domingo, fevereiro 24, 2008

Cedo Para A Cama

Cedo para a cama, o leitinho morno da praxe, aquele teu olhar melancólico debaixo dos lençóis, sem nenhum toque de sal, sem nenhum resquício de gás, o amor eclipsou-se por detrás das complicadas agendas que sobrecarregaram os nossos olhos. Pensamos em sorver as coisas boas da vida exercitando as rígidas regras das cartilhas que emergem como cogumelos na matéria dos dias, pensamos bem, pensamos demais, mudamos então de ideias e ficamos na mesma, sempre iguais, inamovíveis com o peso da ruptura que nos intimida, lamentando o sol ir-se tão de repente. Não damos por nada nesta cama de sonhos perdidos, a insónia é uma causa ou uma consequência que aceitamos sem questionar, a privação do sono é uma ameaça que levamos muito a sério. Dormir juntos é o melhor que parecemos conseguir fazer em conjunto, é apenas deixarmo-nos ir, ninguém se chateia. Perdemos algo que não sabemos ao certo o que é, mas as nossas peles com certeza que já não vão dispensando as loções revigorantes. Já não conseguimos achar graça aos mochos e corujas, vamos compreendendo os vaidosos galos matutinos, vamo-nos resignando à voragem do cansaço, vamo-nos lembrar de velhas repetições, velhas memórias que afinal agora são de outros. E é ver-nos assim, esquecidos, apoiados em almofadas que já não têm forma, fazendo as coisas certas não porque nos saiba bem, mas sim porque já não arranjamos outra solução. A apatia dos dias avançou sobre o nosso quarto como uma névoa invencível, a rotina galgou inexorável sobre as mantas e agora submetemo-nos ao relógio universal com uma servidão digna, mas completamente infrutífera. A noite já não nos chama, a lua tem outras companhias para explorar, as sombras que antes nos lançavam desafios pertinentes hoje já não encerram grandes mistérios. Vejo a tua cara e ela já não ferve de amor, apenas pede clemência para que não a abandone. Cedo para a cama, chinelos ao lado, é assim, dizemos mudos um para o outro, é assim que deve ser.

domingo, fevereiro 17, 2008

La Tristesse Durera

Não é preciso pensar muito para dizer o que está mal nesta fotografia. É verdade, Paulo Bento está a sorrir. Ou melhor, estava. A imagem é de 2002, tirada um pouco antes da realização do ignominioso Mundial da Coreia/ Japão, um pouco antes dos sorrisos terem amarelecido ou até desaparecido por completo, mas já depois dos mimos do mesmo Paulo Bento ao árbitro Gunter Benko. Enfim, Paulo Bento ainda sorria.
Hoje em dia, pode ser discutido (até à exaustão, à falta de melhor assunto) o seu corte do cabelo, a sua dicção, a sua histórica auto-proclamada tranquilidade, os seus lábios semi-jaggerianos, a sua postura no banco, a bufaria que existe ou não, a sua quota-parte de responsabilidade de tudo o que corre mal no Sporting, mas poucos poderão discutir que Paulo Bento não sorri. Ponto. É tabu.
Desconheço se existe alguma cláusula contratual que impeça o sorriso. O certo é que o exclusivo não é de Paulo Bento. Os treinadores dos maiores não sorriem. Ver um treinador português de uma equipa denominada grande a sorrir no banco ou numa conferência de imprensa é quase tão difícil como arrancar um sorriso ao implacável John Rambo. Bem, Mourinho ainda exultou freneticamente em Sevilha, saltou e gritou com a Taça UEFA na mão. Mas um ano depois, em Gelsenkirchen, Mourinho estabeleceu um novo paradigma, um modo de estar de tal forma marcante que seria religiosamente seguido por qualquer treinador: exibir um ar deveras blasé, de aborrecimento e enfado imperturbáveis, especialmente nas horas boas. Afinal, ele é O Especial, quem fura protocolos tácitos e o verdadeiro precursor de tendências estético-estilísticas. E quem não for sistematicamente circunspecto não chega ao topo – isto é para vocês, Manuel Cajuda e Jorge Jesus, que já foram vistos em celebrações exuberantes quando as vossas equipas marcaram golos decisivos.
Camacho não ri, rosna desculpas em espanholês e encolhe os ombros. Jesualdo, a custo, lá esticou os lábios enferrujados pelas agruras da vida na sua primeira vitória no campeonato e envergonhou-se pelo sucedido. “Eh pá, descuidei-me, se tivesse visto o fotógrafo tinha pensado em coisas tristes”, pareceu dizer para si quando se viu nos jornais, quase, quase a mostrar os dentes lavadinhos e brilhantes. É que isso colocou em sério risco a sua posição de eterno carrancudo, função que Jesualdo aprimora com níveis bastante satisfatórios, cavando sulcos estratégicos na testa para ajudar à sua expressão de duro inamovível. E Paulo Bento, jovem treinador, já entrou nesse comboio de tristeza, a gravata já lhe aperta como apertava ao eterno portador de semblante desolado que era (e deve continuar a ser) Fernando Santos.
Ainda não terá vivido demasiado tempo no banco, mas o suficiente para carregar aquela expressão de perene frieza emocional. Qual a profundidade melancólica dos pensamentos que estes treinadores utilizam para evitar um esgar de contentamento? Serão eles pessoas mesmo tristes? Será que a felicidade do futebol se esgota no final da carreira de jogador e a partir daí é um suplício constante se se opta por prosseguir enquanto treinador? Será a proximidade do abúlico Pedro Barbosa? Não conheço a resposta. A imposição de autoridade por via de um aspecto permanentemente severo parece ser uma boa desculpa. Mas lá que a fotografia já não parece do mesmo Paulo Bento, lá isso não.

Ainda nos meandros da completa negação de felicidade, os Radiohead editaram mais um álbum que, sabia-se mesmo antes de ser editado/ largado pela Internet, é um êxito crítico assinalável. Thom Yorke já não sabe o que é o prazer, só a dor. E a dor dele é abençoada, um autêntico colírio para a alma dos críticos que, com instintos que chegam a ser sádicos, se deliciam automaticamente com qualquer gemido por ele emitido. Se há coisas inegáveis no panorama musical é que os Bush nunca fizeram nada de jeito e os Radiohead estão sempre a tocar na perfeição em cada uma das suas acções. Depois, se os sons que acompanham a dolência de Yorke forem o mais intrincadamente rebuscados possível, tanto melhor: é obra-prima atrás de obra-prima. E eles vão prosseguindo com a sua cavalgada a que chamam, à falta de melhor, “alt-rock”. Mesmo que as guitarras distorcidas características do rock não morem por lá.
Haja paciência para tanta adulação pré-concebida: haverá dezenas de bandas que valerá a pena ouvir antes dos Radiohead, isto se não estivermos a equacionar o suicídio enfiados dentro dum exíguo quarto pintado de negro na cave duma estação de metro desactivada. Desde “OK Computer”, alvo de uma aclamação crítica desmesurada, que os Radiohead parecem mais do que aquilo que realmente são. “Amnesiac” extremou as extravagâncias indulgentes de “Kid A” de tal forma que nem me apeteceu ouvir “Hail To The Thief”, porque não estava para me entristecer ainda mais com dores que não são minhas e com sons que não são nem carne nem peixe, estavam para ali entre a electrónica e outra coisa qualquer. Se calhar fiz mal, mas pela amostra de “In Rainbows” nem por isso. Ouvi o álbum duas vezes seguidas e existem dois ou três bons momentos. Esta é a melhor banda do mundo? Pois sim, os doutos críticos é que sabem, eu sou apenas um ignorante.
Porque é que a sisudez deles é tão melhor que a dos outros? Quem me dera fazer da minha tristeza um estilo de vida e ser feliz por isso… Ele há ironias que até têm a sua graça.

sábado, fevereiro 09, 2008

Humano Transgénico num Cocktail Beneficiente

Eu estava com um excelente aspecto. Perguntaram-me se não tinha feito uma plástica.
É óbvio que me ri.
E depois caiu-me um dente.
"É preciso ter lata!...", gracejei.
Especialmente nas articulações. A partir dos vinte e dois anos já custa mexer os ossos. É a lei da vida. Mas a lei é omissa quanto a uns ajustamentos aqui e ali.
O certo é que não devia ter snifado tanto pó de cloro que julgava ser cocaína. Devia ter ficado pelo leitinho morno da vaca.
Da vaca da minha mãe.
Hoje estaria um brinco, com todo aquele cálcio enriquecido pelo fumo do tabaco do bordel. Na verdade, se não fossem os brincos servirem de ímanes, as minhas orelhas já teriam caído e com elas o meu cabelo.
Ah, o cabelo. De todos os tapetes persas que vi, não gostei de nenhum. Nem de tapetes, nem de tigres a roçar a extinção. Perguntei então ao coveiro que me enchia o copo de bom gin: “Então e essa velha sueca, ainda precisa do seu escalpe?”, “De todo, ela já é um cadáver”, “Então embrulhe-a aí junto dos meus écharpes e passe por casa mais logo”.
Provavelmente acabei por fazer amor com o coveiro. Ou com a defunta. Estava muito calor e eu já acelerava em elevada progressão etílica. E ambos deviam cheirar muito mal, embora só um estivesse perfeitamente decomposto. Mas o frémito do meu amor é forte e é cada vez mais difícil detectar as diferenças neste mundo louco.
Eu distribuo amor a toda a hora, sou eu e o Lenny Kravitz, mas enquanto ele ainda arranha as guitas, a mim são as guitas que me mantêm de pé. E de vez em quando lá desafino.
E é por isso que precisava de ter mais lata do que essa gente inconveniente, para lhes responder à maneira.
Voltei-me a rir, sem querer, mas achei hilariante aquele penetra ter sido espancado. E perdi definitivamente a vista. Deve ter caído no teu batido de morango, o que é uma sorte. Se fosse um batido de banana a ramela poderia reagir e provocar-te azia.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Calma no Médio Oriente

A semana passada foi excepcionalmente calma no Médio Oriente. Em Israel foram assassinadas menos de 100 pessoas, um mínimo histórico desde meados do século… dum século anterior qualquer. Na Faixa de Gaza, em particular, apenas se assistiu a um tímido massacre de algumas dezenas de palestinianos e as forças israelitas contaram pelos dedos de algumas mãos decepadas de crianças órfãs as baixas que ocorreram aqui e ali, entre esporádicos ataques suicidas e um ou outro rebentamento de veículos estrategicamente posicionados. Em Jerusalém, o Muro das Lamentações voltou a resistir, miraculosamente, por mais uma semana, apesar dos minimais obuzes que inadvertidamente o atingiram e das insistentes cabeçadas dos crentes judeus. Ali ao lado, no Líbano, apenas se registaram três ou quatro dezenas de manifestações inicialmente pacíficas que descambaram para a violência usual. Mortos foram uns quantos seres indeterminados, para aí uns sessenta ou setenta, o equivalente a 0,0001 Maddies desaparecidas, ou seja, nada de preocupante. Também houve um divertido raid aéreo que culminou com a destruição quase total duma cidade aparentemente não-fronteriça, com prédios e mais prédios em ruínas ou lá perto, milhares de desalojados e vários cortejos fúnebres a céu aberto com bandeiras americanas a arder – nada de muito significativo, portanto, e que não se resolvesse com lutas fraticidas que geralmente custam a vida a umas quantas centenas de inocentes, como foi o caso. Na Síria, Damasco respirou ares de tranquilidade com o deflagrar de uma explosão no centro nevrálgico da cidade. Somente se contabilizaram 67 vítimas, entre cadáveres e estropiados que salpicaram de sangue os veículos e as estradas de terra batida em redor. Isto é, reuniram-se as condições para um passeio nocturno nos verdejantes, e expectavelmente minados, parques da cidade, ao fim de tanto tempo de privações. No depauperado Iraque, ou no Irão, queremos lá saber, aconteceu um sortido de tudo o que foi referido atrás, mais um ou outro blindado foi pelos ares e eclodiram mais umas quantas vendettas entre facções xiitas e sunitas, com armas químicas ao barulho. Também já morrem à fome em Bagdad, mas isso é irrelevante, provavelmente serão mais uns quantos curdos imprestáveis. O que importa é que entretanto retomaram a produção de petróleo. Ah, e encontraram finalmente armas de destruição maciça dentro dum depósito de urânio enriquecido, que, segundo consta, serve apenas para matar ratos e produzir electricidade. A grande nota de surpresa acabou por provir da habitualmente plácida Arábia Saudita, onde ondas de tensão e ansiedade estão a varrer de incredulidade os xeques do petróleo e as suas incontáveis mulheres: parece que existe uma moda revivalista a contaminar a sociedade saudita, consubstanciada na adoração da mullet de Tozé e nas bexigas faciais de Hélio, dois jogadores portugueses que semearam a simpatia e a curiosidade aquando do Mundial de Juniores em Riade, em 1989. Mas o que realmente perturba os cidadãos é a busca pelo novo objecto sagrado: uma camisola de Xavier, o patinho feio da Selecção lusa, o tal que nunca passou da cepa torta. Consta que é hoje um objecto muito mais valorizado do que é uma cópia do Corão ou mesmo uma fotografia do Fernando Couto sorridente e de cabelo curto.
O triste é saber que para a próxima semana tudo voltará ao normal. Ou seja, não acontecerá nada de relevante no mundo ocidental, nem uma crisezita financeira, e o quotidiano no Médio Oriente voltará a entrar-nos em casa pelas horas dos noticiários. Rai’s partam os directores de informação.

terça-feira, janeiro 15, 2008

A Pobreza É Um Luxo

O novo conceito de luxo é pagar para ser pobre. A ideia partiu da Xupax, uma empresa ligada à ocupação dos tempos livres das classes mais endinheiradas. Aparentemente condenada ao fracasso, a Xupax apercebeu-se que a ideia poderia singrar quando reconheceu que existem pessoas que gostam de sofrer e, acima de tudo, pessoas estupidamente ricas que pagam estupidamente para sofrer.
Por um montante inicial fixo que pode variar entre os 50.000 e os 250.000 Euros semanais e por um período nunca inferior a duas semanas, o cliente poderá gozar as delícias da vida dos pobres. Estão disponíveis as seguintes rubricas em pacotes customizáveis e extremamente flexíveis (extras entre parêntesis):
- trabalho mal-pago e com um chefe rezingão (chefe que humilha: + 200€ por cada ataque nervoso);
- casa nos subúrbios, apenas acessível por transportes públicos (apenas acessível a pé: +5€ por cada metro em terra batida; sem electricidade, água ou gás: +250€ por cada item);
- mulher anafada com bigode ou marido bêbado com unhaca no dedo mindinho (filhos na droga: +1.000€; filhos na droga e na prostituição: +2.000€ - valor que passa para 1.500€ se a prostituta vier com chulo, a providenciar pelo cliente);
- crédito malparado (possibilidade de exibir bens ainda não pagos aos amigos para ostentação: +5.000 € por cada unha roída de inveja);
- férias na Caparica (férias na casa dos sogros: +200 € por dia);
- visionamento em directo de jogos do Benfica (possibilidade de aparecer na reportagens da TVI: +3.500€);
- fome (MUITA fome: +500 €);
- doença apenas curável em establecimento público (doença incurável: o dobro do valor do pacote escolhido);
- outros extras avulsos, como espera de eventuais filhos à saída de escolas públicas e levar com a porta na cara dum estabelecimento comercial ou público: situações negociáveis caso-a-caso.
Vários magnatas e socialites gastaram exorbitâncias com esta experiência lúdica. Homero Bello de Gonzaga, notável milionário brasileiro, levou toda a sua família para duas semanas de horror numa favela paulista. Ninguém morreu, miraculosamente e apesar dos ferimentos. Homero considerou o tempo dispendido como “muito enriquecedor”, por estranho que pareça – Homero gastou mais de setenta vezes o equivalente aos rendimentos esperados totais das vidas dos seus 30.000 vizinhos da favela. Adiantou ainda que os níveis de adrenalina são incomparavelmente superiores aos do rafting ou aos de qualquer actividade tida como radical. “Jóia. Muito legal”, adiantou, ainda aturdido pelo choque.
Já Titá Gugu Xixi, colunável de Paço d’Arcos, ficou sem palavras. Não apenas por causa da operação mal sucedida à laringe, mas porque as expectativas foram largamente superadas. “Olhe, sei lá, super-chique, foi divertidíssimo viver como um porco durante dois meses. Nem shampoos de algas tinha, veja bem”. Nada lhe custou em demasiado. “Olhe, achei engraçadíssimo ver as miúdas a engravidar com 12 anos e os miúdos metidos com agulhas e facas e mai-não-sei-quê, de morrer. Eu própria achei giríssima a vida com ordenados mínimos aturar um trabalho tão estupidificante como é embalar clisteres durante 10 horas por dia e ainda ter que aturar um marido podre de bêbado ao chegar ao T1, sei lá. Demais”. Recomendou vivamente a Xupax a todas as suas colegas, mas admitiu que não era capaz de viver assim para sempre. “É adorável como experiência, mas com aquilo que ganhava não podia ir a Saint Tropez nem daqui a 30 anos, ‘tá a ver?”.
A Xupax tem a carteira de pedidos totalmente cheia e não está a aceitar mais inscrições. O esquivo director-geral da Xupax escusou-se a tecer comentários. Apenas confidenciou que “ser pobre não é para todos”.
PS - Texto baseado em factos reais constatados na Índia.

sábado, janeiro 12, 2008

Deixa Mamar

Perdão pelo título. Percebi mal. É “Deixa-me Amar”, afinal.
Ah, está bem. É só a língua portuguesa a ser traiçoeira. Culpemos a língua. Eu, por mim, não tenho problema nenhum. Se fosse “Deixa-me Matar”, “Deixa-me Roubar” ou “Deixa-me Colocar Uma Música da Kelly Family Enquanto Descasco as Batatas” é que já colocaria reticências. Quereis amar, porém? Amai com toda a força, eu deixo.
Visitem então o blogue. "Já", como suplicam os fãs e autores do blogue. É interessantíssimo, não só cromaticamente, mas também a nível de conteúdo.
Eu cá nunca vi telenovelas da TVI. Nem a própria TVI, excepção feita ao futebol (Luís Sobral, com esse timbre de voz podias ser o Leonard Cohen do jornalismo oportunista português). Sim, sou demasiado práfrentex para isso, não me coíbo de o afirmar. Mas arrisco uma possível estrutura para a telenovela, com todas as probabilidades de erro a que me sujeito.
- Uma família rica que vive numa quinta e cuja fortuna é incomensurável, OBRIGATORIAMENTE com criada, NECESSARIAMENTE gorda e muito simpática, que serve sumo de laranja pela manhã, quando TODA a família se reúne à mesa religiosamente às 7:30 em ponto. A família TEM de ter um patriarca sóbrio e extremamente respeitado – que será o Ruy de Carvalho ou o Sinde Filipe, é aproveitá-los enquanto forem vivos. Dentro dessa família, dois irmãos, desavindos, um muito bem intencionado e outro muito pérfido, ambos muito impulsivos e competitivos em todos os aspectos das suas vidas. De preferência, acabarão por se apaixonar pela mesma rapariga, que provirá dum estrato social inferior e que conquistará os elementos menos ásperos afectos à família rica (entre eles estará a criada, os netos do patriarca, que são fruto duma relação anterior de algum dos filhos e que andam lá pela quinta, bem como a esposa do patriarca, se este não for viúvo, o que até será mais provável). Este triângulo amoroso será o fio condutor sentimental da história, embora todos saibamos que no fim ela ficará com o irmão-bom.
- A rapariga sofrerá muitas desilusões e vê-la-emos a chorar bastas vezes em primeiro plano, com uma música lamechas do Rui Veloso, Santos & Pecadores, Paulo Gonzo ou qualquer outra estrela nacional como pano de fundo. A sua vida será uma montanha russa de emoções e ela será uma tipa que veio parar ao local onde se desenrola a história por acaso. Ora desiludida, como referi, ora extremamente feliz, felicissimamente parva, exultando com o seu amor (os irmãos da família rica ou um amigo de infância, o qual nos apercebemos logo que não terá hipóteses), que confidenciará à sua grande amiga, claramente menos atraente em termos físicos. A rapariga irá planear casamentos como quem bebe copos de água, mas estes cairão por terra quando tudo estiver a postos. Esta sua amiga viverá uma história de amor não-assumido com um pobretanas qualquer, que, embora muito honesto e benquisto, é um trapalhão de primeira. Esta relação constituirá o fio burlesco da história, o rapaz trapalhão será o jogral do enredo e será nestes diálogos que os argumentistas aproveitarão para lançar todo o seu manancial de piadas. O rapaz será exortado a fazer muitas caretas e os seus amigos fartar-se-ão de brincar com a sua inépcia, incluindo o bêbado da taberna (infelizmente, o Canto e Castro já não pode fazer este papel, então busque-se o Manuel Cavaco), gerida por um casal de velhos sempre a par de todas as novidades e a postos para assumir a figura de consultores afectivos.
- Existirá uma empresa, ligada por qualquer meio à família rica, gerida de forma implacável por uma administradora cruel, mas extremamente sensual – papel criado de propósito para a Alexandra Lencastre, que preparar-se-á especialmente para o papel com horas e horas de solário, oxigenação capilar, fortalecimento hormonal do seu, já de si, enorme par de mamas e aprimoração do sotaque Cascaisiano a níveis estratosféricos. Existirá um colaborador galã (pode ser o irmão-bom, por exemplo) sempre revoltado com a liderança da empresa, um visionário empresarial, um injustiçado. A administradora, com o apoio de um amigo sinistro (pode ser o irmão-mau) que lhe é leal de forma doentia e nunca a larga, fará os possíveis para sabotar as boas intenções do galã. A auxiliá-la, encontraremos ainda uma outra amiga, uma figura deveras antipática e desprezada por todos os protagonistas, mestre na arte do sorriso cínico e da manipulação sentimental. O amigo sinistro da administradora deseja que ela seja sua, mas a administradora quer é o galã, que por sua vez nem a pode ver pintada à frente. A amiga da administradora, a meio da história, será atingida pelo Cupido e também quererá o galã para si, não olhando a meios para atingir os fins. Enquanto isso, a empresa, que em termos organizativos é pouco menos que perfeita, embora todos passem mais tempo a tratar da sua própria vida e a tratarem-se coloquialmente por “você”, passará por dificuldades inesperadas. Um inspector da Judiciária (pode ser o Rogério Samora?), tão sagaz quanto inoportuno, passará a ser visita frequente do luxuoso escritório e quererá analisar uma misteriosa pasta com documentos comprometedores, que todos farão questão de guardar até aos episódios finais. Será usual a administradora começar a falar sozinha na sua casa mobilada pelo IKEA, COM UM COPO DE WHISKY COM TRÊS PEDRAS DE GELO NA MÃO, planeando assassinatos e chantagens em voz alta. Este será o lado noir, frio e cosmopolita da história.
- Os miúdos, filhos dos irmãos, entre órfãos e filhos de pais divorciados que só sabem o que é viver com a avó, frequentarão um colégio sem ponta de sujidade. Será notável o instinto precoce para a moda, pois todos estarão na crista da onda em termos de vestuário e penteados. Serão mestres nas novas tecnologias e nos desportos radicais. Uma professora muito atenciosa e querida ousará enfrentar o director do colégio, um tipo mal-encarado e parado no tempo que se afronta com facilidade com qualquer atitude dos miúdos, apenas para defender uma atenção especial a um miúdo em particular – que, sabe-se, já fumou um Davidoff que roubou à mãe ou que, num acto de loucura sem precedentes, bebeu três cervejas Tagus numa festa da escola e foi apanhado semi-nu na praia como consequência. Pobre rapaz este, viverá sempre com o estigma do James Dean lá do sítio. Este será o lado juvenil da história e será por aqui se que se irá evidenciar a próxima Vera Kolodzig.
Confusos? Verão que tudo é fácil. Fico-me por aqui. Com estes ingredientes já temos o essencial. Agora é criar monstruosos laços de família e esclarecer verdades que se julgavam absolutas: afinal, o pai de X é na verdade seu irmão e X nem sequer é um ser humano, mas sim um macaco ultra-desenvolvido que tem um fetiche pelos pés de Y, que por sua vez não gosta de Z, mas sim de K, enquanto W e P não eram primos, mas sim siameses filhos de Z e K é homossexual e gosta de W, seu próprio filho, mas W tem os diamantes que roubou a P e P não pode deixar de ser amigo de Z enquanto este não resolver o caso das fotocópias ao rabo de K, que é a sua mãe adoptiva e vive com Y, após uma fuga frustrada com W para a Venezuela quando X ainda andava metido nos meandros das apostas ilegais com Z, que batia em P enquanto bebia para esquecer a cadela desaparecida de K ou de W. Enfim, depende de quantos meses quisermos esticar a história.
E quanto mais a história durar, mais os argumentistas mamam. “Deixem mamar”? Pois mamem. Agora sim, faz todo o sentido.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Bingo

Dois cães a copularem na rua. O afã do macho, a passividade da fêmea, patas ao alto, línguas de fora, já está. Márcio reconheceu-se. Lembrou-se de Ludovica. De quando ela se lamentara, “nós não fazemos amor, nós temos sexo”. Pois é, somos animais. E com isto, Márcio adquiriu uma revista de computadores no quiosque, sacando da nota mais alta que tinha na carteira e ostentando-a ao vento. Que é para não haver dúvidas: era racional, era mais que um animalzeco, ao fim ao cabo. Não era um rafeiro comum. Era culto, sabia ler, tinha posses. Tudo o que não parecesse premeditado era no fundo um cálculo programado, uma manobra de diversão para incautos. Tudo era planeado, até as eventuais debilidades que se quisessem mostrar. Se as houvesse, claro. Ludovica, essa, perdera a sua vida atrás dum balcão qualquer e Márcio perdera o gosto por ela ao fim de umas poucas relações. Tinha perdido o apetite e ela começara a ganhá-lo desmesuradamente. Já não a suportava.
Se a vida é uma roda viva de emoções, então parassem-no lá em cima. Não foi ele que inventou a tecla “Insert” nos teclados. Vivia bem com isso. Das aparências à realidade vai uma bela distância. Do sexo ao amor vai outra. Da desilusão à verdade é que nem por isso. Infelizmente para alguns. Parassem-no lá no alto e deixassem-no a contemplar as vistas, que isto cá em baixo é de loucos. Alguém disse que somos turistas nesta vida, já não sei quem, mas devia ser muito bronco, e nós nunca sabemos bem se era ao certo, nunca ninguém nos dizia onde tirar as melhores fotografias e como evitar os bairros problemáticos. Lera numa revista: alguém clamara que esta vida terrena era um passeio, talvez tenha sido numa coluna do social, e, de facto, Márcio passeava-se com uma revista de computadores debaixo do braço, de bolsos recheados. Passeemo-nos, então. Mas a cidade era sempre a mesma.
As moscas teimavam em não mudar e zumbiam forte. Era um desespero. Isto afinal é mesmo um passeio, porém é um passeio aflitivo, pleno de sobressaltos e obstáculos. Márcio encalhara. Nas contradições, nas perífrases e na estupidez de recursos e figuras de estilo que só fazem falta aos poetas, mas também porque à sua frente não se andava para a frente. Reflectia consigo para não reflectir com mais ninguém e abstraía-se do resto. Márcio parara. Pessoas em linha no passeio passeavam com desdém pelos apressados, como se quisessem fazer bingo em cima do passeio.
Torneada essa canalha de pessoas despreocupadas que Márcio detestava, e invejava, por que não admitir?, voltou a esquina e pisou um pedaço de vómito. Ou seria apenas uma refeição dalgum sem-abrigo? Talvez. Dava sorte. Também diziam isso. Quem se referia muito a esta frase era a Isaltina. A Isaltina tinha um grande peito e estava sempre a pisar merda. Três-meia-volta, a Isaltina estava com os pés em cima da merda e justificava assim a sua azelhice natural. Ela desapareceu algures no passado de Márcio e esse talvez tenha sido o seu grande azar. Ou sorte. Tudo pode ter mais que uma interpretação, talvez mesmo as fórmulas matemáticas que Márcio desconfiava. Agora o peito de Isaltina estaria flácido e ela moraria num quarto alugado na baixa, contara-lhe uma amiga comum. Prostituía-se por dinheiro, pois claro, ninguém se prostitui por amor, ou por compaixão, ou por qualquer outra coisa bonita. O dinheiro pode ser bonito. Se for nosso, evidentemente. Isaltina podia prostituir-se por ser apenas uma devassa, mas não, não era uma hipótese credível. Não tinha estaleca intelectual para tanto. Márcio deplorou o sucedido e no seu íntimo insultou o sem-abrigo que fedia na esquina. Abominava pobres. Materiais e de espírito. Mas seguiu em frente. Seguiu para bingo.
Que bonita expressão. Que exemplo de movimento e proactividade. Márcio deu uma vez por si a espreitar a vizinha da frente e soltou para si “bingo!, eu bem sabia que a vaca se despia à janela”, apenas por descuido, claro, era mesmo estúpida a tipa. Ela nunca lhe passou cartão, contudo. Nem premiado nem outro de qualquer espécie. Não devia estar destinada para si, tanta era a sua ignorância. Mas a ignorância vencera, a todos e a Márcio em particular, mais uma vez. Era um resultado que já não surpreendia. Márcio não tinha como a atrair. Deu por si, sozinho com o seu belo ego , a masturbar-se com a visão dela, assumindo a derrota final – se não podia tê-la, tinha a sua mão, a formalização corporal do seu espírito naquele momento. Renúncia ao jogo no seu estado mais puro. Batotice sentimental com contornos de vício. Assim era fácil. Não custava nada, nem ao coração, nem à cabeça, a mão não se queixava. Márcio olhou para a porta. Estava fechada. No interior, pelo meio das grades, espreitou o salão. Mas ainda faltava um pouco para a abertura.
Jogar por jogar é banal. Márcio jogava a dinheiro, ia ao bingo. Assim como assim, podia estourar o dinheiro em álcool ou em sexo, mas preferia arriscar para ganhar mais. Ou podia perder tudo. Enfim, o que haveria de perder? O seu malfadado orgulho? Onde ele estaria? Talvez numa bola acertada que lhe preenchesse a linha e o fizesse soltar um grito de vitória. Pouco importa. “Ganhar mais”, isso sim, ter um motivo para se vangloriar, um telemóvel com muitas luzes, notas de 100 euros a florirem dos bolsos, um ror de exibicionismos tal que até custa pensar. Não há que pensar muito. As coisas grandes da mente vinham ter consigo naturalmente. A sua racionalidade era suficiente para proporcionar um elevado índice de espontaneidade sucedida. O que quer que isso fosse. Márcio deu mais uma volta ao quarteirão, mais um giro, mais uma revista especializada e quando chegou já a porta abrira. Sentou-se na mesa do costume e seguiu em frente, no bingo, para bingo.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Zero-Nove

Na numeração romana não existe o zero.
Pois a mim dava-me jeito um.
Ouvi dizer que pelo desejo de nós os dois
Pode surgir o três.
Sozinhos na cama do quatro.
Quarto do hotel de estrelas cinco.
Qual acto diabólico, besta de triplicado seis.
Os pecados, sabemo-lo, são sete.
E é com este que estamos feitos num oito.
Agora é a grande prova dos nove.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

A Minha Irmã

Lembras-te da minha irmã? De quantos erros ela cometia com aqueles olhos que nunca piscavam? Não conseguia perceber. Eu juro que ela era capaz de ler a tua mente, a tua vida, as profundezas da tua alma com um rápido olhar. Talvez ela estivesse a revelar-se a ela mesma, dizendo

“Aqui estou eu, isto sou eu
Eu sou tua e tudo sobre mim, tudo o que vês…
Se pelo menos olhasses suficientemente bem…”

Eu nunca consegui.
A nossa vida era uma luta de almofadas. Ficávamos ali em cima da colcha, as nossas mãos cerradas e prontas. Ela com os seus dentes de leite, demasiado avançados para a idade, e com um canivete na mão. Ela dilacerou os pneus da minha bicicleta e eu não consegui perdoá-la.

Ela cegou com cinco anos. Íamos para junto da janela e ela fazia-me contar-lhe o que eu via. Eu descrevia-lhe as casas em frente, o pequeno pedaço de relva junto ao passeio, o portão com as suas dobradiças podres, para sempre aberto de par em par, o tal que o pai iria sempre consertar. Ela ficava ali quieta por um momento. Eu pensava que ela estava a tentar criar as imagens na sua cabeça. E então ela dizia:

“Eu consigo ver pequenas estrelas a brilhar,
como se fossem luzes de árvores de Natal em janelas distantes.
Anéis de pedras com cores berrantes
a flutuar em torno de planetas laranjas e amarelados.
Eu consigo ver enormes peixes às riscas como os tigres,
perseguindo pequenos pontos azuis e amarelos,
todas as caudas e barbatanas e borbulhas.”

Eu olhava para a casa cinzenta em frente e corria o cortinado.

Ela pegou fogo à casa quando tinha dez anos. Eu estava a acampar com os escuteiros. O bombeiro disse que ela tinha estado a fumar na cama – a velha história, pensei. O gato e a nossa mãe morreram nas chamas, então o pai levou-nos para ficar com a nossa tia no campo. Ele regressou a Lisboa para nos encontrar uma nova casa. Nunca mais o vimos.

No seu décimo terceiro aniversário, ela caiu dentro do poço do jardim da nossa tia e partiu a cabeça. Ela tinha estado a beber forte e feio. Enquanto recuperava, a sua visão reapareceu; “um acaso da natureza”, todos disseram. Foi quando ela disse que nunca iria piscar os olhos novamente. Eu dir-lhe-ia, quando ela se atirava sobre mim com os seus olhos arregalados e humedecidos, que eles lembravam-me o poço em que ela tinha caído. Ela gostava de ouvir isto, fazia-lhe rir.

Ela foi viver com um professor de ginástica aos quinze anos, todo ele músculos. Ele perdeu o seu emprego quando tudo foi descoberto e não conseguiu arranjar outro. Não naquele de tipo de cidade pequena. Toda a gente conhecia as vidas uns dos outros. Apesar de tudo, a minha irmã andava sempre de cabeça erguida. Ela dizia estar apaixonada. Eles estiveram juntos durante cinco anos até que um dia ele perdeu a paciência. Ele deu-lhe com um haltere na parte de trás do seu pescoço. Ela perdeu a sensibilidade na parte direita do seu corpo. Ele apanhou uma condenação de três anos e saiu ao cabo de quinze meses. Nós vimo-lo passado pouco tempo, estava a treinar uma equipa de futebol amadora na região litoral alentejana. Eu julgo que ele não a reconheceu. A minha irmã tinha engordado bastante por estar sentada todo o tempo. Ela fazia-me espetar alfinetes e apagar cigarros na sua mão direita. Ela ria-se como uma doida porque não a aleijava. A sua mão esquerda estava bastante boa, porém. Nós brincávamos ao braço-de-ferro, eu tinha que usar as duas mãos e mesmo assim ela ganhava.

Enterrámo-la quando ela tinha trinta e dois anos. Eu e a minha tia, o padre e o homem que cavou o buraco. Ela disse que não queria ser cremada e que queria um caixão barato para que os vermes pudessem entrar rapidamente nela. Ela disse que gostava dessa ideia, embora eu pensasse que era tudo devido ao que acontecera ao gato e à nossa mãe.
(Tradução apressada de "My Sister", dos Tindersticks)

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Impugnação, Já

Já sou suficientemente crescido para acreditar que o Pai Natal existe. Até existem vários, por sinal. Eu vi-os. E tenho imagens muito claras deles. Sejam eles ex-toxicodependentes em recuperação ou não, lá os vemos a fumarem o seu cigarrinho no final de mais um penoso turno numa grande superfície comercial, calças vermelhas aquecidas pelos rabinhos dos meninos e das meninas que pensam estar perante um número de circo em que vão aparecer os cãezinhos do Sporting e do Benfica a marcar golos com o focinho para o invariável empate, mas não. Não aparecem cães. Aparece outro Pai Natal que apressadamente cospe ho-ho-ho’s. Então deve haver prendas. Coisas giras, consolas portáteis ou qualquer outro artigo altamente tecnológico, nada de roupa, nada de beijinhos, nada de muito corporal, que a era que vivemos quer-se o mais impessoal e transmissível possível e está muito propícia a gerar rumores pedófilos. Também não. Este gajo só dá colo, um assento básico e improvisado, afinal não oferece nada que se possa exibir com jactância aos amigos, nada que eles possam realmente invejar. E o tipo nem sequer é muito velho, cheira a tabaco e engordou de propósito para a quadra. Tem barba postiça. Os pais, ainda com a cabeça à roda pelas prendas que sabem que terão de comprar às crianças sedentas por bens materiais e que bem se borrifam para as piroseiras que entram por um ouvido e saem por outro, babam-se e pensam estar a fazer um enorme favor. Aproveitam para distrair temporariamente os petizes mas estes não se deixarão enganar, embora se vão sentando no colo do Pai Natal para não embirrar e não deitar toda a lista de desejos a perder.
E é isto. Esta época significa o sacrifício de todos em prol do sentimento de alívio das partes, uma depuração da alma calendarizada, cujas raízes pagãs e religiosas se fundiram numa amálgama publicitária e para justificar o 14º mês.
Enfim, haja o 14º mês. O Pai Natal, esse mítico conceito coca-colesco que outrora descia pela chaminé, existe. Como podemos refutar este facto?, ele acicata-nos por onde quer que vamos nestes loucos dias de Dezembro, faz-me gastar estas linhas de texto, alimenta a paranóia colectiva à qual me sinto impotente para resistir, multiplicou-se como se fosse coelho e ascendeu ao trono da omnipresença, mas quanto mais físico (a)parece, mais fictício se torna. O Natal, todo ele, das luzinhas na avenida ao pinheiro de plástico, é postiço como a barba do Pai Natal. Não é porque nos apetece, é por tem que ser. Força-se a espontaneidade dos actos. Espiritualmente decadente, esta época da (risos) paz e do (mais risos) amor.
Eu não odeio o Pai Natal. Nenhum deles. De Janeiro a meados de Novembro estão escondidos sabe-se lá onde, não interessa. Eu também não odeio o Natal em si. Afinal de contas, é um feriado. Ninguém enjeita um feriadozito. Mas deixo à consideração de quem quiser pensar no assunto, agora que se sente bem funda a dor de ter que comprar uma recordação ao parente que já tem tudo aquilo que (não) precisa e ao qual somos incapazes de negar o ensejo de mais um objecto (in)utilíssimo, agora que damos beijinhos aos cães vadios para depois os chutarmos no rabo e os deixarmos morrer à fome no nosso tapete de entrada mal passe o Ano Novo, agora que vemos o filme Música no Coração sem vontade de assassinar a sangue frio a família Von Trapp com o método mais arcaico e anti-ASAEsco imaginável, agora que calcorreamos pastelarias abarrotadas em busca desse Graal que é o bolo-rei menos cristalizado e mais laureado da zona, agora que massacramos cabritos e preenchemos mesas com louváveis e extremamente numerosas obras gastronómicas que irão conhecer o belo aconchego do caixote de lixo a rebentar pelas costuras logo pelo dia seguinte, agora que supostamente pensamos nas coisas boas e espirituais que no resto do ano parecem-nos não possuir qualquer fundo de razão, agora por tudo isto, por qualquer coisa mais e sobretudo pela infundada esperança de “este ano é que vai ser especial”, dizia eu, de que estamos à espera para boicotar o Natal?
Estamos à espera do quê? De mais gente a acotovelar-se em rituais tribalísticos nas megastores? De convívios forçados? De manter esta como a irredutível tradição, agora que tudo se quebra perante a voragem dos tempos? De surpresas agradáveis?
Eu já tive a minha surpresa (abaixo). Evitemos males desnecessários. Impugnação total do Natal, já.


Fernando Mendes anunciou que o seu programa televisivo, "O Preço Certo", emitido diariamente pela RTP-1, vai continuar no ar, pelo menos, por mais dois anos.
Estreado em 1990 por Carlos Cruz, o programa passou a ser apresentado por Fernando Mendes em 2003. O actor, falando no jantar anual da produtora ‘Freemantle', sublinhou que "O Preço Certo" mantém um bom nível de audiências e que, por isso, será em breve assinado um contrato de prolongamento do acordo com a estação pública: mais 24 meses do que o inicialmente previsto.
O director-geral da ‘Freemantle', Frederico de Almeida, revelou que "O Preço Certo" é um dos programas mais vistos em Portugal, chegando a alcançar um ‘share' de 41% imediatamente antes do Telejornal. Sobre as razões do sucesso, Frederico de Almeida salientou a apresentação de Fernando Mendes. O actor, por seu turno, desvendou a "receita" da popularidade do programa: jeito pessoal, simpatia e um pouco de revista à portuguesa...