


Toda a gente precisa de um. Ou então explode com toda a porcaria que acumula dentro de si. Essa é uma alternativa pouco agradável. Então venha de lá esse grande auxiliar, o receptor e exaustor de todos os nossos gases mentais, essa matéria indefinida aglutinadora de colagens dispersas que não pode ficar retida cá dentro.
Desconfio das velhotas que me pedem ajuda para atravessar a passadeira. Cá para mim, querem é ser atropeladas de propósito e colocarem a culpa em mim, que é para depois a família delas viver às custas da minha indemnização. Não; atravessem vocês e responsabilizem-se pelos vossos actos, que já são grandinhas. Melhor ainda: para quê atravessar a estrada? Voltem mas é para casa que o chazinho já está a arrefecer.
ª- Desculpa, estou atrasado.Heitor
Clara de Sousa de novo a mulher mais sexy de Portugal. Cristiano Ronaldo outra vez a namorar nas costas do Manchester United. O Porto outra vez acusado de corrupção. Os preços da gasolina outra vez a aumentar. A TVI a estrear outra novela portuguesa. Jean-Claude Trichet outra vez preocupado com a inflação. Amy Winehouse a drogar-se outra vez. Outro bombista suicida a fazer das suas. A justiça a deixar prescrever um caso delicado outra vez. Um fardo de cocaína a dar outra vez à costa. O José Sócrates outra vez de gravata azul. O concerto de ontem foi outra vez o melhor de sempre. Os cães são outra vez os nossos melhores amigos. Cheguei atrasado outra vez. O teatro português nunca esteve tão mal outra vez. O ministro saiu-se mal outra vez. Os saldos estão a bombar outra vez. A tua avó morreu outra vez. Está a chover outra vez. Portugal está na cauda da Europa mais esta vez. Enganaram-se na morada outra vez. Há outra vez mais opiniões do que acções. António Lobo Antunes a escrever outra vez muito bem para ninguém. A bateria foi-se abaixo outra vez.
A minha vida é demasiado corriqueira. A irrelevância dos dias cola-se a mim como uma lapa. Sinto-me uma caderneta completa de déja-vus. E tenho imensos cromos repetidos. Vou escrever isso outra vez.
A deliciosa notícia que provem do sul da Índia dá-nos conta de um pagamento no valor de um euro, efectuado pelas próprias entidades oficiais, a quem urinar no local apropriado – isto é, no urinol. Para além dos óbvios efeitos higiénicos da medida, a urina ainda vai ser recolhida e estudada na hipótese da mesma poder ser utilizada como “fertelizante”. Assim mesmo, para ajudar ao insólito da notícia.
Eu não pedi por aquilo. Aquilo veio sem eu saber. Posto à frente da porta de casa, nu ao ar livre. Um tempo que levou tempo a perceber. Um dedo apontado ao teu cérebro. Um disparo de sarcasmo acertando em cheio nos teus nervos. Vivo para a não-vida. Falava de asas e tu já voavas. Não podia suportar tamanha petulância. Pedia emprestado coisas que nunca tencionava devolver. Urgia-me pelo vagar. Exalava um profundo fedor crítico. Satisfazia-me com a ruína alheia. Vencia pelo desgaste, vencia pelo empate, vencia pelo afogado. E gozava o teu insucesso qual pão de cada dia. Vi-te a cambalear num trapézio irresolúvel, ansiei o desastre, anunciei-me como o teu abutre de estimação. Aquilo tingiu-me de negro. Recebi o jacto imundo como uma monção, diverti-me com a espuma da humilhação, humilhei o teu rebaixamento até aos limites. O dentro veio para fora. Mostrei-me como sempre fui. Então estiquei-me no parapeito do delírio, destilei ironia gratuita das minhas entranhas e suspirei de alívio. Não fui eu, não fui eu. A calma cínica do espectador espalhou-se pelo meu sangue. A tranquilidade da sobrevivência passiva preencheu-me. Ainda bem que estavas por aí. Folgo em saber que és mesmo tu. É tão bom saber-te mal.
- … e é por isso que pareço humano. Garanto que nunca experimentei qualquer droga.