quarta-feira, junho 23, 2010

A Mão de Sebastião

A vida sexual de Sebastião corre sobre rodas. Vai tudo bem. Ir tudo bem é tão bom quanto impressionante nestes dias. E tudo o que era preciso estava afinal bem perto – era apenas ele mesmo.
Não era narcisismo. Era somente a sua mão predilecta. Pois é, a sua mão de estimação. A mesma com que ele agarra a tesoura, a caneta e a raquete. Fiel e dedicada. Ele e a sua mão nunca se chateiam. A mão de Sebastião não é esquisita. Não está cá com “agora não” e “vai com calma” e coisas do género. Pelo contrário, a mão de Sebastião é a que o instiga a desafiar os seus limites hormonais. E contenta-se com pouco, basta uma memória difusa de um decote ou uma mulher semi-nua num outdoor publicitário. A mão não quer perfumes nem roupas, quer acção. Quer aquilo que Sebastião quer e ainda mais. É a mão, essa aparentemente inofensiva mas secretamente pérfida construção de pele e dedos, que sussurra internamente ao Sebastião, “viste aquela gaja, viste?” e o desafia sem pudor “’bora ali à casa-de-banho fazer o que temos a fazer”.
E Sebastião, que remédio, vai. Fazer amor a três com a sua mão e o seu cérebro fotógrafo no conforto de um lavabo público de um centro comercial. Uma orgia singela mas poderosamente intensa. Sebastião deixa-se levar, deixa-se dominar pelos seus sentidos, torna-se num animal apenas focado num único objectivo: o prazer instantâneo. O cérebro espalha a gasolina e a mão ateia o fogo. Em dois minutos está tudo feito, os azulejos salpicados de um branco pegajoso e um alívio interior. Durante momentos sente-se o orgasmo a bater como uma droga aditiva. É mesmo uma droga aditiva. O ritual será repetido aqui ou noutro lugar, não tardará muito.
Não há corações partidos no mundo de Sebastião. Ele já os reprimiu do seu mundo. Eles só faziam bem aos psicólogos e psiquiatras e tornavam-lhe num ser depressivo e auto-destrutivo. Não, corações partidos é que não. Não valia a pena lutar se o custo da perda fosse muito elevado. Era mais seguro jogar pelo retorno certo. E então Sebastião largou o mundo real e apostou no seu próprio mundo, aquele que nunca o desiludia. Os seus olhos olhavam para o espelho e gostavam do que viam. A sua língua apreciava o que Sebastião saboreava. O nariz tinha o mesmo gosto olfactivo que Sebastião. Enfim, só Sebastião podia compreender Sebastião – e ele ficou feliz por perceber esta evidência a tempo.
Então, Sebastião devotou toda a sua pré-adolescência, adolescência, pós-adolescência e fase-aparentemente-madura-mas-apenas-e-só-de-aspecto a cuidar de si para si. Por si. Limitado a um espaço físico e mental que apenas o abrangia, recolhendo imagens exteriores para se excitar, consubstanciando a sua excitação e fechando o círculo, em exercícios constantes e estimulantes de auto-aprendizagem. E tudo com o auxílio da sua impagável mão. Não achava que este estilo de vida fosse humilhante; humilhante era andar aos caídos, suplicando pela mulher divina que nos presenteasse com aquilo que só nós sabemos como gostamos, sem nunca a encontrar. Ou, tão mau quanto isso, observar a sua imagem de divindade cair por terra quando finalmente encontramos essa mulher, com gestos ou palavras que nós nunca sonhámos. É que por vezes o cérebro vai com o coração e trai-nos. Mas quando o cérebro vai com a mão, a satisfação está garantida. Sem mais delongas, sem mais explicações. A mão dá-lhe o que ele precisa e isso já é muito bom. É mesmo muito bom.
É a mão dele que agita freneticamente o seu sexo uma, duas, três, quatro, cinco, mais vezes por dia, louca de desejo, sempre pronta a acariciar, a apertar e a limpar os restos, nunca dando parte de fraca. Nenhum reumatismo, nenhuma artrite. Sempre para cima e para baixo, marcando o ritmo, açambarcando a batuta, coisa jamais vista.
Sebastião vive feliz, colhendo os onanismos por ele próprio semeados. Ele sabe que a sua mão sabe melhor o que ele quer que qualquer outra mulher. Só a sua mão tem aquele jeitinho especial de agarrar, de satisfazer, de manipular. Enfim, é uma mão; manipular é a sua especialidade. Mas nenhuma outra mão, nem a sua outra mão, conseguem exprimir assim tão bem semelhantes qualidades. “Esta mão caiu-me do céu”, agradece Sebastião.
Sebastião sem a sua mão não sobreviveria. Teria de ser reformatado. Mas isso dói. Custa reiniciar. “Deixa-te desses pensamentos, lembras-te da tua professora de matemática, aquela que tinha um grande par de mamas e andava sempre de saia curta? Queres relembrar-te dela, como ela estaria agora, hã? Queres, queres?”. Era a sua mão. Vai-te a ela, Sebastião.

segunda-feira, maio 31, 2010

Taça É Taça - Parte IV

Chegou o momento anual de balanço sportinguista. Um momento único de lucidez no blogue. E logo na altura mais difícil.
Por causa do tempo, claro, que já faz muito calor. Não menos despiciendo é o outro motivo: a época futebolística do Sporting, em termos globais.
Foi má? Teremos que concordar que sim. Não houve futebol, não houve resultados; repetimos o 4º lugar que conhecemos no final dos anos 80 e uma vez já há uma dúzia de anos, porém com piores exibições; jogámos talvez ainda pior que a pior época exibicional do Paulo Bento, mas nem uma tacita para amostra. Nem deu para ir a finais de nada.
Carvalhal foi irregular e julgo que se fez bem em tentar outra opção, mas o homem merecia mais respeito. Que foi coisa que Bettencourt, sinceramente, tudo fez para desmerecer. Não votei nele, agora é fácil assumir, mas não tenho prazer especial nisso. Tive alguns maus presságios, mas quando ganhou fiquei com esperança nele. O que podia fazer melhor? A outra alternativa também não cativava e um homem já na casa significava menos risco. Todavia, Bettencourt saiu-me um grande melão, aparentemente gostoso mas no final aguado.
Paulo Bento, ele mesmo o disse, ficou quatro meses a mais. Gosto muito dele, da sua disciplina trabalhadora, da distância desapaixonada com que avaliava os jogos, do seu timbre espanholado. Os espanhóis são muito mais competitivos que nós. E ganham. Enfim. Os jogadores e os jornalistas é que já estavam saturados. E só depois os adeptos. Os adeptos só manifestaram verdadeiramente o seu desgosto quando não se começou a ganhar e a distância para os outros a aumentar. Antes disso era só fumaça. O futebol não entusiasmante também não ajudava. Mas é só quando não se ganha que tudo se vai abaixo.
Carvalhal não tinha nada a perder. Não tinha muito tempo para ganhar. Não era fácil. Um começo aos apalpões, depois titubeante a descer, depois Everton e FCP e, quando tudo parecia encaminhado para uma época um pouco mais digna, Izmailov, Atl. Madrid, puf, Carvalhal perdeu o controlo. Como Sá Pinto já tinha perdido. E Carvalhal no meio de aquilo tudo, parecia uma criança a assistir aos pais a discutir, indefesa a um conto, agarrado ao seu ursinho. Neste caso, o ursinho de Carvalhal era a sua secreta esperança de permanecer pela pena dos outros. Não teve essa sorte. A sua boa-vontade esbarrou violentamente no muro de fogo canibal do Sporting. Ainda assim, mostrou resiliência psicológica.
Jogadores? Moutinho estagnado, todos com medo da próxima birra do instável Veloso, Yannick ao fundo no penoso final de época, Pongolle risivelmente caro, João Pereira a adquirir rapidamente os vícios malignos da equipa, Carriço apenas razoável (e baixo), e era o melhor (o que diz muito do estado da defesa), Izmailov embrenhado numa teia que tresanda a empresários por todo o lado, Pedro Mendes a prometer mais cérebro no meio-campo, Patrício foi evoluindo como pôde entre o ruído exagerado das críticas, Liedson exasperado e desmotivado. Foi mais ou menos assim e não vale a pena desenvolver mais.
Expectativas para o futuro? “Sei lá” parece ser o mais sensato. Bettencourt só pode melhorar, Costinha é um ponto de interrogação, Paulo Sérgio também é Bento e ficamos todos a aguardar. Dele só se exige mais músculo no balneário, melhores contratações, mais espectáculo e resultados mais agradáveis. Não é pouco. É antes um problema. Vamos testar quanta paciência haverá para tolerar mais fracassos. Dizem que não há dinheiro e desbarata-se no Pongolle, não deram no princípio a Paulo Bento o que deram a Carvalhal no meio e no final os jogadores parecem todos em subrendimento e estoirados. Mas a equipa tem de mandar alguém embora e buscar substitutos. Quantos desvarios mais se podem aguentar?
Resta-me aproveitar o Verão, pensar em coisas novas, espairecer, ver andebol. Ah, o andebol. Fez bem. Foi como se achássemos uma nota perdida no bolso depois de termos ficado sem a carteira. É o Pedro Solha, o Petric, o Fábio Magalhães e o Bjelanovic. É um pavilhão cheio a festejar em verde-e-branco, é o testemunhar da comunhão entre equipa e público num dia inédito de glória. O nosso ego mostrou que estava vivo a ver a Taça Challenge refulgir no pavilhão de Almada, perante sportinguistas em celebração efusiva. Nem sequer era o melhor desporto. Nem sequer era a melhor taça. Mas “taça é taça”, reza o título. E esta é a que nós ganhámos, ganhando bem e ganhando em primeiro. Foi escrever história com gato em vez de cão. O relativismo com que encaramos certas coisas dava para escrever tomos de papel daqui até à China.

terça-feira, maio 04, 2010

Uma Ideia de Graça

Até me espanta ainda ninguém ter tido esta ideia. A sério que sim. Quer dizer, é demasiado óbvio. Estou certo que a equipa de marketing do Modelo teve esta ideia, mas depois custava muito adquirir os direitos da canção “Poker Face” da Lady Gaga e meteram a Popota, essa inefável hipopótama de Natal, a gingar-se ao som dos Buraka Som Sistema no último Natal. Que por serem da Buraca estavam dispostos a ceder os direitos da canção por apenas um sabonete de haxixe e dois pares de ténis da Nike (dos mais caros, ainda assim).
Pois bem, aqui vai: METAM A POPOTA A CANTAR “POKER FACE” – “PO PO PO TA FACE; PO PO TA FACE… PO PO PO TA FACE; PO PO TA FACE”. Sucesso garantido.
Fig1. – Lady Popota é fotogénica e ousada como a verdadeira Lady Gaga.

Se eu disponibilizasse esta ideia perto do Natal ainda me podiam acusar de oportunismo. Ou de ser um gajo muito desequilibrado por gente ainda mais desequilibrada. Por isso, cá está, geniais marketeers: uma ideia completamente de borla em plena Primavera. Agora é convosco. Para mim, é este o próximo passo da Popota. Esqueçam as operações de solidariedade social. Isso é só fogo de vista para inglês ver. Vamo-nos focar decididamente no glamour desta anafada hipopótama. A Popota até é mais linda que a própria Lady Gaga e tudo. Pronto, esta última tem um nariz mais pontiagudo em vez das banheiras que Popota ostenta no lugar das narinas. Mas são ambas animalescas, escondendo os seus instintos vorazes atrás de um aspecto aparentemente cândido. Ambas desafiadoras: a Lady Gaga desafia o bom gosto e a Popota desafia os pais a comprar mais e mais e mais, sem receios da crise e das ameaças dos bancos à cata do crédito malparado. Têm muito em comum, embora a Lady Gaga faça mais jogging e por isso pareça um pouco mais elegante. Mas cheguem um brigadeiro de chocolate ao pé delas e o efeito será o mesmo: o brigadeiro desaparece num piscar de olhos.
Fig.2 – Popota sabe cantar e até utiliza o microfone para sacar chimpanzés inteiros do seu nariz. Em carne e osso.

E que tal colar a imagem da Popota ainda mais à da Lady Gaga? Isto é, tornar a Popota amiga da Madonna, frequentando grandes cocktails em Beverly Hills, lançando marcas de roupa, assinando videoclips provocadores, adoptando crianças do Burkina Faso? Que tal? Que tal vermos a Popota como uma pop star lá no seu íntimo?
Fig.3 – O Modelo a mostrar que sabe cobrir as necessidades dos seus consumidores.

Pois… Talvez não. Esqueçam lá esta última ideia. Acho que o mundo ainda não está preparado para tanto.

sábado, maio 01, 2010

Dia do Trabalhador

Estive a seguir todas as recomendações para ser feliz. Não me levar muito a sério, basicamente. Olhar para os outros sacanas que me espezinham com um sorriso na cara e pensar que tudo podia ser pior. Por exemplo, a minha filha podia andar com um preto das barracas, daqueles cheios de brincos e com as calças a rojarem pelo chão, boxers às riscas à mostra, espetando linguados no meio da rua como se não houvesse amanhã. Talvez não haja. Talvez haja uma rusga, finalmente, que ponha termo ao bairro social. Mas o mais certo é que não. Os sociólogos e os políticos não vão deixar. Eles gostam de cancros. Especialmente, os dos outros. É provável que as coisas continuem a arrastar-se como as calças dele. Pelo chão. Como será muito provável esse namorado momentâneo da minha filha vir a ser desempregado. Não apenas "estar" desempregado, porém "ser" um desempregado. Fazer do desemprego uma profissão. Está na moda, como ele próprio. É chique receber subsídios e chular o Estado. E ainda aparecer na MTV Portugal como um tipo muito cool. Chular o Estado é um desígnio nacional. A MTV Portugal, por seu turno, não deve ser levada a sério. E esse puto não se leva a sério. Ele não leva nada a sério. A vida para ele é um enorme gueto onde ele só faz de DJ e spraya tags nas paredes. Devia aprender com a ignorância dele, seria muito mais feliz. Estamos numa de não nos levarmos a sério. Minimizarmos as circunstâncias para aliviarmos a nossa alma de fardos desnecessários. Noutro dia esmaguei um pequeno insecto. Não lhe queria fazer mal, mas esborrachei-o. Acontece. Não foi nada de especial. Vai acontecendo. Ele morreu. Eu por cá ando. É assim a vida, construída de pequenos acontecimentos que para alguns são tudo e para outros pouco mais que nada. O truque está na trivialização sistemática dos actos. O tempo ajuda-nos a construir um aspecto blasé. A idade traz-nos coisas que julgamos estar em loop, um disco riscado que já nem sequer nos incomoda. A minha vida tem vindo a constituir-se por músicas de porcaria e dizem-me que essa é a banda sonora da minha vida. A música que se faz hoje em dia é muito má, ninguém parece dar por isso. Ligam-me sempre a músicas que estão nas playlists actuais e que eu não gosto, mas dizem que elas têm muito a ver comigo. Eu nunca me imaginei na última cena do meu filme com aquela música enquanto passam os créditos. Mas é mesmo assim. Há coisas que não conseguimos controlar. Nem devemos. Nem alguma vez iremos, se quisermos. É assim, ponto. Apenas há que ir tentando mudar. Enunciar citações alheias como forma de mostrar um grande aparato cultural. Soltar palavras chapa-5 na esperança que o nosso receptor ainda não as conheça e pense que somos um génio. Alguma coisa devemos ser. Nem que sejamos apenas o génio da banalidade. A preguiça quando se instala é pior que um pacote promocional da TMN, demora a ser extraída. A sombra da bananeira é tão reconfortante que nos esquecemos que um dia temos de voltar ao sol, à torreira do trabalho, que as bananas estão lá em cima e não caem só por si. São apenas bananas, mas estão lá em cima. E nós, que somos a reserva moral desta sociedade, vamos ficando cá por baixo. Deixados à sorte de bananas. Isto já lá não vai só com palavras, mas é o melhor que nós conseguimos fazer. Somos poetas e criativos, não gostamos de actuar, ainda chateamos alguém. E isso é chato. Sentamo-nos em casa a ver os outros falhar. Engordamo-nos em centros comerciais e damos dinheiro para clubes de futebol e para os nossos filhos se divertirem como nós nunca pudemos divertir-nos. Pensamos que isso é o melhor. Se é que sequer pensamos a sério. Se o fazemos, não devemos. E os putos vão crescendo estupidificados em frente ao computador e com os telemóveis de última geração. Não vão querer saber de nada para nada. Vão entrar num ciclo vicioso de alienação e aos 20 anos já estão hiperactivamente deprimidos e nunca mais vão recuperar. Temos fé que uma busca no Google resolverá os nossos problemas. Todavia, a internet também esconde um grande problema: estar acessível a tanta gente tão pobre de espírito. O que quer que isso seja hoje em dia. Queremos acreditar que será tudo para o nosso bem. Estive a pesquisar tantas formas de ser feliz, tantos links supostamente milagrosos, e enquanto isso o dia foi-se lá fora.
Um bonito dia de sol, um lindo dia de primavera, e eu aqui, abafado pelo peso da informação. A pós-
modernidade dá cabo de nós.

domingo, abril 11, 2010

O Que É Feito De Si, Lecas?

Lecas.
O popular Lecas.
Uma figura que nos marcou a todos.
Diria mais: uma figura que marcou a Humanidade.
O que é feito dele?
Façamos primeiro uma retrospectiva.

Lecas esteve em momentos marcantes da História. Umas vezes do lado dos perdedores...
... outras vezes do lado dos vencedores...
... mas, com o bom humor que se lhe reconhecia, acabou sempre por dar a volta por cima.

O pior estava logo ali ao virar da esquina.

A enorme pressão decorrente da apresentação de programas infantis acabou por iniciá-lo numa espiral de decadência.
Veio o sexo...
...as drogas...
...e, claro, o rock n' roll.
Foram tempos conturbados, em que Lecas, fiel a si próprio, se manteve polémico como poucos.
Mas Lecas acabou por cometer um erro fatal...
... pagando severamente por isso.
Agora o pior parece já ter passado.
Lecas, diz-se por aí, está bem e mais discreto que nunca, dobrando filmes de animação.
A sua preserverança mereceu um reconhecimento internacional, que estranhamente passou incógnito na nossa comunicação social.
Mas nós ficámos muito felizes por isso.
Porque nós jamais te esqueceremos.
A ti e à tua magnífica canção do golfinho ("O golfinho ou delfim/ é um animal/ por sinal inteligente/ como a gente", e depois havia uma parte sobre maminhas que abriu a primeira porta da sexualidade/zoofilia a muita gente).
Tu és nosso.

Vai com Deus, Lecas.

terça-feira, março 30, 2010

Damasco

O Damasco é ultra-profissional.
O Damasco já deixou de jogar à bola, mas está disposto a fazê-lo esporadicamente se lhe pagarem umas boas centenas de milhar de euros, dólares ou mesmo poços de petróleo ou minas de ouro. Algo realmente valioso, ele não é esquisito quanto à forma.
O Damasco diz que é do Sporting, mas salta quando o clube que lhe paga marca um golo ao Sporting. O Damasco diz que é do Sporting porque sabe que ali ainda pode ser capaz de sacar algum carcanhol no futuro, a avaliar pelo desespero que impera no clube. E agora que o clube começou a remunerar o presidente, o Damasco começou a ponderar melhor. Mas ainda é pouco para ele. 700 mil euros por mês ganha o Damasco a jogar ao berlinde numa exibição para crianças desfavorecidas patrocinada pela Unicef.
O Damasco criou a sua Fundação só naquela. Foi um tique de vedeta para o povo ver. As pessoas normais acordam ao Domingo e dão um peido debaixo dos lençóis, o Damasco abre uma Fundação. No fundo, a Fundação permite-lhe estabelecer laços diplomáticos com representantes grandes interesses para assim ter a oportunidade de firmar mais um ou outro bom negócio. As crianças e as causas são meros bibelots do grande palácio luxuoso em que se tornou a vida do Damasco.
O Damasco é peludo porque nenhuma revista foi capaz de lhe pagar o que ele exigia para se depilar e parecer como o Cristiano Ronaldo. Não é uma questão de estilo, é uma questão de dinheiro, ou falta dele.
Eu já tinha dito que se há imagem para o profissionalismo no dicionário ela deve ser a do Damasco.
Se pagarem bem, o Damasco é capaz de matar alguém que te chateie muito. Por mais um ou dois milhões o Damasco até é capaz de fazê-lo com requintes de maldade, como por exemplo despejar os corpos esquartejados numa lixeira perto do Bombarral. Mas se só lhe abordares com 10000 ou 20000 euros, o Damasco provavelmente só lhe vai fazer cócegas e ficas a arder com o dinheiro.
E depois diz ao Só Visto que não comenta. E se a Marta Leite Casta lhe implorar muito e vier lançada para saltar em cima dele e mamar-lhe todo, como ela tanto gosta, ele vai continuar a dizer que não. Mas se a Marta Leite Casta puser uma nota de 20 euros no meio das suas mamas, o Damasco vai ver o que pode fazer.
Se lhe propuserem um bom negócio o Damasco pode mesmo violar qualquer pessoa que aparecer por aí. Pessoas asquerosas requererão mais uns quantos milhões depositados numa conta bancária da Suíça como sinal.
O Damasco só dá esmolas aos pobres na rua se tiver como contrapartida um juro anual líquido de 10%, indexado à Euribor. Na verdade, o Damasco não dá, apenas investe.
O Damasco pode convencer o Paulo Coreia a concorrer para primeiro-ministro. E o Paulo Coreia ganhará e tornar-se-á no primeiro-ministro mais gordo e mais chinês da Humanidade. Basta que lhe forneçam dinheiro suficiente para comprar os votos do povo todo. Façam as contas: cerca de 4 milhões de batedeiras e torradeiras deverão chegar, mais a comissão – nunca menos de 500 milhões. A pronto.
O Damasco pode dizer que a família não tem preço, mas isso é uma questão a discutir. Depende de quão fundo forem os bolsos dos negociadores. Damasco avisa já que filhos e mulher vêm juntos no mesmo pacote e que não se desfaz deles em prestações. Isso é coisa de pobre e Damasco não é nenhuma loja Tien 21. Mas pode ser, se lhe pagarem melhor do que a Worten.
O Damasco pode comentar assuntos de política internacional e jogar ao Risco com o Nuno Rogeiro, mas por nunca menos que toda a dívida pública grega + spread de 5 pp. E pelo valor de mercado da EDP, PT, BES e Jerónimo Martins, o Damasco pode remeter-se a um espectacular blackout de fazer corar de vergonha o FC Porto.
O Damasco pode ficar na fila para ver os Tokyo Motel. Mas tem de ser ressarcido. Com um bom bónus, o Damasco até pode meter uma peruca, encher-se de rímel e cantar “Monsoon” com uma vassoura espetada no rabo, como os verdadeiros Tokyo Motel, subir ao palco e levar ao delírio milhares de adolescentes empedernidas.
Para o Damasco só há uma coisa imperdoável: não se perdoar ninguém por falta de dinheiro. Tudo é facilmente ultrapassável com um punhado de notas. E isto demonstra, mais que riqueza de espírito, uma enorme riqueza contabilística. Quero também dizer com isto que jamais poderei pagar as custas e eventuais indemnizações pelo processo difamatório que o Damasco algum dia me poderá mover.

4 comments:

Anonymous disse…
se bem preçebi, estás a flar do figo. es muito parvo para escreveres estas babozeiras sobre o mlhor jogador português de sempre. Não sei como à alguem tão anormal como tu. vai para o caralhp, invejozo.

Minhoquinha disse…
É Toki
o Hotel e não Tokyo Motel, seu ignorante. :P

Anonymous disse…
Hi! Just passing by to say you’ve got a nice blog! Keep going!
I need some advice so don’t you want to help me?
""

santos disse…
Rodrigues, você não presta. seu babaca. Brasil rumo ao hexa!

domingo, março 28, 2010

domingo, fevereiro 28, 2010

Eles Vieram e Mataram o Tio Patinhas

Eles vieram e mataram o Tio Patinhas. Primeiro entraram os consultores. Questões relacionadas com o fundo de maneio levaram à conversão das notas e moedas da famosa caixa forte em títulos de dívida e fundos de investimento. Também havia que tornar o imobilizado mais eficiente do ponto de vista da gestão de stock. Nada de mergulhos nas moedas, o dinheiro tem de estar noutro lado qualquer a fazer mais dinheiro. Tanta ineficiência por suposto amor à materialidade da riqueza tinha conduzido o magnata ao seu próprio desaparecimento. Ao saber das notícias, o velho ficou em fanicos. Mas só depois vieram os outros, auditores, gestores de topo, free lancers. O pior ainda estava para vir. A moeda número um tinha atingido o fim da sua vida útil. Era já um passivo, disseram eles. Não se soubera adaptar às vicissitudes modernas e ficara estática no tempo, deflacionada e opaca. Estava sobejamente amortizada, desesperando pelo goodwill. Até a Maga Patalógika já não queria essa moeda caída em desgraça, preferindo antes investir em activos mais atractivos em mercados ainda pouco consolidados. E as aventuras por esse mundo fora, à procura de tesouros maravilhosos? Bem podia refrear os ânimos. Sejamos claros: não há satélite ou radar que tenha deixado alguma coisa por descobrir. As oportunidades estão na China, na Índia, no Brasil, Angola ou Dubai. Mas o Patacôncio já por lá andou. E o Mac Mónei por lá anda. Em videoconferências à escala mundial eles transaccionam papel e códigos. Teclam em PDAs de forma incessante. Fecham dezenas de negócios por dia sem sair do sítio. Já não há tribos misteriosas em África, nem safiras em montanhas inóspitas, muito menos baús de piratas num qualquer navio perdido no fundo do Mar das Caraíbas. E já ninguém detém largos conglomerados industriais integrados vertical e horizontalmente. Não houvera uma estratégia de enfoque. O valor das acções tinha-se esfumado por entre tanta dispersão. As autoridades económicas já não achavam graça aos monopólios. As associações de consumidores protestavam muito, em directo nos meios de comunicação. Nem o próprio jogo Monopoly subsistira, pois era obscenamente incorrecto nos dias actuais. Patinhas não aproveitara as OPAs e a onda de dispersão em bolsa da última década e agora era tarde demais. Tinha sido esquecido pelo público, ignorado pelos clientes, ostracizado pelos fornecedores. Mesmo os Metralhas já eram mais bem vistos pela sociedade do que ele, com aquelas máscaras tão góticas, tão Tokyo Hotel, aquela barba por fazer tão ubersexual, tão George Clooney meets Beckham, aquela roupa numerada tão Springfield em saldos. E, ainda por cima, os Metralhas estavam bem na vida, sempre na TV, com uma actividade fantástica no Twitter, de vez em quando apanhados em debates públicos e com um notável sucesso empresarial no sector dos conteúdos. Patinhas estava out of date, esmagado pela sua enorme obsolescência. Vergado por estas evidências cruéis, o vetusto pato ainda pensou que teria vida como personagem de banda-desenhada. Mas nem isso. Eles explicaram. O Donald até pode ser reinventado como um jovem urbano de classe média que passa os dias ao computador, o Huguinho, Zezinho e Luisinho podem formar uma boys band do hip-hop, o Gastão pode tornar-se gay, a Margarida torna-se numa relações públicas de sucesso, o Peninha num budista vegetariano, o Prof. Pardal pode ir para o MIT, o Zé Carioca quase de certeza vai ser envolvido num escândalo sexual, o Pateta pode ir para a MTV, o Mickey fica porque é um rato e a Minie talvez não fique porque é uma rata e isso pode gerar mal-entendidos. Para o Patinhas é que não havia lugar. Velho e rezingão, não se encaixava no papel afectivo dos avós hoje em dia. Rico e malvado, já não podia preencher as primeiras páginas. Citaram-lhe Black Eyed Peas, “I’m so 2008, you’re so 2 thousand and late”, só que no caso do Patinhas ele estava mesmo muito “late” e esta era uma reunião à qual não se podia chegar atrasado: a reunião com o tempo. E não havia hipóteses. Patinhas não tinha feitio para se vestir de amarelo e fazer filmes japoneses aos saltos e com espadas. Patinhas nem sequer tentava viver vistosamente, continuava a parecer um franciscano. Por isso mataram o Tio Patinhas. E se é certo que morreu tarde considerando a sua vida da sua personagem (nasceu no último quartel do século XIX), a personagem propriamente dita nasceu apenas em 1947. E morreu à volta dos seus 60 anos. Os heróis morrem cedo nos dias de hoje. Necessitam urgentemente de ser reciclados. Um herói fora do seu tempo parece um adicto à heroína – degrada-se progressivamente numa espiral de decadência, até que um dia já não aparece mais naquele banquinho onde ressacava todas as manhãs.
Apesar de tudo, os consultores receberam um bom fee e tornaram-se executive officers da Disney passado pouco tempo.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Engarrafados

Aniceto parece uma pessoa como qualquer outra. Mas Aniceto, como alguns outros, possui uma particularidade: vive a sua vida no troço da A1 entre Alverca e Sacavém. Literalmente.
- Arranjei um emprego em Lisboa em 1992. Ainda aqui estou, no viaduto do Rio Trancão – desabafa-nos, resignado, agarrado ao volante, com a esposa a fazer tricot ao seu lado. “Resignação” é um substantivo que tem acompanhado Aniceto ao longo destes anos. E pouco mais lhe sobra, para além da companhia da rádio e da sua família.
- No primeiro dia, o chefe compreendeu o meu atraso, que ele também vivia em Meleças e sabia como era isto do trânsito. No segundo dia, recomendou-me que viesse de comboio, que era o que ele fazia. “Mas como, chefe, se ainda nem cheguei à fábrica da cerveja desde ontem?”, disse-lhe eu. Mas ele era uma grande pessoa e entendeu a minha situação. Isto até 2004. Aí perdeu a paciência e despediu-me com justa causa. Lembro-me bem desse dia, foi precisamente o dia em que finalmente passei Santa Iria da Azóia.
Muita gente diz que faz do automóvel a sua vida. Aniceto fá-lo não por opção, mas porque o engarrafamento é interminável. Os automóveis não se mexiam durante semanas a fio e isso permitiu a Aniceto desenvolver afinidades com os seus comparsas atolados. O Homem, uma vez mais, adaptou-se às circunstâncias. Algumas das mais importantes fases da vida de Aniceto foram passadas no seu automóvel, um Opel Kadett de 1986.
- A minha sorte foi ter trazido a minha mulher em 1992. Senão o casamento já tinha acabado. As minhas duas filhas nasceram lá atrás – refere Aniceto, apontando para o banco traseiro da sua viatura. E prossegue – A Stefani Micaela nasceu de parto natural em 1995 e a Jessica Vânia em 1999. A Jessica foi mais complicado. Estávamos a passar a subida de Vialonga, lembro-me como se fosse hoje. Estava a dar Rui Veloso na Rádio Renascença com o Paulino Coelho no programa da manhã. 1999 estava a ser um bom ano, muito movimentado, daquelas alturas em que os condutores têm de ter os olhos bem abertos: de Junho a Setembro tínhamos andado cerca de 800 metros, e a subir!, vejam bem, um abuso completo. Então, nesse dia, para refrear os ânimos, a polícia autorizou um protesto em marcha lenta de um grupo de travestis reformados. Foi quando rebentaram as águas à Ludovica, a minha mulher. Ela já tinha experiência de partos no automóvel, mas aquilo estava a ser difícil. Teve de ser com recurso a cesariana. O que nos valeu, neste tempo todo, foi estar aqui a ambulância mesmo ao lado – confidencia Aniceto, indicando a ambulância que estava ao lado. Aniceto recorda-se que a ambulância está par a par consigo desde o dia 1 de Outubro de 1998, “mais semana, menos semana”, e dá graças a Deus por tal facto.
Dentro dessa ambulância, também se pode falar em resignação. Entrada no troço da A1 no antigo nó do Carregado no longínquo dia 6 de Novembro de 1993 com uma urgência para o Hospital Santa Maria, a ambulância ainda não chegou ao destino. A urgência, um operário da construção civil com graves queimaduras de 1º grau, tomou a forma de cinzas e jaz no tablier lado a lado com um cinzeiro e uma figura de São Cristóvão, isto já desde 2001. Ou 2002.
- Os dias são todos iguais – constata Ramiro, o bisonho bombeiro ao volante – Saímos lá para fora para esticar os pés, ouvimos rádio, vemos os aviões a passar e sonhamos… Sonhamos com o dia em que teremos asas para voar e sair daqui para fora. Ao princípio buzinávamos. Mas depois deixámo-nos disso. Já se passaram quase dez anos desde que a minha buzina deixou de funcionar mas ainda a ouço, todos os dias. Não sai da minha cabeça.
Ramiro também possui uma experiência ímpar. Teoricamente, Ramiro já devia estar reformado desde 2006. Mas ainda não conseguiu chegar aos balcões da Segurança Social e reclamar os seus direitos. Contudo, é dos mais movimentados do grupo de condutores retido neste inferno de Auto-Estrada.
- Olhe, eu já presenciei quase três dezenas de suicídios. Aquele Ford Escort ali da berma – e aponta-nos o veículo – era de uma família benfiquista que se passou com os 7-0 de Vigo. Mataram-se todos com inalação do tubo de escape. E havia de ver a festa que fizeram nos 6-3… aí foi um sportinguista que se matou, ao meter-se debaixo daquele camião TIR que está ali a 100 metros… foi doloroso, demorou 3 meses a morrer completamente. Foi esmagado pouco a pouco. Se for ver, ainda há restos da roupa dele nos pneus do TIR. Depois há as situações pontuais do dia-a-dia: fornecer comprimidos para a gripe, apagar fogos nos motores devido ao esforço dos mesmos, desencarcerar pessoal que se entala nas portas, enfim, o que vale é que vim bem equipado para a viagem.
E o que espera Ramiro daqui para a frente?
- Olhe, gostava de ver Lisboa, deve ser uma cidade diferente. Daqui a um ano, mais coisa, menos coisa, hei-de lá chegar. E no último mês já consegui vislumbrar a 2ª Circular lá ao fundo, com os meus binóculos. Acho que o mundo deve ter mudado muito. Por exemplo, agora há uma coisa chamada “telemóvel”, que, se calhar, nos tinha facilitado a vida nestes últimos anos; quando entrei nesta Auto-Estrada ainda não havia nada disso. E ouvi falar de um programa com a Júlia Pinheiro que dizem que foi um espectáculo, eu gosto muito da Júlia, é uma boazona daquela televisão nova, a SIC.
Não quisemos perturbar os doces sonhos que ainda fazem Ramiro lutar pela vida. Voltámo-nos para Aniceto e perguntámos-lhe o que fazia no dia-a-dia.
- Bem, não levo a filhas para a escola, não é? A Stefani está com um professor que está atascado perto de Vale Figueira e a Jessica perdeu o seu professor anteontem, que morreu desidratado no seu Audi A4, ali na zona do Forte da Casa. Foi pena, mas os mantimentos não lhe chegaram a tempo. Vamos andando por aí junto aos rails, trocando contactos e partilhando histórias ao luar, olhando o rio, comendo e bebendo com a ajuda dos populares e do pessoal que circula no sentido contrário, vamos jogando às cartas, fazendo amor no banco de trás quando as miúdas já dormem, andamos um ou dois centímetros por dia, é assim, vamos vivendo.
E sonhos, que sonhos poderão estes homens ter ao fim destes anos de dolente espera estática? Que objectivos para um resto de vida preferencialmente longe das grandes aglomerações de trânsito?
- Quero dormir numa cama – atira Aniceto – já não posso com dores na coluna. E ser sucedido no meu novo emprego. O meu chefe é aquele senhor da Hiace creme que está na fila da esquerda, ao quilómetro 12. Pelo menos, este não me vai despedir por chegar atrasado.
- Para além de ver Lisboa com os meus olhos… eu sei lá – despacha Ramiro – Eu pelo menos durmo na maca, devo ser dos poucos aqui que vai dormindo bem. Sexo dentro do carro já não me atrai como dantes. Aliás, eu já nem sei bem o que me atrai. São dezassete anos para fazer quase vinte quilómetros, percebe? Uma pessoa acaba por perder a vontade.
Não se nota nos nossos homens uma ponta de revolta. “Eu já sabia que ia ser mau, devia ter saído mais cedo, mas as urgências não escolhem horas”, lamenta-se Ramiro. “Se fosse pela Estrada Nacional se calhar ainda não tinha passado pelo Sobralinho, não me posso queixar”, congratula-se Aniceto. Fazem-se amigos, muda-se de posição, buzina-se aqui e ali, mata-se o tempo como se pode e a paciência esvai-se como areia numa ampulheta até já não haver vontade para mais. Aqui já ninguém bufa. Aqui já ninguém insulta. Está-se assim, parado, e andar já não é um objectivo. O marasmo tornou-se numa forma de vida, um elo socializante entre as centenas de automobilistas engarrafados. O conformismo uma filosofia que se aceita sem nunca pisar o acelerador. Aniceto exprime o sentimento: “Espero ter trocos para pagar às meninas na portagem, é que eu ainda trabalho em escudos e já ouvi dizer que agora há uma nova moeda, o ECU. Ah, o Euro, pois é. Senão tenho de mandar vir o meu primo de Alenquer para pagar-me a portagem e isso é capaz de demorar mais uns vinte e tal anos e o meu primo tem a hemodiálise para fazer, é capaz de ser um bocado chato”.
Não é um bocado, Aniceto. É mesmo totalmente chato. Mas o aborrecimento até já lhes é divertido. Não para nós, simples repórteres. Nós subimos ao helicóptero e saímos daquele lugar macabro, onde tanta gente se mexe durante anos sem nunca sair do mesmo lugar, voando rumo à civilização.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Homofonices

- Boa tarde. Eu gostaria de saber mais sobre o meu tempo.
- Com certeza… mas… espere aí, o sr. disse “meu tempo”, refere-se à sua cidade?
- Não, é algo pessoalmente mais amplo que isso.
- Ah, a sua região, portanto… diga-me, por favor, onde está localizado?
- Em casa, junto ao telefone.
- Pois… o que eu queria era saber a sua região… distrito ou concelho, por exemplo.
- Se isso serve para alguma coisa, eu então vou mais pelo conselho.
- Muito bem.
- Muito bem o quê?
- Diga-me o seu concelho, então.
- Não, eu estou a ligar-lhe precisamente para que VOCÊ me dê um conselho sobre o tempo…
- Como assim?
- Também não sei, por isso é que lhe peço um conselho.
- Há aqui uma confusão… eu referia-me a concelho, com “c”, divisão administrativa.
- Ah, está bem… não vejo como isso pode ser útil.
- Assim não vou poder dizer o tempo que vai fazer…
- Pronto, no mapa é uma terriola à direita de Sobral de Monte Agraço.
- Região este de Sobral de Monte Agraço, portanto…
- Sim, é esta região.
- ?
- Então?
- Bom, pela análise que faço das cartas meteorológicas…
- Ah, vocês também fazem isso tipo tarot? Quando vos contactei foi a pensar que o método seria mais científico. Mas adiante, já estou por tudo.
- Tarot?
- Sim, oráculo de Bellini e Maya e coisas do género… não me diga que não sabe…
- Peço desculpa, mas os nossos métodos são científicos e rigorosos. Recorremos a imagens de satélite e possuímos uma equipa altamente especializada em geofísica…
- Está bem, está… dizem todos o mesmo e o diabo a quatro… então, como é que vai ser o meu tempo?
- Olhe, perspectivam-se aguaceiros intensos e ventos com alguma intensidade a soprar de nordeste, isto até ao princípio da noite, depois…
- Eh pá, que está de chuva já eu sei! Eu queria era saber o MEU tempo: tipo, se vou viver muito, se há alguma coisa que devia estar a fazer neste momento, quem é o tipo mais fantástico da minha era, esse tipo de coisas…
- Mas… nós só tratamos de previsões de tempo…
- Pois, é isso mesmo! Por isso vos liguei!
- Nós somos o IM. Você sabe quem nós somos, por acaso?
- O INEM? Então não sei, têm aquelas ambulâncias amarelas e condutores muita marados, como não hei-de saber? Foi numa Iveco dessas que a filha da minha vizinha nasceu aqui há atrasado. Surpreende-me que você me pergunte essas coisas tão básicas… eu posso não ser tão “científico” como vocês, mas não me tome por burro… e eu não queria falar com ninguém dos bombeiros, não estou doente. Se é o caso de estar a falar com o INEM, desligo imediatamente o telefone que é para não estar a ocupar recursos e vocês poderem ir socorrer mais grávidas prontas a parir…
- Não é o INEM! É o IM, Instituto de Meteorologia! Previsões do ESTADO do tempo atmosférico e condições do mar na orla marítima, não do “tempo” individual de cada um!
- Ah é isso que vocês fazem? Está bem… e não fazem mais nada? Não conseguem reconfortar psicologicamente alguém, não conseguem aquecer o coração de um pobre solitário?
- Não, esse não é o nosso âmbito. Trabalhamos apenas em meteorologia.
- E distribuem meteorologia ao domicílio?
- Não creio que se possa falar nesses termos… estamos sediados no Aeroporto de Lisboa e…
- Pois, aqui não temos aeroporto, não dava para a menina vir cá ter… mas aqui o meu vizinho tem um curral que parece um hangar, se você aterrar a avioneta no descampado dele, que até é grandinho, pode depois guardar o aparelho no curral dele, ele não se importa. Tem é de ter cuidado com o pomar dele ao aterrar, se lhe tocam nas romãs, ele atira-se para si de ancinho em riste, é maluco para isso. Fora isso, e a tuberculose dele, é uma jóia de pessoa. Tome uma vacina, pelo sim, pelo não.
- Não vou a lado nenhum! Que insolência!
- Não se exalte, eu também estou meio insolvente e não desato aos berros com as pessoas… não pode fazer previsões sobre o meu tempo nem me consolar, mas podemos ser amigos, ou não? O que posso fazer para compensar o tempo que lhe estou a tomar?
- Nada, estou a ver que isto já não tem conserto…
- E por acaso… você até jeito para previsões! Como é que sabia?
- O quê?
- O concerto da Claudisabel aqui na terra foi cancelado… parece que se lhe rebentaram as mamas no concerto anterior e já não vai haver festa para ninguém. Pelo menos é o que se diz por aí. Como é que você soube?
- Outra vez! É conserto com “s”, como que a dizer que esta conversa já não tem arranjo, está definitivamente estragada! Como posso eu comunicar com alguém que passa a vida com trocadilhos à volta de palavras homónimas e homófonas? Você é insuportável, perdoe-me que lhe diga!
- Bah, você também errou na vocação.
- Ora… porque diz isso?
- Já parou de chover e você só me disse que ia parar à noite. Para a previsão do tempo não me parece a pessoa indicada. Mas como acertou no que aconteceu à Claudisabel, parece que tem jeito para prever o que se passa com as artistas portuguesas. Diga-me então, a Romana ainda tem as mamas no sítio para vir cá para a semana ou não? O meu outro vizinho ia gostar muito de saber isso, visto que quer trocar um pouco de brucelose pela saliva dela. Olhe que estou a perguntar-lhe pela Romana, não é pela outra que mostrou as mamas com a irmã, a Rute Marlene, ou lá o que é. Não confunda. Veja aí por favor nas suas cartas.
- CLIC.
- Estou? Estou? Ora bolas… Por falar nisso, apetecia-me era uma bolinha de Berlim. Deixa-me cá ver o número da embaixada da Alemanha.

NOTA: Em Janeiro, Ruth Marlene foi capa da Playboy; em Agosto já eu tinha adiantado qualquer coisa do género. Só não acerto no Euromilhões porque gosto de viver uma vida de desafios, acreditem. É só por isso e também porque não jogo.