A vida sexual de Sebastião corre sobre rodas. Vai tudo bem. Ir tudo bem é tão bom quanto impressionante nestes dias. E tudo o que era preciso estava afinal bem perto – era apenas ele mesmo.Não era narcisismo. Era somente a sua mão predilecta. Pois é, a sua mão de estimação. A mesma com que ele agarra a tesoura, a caneta e a raquete. Fiel e dedicada. Ele e a sua mão nunca se chateiam. A mão de Sebastião não é esquisita. Não está cá com “agora não” e “vai com calma” e coisas do género. Pelo contrário, a mão de Sebastião é a que o instiga a desafiar os seus limites hormonais. E contenta-se com pouco, basta uma memória difusa de um decote ou uma mulher semi-nua num outdoor publicitário. A mão não quer perfumes nem roupas, quer acção. Quer aquilo que Sebastião quer e ainda mais. É a mão, essa aparentemente inofensiva mas secretamente pérfida construção de pele e dedos, que sussurra internamente ao Sebastião, “viste aquela gaja, viste?” e o desafia sem pudor “’bora ali à casa-de-banho fazer o que temos a fazer”.
E Sebastião, que remédio, vai. Fazer amor a três com a sua mão e o seu cérebro fotógrafo no conforto de um lavabo público de um centro comercial. Uma orgia singela mas poderosamente intensa. Sebastião deixa-se levar, deixa-se dominar pelos seus sentidos, torna-se num animal apenas focado num único objectivo: o prazer instantâneo. O cérebro espalha a gasolina e a mão ateia o fogo. Em dois minutos está tudo feito, os azulejos salpicados de um branco pegajoso e um alívio interior. Durante momentos sente-se o orgasmo a bater como uma droga aditiva. É mesmo uma droga aditiva. O ritual será repetido aqui ou noutro lugar, não tardará muito.
Não há corações partidos no mundo de Sebastião. Ele já os reprimiu do seu mundo. Eles só faziam bem aos psicólogos e psiquiatras e tornavam-lhe num ser depressivo e auto-destrutivo. Não, corações partidos é que não. Não valia a pena lutar se o custo da perda fosse muito elevado. Era mais seguro jogar pelo retorno certo. E então Sebastião largou o mundo real e apostou no seu próprio mundo, aquele que nunca o desiludia. Os seus olhos olhavam para o espelho e gostavam do que viam. A sua língua apreciava o que Sebastião saboreava. O nariz tinha o mesmo gosto olfactivo que Sebastião. Enfim, só Sebastião podia compreender Sebastião – e ele ficou feliz por perceber esta evidência a tempo.
Então, Sebastião devotou toda a sua pré-adolescência, adolescência, pós-adolescência e fase-aparentemente-madura-mas-apenas-e-só-de-aspecto a cuidar de si para si. Por si. Limitado a um espaço físico e mental que apenas o abrangia, recolhendo imagens exteriores para se excitar, consubstanciando a sua excitação e fechando o círculo, em exercícios constantes e estimulantes de auto-aprendizagem. E tudo com o auxílio da sua impagável mão. Não achava que este estilo de vida fosse humilhante; humilhante era andar aos caídos, suplicando pela mulher divina que nos presenteasse com aquilo que só nós sabemos como gostamos, sem nunca a encontrar. Ou, tão mau quanto isso, observar a sua imagem de divindade cair por terra quando finalmente encontramos essa mulher, com gestos ou palavras que nós nunca sonhámos. É que por vezes o cérebro vai com o coração e trai-nos. Mas quando o cérebro vai com a mão, a satisfação está garantida. Sem mais delongas, sem mais explicações. A mão dá-lhe o que ele precisa e isso já é muito bom. É mesmo muito bom.
É a mão dele que agita freneticamente o seu sexo uma, duas, três, quatro, cinco, mais vezes por dia, louca de desejo, sempre pronta a acariciar, a apertar e a limpar os restos, nunca dando parte de fraca. Nenhum reumatismo, nenhuma artrite. Sempre para cima e para baixo, marcando o ritmo, açambarcando a batuta, coisa jamais vista.
Sebastião vive feliz, colhendo os onanismos por ele próprio semeados. Ele sabe que a sua mão sabe melhor o que ele quer que qualquer outra mulher. Só a sua mão tem aquele jeitinho especial de agarrar, de satisfazer, de manipular. Enfim, é uma mão; manipular é a sua especialidade. Mas nenhuma outra mão, nem a sua outra mão, conseguem exprimir assim tão bem semelhantes qualidades. “Esta mão caiu-me do céu”, agradece Sebastião.
Sebastião sem a sua mão não sobreviveria. Teria de ser reformatado. Mas isso dói. Custa reiniciar. “Deixa-te desses pensamentos, lembras-te da tua professora de matemática, aquela que tinha um grande par de mamas e andava sempre de saia curta? Queres relembrar-te dela, como ela estaria agora, hã? Queres, queres?”. Era a sua mão. Vai-te a ela, Sebastião.


Fig1. – Lady Popota é fotogénica e ousada como a verdadeira Lady Gaga.
Fig.2 – Popota sabe cantar e até utiliza o microfone para sacar chimpanzés inteiros do seu nariz. Em carne e osso.
Fig.3 – O Modelo a mostrar que sabe cobrir as necessidades dos seus consumidores.
Estamos numa de não nos levarmos a sério. Minimizarmos as circunstâncias para aliviarmos a nossa alma de fardos desnecessários. Noutro dia esmaguei um pequeno insecto. Não lhe queria fazer mal, mas esborrachei-o. Acontece. Não foi nada de especial. Vai acontecendo. Ele morreu. Eu por cá ando. É assim a vida, construída de pequenos acontecimentos que para alguns são tudo e para outros pouco mais que nada. O truque está na trivialização sistemática dos actos. O tempo ajuda-nos a construir um aspecto blasé. A idade traz-nos coisas que julgamos estar em loop, um disco riscado que já nem sequer nos incomoda. A minha vida tem vindo a constituir-se por músicas de porcaria e dizem-me que essa é a banda sonora da minha vida. A música que se faz hoje em dia é muito má, ninguém parece dar por isso. Ligam-me sempre a músicas que estão nas playlists actuais e que eu não gosto, mas dizem que elas têm muito a ver comigo. Eu nunca me imaginei na última cena do meu filme com aquela música enquanto passam os créditos. Mas é mesmo assim. Há coisas que não conseguimos controlar. Nem devemos. Nem alguma vez iremos, se quisermos. É assim, ponto. Apenas há que ir tentando mudar. Enunciar citações alheias como forma de mostrar um grande aparato cultural. Soltar palavras chapa-5 na esperança que o nosso receptor ainda não as conheça e pense que somos um génio. Alguma coisa devemos ser. Nem que sejamos apenas o génio da banalidade.
A preguiça quando se instala é pior que um pacote promocional da TMN, demora a ser extraída. A sombra da bananeira é tão reconfortante que nos esquecemos que um dia temos de voltar ao sol, à torreira do trabalho, que as bananas estão lá em cima e não caem só por si. São apenas bananas, mas estão lá em cima. E nós, que somos a reserva moral desta sociedade, vamos ficando cá por baixo. Deixados à sorte de bananas. Isto já lá não vai só com palavras, mas é o melhor que nós conseguimos fazer. Somos poetas e criativos, não gostamos de actuar, ainda chateamos alguém. E isso é chato. Sentamo-nos em casa a ver os outros falhar. Engordamo-nos em centros comerciais e damos dinheiro para clubes de futebol e para os nossos filhos se divertirem como nós nunca pudemos divertir-nos. Pensamos que isso é o melhor. Se é que sequer pensamos a sério. Se o fazemos, não devemos. E os putos vão crescendo estupidificados em frente ao computador e com os telemóveis de última geração. Não vão querer saber de nada para nada. Vão entrar num ciclo vicioso de alienação e aos 20 anos já estão hiperactivamente deprimidos e nunca mais vão recuperar. Temos fé que uma busca no Google resolverá os nossos problemas. Todavia, a internet também esconde um grande problema: estar acessível a tanta gente tão pobre de espírito. O que quer que isso seja hoje em dia. Queremos acreditar que será tudo para o nosso bem. Estive a pesquisar tantas formas de ser feliz, tantos links supostamente milagrosos, e enquanto isso o dia foi-se lá fora.









