sexta-feira, novembro 20, 2009

O Arguido

- Olha quem é ele… o Frederico. Estás bom?
- Na maior, pá. Estou mesmo na boa.
- Ah é? Então?
- Eh pá, fui constituído arguido outra vez.
- Arguido?
- Sim, é a quarta vez esta semana.
- Ena pá!...
- Sabes como é que é… eu não sou gajo de ficar quieto.
- E como é que é isso de ser arguido tantas vezes, pá? Deve ser tramado…
- É… é um bocado… ficamos logo bastante famosos, temos as câmaras sempre à nossa espera no tribunal… apesar de tudo, eu acho que não nasci para ser famoso. Eu só queria usufruir com notoriedade moderada dos rendimentos e méritos que fraudulentamente obtive. A fama junto das massas é de facto complicada. Mas se somos mesmo bons numa coisa qualquer, temos de saber viver com isso, não é? E eu tenho este dom natural de ser arguido, sou o maior nessas coisas de ir a tribunal.
- Então e não tens medo de ir preso?
- Medo? Bah! Quem tem medo compra um cão!...
- Quer dizer que não tens medo?
- Não, pá. E para te mostrar que não, vou largar o meu cão.
- Lá vai ele… eh pá, ó Frederico, o teu cão está ali a atacar um menor…
- Pois é… ele é um bocado para o atiradiço… sabes como é que são estas raças perigosas…
- Acho que há uma lei qualquer sobre os donos de animais de raças perigosas…
- É verdade, pá! Com sorte, vou ser arguido mais uma vez! Bem lembrado!
- E isso não te perturba?
- Pelo contrário, pá! Vou bater um novo recorde! Vou ser mais vezes arguido que o Isaltino Morais, o Valentim Loureiro, o Pinto da Costa e toda essa corja de gente idónea…
- Mas… quer dizer, para tu estares assim tão confiante, é porque estás inocente, não é?
- Isso não me importa muito. Às vezes sou, às vezes não. O que interessa é ser constituído arguido – é uma espécie de estatuto privilegiado, ‘tás a ver? Nem toda a gente é arguida, pá.
- Então podes ir preso, não? Como podes estar tão tranquilo?
- Simples, pá: aqui ninguém vai preso. E se for, só daqui a 70 ou 80 anos e nessa altura já cá não devo estar. Entretanto, vendo o exclusivo das minhas chegadas ao tribunal às revistas cor-de-rosa, sou convidado para palestras, tenho eventos em minha homenagem, constroem-me monumentos, atribuem-me títulos nobiliárquicos e coisas assim e facturo um dinheirão. Ir a tribunal é como se fosse um daqueles casamentos das celebridades, ‘tás a ver?
- Ainda mais dinheiro do que aquele esquema de facturas falsas que me contaste?
- Ainda mais, pá. Vê lá bem a mina de ouro que isto de ser arguido é.
- Também foste constituído arguido por esse esquema, aposto…
- Por acaso… não. Já fui arguido num caso de tráfico de balões de água e por ter abusado de um tatu bebé, mas por causa desse não. Pá, nem tudo corre bem…
- Mas… mas… esse caso das facturas ficou nos anais da História por ter levado “n” empresas à falência e centenas de pessoas ao desemprego… e em consequência disso, mergulhou cidades inteiras na criminalidade, levando todo um tecido social à degradação…
- Pois é, pois é, foi um esquema muito bonito e lucrativo… mas não consegui que me constituíssem arguido, mesmo com todas as provas que forneci… paciência. Outras oportunidades surgirão.
- Por acaso, estava aqui a ler o jornal e pensei logo que serias tu o Frederico que aqui vem mencionado… está aqui escrito que “Frederico A, conhecido ex-deputado pelo PSDSP e ex-administrador da REFCP, foi constituído arguido por suspeitas de peculato, tráfico de influências, vigarice pura e caspa, ao que apurou o nosso jornal, em primeira mão”…
- Ah pois, fui eu! Eu conheço bem a directora desse jornal. Grande amiga minha. E tem um corpinho… ui!, nem te conto. Já estivemos lá quase… ‘tás a ver?… mesmo quase… mas acabou por não dar. Agora com o destaque que ela me está a dar, quem sabe se não temos mais um jantarzinho ao lusco-fusco um dia destes… eheheh, isto só está ao alcance dos grandes arguidos, pá… era este o estatuto que te falava.
- … mas a fotografia que aqui vem é de outro Frederico… parece-me o Frederico B…
- Quê? Mostra-me aí… Pôrra, queres ver que há gajos a concorrerem comigo para serem arguidos?!?
- Então, é a tua fotografia ou não?
- Não sou eu que aqui estou, pá! Esta foto não é minha! Que merda é esta?!
- Estou a ver que a tua amiga trocou-se toda…
- A puta! Aquela bola de banha que tem o cu a cair aos trambolhões pelas costas abaixo! Tenho de lhe ir pôr os pontos nos ii’s! O que vem a ser isto? Andam a querer sacar os meus méritos na sacanice? Mas onde é que estamos? África, queres ver? Bah!
- Tem calma, Frederico…
- Estas merdas deixam-me lixado, pá! Anda um gajo a esforçar-se na sua actividade ilegal, dia após dia, suborno após suborno, e depois acontece isto!... Diz-me lá se não achas que andam a gozar com a tua cara?!
- Eu compreendo-te, eu compreendo-te…
- “Frederico B”… Bah!, “B” de “Besta”, só pode! Não lhe reconheço autoridade nenhuma no campo do favoritismo ou do bullying!... É um aprendiz, quanto muito! A directora vai ouvir das boas, ah vai, vai!
- Porque é que não lhe insultas verbalmente e fisicamente?
- A ela? Bater em gajas? Porquê?
- Então… ela processava-te logo, aposto. Era mais um processo para a tua conta.
- Eh pá, é melhor não… Ela não me iria processar… Eu sei de umas coisas sobre ela, de maneiras que… Ela não me faz dessas coisas. Por muito que eu desejasse. Isto foi uma miserável distracção, acho eu.
- Olha, vou trabalhar, tenho de picar o ponto. Infelizmente, não tenho os teus dotes burlões… Mas gostei de te ver, Frederico. Continuas em grande forma! Espero que resolvas esta confusão a contento.
- Vai lá, pá. E obrigadinho. Preciso de papalvos como tu para continuar a viver à grande.
- Como?
- Nada. O prazer foi todo meu, pá.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Faíscas Brilhantes

Julgo que foi Paul McCartney quem disse “Hitler está vivo e a tocar numa banda new-wave. Ron Mael, o “Hitler” em causa, sorri e diz que prefere ser conotado com Charlie Chaplin.
Quem é Ron Mael? Ron é irmão de Russell e ambos formam os Sparks. Ron é igualmente o teclista, compositor e o principal letrista da banda. E sim, fez uso e abuso de um bigode “à Hitler”/”à Charlot”, que combinava com um cabelo e um estilo de vestuário longe dos cânones rock/pop, complementando com olhares bizarros ou mesmo sinistros para as câmaras, em performances preferencialmente estáticas. Já Russell, mais frenético, ou não fosse ele o vocalista, era o “menino bonito”, pese embora algumas variações capilares de gosto dúbio, mesmo para a moda espampanante dos anos setenta e oitenta. Russell foi sempre um verdadeiro “crooner”, voz riquíssima, capaz de metralhar palavras imitando o sotaque britânico (eles são americanos de Los Angeles), dando simultaneamente largas ao falsete; de Ron esperávamos competência nas suas prestações, melodias obviamente pop e mais letras de enorme sensibilidade observadora, pejadas de ironia e, por que não assumi-lo?, algum desencanto masculino que tendia a resvalar para um certo chauvinismo – mas sempre com uma verve bastante apurada.
Os Sparks são a melhor banda que ninguém conhece. São dinossauros eternos, sempre bem-dispostos, sempre prontos para compor sobre temas como uma hipotética traição de Julieta a Romeu e a reacção deste no céu ou de como é “cool” sair Sábado à noite para a discoteca onde lhes foi vedada a entrada na semana passada. Continuam a lançar álbuns na candura dos seus 60 e tal anos, ousando sempre ir um passo mais além. Não estão, nem podem ser, catalogados com um simples rótulo de rock/pop. Eles foram percursores do glam-rock, estiveram na vanguarda da electrónica, misturaram ambos e foram desembocar ao techno, fizeram cócegas ao kitsch, reinventaram Beethoven e Bergman e ainda são capazes de mandar umas guitarradas hard-rock. Influenciaram gente tão díspar como Jimmy Sommerville, Faith No More, Erasure, Queen ou Morrissey (ao qual dedicaram uma canção apropriadamente intitulada “Lighten Up, Morrissey”). Muito poucas bandas se podem orgulhar de manter um registo musicalmente tão rico e de se manterem tão profícuas, conservando um aparentemente indecifrável anonimato.
Quando os Sparks surgiram em 1971 ainda se chamavam Halfnelson e os irmãos Mael eram os dois principais elementos dessa banda. Após dois álbuns em que o seu nome permaneceu praticamente incógnito nas tabelas americanas, emigraram para a Inglaterra, eles que se consideravam a si mesmos “anglófonos”, onde obteriam algum protagonismo – o sentido de humor e toda a estética da banda em geral seria sempre mais apreciada na Europa do que na sua América natal, talvez por serem um pouco excêntricos demais para o gosto predominantemente imediatista dos americanos. Com efeito, em 1974 lançaram “Kimono My House” (uma excelente capa), tido por muitos como o auge da sua carreira que ainda dava os primeiros passos. “This Town Ain’t Big Enough For Both Of Us”, “Amateur Hour”, “Here In Heaven”, “Barbecutie” e “Equator” são de facto grandes faixas que revelaram os Sparks como uma banda inteligente, imaginativa e, claro, capaz de divertir uma audiência com a sua inigualável combinação entre melodia e prosa (e imagem em palco, como eles próprios referiram).
A partir daqui o percurso seria mais exigente. Ron e Russell assumiram-se como os donos dos Sparks e os membros acompanhantes da banda entrariam numa roda-viva – ficou claro que os Sparks eram somente um duo. Apesar de tudo, mantiveram a fórmula e a mesma banda de “Kimono My House” para “Propaganda” e “Indiscreet”. Tentativas quiçá desesperadas para capitalizar a exposição ganha com “Kimono My House”, mas que devem ter provocado o efeito de “entupir” os fãs com três lançamentos muito iguais entre si em apenas um ano. Porém, o reconhecimento atingido com “Kimono My House” não foi repetido e jamais voltaria a sê-lo. Abandonaram esse grupo de músicos (e que grande solo tem a bíblica e orquestral “Bon Voyage” e que grande dinâmica tem “At Home, At Work, At Play”, ambas de “Propaganda”) e regressaram à América, tentando captar a atenção dos seus conterrâneos com o álbum mais “pesado” da banda, “Big Beat”. As letras tornaram-se mais directas e as hormonas vieram ao de cima com faixas como “I Like Girls” e “Throw Her Away (And Get a New One)”. Mas o sucesso ambicionado voltou a fugir-lhes – talvez porque o adocicado das suas melodias pudesse ser confundido o rock grandioso dos Queen numa altura em que eram valorizadas a provocação e a contestação, ou porque o som e a imagem continuava a saltar fora de qualquer definição do rock/pop, ou pela riqueza das suas letras ser quase imperceptível, ou simplesmente pelo falsete de Russell ser irritante para muita gente. A primeira fase da sua carreira, e talvez a mais brilhante, findava aí.
Então, e após um álbum quase anónimo com uma capa verdadeiramente kitsch (“Introducing Sparks”, que inveja a sua capa faria à Ágata durante os anos oitenta), os manos Mael reinventaram-se como um grupo electrónico, aliando-se a Giorgio Moroder para criar uma segunda obra-prima, “Nº 1 In Heaven”, em 1979. A faixa-título é uma soberba canção que influenciaria tanto Blondie como Pet Shop Boys ou Depeche Mode. Apenas seis faixas com um ambiente já bastante distante do sentido em “Kimono My House”, mas um álbum bastante coerente entre si e revolucionário para a época. Os Sparks tinham voltado a mandar uma pedrada no charco. Nos dois anos seguintes, mais dois bons álbuns: “Terminal Jive”, uma espécie de segunda parte de “Nº 1 In Heaven” com muita qualidade e “Whomp That Sucker”, de regresso a um “formato-banda”, com os instrumentos convencionais guitarra-baixo-bateria de volta e um ambiente muito “cartoonish” a povoá-lo – confirmar em “Tips For Teens” ou “Wacky Women”, sendo esta última faixa talvez o mais próximo que os Sparks estiveram do punk.
O resto dos anos oitenta e a globalidade dos anos noventa trariam a fase menos interessante dos Sparks. O flirt com o techno foi evidente e esse foi um campo que levou o brilho dos Sparks a perder intensidade – eles que já não eram nenhumas crianças por esta altura. Este não era o território indicado para fazer sobressair as suas grandes potencialidades. Mas era algo natural que eles soçobrassem a este apelo, dado que o principal compositor era teclista e, como tal, muito mais próximo de todas as experimentações sintéticas deste género musical. Ainda assim, “Plagiarism”, de 1997, é uma inovativa e interessante aproximação essencialmente electrónica às suas próprias canções – um pouco como os Mão Morta fizeram com o seu “Revisitada”, embora noutro contexto.
Já neste século, os Sparks provaram a sua enorme resistência ao tempo e lançaram, entre outros álbuns, “Lil’ Beethoven” em 2002, uma obra que aproxima pop, techno e música clássica com resultados, mais uma vez, surpreendentes. E, além do mais, desenvolveram um novo conceito de espectáculos ao vivo: durante 21 dias seguidos de Maio e Junho de 2008, em Londres (a sua casa adoptiva), tocaram TODAS as suas músicas de TODOS os seus 21 álbuns por ordem cronológica – um bilhete, um álbum por inteiro. Quem diz que estes homens já são sexagenários? E eles prometem não ficar por aqui.
De Ron e Russell Mael pouco se sabe a nível pessoal – e também pouco importa. Deixemos as suas canções, a excelente voz de Russell e o liricismo inspirado, embora por vezes repetido, especialmente nos tempos mais recentes (por exemplo, “My Baby’s Taking Me Home” arrasta-se durante mais de quatro minutos apenas com as palavras que constam do título) de Ron, falarem por si. Os Sparks já andam há quase quarenta anos a desbravar território e mantêm-se semi-anónimos. Sorte de quem os conhece – e eu só tive este privilégio graças à VH1 Classic. O mundo parece não estar ainda preparado para esta dupla genial de irmãos californianos.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas

Pode haver algo mais irritante do que pessoas a tentar entrar no comboio antes das pessoas que estavam no comboio saírem? Há, e não me refiro ao abate clandestino de ciganas que lêem a sina (o que ainda não aconteceu, porque as balas não conseguem ultrapassar aquela camada de andrajos e gordura e atingir os órgãos vitais. E também por medo de represálias, vamos ser honestos). Mas isso não importa para nada. Quem quer saber o que me irrita? Eu nem sequer estou ligado a nenhuma rede social…
Ou melhor, até estou. Mas é como se não estivesse. Não tenho 153 amigos. Ou amigas sorridentes. Ou tipos com a pose de surfista. Ou gente com fotos a preto-e-branco. 153 amigos que podiam ter sido modelos e capas de fotos poéticas e que por mero acaso não chegaram lá. Gente que é primo do conhecido do amigo. Personagens que já apareceram ao lado da modelo que esteve num programa do serão da SIC mascarada de cavalo-marinho. Seres que serão muito aborrecidos na realidade mas que fazem um excelente número. Só mais um. Adiciona aí. São 154 e continuam a crescer.
Brilhante. Tens uma enorme rede social, então és um tipo espectacularmente sociável e com muito boas influências. Quase que acredito que papaste todas essas gajas que parecem tão suculentas com o seu domínio de Photoshop. Quase que penso que a tua ocupação é falares com toda essa gente que já não falavas há vinte anos. É fantástico. E mais fantástico é ver toda essa tua disponibilidade retribuída com uma carrada de yes-men que dizem que sim ou que não consoante o teu sinal, que te dão palmadinhas nas costas em forma de comentários cheios de mel peganhento. A amizade não deixa espaço para ambiguidades. A amizade é fundamentalista. Leva-se a mal se se questionar algo, pois a contradição é inimiga da amizade. Se tu dizes que o peido é perfume, então eles acentuam que é Chanel. Se tu dizes que o ouro é lixo, então eles mandam a ourivesaria para os pilhões.
Pronto, eu confesso que o que é realmente irritante é o culto da mediocridade. É a subalternização da qualidade perante a divulgação em massa pelas mãos das etéreas e infinitas redes sociais. É descobrir que eminentes opinion makers têm 16 anos e uma idade mental de 12. Porque se o gajo tem 154 amigos é porque o gajo é bom. E se o tipo tem 3245 fãs, alguém pode se sentir mal por apenas o ter descoberto agora e é levado a pensar que o tipo é um génio – e sê-lo-á, sem dúvidas e pelo menos, no domínio novas tecnologias de informação.
Mas a verdade é que os nossos olhos andam a comer muita merda, apenas porque o invólucro é muito apelativo e todos os outros olhos já comeram dessa merda e até gostaram. Custa dizer que não quando todos à nossa volta disseram que sim. O papel do contra é um papel de merda.
Não é nada de novo. Este texto é, em si, uma grande merda. Nem sempre estou em forma e eu sei-o mais do que ninguém. Mas não desespere, caro navegador internético que foi iludido pelo título do post. O Google tem destas coisas e não faz por mal. Por este texto ser realmente merdoso está na moda. A merda vende. E vende muito. Ser-se merdoso é um lifestyle. Ainda por cima, extremamente valorizado nos dias que correm. Se os dias por acaso corressem. Eu acho que ultimamente os dias apenas deslizam. Pois correr dá trabalho, cansa, e o esforço tornou-se num tema tabu. Já ninguém faz muita força. Basta-lhes abrir as pernas e a diarreia sai a (es)correr.
Leitor iludido e imaginário, você acaba de ganhar um bilhete para a lotaria que vai andar à roda e se chama sucesso. Você pode ser o primeiro a descobrir a nova atracção que será uma sensação durante uns tempos. Ou ser você mesmo essa atracção. O sucesso, hoje, é o maior dos cagalhões e as plataformas de comunicação são enormes retretes a céu aberto.
É escatológico, eu sei. Boa sorte e bem-vindo ao século XXI.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Agora Não Posso

Estava eu ocupado com a vastidão do meu tempo livre quando tu emprenhaste, orgulhosa, através de uma calendarização eficaz do ciclo fértil que te permitiu dar uma foda de sucesso à hora certa, no sítio do costume, na posição adequada – uma foda tão mecânica quanto castradora da honra do conceito de “foda”. Esperaste pelo meu elogio e disseram-me logo “é feio falar das pessoas assim”, “emprenhar” parece reduzir à condição de animal de cativeiro o mais fascinante e auto-destrutivo ser deste mundo que é o humano, mas eu sentia-me legitimado: é que ninguém costuma falar bem de mim e, mesmo quando soltam um ou outro elogio para ficar bem na fotografia, são meros thumbs up para coisas que fiz acidentalmente, ou das quais nem me recordo, ou pelas quais não sinto particular afecto. E nós somos mesmo animais, apenas piores que as aranhas que devoram os machos a seguir à cópula, por isso toma “emprenhar” como um quase-elogio e aceita que "foda" foi uma aproximação sucedida mas bastante patética do que deveria ter sido uma relação sexual. O que me apeteceu mesmo foi ridicularizar a pouca naturalidade do teu acto que devia ser selvagem e tresandar a lascívia. Mas agora já nos queremos reproduzir assepticamente como a Sandra Bullock no “Demolition Man” e achar que tudo é culpa do Tempo. Apenas para ter um Nenuco em carne e osso para servir de troféu e que os teus pais saberão tratar ainda melhor do que te trataram. Só mereces que te ignorem. É mesmo assim. Também gostava que me desses os parabéns por fazer as poucas coisas que ainda faço. Uma ou outra massagem neste ego mole e dormente podia fazer-me bem e tu sabes disso. Mas tu costumas estar demasiado preocupada em saber se eu ando a seguir a tua vida. Sabes, os outros geralmente não mostram a reciprocidade que nós queríamos que eles mostrassem. Costumamos querer tudo sem dar nada. Gostamos que sejam sempre os outros a dar o primeiro passo. Queremos posicionarmo-nos no centro do mundo dos outros. Somos assim, obsessivos e convictos que os outros saberão dar conta do nosso recado. E, como dizia, eu tinha as mãos demasiado ocupadas a pensar nos trabalhos de que me podia livrar. Queria lá saber da paternidade. Da maternidade. De trazer mais um ser vivo deveras irritante nos seus primeiros tempos para este mundo sobrelotado de gente sem interesse mas muito interesseira, que te vai consumir tempo e espaço mas que te permite teres uma esperança para escapares ao lar de terceira idade daqui a uns anos e de prolongar a linhagem da tua família, sabe-se lá porquê, porque é que prolongar este estado de coisas será tão positivo assim. Andamos todos fartos uns dos outros, conspirando aqui e ali, clamando que “a Humanidade não presta” e “isto são só chulos e putas” e tu vens trazer mais um potencial concorrente para a manada, como se fosse certo que ele seja o Messias? Só me faltava mais essa. A responsabilidade foi toda tua, não aceito culpas. Na verdade, aceito muito pouco do que me dão. Muito menos culpas, que isto da neutralidade e da desresponsabilização pode parecer muito leviano e egoísta, mas certamente terá as suas vantagens. Eu nem sequer posso ser acusado de ter decidido ser posto aqui, fui apenas um infeliz acidente a quem a gente se teve de habituar. E agora rendi-me ao minimalismo da sobrevivência: a minha vontade é não fazer nada para ter muito. É a vontade de muita gente, que ainda assim teima em achar que não, que eles é que são a excepção. O principal trabalho é arranjar uma forma de serem os outros a fazer o trabalho. A modernidade sob a forma de prédios e corporações várias oculta a verdadeira selva que se esconde por trás, onde se desenrola uma feroz competição para ver quem é o mais esperto – aquele que não vai fazer nenhum mas vai acabar confortavelmente instalado num poleiro qualquer. Qualquer tarefa para amanhã. Qualquer labor para outro. Demasiado sofisticado para pensar quanto é 1+1, para isso há uma calculadora. Bastante importante para abrir a gaveta, a empregada que o faça. Adiar para o mês seguinte. Dormir um bocadinho à sombra do outro. Ser um bom esperto é que é valorizado. Suar é para os desportistas e parvos. Mesmo pensar já é desgastante.
Levámos tanto tempo para evoluir e agora concluo que chegámos ao estado de uma sanguessuga. Este é o ideal. E tu deste-te ao trabalho de trazer mais alguém para cá, alguém que previsivelmente me vai querer chupar como todos os outros, e queres que eu me distraia dos meus nobres objectivos para te exaltar?
Sinceramente, dava-te os parabéns se tivesses adoptado um cão.

terça-feira, outubro 06, 2009

O Rapaz das Pizzas

Às voltas numa Yamaha XT, com o oleado posto para proteger da chuva e o óleo a escorrer pelas caixas de cartão. Viver rodeado de óleo incomoda ao princípio; depois, a gordura entranha-se no espírito com maior facilidade do que nas unhas. Sinto-me uma espécie de croquete humano. Estou no fim da linha dessa longa dinastia de desalinhados que são os estafetas. A humanidade é, no geral, pouco tolerante para comigo. Podiam todos compreender que devo ser um sujeito com algumas limitações para estar a fazer este trabalho, que é o trabalho que ninguém quer. Eles querem lá saber. Exigem demasiado de um tipo que não é suposto ser demasiado bom. Todos acabam por pensar que me perdi, logo ao fim de dez minutos de espera. Mas não. É apenas a mota que não dá para mais. E, parecendo que não, também preciso de tempo para respirar. O frio entra-me pelos buracos nos dentes e as mãos enregelam-se de tal forma que nem sei se vou ser capaz de enrolar a próxima ganza. Sempre me distraio com as ganzas, dão-me a ilusão de ser mais qualquer coisa do que realmente sou e de estar a andar a mais velocidade do que realmente ando. E tenho tido sorte, só parti por uma vez a perna quando derrapei numa valeta mal iluminada. Enquanto os vossos cus descansam cómodos no quentinho das vossas casas a ver a final que ninguém quer perder, eu ando por aí a distribuir a vossa refeição pré-fabricada. Todos pensam que eu me divirto a andar por aí a descobrir ruas e pracetas obscuras e a sacar cavalinhos. Mas quem quer fazer isso com meia dúzia de pães de alho e pizzas extra-queijo atrás? Essas são as piores. O cheiro do queijo é maldito e só se consegue aturar a mais de sessenta a hora contra o vento e com a viseira aberta. Já pensei algumas vezes em cuspir nessas pizzas, só naquela de dar uma de rebelde e exteriorizar o meu enjoo. Mas acho que o cozinheiro já deve ter feito isso por mim e não tenho assim tanta saliva excedentária quanto isso. Pensam que temos muita liberdade e que ninguém paga a liberdade. Mas eu só queria que me dessem mais uma gorjeta ou outra. Mal ganho para o tabaco, que está caro. Ainda por cima, o vento fuma sempre a meias comigo, é um cravas de primeira. O meu sonho: que finalmente a dona de casa me convide a entrar para uma sessão de sexo sem limites. O meu pesadelo: as calzones a escaldar numa morada errada. O que eu faço por um punhado de trocos. Devia ter estudado mais. Mas sei que os livros não eram para mim e isso foi tudo o que eu consegui aprender. Assim nem ganho dinheiro nem treino motocross como deve ser. O chefe já me disse que não quer mais amolgadelas e que acha que ando a gastar muita gasolina. A minha sorte é que não tenho muita concorrência. Qualquer puto ganha mais a mendigar junto do papá, da mamã e da vovó do que a entregar comida instantânea porta-a-porta. Não estão para isso, todos os seus desejos e vícios são sustentados de uma forma ou de outra. São uns sortudos que não sabem a sorte que têm. E os putos já sabem que os argumentos dos filmes pornográficos são uma grande fantochada, nenhuma dona de casa quer nada comigo, para mais tendo eu uma dúzia de rondas por realizar e um bafo que denuncia muito tabaco e algumas minis. Elas abrem-me as portas em camisa de dormir, lá isso abrem, as desbocadas, mas nunca estão sozinhas. O terror de qualquer mulher que pede uma pizza é estar sozinha. Elas fazem logo questão de mostrar que redes sociais são com elas. Nunca devem ter visto um filme pornográfico, com certeza. Logo no hall de entrada, apresentam sempre várias fotografias de grandes grupos sorridentes, geralmente sempre na mesma posição e sempre com as mesmas caras de felicidade forçada, flashes demasiado fortes, pupilas vermelhas ou olhos fechados, péssimos enquadramentos, cores foleiras, a alegria da vacuidade atirada à cara do tipo encharcado e de capacete na mão, pensam que me fazem inveja com isso e com o telemóvel colado ao ouvido, discutindo os últimos incidentes da vaca da Herondina lá do gabinete, nem me olham de frente, nem se importam que a sua lingerie seja translúcida, enquanto o namorado, ou amigo, ou primo que lhe salta para a cueca ocasionalmente, ou gajo que simplesmente está por lá, me despacha com um desprezo que nem a um animal se dá, contando as moedas escuras do fundo da carteira para me presentear como se presenteia um inútil arrumador de carros. E eu ainda não cheguei a esse ponto de parasitismo social travestido de actividade com interesse público, mas se calhar era melhor, chateava-me menos e definiria eu mesmo o meu plano de trabalhos. Raramente há um sorriso, um toque, uma migalha de calor humano que compense as nódoas do molho de tomate. Já nem falo de gorjetas de um euro. Mas tudo bem, tenho os meus defeitos, gosto da pinga, gosto da erva, gosto de tuning, se tiver que roubar até roubo, desde que não conheça a pessoa e que não tenha que lhe fazer muito mal. Se calhar o problema é meu. Só que agora quero atinar. Quero que digam “eh pá, o rapaz das pizzas é o melhor profissional que eu já vi” ou “vamos comprar uma mota decente para o rapaz”. Ou simplesmente “ele merece”. Merecer o quê? Qualquer coisa não tão ruim. Por exemplo, “o tipo devia dar-se muito bem numa oficina. Ou num talho. Ou num café a servir à mesa”. Não peço mais. Contudo, o jogo que aqui se joga não é esse. Eles é que pedem. Eu apenas vou atrás. Se tiver que recomendar alguma coisa, digo que “a pizza da casa é a melhor”, é o que o chefe diz. Mas não sei se é. Já não como pizzas há algum tempo.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Não Pode Ser

A Joana Amaral Dias não pode ser “de esquerda”, seja isso um posicionamento político, um bloco, a mão com que aperta preferencialmente os seus mamilos, a forma como conduz, etc.. Vocês percebem. É demasiado boa para tal. Claro que me refiro apenas ao aspecto físico. Que é aquilo no qual todos reparam. Até o Louçã, que de vez em quando deve esfregar os olhos e pensar em nacionalizar a Joana. A própria Joana devia gostar de ser para o povo. Era uma situação win-win. Assim o Louçã estaria muito mais perto de me convencer a votar nele.
Quando a Joana abre a boca, ela até pode ser muito parecida ao resto das gajas de “esquerda”. Em termos muito vagos, julgo que ela fala das “desigualdades sociais”, “direitos adquiridos”, “rendimento mínimo”, o blá-blá-blá do costume. Mas ninguém repara. Ela estar para ali a falar ou estar a dormir vai dar ao mesmo. Se ela dançasse em frente a um varão, aí sim, o pessoal levava-a em conta. Faz toda a diferença face a todas as outras gajas “de esquerda”.
Não, ela não pode ser “de esquerda”. As gajas “de esquerda” são, como dizer?, uns camafeus do caraças. Gajas maltrapilhas que andam com fitinhas e missangas e malabarismos com bolinhas e que, por vezes, até cospem fogo; gajas de sandálias, que deixam transparecer pés sujos e tatuagens banais; sujeitas envergando roupas rasgadas e baratas com o cara do Che Guevara, fumando tabaco de enrolar do mais reles que se pode encontrar no mercado; tipas que desprezam o conceito de depilação, mantendo cabelos desgrenhados com cortes preferencialmente curtos, certamente para agradar às outras lésbicas que elas tanto prezam; indivíduas com 1,6m no máximo e que estão cheias de sinais e borbulhas e que são demasiado magras ou com uns quilos a mais. Portanto, elas cumprem os requisitos certos para retirar a libido a um gajo. Até a Ana Drago, que se tem esforçado para melhorar a imagem, é vesga. Na realidade, a Ana Drago era o protótipo de uma gaja “de esquerda”, até ver que o pessoal reparava muito mais na Joana e decidir aperaltar-se mais, realçar o sinal estratégico na cara como se fosse uma Catarina Furtado com discurso de Robin Hood e utilizar um soutien dois números abaixo. Mas nós sentimos que há algo ali que ainda não bate certo. A Ana não é uma Joana. Aquilo é uma espécie de lagartixa que queria chegar a jacaré. O mais certo é chegar a velha e ser tão irritante como a Helena Pinto com a sua voz de cana rachada. Mas, pronto, é fisicamente mais apetecível que a Odete Santos, embora isso não seja nenhum troféu em particular.
Se a Joana for mesmo “de esquerda”, coisa que até agora ninguém foi capaz de identificar com rigor, então é a excepção que confirma a regra. Tenho para mim que as pessoas não conseguem resolver o paradoxo de ver uma gaja boa “na esquerda” e então confundem-se e não a levam a sério. Por exemplo, pensamos todos que os propalados convites telefónicos de outros partidos eram apenas meros engates do género “e se fôssemos beber um copo esta noite? Sem compromissos, só para passarmos um bocado de tempo juntos a conversar, que tal?”. Não lhe auguro um grande futuro político. Por outro lado, ela daria uma grande capa da Playboy.
Gostávamos muito de vê-la nessa vertente mais fashion, a sério. Para já, os seus atributos físicos parecem ser todos naturais e ela tem aquele ar de quem é muito intelectual por ter estudado psicologia e escrever colunas nos jornais que ninguém lê – o que seria um considerável avanço para a revista, depois de ter apresentado cantoras pimba e modelos em claro declínio na carreira impregnadas de silicone. No caso da Joana, isso poderia servir para lançar-lhe uma carreira como uma femme fatale em filmes e séries de TV.
Sim, porque a carreira política não é para ti, Joana. O teu aspecto visual é que é o teu grande activo, não é aquilo que eventualmente pensas. Na política, o pessoal quer ouvir homens velhos, carecas e gordos a falar. De ti, a gente espera apenas ver-te. Com o mínimo de roupa possível. Ficarás indignada com esta espécie de machismo descarado, como boa mulher “de esquerda” que dizes ser. E quando fazes esse ar de zangada… és mesmo sexy. Tu sabes.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Bilderberg

Inglês rico #1 – Meus caros: como decerto se lembram, o ano passado decidimos as falências do Lehman Brothers e do sistema táctico do losango. O que é que vamos decidir este ano?
Americano rico #1 – Estamos à vontade?
Inglês rico #1 – Estamos completamente à vontade. Os jornalistas que eventualmente passarem o perímetro de segurança serão sumariamente executados. Este secretismo é essencial, já que estamos aqui para decidir o que fazer do mundo, porque nós… bem, nós somos o mundo.
Americano rico #1 – Mas mesmo à vontade? Ou seja, isto não vai ser gravado nem escrito em lado algum?
Balsemão – Está aqui o tipo do “Outra Louça”, mas isso só interessa aos brasileiros que andam à procura de fotos de gordas na Internet. E esses não percebem nada.
Inglês rico #1 – Estamos rigorosamente à vontade, como se pode avaliar pelo facto de eu estar descalço e a coçar as borbulhas do meu cu em plena mesa de reuniões. Diga lá, caro colega americano. Ups, esta tinha pus.
Americano rico #1 – Isso de estarmos mesmo à vontade tranquiliza-me. Porque senão falava da regulação financeira, da crise de valores no mundo ocidental, do papel da Europa do mundo e dessas miudezas. O que eu queria era falar sobre algo realmente polémico…
Alemão rico #1 – E que é?...
Americano rico #1 – Mamas. Quero falar sobre mamas.
Inglês rico #2 – Dear God!
Italiano mafioso #1 – Boa!
Francês rico #1 – Sacre bleu!
Balsemão – Eh, pá!...
Americano rico #2 – Desculpa, estava aqui a comprar umas armas ao Irão, o que é que disseste?
Americano rico #3 – Ele falou de mamas.
Americano rico #2 – Ah, eu gosto mais de homens suecos. Continuem sem mim.
Americano rico #1 – Mamas, meus caros. Temos que decidir algo.
Inglês rico #1 – Mas o quê?
Americano rico #1 – Temos de arranjar uma forma para as gajas mostrarem as mamas com mais frequência. Só gajas entre os 16 e os 45 anos, com menos de 70 quilos, mas podemos discutir detalhes…
Italiano mafioso #1 – Apoiado!
Americano rico #1 – Eu gostava de ver as mamas da tua mulher ao vivo, por exemplo. Mas acho difícil, ela anda muito resguardada. Daí esta ideia.
Francês rico #1 – Est-tu parlating avec moi? Sacre bleu!
Americano rico #1 – Sim, é mesmo contigo. Pá, eu não estou a falar em pagar às gajas para se despirem, isso é fácil e já gastei milhares de dólares e alguns espiões com isso. Estou a falar disto: elas mal nos vissem, tumba!, desapertavam logo os soutiens! Era uma espécie de continência. E nós ficávamos com a opção de as apertar, lamber, tirar fotografias ou qualquer coisa que nos apetecesse, na qualidade de gajos extremamente poderosos e inevitavelmente repelentes em termos físicos.
Alemão rico #1 – E poderíamos dar-lhes chapadas, cuspir-lhes e mijar-lhes em cima e essas coisas todas?
Americano rico #1 – Sim… pois… como preferires, Hans. Se é isso que fazem em Dresden, é lá contigo.
Alemão rico #1 – Wunderbar!
Americano rico #1 – Eu já não aguento ver gajas boas nas conferências e levar com o desprezo delas. E estou farto de gastar dinheiro com acompanhantes. Bolas, eu sou o gajo mais rico de todo o nordeste americano e as gajas nem sequer são capazes de me mostrar as mamas por respeito! Eu construí o hospital e pago aos médicos que lhes colocaram o silicone. Aquilo de alguma forma também é meu e mereço ver!
Suíço rico #1 – Eu gosto de todo o tipo de mamas, para dizer a verdade. Até de chocolate.
Inglês rico #2 – Eu gosto de mamas pequenas. Têm uma certa inocência infantil.
Alemão rico #2 – Eu gosto de mamalhões com grandes bicos, mesmo à laia de vaca leiteira.
Italiano mafioso #1 – Eu gosto de mamas assimétricas.
Americano rico #3 – Como assim?
Italiano mafioso #1 – Quando a mama direita é maior que a esquerda ou quando os bicos não ficam bem no centro daquela auréola que os envolve.
Americano rico #3 – Ah, está bem…
Italiano mafioso #1 – Aprecio os desequilíbrios, apenas isso.
Americano rico #1 – Vêem? Toda a gente gosta de mamas femininas…
Suíço rico #1 - … eu por acaso estava a falar de mamas de homens obesos, excitam-me como um raio. Por isso é que eu tenho 120 quilos e ando sempre com um espelho.
Americano rico #1 - … pois… Mas já pensaram bem? É como se fosse uma obrigação de usar burka, mas ao contrário.
Inglês rico #1 – No geral, até é uma ideia bastante válida. Mas parece-me que iria causar grande turbulência… e é levemente autoritária para o mundo livre. Além do mais, eu sou eunuco.
Francês rico #1 – Sacre bleu!
Inglês rico #1 – Sim, e sou feliz como um hermafrodita.
Americano rico #2 – Acho melhor discutirmos coisas a sério, como analisar exaustivamente as últimas declarações da Carolina Patrocínio. Isso das mamas é exagerado e resolve-se facilmente: quem é bom vê mamas, quem não é não vê (a não ser as rameiras na Internet).
Americano rico #1 – Bolas, mas nós somos ou não somos donos do mundo? Podemos ter o que queremos mesmo sendo uns zeros à esquerda em termos de charme!
Balsemão – Infelizmente, a mim já me custa chegar ao 18º buraco… deixemos as mamas para quem tem idade para isso.
Americano rico #1 – Pensem bem, meus caros: mamas à solta para todos! De graça! Sem petróleo nem favores políticos em troca! Nada! Ejaculações a torto e a direito!
Italiano mafioso #1 – Eu concordo. Mesmo que já só lá vá com Viagra.
Americano rico #1 – Mais alguém?
Alemão rico #1 – Tenho fome.
Alemão rico #2 – Vamos ao chucrute? Depois tenho aqui uma ideia para acabar com os terroristas que é genial: consiste em juntá-los a todos numa espécie de colónia de férias, gaseá-los e…
Russo mafioso #1 – Já foi feito.
Alemão rico #2 – Ah sim? Bom, vamos então à papinha?
Inglês rico #1 – Sim, sim, comamos. Se há coisa que pela qual o Bilderberg é conhecido é por arranjar panelinhas.
Americano rico #1 – Pensem nas mamas, meus senhores! Nós podemos ter as mamas todas do mundo na mão! Todas as vossas secretárias! Todas as vossas jornalistas!
Balsemão – Por acaso, a Fernanda Câncio tem um par do caraças…
Americano rico #1 – Vês? Vês? Não me queres apoiar nesta causa?
Balsemão – Já viste a minha pele? Estou a escamar-me até à morte, pareço um peixe ressequido ao sol. Isso já não é para mim.
Americano rico #1 – Goddamit!
Inglês rico #1 – O jantar está na mesa! Ponham lá os babetes antes de comerem a sopinha, está bem?

quarta-feira, setembro 16, 2009

Ainda Bem Que Não Fomos Nós

"Vítimas da queda da avioneta em Castro Verde não são portuguesas" - in "A Bola" online

Na verdade, podia morrer toda a gente do mundo num acidente qualquer, desde que não os portugueses. Esses não. Esses são demasiado bons, tremendamente válidos, estupidamente jovens e talentosos para morrerem tragicamente como os outros.
A comoção instala-se quando ocorre uma catástrofe. Não é por acaso; não é por sermos demasiado impressionáveis. Não: o pavor está em saber se há portugueses metidos ao barulho. Se houver, bom, é um desastre e peras, daqueles mesmo tramados. Se não, é um alívio; de repente, toda a sinistralidade inerente à hecatombe se dissipa; estamos perante mais uma banalidade, do género daquelas múltiplas calamidades naturais que dizimam milhares na China, na Indonésia ou na Guatemala. Coisas com as quais ninguém se preocupa e pelas quais passa com a indiferença típica do zapping.
Em qualquer acidente com vítimas, há os mortos esquecíveis, que são os mortos que nasceram fora deste rectângulo e das ilhas; e há os mortos insubstituíveis, que são os nossos. Todo o português morto em acidente é lamentado numa proporção incomensuravelmente superior ao morto que jaz ao lado e que seria, por hipótese, espanhol. Mesmo se o espanhol fosse um Prémio Nobel, por absurdo, e o português um serial-killer pedófilo e toxicodependente que roubava as caixas das igrejas. Ficamos sempre com pena do “nosso compadre lusitano”.
O português desaparecido em acidente desperta nos portugueses um sentimento de perda irrecuperável. Nasce com a morte dele a necessidade de serem escritas elegias fúnebres dramaticamente poéticas, de se depositarem flores coloridas no local da tragédia, de se fazer um minuto de silêncio em sua honra, de se acusarem todas as autoridades competentes e mais algumas por desleixo. Apenas por ter sido português. E se era português, então é porque nos era muito próximo e de alguma forma privámos com ele. Sim, porque todos acabamos por nos conhecer uns aos outros. Esta proximidade, tão frequentemente desprezada no quotidiano, é-nos devastadora na hora da desgraça.
Por norma, um português que morre num desastre morre com uma dignidade insuperável. E sempre em condições que roçam o heroísmo, pelo desafio inglório face à fatalidade. Os outros, geralmente, foram apenas incautos.
Um português morto num acidente tinha sempre qualquer coisa formidável para nos oferecer e foi apenas a inveja desse malvado destino que nos privou dessa coisa fantástica. Já um português morto de causas naturais merece apenas a atenção dos mais chegados. A tragédia que nos dá uma bruta estalada nas ventas, provocando-nos uma estupefacção que nos percorre toda a espinha, é a mesma que nos apressa a elevar o estatuto da vítima ao pedestal da imortalidade. Pelo menos durante uma semana. E esse pedestal será posteriormente revisitado por um programa qualquer da SIC, onde se vasculharão os familiares da vítima passados 10 anos.

“Acidente de viação vitima família de cinco pessoas"! Consternação! “Eram todos ciganos”. Ufa, pensei que era gente a sério; antes eles do que nós.
“Furacão violentíssimo fustiga barlavento algarvio"! Horror! “Só morreram ingleses”. Ah, então foi bem feito, os tipos não sabem apanhar sol e depois lixam-se.
“Vírus poderoso arrasa população da Amadora"! Pânico! “Só foram infectados os pretos”. Então caga nisso. São pretos, e, como todos sabemos, eles não são portugueses. Que se danem.
“Godzilla despacha bairro parisiense com grande colónia portuguesa"!
Emoção! “Afinal, os portugueses estavam a trabalhar e não foram afectados”. Ainda bem. O bichinho precisava de fazer estragos e em França já há tantas batalhas campais que mais uma nem se vai notar.
“Liedson apanha gripe A e está de baixa”! Bah, brasileiro do car***o… “Selecção Portuguesa a contas com mais uma dor de cabeça”. Eh pá, é verdade, o gajo já é português e tudo… isto é deveras lamentável. Só faltava o Obikwelu também apanhar poliomielite. Seria uma machadada fatal na nossa estima.

quinta-feira, setembro 10, 2009

Ficção Dura de Roer

O enredo das telenovelas portuguesas entrou por caminhos lynch
ianos. Ou, pelo menos, assim somos levados a crer pelas revistas da especialidade, que nos mimam com resumos de elevado requinte literário. Há demasiada tensão entre as personagens e as histórias paralelas acumulam-se, trocando pontos em comum de quando em vez. O que lá foi há três meses já não interessa para nada agora.
Agora há “mães” suspeitas, com direito a aspas e tudo, mantendo relações dúbias com os filhos. Guardas prisionais à solta em plena luz
do dia, metendo-se com as pessoas nos momentos mais impróprios. E, acima de tudo, tipos que juram ""continuar mortos"" – com aspas duplas, que é para realçar que é uma citação de uma citação.

Tal ideia suscitou o seguinte comentário de Matt Warhol, um sobrinho-neto obscuro do tio-avô Andy:


O certo é que a mãe não anda bem. Numa aparição pública, desata aos tiros, alegando inverdades. Até a polícia, que por acaso estava por ali, sentiu-se na obrigação de detê-la. A ver se o bicho acalmava.

Os ânimos continuam exaltados um pouco por todo o lado. Mesmo os habitualmente imperturbáveis médicos queimam o rastilho muito rápido. Num momento de maior ebulição e quando os nervos pulavam à vara pela flor da pele, um bananeiro acorre ao local e conquista a simpatia da profissional de saúde, neutralizando a bomba. Na próxima revista não perca a sequência: sexo no consultório dela, ela com bata branca e ele com a maior banana da sua colecção.

Por fim, eclesiásticos corruptos e agressivos, de mente tão suja quanto a cor da sua batina. Alguém viu o que não devia. Deus vê o que Diabo faz na sombra através dos espelhos instalados na alma de todos nós. Dólares e euros, punhos e pontapés. Morte aos chibos. A fuga em frente, a toda a velocidade contra o destino.

Será um encontro com a droga? Ah, a droga, a religião, o dinheiro, o poder, as chantagens e o martírio das ressacas. Ficção bem rasgadinha, fracturante, dramática, diabólica.
Foge, padre, se queres sobreviver.
Outros preferem continuar mortos.

E assim este mundo vai girando.

Apaixonei-me Por Um Monitor

Tinha ele 55 polegadas e eu a ternura da idade, fez clique e foi tão fácil, era impossível resistir ao seu chamamento, radiante ele se impunha naquele pedestal dourado, confortável com todos os seus pixels, dominando todas as suas ligações e entradas, deslumbrando com a riqueza do seu Motion Plus 100 Hz. E qual criança em êxtase corri para junto dos braços dele para sentir a força do seu poderio cromático, o 16 por 9 tantas vezes quantas ele quisesse, sugávamos o nosso mel em simultâneo e em silêncio, tantas vezes só nós, por nós, podia morrer feliz se o visse sempre a brilhar o LED Crystal Engine numa sala escura e só nós os dois, brincando com os dias, a lareira acesa, os maus todos lá fora e nós ali, partilhando a fruição das nossas vidas, acariciando os nossos corpos, trocando o calor que emergia de nós. Sim, apaixonei-me por um Samsung, dizem que os coreanos têm-na pequena, mas este é grande, um grande monitor LCD e eu nunca me senti assim, tão facilmente arrebatado, tudo nele é super, acho que é amor para sempre. Já não me consigo imaginar sem ele, aquelas coisas simples como chegar a casa e afagar o seu adorável comando remoto primeiro que tudo, não quero sequer saber o quanto a minha cama iria parecer grande sem ele no meu quarto, antes prefiro degustar a nossa companhia suavemente com todos os meus sentidos e deixar-me passear na doce sedentariedade em que ele me envolve. Assim mudou a minha vida. Pensar que estive todo este tempo sem ir ao site da Pixmania.