não tem a intensidade que os grãos de cafés parcialmente moídos através de métodos tradicionais da África Central (Roberta, a menina do anúncio)
- O chá não me acorda (Rolanda, viciada na cafeína)
- O chá? Isso é para os ingleses! Café com cheirinho é que é! (Rodolfo, proprietário de um “café”).
Ah, isso é que é! Um belo bagaço, inflacionado no seu percentual etílico, despejado por cima de um líquido enegrecido e amargo, mesmo com o natural pacotinho de açúcar concentrado no fundo da xícara… uma bomba apenas ao alcance dos mais fortes. A escada natural para se alcançar um bafo respeitoso e inesquecível. Um teste de segurança ao coração.
Depois do suspiro de satisfação pelo último trago, o cigarrinho da ordem. Levanta-se um burburinho de desconforto, indignação, irritação, paternalismo e desconsolo, entre outros sentimentos residuais.
- Desculpe, não se pode fumar aqui.
- Vamos lá para fora acabar o café, que aqui a chaminé já começou a trabalhar!
- Hão-de morrer com cancro, desgraçados!
- Toda a gente sabe que faz mal, porque é que fumam?
- Estas pessoas fumam sem se preocuparem com mais ninguém! Já estou com os olhos a arder!
Se beberem um café, tudo isso passa…

quinta-feira, novembro 30, 2006

Perdido na Floresta

“Isn’t it good to be lost in the woods, isn’t it bad so quiet there, in the woods?” – Syd Barrett, “Octopus”

Mapas para mim são demonstrações de resultados. Balanços. Saldos contabilísticos. Impressionantes os números dos resultados operacionais do último semestre. Gosto de me espalhar sobre as razões das dívidas de longo prazo, debitar do lado oposto ao crédito no T do relatório e contas. Trato com reverência os balancetes, venero o EBITDA quando o sinto a crescer com pujança. Não me atrapalham as siglas, sejam elas o ROA ou o IVA, nem me perco com empréstimos obrigacionistas. Procuro saber se a yield curve a curto prazo pode ser favorável. Alavanco. Acciono. Jogo com as tendências do Brent. Dou ordens de compra. Vendo a descoberto. Torno-me bilingue. Influencio índices de rentabilidade. Reinvento taxas. Oh, felicidade! O sussurro de percentagens que ecoa nos meus neurónios inflacionados pela vertigem do superávit. A cor monetária das curvas dos gráficos. A certeza tranquilizadora da fraca exposição ao risco cambial. Pesos certos em balanças afinadas como as regras da produtividade definem. Papéis verdes sobre jornais rosa. Gravatas e auriculares, portatibilidade e mobilidade.
É uma pena as coisas boas não durarem para sempre. Felizmente que a seguir ao feriado geralmente vem o trabalho.
Subsiste, porém, o senão da pausa. Inquietante é o dia fora do escritório. Seja na cidade ou no campo. Não há bússolas. Não há regras. Não há teorias infalíveis. Há bonés e sacholas. Bonés e sacholas não nos levam a lado nenhum. A selva é lá fora, no mundo real. Na floresta podia haver um javali à espreita, a colocar-nos sob alarme permanente. Mas não há nada. Os grandes não são assim tão maus nem os pequenos assim tão bons. A realidade é francamente intragável. E depois, a gente medonha que profere banalidades ultrajantes em tronos preenchidos com vácuo. Liguem-me à rede. Dêem-me a senha. Retiram-me o soro que me mantém aceso. Não há beleza num monumento grafitado, num prado verde e chilreante, num centro comercial apinhado. Há pedaços animados de carne que se movimentam sem sentido. Descubro amores loucos nos outros, olhos carregados com uma fantasia tal que me suga a noção das coisas. Perco o controlo das coisas, sinto que me espezinham a personalidade como se de nada tratasse. Isto é o nada, a vã roda-viva da vida dos estranhos à minha volta, aqueles que me rodeiam todos os dias mas nos quais nunca reparo. Não arranjo disponibilidade para sequer beber até cair. Tenho insónias a pensar no tempo que perco por não conseguir dormir. Esborracho moscas no vidro durante o fim-de-semana, descarregando a minha torpe fúria da folga naquilo que posso. Não vivo, o bicho também não viverá. Perco a fome aos Domingos. Perco a paciência. Não suporto o riso das crianças. Abomino a tosse dos velhos. Rasgo fotografias de memórias perdidas. Preservo apenas o apetite pela destruição dos que não vivem o stress. O stress não é o meu mal, é o meu sal. O condimento indispensável do refogado em que eu me tornei. Sempre a preparar qualquer coisa que me faça sentir útil para alguém acima juntar o creme por cima. O mundo não tem objectivos e eu só tenho metas. Separei-me da tal forma do comum cidadão que me metamorfoseei no seu lado obscuro. Não me interessa se estou por cima ou por baixo, eu pressinto apenas que não estou em lado algum. Dói-me sentir que os outros sentem coisas que eu não consigo sentir. É das poucas coisas que me consigo diagnosticar, esta concreta e crescente incompatibilidade com o resto. De resto, vou escavando ódios infundados em lugares recônditos da minha mente, qual passatempo diabólico, até chegar a manhã seguinte.

segunda-feira, novembro 20, 2006

O Teu Clube!

Imaginem um clube homónimo de massas alimentícias que se dizem boas. Coloquem esse clube numa ilha e, dentro dessa ilha, numa encosta nebulosa com vista para o mar imenso. Nessa encosta, aproveitem o mais curto espaço disponível para desenhar um campo de futebol, tão curto, tão curto, que só haverá espaço para uma bancada e três muros de cimento a ladear o rectângulo de jogo (pelo menos, enquanto as necessárias obras de beneficiação não terminam). Para finalizar, as pièces de résistance: uma bizarra claque histérica feminina (perdoem-me o pleonasmo) e um presidente aprendiz do inesquecível João Vale e Azevedo.
Muitos de vós (os dois ou três) que estão a ler este texto já descobriram, decerto, este enigma que nem chega a sê-lo: falamos do Clube Desportivo Nacional, Nacional da Madeira, como será melhor conhecido.
Este é um clube insular, talvez demasiado insular. Na equipa de futebol, pontificam nomes que pouco corroboram o “nacional” que, enganadoramente, ostentam no nome. Juliano Spadaccio (que ia dando na tromba a um dirigente… do seu próprio clube! – um caso actual a acompanhar), o ríspido Ávalos, o desconhecido Rafael Bracali, o durinho Cléber, Chi-Chi-Chilikov, o relógio suíço que é Diego Benaglio, o evoluído Marchant (não de arte),… enfim, um onze pouco “nacional”, mas que tem vindo a recuperar paulatinamente alguma portugalidade através de nomes como Bruno Amaro, Ricardo Pateiro, Patacas e o já saudoso Nuno Carrapato. Longe vão os tempos dum Sylvanus, Murphy, Gilmar, Leiz, William, Heitor, Dino, Serginho Baiano, nomes que tornavam o CD Nacional um dos maiores viveiros de brasileiros do nosso campeonato. Essa honra cabe hoje ao rival Marítimo, que, imitando as grandes constelações galácticas do Velho Continente, poderá muito bem entrar em campo sem um único jogador nascido no país do campeonato onde joga. Sim, a tradição já nem sequer existe para ainda poder ser o que era.
O clube é assaz pitoresco, como podemos constatar no paradoxo da nomenclatura acima exposto, encontrando ainda mais paralelismos com a América Latina.
Por exemplo, o seu actual presidente, no cargo há 12 anos. O CD Nacional sempre foi um clube relativamente estável e sem grandes disputas de poder, como atestam os apenas 14 presidentes nos 96 respeitosos anos de História (mandatos médios de quase 7 anos), mas este Presidente parece apostar em derrubar recordes de estabilidade. Para além duma modéstia fora do comum, que fez com que baptizasse o estádio (?) do seu clube com o seu próprio nome, o estilo intempestivo com que intervém publicamente é claramente decalcado dum qualquer chefe de guerrilha sul-americano (ou Alberto João Jardim, se não quisermos ir tão longe). Ele simplesmente não encontra dificuldades em absorver qualquer disputa de poder interna… se é que ela existe. Este senhor projectou com a sua vaidade pessoal, o gel no cabelo e os indissociáveis óculos escuros da moda o nome do CD Nacional até às competições europeias de futebol por duas ocasiões recentes. Presenças europeias que, contudo, não passaram de viagens pouco mais que turísticas a Espanha e à Roménia. Pessoalmente, e sempre que pode, lança a confusão como Jesus lança comida aos pobres, na Liga de Clubes ou na forma ousada de resgatar reforços que eram virtualmente de outros clubes para o seu emblema.
Este Engenheiro, apodo do qual nunca se separa, como forma de manifestar a validade das suas opiniões e actos, chegou a comparar o grandeza do seu clube a um outro clube de natureza, essa sim, nacional (e até internacional), na época passada. Deu-se mal e a partir daí retraiu-se um pouco… mas, lá no fundo, só aguarda por uma próxima oportunidade para sobressair – deixem o CD Nacional ganhar uns jogos e ele lá aparecerá, ufano de si mesmo.
Bem, se calhar o facto do presidente em exercício do clube emprestar o seu nome ao estádio (??) nem é assim algo de tão extraordinário – Avelino Ferreira Torres, no Marco de Canavezes e Vieira de Carvalho, na Maia, salvaguardando as distâncias que, presumimos, existam, abraçavam situações com muitas semelhanças. Se calhar vale mais a pena recordar o vazio directivo que assolou o CD Nacional durante 6 anos, entre 1948 e 1954 – o clube não teve presidente, segundo informações oficiais, que nem sequer confirmam a existência duma Comissão Directiva! Isto é, viveu completamente à deriva. Foram tempos difíceis? Imaginamos que sim. Mas se calhar com lideranças mais honradas do que a presente.
Não nos podemos esquecer que o CD Nacional, na sua grandeza virgiliana e homérica que o Engenheiro presidente assegura que tem, apenas ingressou nos campeonatos nacionais de futebol em 1975, isto é, lá perto das suas bodas de diamante. Portanto, o relativo sucesso é recente e até aquém do verificado pelo rival Marítimo. É um clube jovem nas caminhadas do estrelato da Primeira Liga e aberto às excentricidades características da juventude. Aqui entra a claque feminina, verdadeira particularidade alvi-negra.
Seja pelos cânticos honestos ou pelas vozes irritantemente esganiçadas atrás do banco forasteiro, estas senhoras marcam uma época nos anais das claques em Portugal e, arriscamo-nos, no mundo. As bravas mulheres adeptas do CD Nacional não regateiam esforços no gritar e no aborrecer treinadores visitantes. Coadjuvadas por outros grupos de apoio de menor singularidade, apoiam-se em versões musicais “nacionalizadas” doutras claques e na sirene de ambulância que é já um marco no apoio desportivo português, suplantando os bombos de Caxinas e o trompete do Dragão. Pontapé de canto contra o CD Nacional é garantia do som de ambulância a ecoar pelo betão que ladeia o relvado. Um bom som, refira-se, capaz de assustar qualquer maqueiro desprevenido.
Não lhes perdoamos é o desplante com que colam na parede de cimento da superior norte do estádio (???) a superior arrogância: “Nacional – o Teu Clube”. Por que raio haveria de ser? Rai’s partam as confianças!... Ainda bem que elas não vêm para o Continente, limitando os seus guinchos à exígua Choupana.