quinta-feira, julho 29, 2010

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Ora bem, estou aborrecido. Atingi aquele estado de paralisação mental decorrente da falta de actividade física e mental que muitos designam de “letargia”. Mas isso tem uma sonoridade demasiado patológica. Aquilo que eu sinto está mais próximo de “preguiça”. Ou “abrutalhamento”. Se fosse noite, ia dormir. Se estivesse em casa, ia ver pornografia. Ou melhor, ia sentir a pornografia da forma que só eu sei. Porém, aqui não posso. Estou bloqueado. Talvez seja uma boa ideia. Aqui também não poderia apreciar a pornografia da forma adequada. Há muita gente a ver. Quase que aposto que iriam dizer “eh pá, tu gostas dessas gajas”? Ou “tens uma maneira esquisita de agasalhares o macho”. Ou “devias ter trazido mais papel higiénico”. Ou simplesmente “não tens vergonha de sacares do teu mangalho enquanto nós estamos no coffee-break”? Não iria ser o mesmo. Até porque há mais gente ao lado e a intimidade é uma coisa que valorizo. Sim, prefiro ser bloqueado de aceder a pornografia quando não estou em casa. Não é a mesma coisa. É melhor guardarmos a pornografia para quando pudermos usufruir dela na sua plenitude. Como se fosse uma garrafa de vinho velho que nós guardamos durante anos e anos, apenas para nós constatarmos que quando a abrimos por ocasião da visita dos nossos amigos a viver no estrangeiro o vinho já está azedo dos fragmentos de cortiça apodrecidos que caíram em cima do conteúdo. E os nossos amigos nem bebiam álcool. Lamentável. Tanta precaução para nada. Nem boa impressão conseguimos causar.
Devemos guardar as coisas certas para os momentos certos. Se bem que pornografia calha sempre bem, desde que já tenha passado meia-hora depois da última ejaculação. Com 15 anos só precisava de esperar 5 minutos e bastavam-me imagens mentais. Mas a idade é tramada. As coisas vão-se alterando. Percebi isso quando houve uma preta que ganhou o concurso de Miss Escola na minha C+S, que agora é 2+3 e qualquer dia é só =5 ou qualquer coisa do género. A única coisa boa que a gaja tinha era ser magra. Fazia bem ginástica. Mas depois era vesga, ou lá o que era aquilo, tinha um olho mais fechado que o outro. Nem sequer tinha a dentição perfeita que as guineenses costumam ter. Tinha totós às cores na cabeça. Chamava-se N’Qualquer-Coisa, o que é logo um balde de água fria para quem quer ver misses e só lhe vem à cabeça N’Dinga, ou N’Kono, ou o resto da Selecção dos Camarões, ou o tipo que fez “Os Deuses Devem Estar Loucos”. Não fazia, decididamente, o meu género. Mas ganhou com alto avanço. Devia ter constatado que aquele era um ponto de não-retorno na evolução da sociedade. Adeus às Marés Vivas. O rock morreu. Já não se podem contar piadas racistas ou escrever slogans como “Morte à Chuva”. Nada disso. O paradigma mudara abruptamente e eu, na minha feliz ignorância, ainda pensei que aquilo fosse um prank-joke, “ah, ninguém vai dizer que aquela coisa é a melhor gaja da escola e não considerar sequer a S. que é girinha e tudo, apesar dos broches todos que ela faz ao pessoal ali do cantinho”. Mas era a verdade. Nua e crua, como eu nunca quis ver a Miss Escola desse ano. A N’Qualquer-Coisa era formalmente a miúda mais respeitável desta escola. Candidatou-se, sabe-se lá mandatada por quem, e venceu democraticamente aquele fantochada de eleição. Assim eu acredito. O que queria significar que 1) a nossa escola estava secretamente dominada por uma minoria que se calhar era bem maior do que esperávamos e que votou em massa na sua amiga ou 2) quem votou pensou estar a votar noutra pessoa, o que era francamente possível dadas as péssimas notas a português e o avolumar de gente que lia sílaba a sílaba, em voz alta e com o indicador a percorrer as linhas de texto, mesmo do 10º ano para cima 3) o meu gosto era incrivelmente superior ao dos outros todos. E, por inerência, toda a minha pornografia.
O certo é que ela ganhou e voltou a ganhar no ano seguinte. Conformei-me com a ideia de que ela é que seria sempre a imagem feminina da nossa escola e procurei dissociar-me do status quo. Fiquei com a minha imagem de ideal feminino e eles que ficassem com aquilo. No fundo, o mundo estava errado e eu estava certo, mas eles eram muitos e alguns armados e eu era um, tímido e com um espírito de liderança semelhante ao do João Moutinho – queria era sair dali. E ir para casa, ver pornografia.
Sucedi neste propósito. Vi muita pornografia. Especialmente da boa. A má pornografia também existe. Dizer que isso é mito é mentira. A má pornografia é, basicamente, aquela que não conseguimos ver. Mas também pode ser um vídeo ranhoso em que nem se percebe quem é que está a praticar coito com o quê. Ou aquelas vacas americanas que gemem por tudo e por nada e se fartam de dizer de coisas tão improváveis durante o acto. Vi uma pornografia de um suposto incesto entre mãe e filho e achei aquilo dos melhores pedaços de comédia de sempre. Por respeito e por falta de memória nem vou reproduzir. Não gosto dessas gajas nem dessa pornografia. Ainda por cima, elas estão geralmente carregadas de tatuagens e silicone. Está um gajo a enterrar-lhes e elas “Do you wanna fuck my ass? Yeah?! Oh yeah, go ahead, fuck my ass, big boy. It’s time to take a chance. I’ve never given my ass before, but you make me wanna try it with your big, stiff cock [aquilo é tanta treta que um gajo captou logo que ela levava na peida só pelo diâmetro do cu dela em repouso, que era quase semelhante ao buraco de qualquer sanita normal] Wanna fuck my ass? Yeah? Yeah? Oh!... So good! Yeah! Fuck my ass, baby. And I want you to come over me and I wanna swallow your cum and taste it real good and then you can slap my face and call me dirty names. I’m your bitch, boy! Yeah, yeah, gimme all you have, yeah, so good, yeah, I feel it all inside, cum, baby, cum! Yeah, yeah, yeah!!!”… e podia estar aqui horas e horas, aquilo é sempre o mesmo. Soa tão forçado que me faz perder a vontade. E então vou para filmes de leste. Elas são melhores, parecem menos vacas e não percebo o que dizem. É só vantagens.
Agora de repente, já me sinto menos aborrecido. Já passou algum tempo, que era aquilo que pretendia. Daqui a pouco saio daqui… e não, não deverei ver pornografia. Parecendo que não, há outras coisas importantes para fazer. Como jogar Football Manager. Ouvir música. Até comer. Entretanto, produzi uma literatura de tão baixo nível que este é um texto que não recomendo nem a mim mesmo. Bolas, desci mesmo baixo. Há dias, semanas, meses, anos assim. Um dia voltarei a uma forma razoável. Não tão má, pronto. Assim espero.

terça-feira, julho 27, 2010

Carlitos

O Carlitos toca com os dinossauros do rock, porém não é bem da cena rock. É da cena “’tá-se bem”. É o gajo que se vai aguentando ao longo dos tempos. É o gajo que a gente pensa, “se ele não está ali com o resto da banda é porque teve de ir fazer um xixi. Ele volta não tarda nada”. Ele esteve sempre lá. Mas a banda não é dele. É do Miguel e do Kinas. Eles é que sabem o que há para fazer, como se há-de fazer, quando vai ser feito. O Carlitos faz aquilo que é preciso ser feito. E é só. Sem grandes ondas. Nem precisa de abrir a boca. Não precisa de ir às conferências de imprensa. Pode ir escolher fatos nesse momento. Ele pode parecer velho e cortar o cabelo como se fosse um tipo velho e sem cabelo, como todos os outros tipos da idade dele. O Miguel e o Kinas não. Ou melhor, o Kinas pode; quanto mais rebentado, melhor. O sonho do Kinas é chegar ao 80 anos e parecer jurássico. O Kinas saberá que o seu tempo estará a chegar perto do fim quando tiver uma ressaca que não passe nem com 50 Guronsans. Porque até agora nenhuma foi demasiado forte. Demasiado feia. Demasiado fria. Todas as suas indulgências com substâncias ilegais, ou não, foram pequenos Martinis que foi tomando antes, durante e depois dos espectáculos. Um risco aqui, um chuto ali, uma passa acolá. Um rodízio de drogas, um festival de tapas alucinogénicas onde cabe sempre mais uma. O Miguel saltava e abanava-se como uma mulherzinha estridente. Tinha uma boca que só mesmo ele a poderia tornar num sex-symbol. Noutra pessoa qualquer seria um defeito Manuela-Moura-Guedesco. Tinha um cu apertado em calças de lycra ou cabedal que faziam as Scissors Sisters virem-se a seco mal o vissem a gingar no palco. O Miguel há-de chegar à idade do Manoel de Oliveira e pensar que está na puberdade. O Miguel nunca teve sequer uma pequena barriguita de cerveja para amostra. O tipo continua com a mesma elegância e o mesmo cabelo de há 40 anos. O Miguel é tramado. E o Kinas também. Por serem tão tramados é que a banda é deles. E de mais ninguém. O Carlitos é o sidekick de eleição. E ele está bem assim. Ele pode fazer cara de frete. E faz muitas, especialmente quando está mais gente a ver. Será mesmo uma cara de frete genuína e ninguém o levará a mal. “Ah, é porque ele é tímido mas é um grande profissional e o pessoal curte-o bué”. Se o Miguel ou o Kinas fizerem cara de frete é porque algo está podre e logo se fala na separação ou em parar o espectáculo antes que eles se aborreçam a sério. O Carlitos pode apanhar grandes mocas e fazer cara de “ena pá, ‘tou mêm’ c’uma ganda moca!” porque ele, na verdade, está mesmo a tripar com ácidos. Mas o Miguel e o Kinas estão sempre no seu estado normal. Eles nunca estiveram mais ou menos malucos. Eles são malucos e é assim que devemos aceitar a ordem das coisas.
Mas nem tudo é mau no Carlitos. Ele tem aquela imagem de ser um tipo calmo e profissional que o Miguel e o Kinas jamais terão. Porquê? Porque um tipo com aquela cara de parvo não pode fazer mal a ninguém. Ele só pode ser bom para estar ali e para ir estando por ali, mesmo quando todo o mundo à volta se desmoronou. O Miguel e o Kinas é que têm o exclusivo de serem maus. Mas eles é que fazem as canções todas – podem e devem ser maus só por isso. O Carlitos só tem de aparecer e a papinha estará quase toda feita. O Miguel e o Kinas já pensaram em mandá-lo embora e trazer um gajo que toque bem. Mas isso dá trabalho e, eh pá, “é o Carlitos, pá”, “o tipo está sempre na boa”, “não há ninguém que nos ature tanto como ele”. Então vingam-se e não dão créditos a mais ninguém. Aquilo é deles. O Carlitos que lhes agradeça a oportunidade de estar com eles. Quando agradecer, será com um empático, “yeah, whatever, I’m in” e depois revirará os olhos e estampará aquele sorriso enjoado sem nunca mostrar os dentes.
Primeiro houve o Abrenúncio. Era um ganda maluco. Vinha com uma ideias esquisitas e mais não sei o quê e o Miguel e o Kinas já estavam a olhar-lhe de lado. É que o Abrenúncio era ainda mais maluco que o Kinas, muito mais bonito que o Miguel e mais polivalente que qualquer um dos dois. Mas o Abrenúncio fez um grande favor em aparecer morto numa piscina. O Miguel e o Kinas lá disseram “tough luck” e seguiram em frente. O Carlitos continuou a fazer cara de parvo e a tocar a música da mesma forma, durante 50 minutos, até que se sentiu cansado e foi beber um chá verde e dar um chuto na veia. E aquele sorriso enfadado nunca mais se lhe descoseu da cara. Depois veio o Miguelito. Tinha boa pinta e tocava guitarra como nunca se vira por aqueles lados. O Miguel até curtia o gajo, faziam uma parelha jeitosa e naquela relação o Miguel tinha a certeza que ficava sempre por cima. Mas o Kinas estava roído de ciúmes. Como solução drogou-se. Ainda mais. E tentava sempre meter o Miguelito a um canto. A sorte do Kinas foi o Miguelito ter-se fartado. “Quer dizer, eu é que faço as músicas, toco os solos e dou um melhor aspecto visual à banda e fico apenas com um co-crédito numa música perdida na imensidão do “Exile On Main St.”? Então e a “Sway”? Todo o “Sticky Fingers”? Vão-se mas é lixar” , disse o Miguelito. O Miguel ainda ficou naquela, mas o Kinas até bateu palmas. E deu mais um risco para comemorar. Estava com um ritmo impressionante. Já era quase fenomenal o Kinas conseguir agarrar numa guitarra, quanto mais ser parte da maior banda do planeta. Mas se nada o matava, as coisas só podiam torná-lo mais fortes. O Carlitos deve ter dito qualquer coisa como “yeah, right” e foi curtir a sua moca para um sítio qualquer. A rainha podia desmaiar a seus pés e o Carlitos se calhar nem lhe dava um pontapé, numa de contestação. Mas também não a iria ajudar a levantar-se. Iria ficar ali, na sua, a tocar de forma repetitiva, num volume imutável, num ritmo constante, no mesmo timbre durante horas e horas a fio e o pessoal ia tomá-lo como um dado adquirido até que o Miguel ou o Kinas saíssem do palco. E aí o Carlitos iria para casa com a mesma roupa, o mesmo sorriso de conveniência, a mesma inexpressão de felicidade. O Carlitos não achava piada a nada mas também não achava que nada fosse especialmente trágico. Muito menos a saída do Miguelito. Provavelmente, o Carlitos nem ficou a saber. E se calhar ainda não sabe hoje. Não tem que saber. Que lhe interessa que entretanto o Ronaldo tenha chegado? A toda a gente o Carlitos envia-lhes um “bah!” insolente e mudo.
O Ronaldo é fixe. Se não fosse fixe não se aguentava mais de 30 minutos com a banda, quanto mais 30 anos. Aprendeu as regras desde o início: droga-te bastante, toca o suficiente e não reclames. O Ronaldo também se permite a mexer como o Miguel, também parece rebentado como o Kinas. Fica ali no meio. É um tipo do rock. O pessoal gosta dele, ele gosta de ser assim, de estar logo abaixo do Miguel e do Kinas e de ser respeitado por isso. É muito mais do rock do que o Carlitos. Até a minha avó conseguia ser mais do rock que o Carlitos. Nada que lhe interesse realmente. O desinteresse do Carlitos parece congénito. Ele aos 5 anos já devia estar chateado com qualquer coisa. Já devia bater nas panelas horas a fio e sempre da mesma forma e nunca batendo demasiado nas tampas para não as deformar. Aquilo não é defeito, é feitio.
Ah, e havia o Gui, que tocava baixo. Sei que ele teve uma filha com uma tipa que tinha idade para ser sua filha. E depois saiu da banda. Este nem sequer tinha cara de parvo. Ou tinha, e muito. Sei lá. Tocava baixo no baixo e estava sempre ao canto. Se perguntarmos ao Carlitos pelo Gui ele vai encolher os ombros. Aposto que já não se lembra dele. Eu próprio me surpreendo por me lembrar do Gui. Mas sei que ele existiu, ao contrário de uma gargalhada ou de um palavrão do Carlitos, que não sei se não serão coisas que pertençam a uma dimensão paralela à nossa. O Gui conseguiu ser ainda mais discreto que o Carlitos, talvez porque, apesar de tudo, o Carlitos fazia mais barulho. Uma proeza que é capaz de admirar toda a gente. Menos o Carlitos, claro. O Carlitos não se impressiona por nada. E olhem que ele já deve ter visto coisas que fariam o Chuck Norris ir chorar para baixo das saias da mamã.

quarta-feira, junho 30, 2010

Na Boa

Houve confusão no bairro social. Escondem-se as caras atrás de janelas partidas, espreitando as câmaras por entre as cortinas rasgadas e com um filho mestiço ao colo. Há medo de represálias externas ao bairro mas principalmente das internas. Bidões ardem na rua e animais vadios vagueiam por entre destroços ou lambem as suas partes baixas sem pudor das objectivas. Várias garrafas ou cacos delas coexistem com sacos de plástico rasgados no chão tornado esgoto, no qual crianças ranhosas brincam com triciclos de duas rodas, uma delas completamente careca. As placas de revestimento dos edifícios descosem-se das paredes rabiscadas, desnudando-se até ao estuque de baixa qualidade. Há gente de pele muito e mal tatuada. Duas dessas pessoas explicam o que se passou, entrecortando-se uma à outra sistematicamente. Um microfone leva esta gente ao descontrolo.
- ‘Távamos na boa, na boa mesmo, e veio a polícia…
- … a polícia começou a bater a torto e a direito, iá?
- E nós estávamos na boa, sempre em paz, a festejar…
- A polícia empurrou a minha avó das escadas abaixo, isso não se faz!
- … ‘távamos a festejar com som e bebida, sempre na boa, ‘távamos só a festejar…
- A minha avó já morreu há duas semanas, hã?!? Não se tratam mortos assim!
- ‘Távamos a festejar o quê, mesmo?
- E depois bateu na minha irmã grávida com um daqueles bastões muita grandes, daqueles que têm laser ou lá o que é, daqueles muita violentos que até aparecem no filme do ET ou lá o que é…
- Ó Vânia, o que é que’ távamos a curtir mesmo?
- A Guerra das Estrelas, assim é que é, a polícia começou a bater na minha irmã grávida com um bastão desses, desses que até zumbem, e zzz-zzz-pás!, fez a minha irmã rebentar as águas e o filho dela saiu disparado pela boca dela, uma cena horrível!
- Ó Vânia, távamos a curtir o quê afinal?
- E depois a polícia espezinhou o filho dela com botas biqueiras de aço com pitons de alumínio, daquelas que a polícia tem, e a minha irmã, na boa, hã?, a perguntar-lhes “isso não se faz nem a um cão” e, pronto, bem dito, bem feito, arrebentaram com a cabeça do cão do meu vizinho que estava a ganir, foi só um polícia à dentada que lhe fez aquilo, uma cena horrível, nunca pensei…
- Ó Vânia, então qual…
- F***-se ó Andreia, não me chateies, pá! Sei lá qual era a cena, o pessoal ‘tava na boa, é o que importa!
- Prontos, estávamos na boa, ali na rua junto ao café…
- E depois a minha irmã começou a citar os situacionistas internacionais e a falar do Clément Duval, na boa, hã?, e eles chamaram-lhe, posso dizer?, vou dizer, chamaram-lhe “p*ta” e “gorda estúpida” e “Júlia Pinheiro” e cenas que nem vou contar mais e espetaram-lhe uma bofetada com a parte de trás da mão com tanta força que até a minha outra irmã que estava no café a 200 metros ouviu, não ouviste, Andreia?
- Eu sou a tua prima, qual é o Vânia, já ‘tás taralhoca?
- Não ‘tava a falar contigo, pá. Foi ou não foi, Andreia?
- [a outra Andreia] Foi sim, até me vieram cair 3 dentes aos pés.
- Foi mem’ assim: a minha irmã com a boca cheia de sangue e sem dentes e com um aborto ainda foi buscar uma figura da Madre Teresa de Calcutá e cassettes de vídeo com o Sérgio Vieira de Mello e isso só fez a polícia perder ainda mais a paciência e eles sacaram de uma bazuca, ou lá o que era aquilo, e rebentaram com a minha casa, o meu prédio e mais dois prédios que ficaram logo a arder e se não fossem os meus vizinhos a mijar rapidamente para cima do fogo isto tinha sido uma tragédia. E depois a polícia destruiu todos os brinquedos do meu filho e do filho dele e do afilhado do filho do vizinho só com as mãos esquerdas, enquanto apalpavam com as mãos direitas e chamavam nomes à minha filha e à filha da filha dela, que ela diz que não é dela mas que tem os mesmos olhos e usa o piercing da mesma forma que ela e por isso acho que a filha é mesmo dela, seja lá quem ela for.
- E nós só estávamos ali na rua, na boa.
- Na boa, hã?, a beber umas cervejas com normalidade, discutindo se o PEC era ou não bom para a retoma económica, se o Nuno Rogeiro não devia deixar o Martim Cabral a jogar Risco sozinho, se Israel é ou não um erro histórico, qual a melhor fase do Monet, Manet ou lá como se chamava o sócio, cenas assim…pá, e de repente a polícia apareceu a arrear no meu irmão, que estava a andar de bicicleta enquanto lia o “Só” do António Nobre depois de um dia de trabalho na Sonae Imobiliária.
- Pá, mesmo de forma brutal, tipo wrestling, mas a sério… eu só vi dentes e ossos pelo ar… o irmão dela, o meu primo, ficou todo desfeito, eram mais de vinte ou trinta polícias a dar-lhe pontapés, socos, murros, caneladas, joelhadas, cotoveladas mais fortes que as do Bruno Alves, cabeçadas, uppercuts, fatalities, babalities, a magia do Sub-Zero, a dar-lhe com bastões e canos PVC e cadeiras e tudo o que viesse à mão… e o meu primo estava na boa… e amanhã vai ter de faltar ao trabalho.
- E ficou com a bina toda partida, ele que andou a juntar dinheiro durante quase 3 anos para comprar isto que era o seu sonho, ir de bina para a Sonae Imobiliária…
- Isso não se faz…
- Isso não se faz… os polícias são uns selvagens, não têm respeito, matam tudo que vêem à frente…
- Mataram-me os manjericos! Olharam para eles e tumba!, murcharam todos! Eu gastei todo o meu dinheiro que ganhei a limpar os instrumentos todos do S. Carlos, oboés e pianos de cauda e coisas assim, nestes manjericos e eles mataram-nos assim! Só com os olhos! Aquela gente é só ódio!
- E têm um arsenal que não se compara… são brutos e parecem que vieram para a guerra. E nós com livros, palavras de paz, símbolos de amor, castidade e austeridade não nos podemos defender.
- Nós estávamos na boa. Não sabemos de nada de mal. Não há cá droga, nem roubo, nem armas, nem fraude nem mesmo incesto… acho eu, pelo menos.
- Só havia uma pessoa má. Era o Albertino. Mas nós convertemo-lo e ele agora é muito religioso. Ele já não faz mal.
- Ele ‘tá limpo, eu juro. Agora já não anda para aí aos tiros como dantes, só dispara para o quintal das traseiras. Na boa.
- Ele ‘tá na boa.
- Iá, ‘távamos todos na boa. Isto não se faz. Olhem para nós como deve ser.
A polícia escusou-se a comentários. Lamentou-se da dificuldade em entrar naquele bairro. Desconheceu se lhes ameaçaram com palavras de filosofia, mas também não negou a ameaça pelo simples facto de desconhecer “que merda é essa, afinal”? Admitiu que teve cuidado para não provocar a surdez dos seus elementos e precaveu-os com protectores auditivos contra os gritos de ciganas esganiçadas e dos seus maridos armados com caçadeiras.
O bairro social quer voltar a estar “na boa”, como sempre reclama. No Verão, quando a Selecção for eliminada de competições internacionais, quando ninguém morre e quando estamos todos a banhos, o bairro social vai voltar a rebentar como uma bomba. Um ou dois detidos e um ou dois constituídos como arguidos, que serão polícias acusados de medidas demasiado violentas. E muito bem constituídos. É um crime fazer alguma coisa contra os criminosos da base da nossa pirâmide social. Não se pode. Eles, coitados, não fazem nada de mal, apenas têm que libertar algumas frustrações como qualquer pessoa, da maneira que sabem e podem. Eles estão sempre na boa e nós, os outros, a maioria que foge do seu território demarcado, é que não compreendemos os seus códigos, a sua maneira de ser e os seus modos.

quarta-feira, junho 23, 2010

A Mão de Sebastião

A vida sexual de Sebastião corre sobre rodas. Vai tudo bem. Ir tudo bem é tão bom quanto impressionante nestes dias. E tudo o que era preciso estava afinal bem perto – era apenas ele mesmo.
Não era narcisismo. Era somente a sua mão predilecta. Pois é, a sua mão de estimação. A mesma com que ele agarra a tesoura, a caneta e a raquete. Fiel e dedicada. Ele e a sua mão nunca se chateiam. A mão de Sebastião não é esquisita. Não está cá com “agora não” e “vai com calma” e coisas do género. Pelo contrário, a mão de Sebastião é a que o instiga a desafiar os seus limites hormonais. E contenta-se com pouco, basta uma memória difusa de um decote ou uma mulher semi-nua num outdoor publicitário. A mão não quer perfumes nem roupas, quer acção. Quer aquilo que Sebastião quer e ainda mais. É a mão, essa aparentemente inofensiva mas secretamente pérfida construção de pele e dedos, que sussurra internamente ao Sebastião, “viste aquela gaja, viste?” e o desafia sem pudor “’bora ali à casa-de-banho fazer o que temos a fazer”.
E Sebastião, que remédio, vai. Fazer amor a três com a sua mão e o seu cérebro fotógrafo no conforto de um lavabo público de um centro comercial. Uma orgia singela mas poderosamente intensa. Sebastião deixa-se levar, deixa-se dominar pelos seus sentidos, torna-se num animal apenas focado num único objectivo: o prazer instantâneo. O cérebro espalha a gasolina e a mão ateia o fogo. Em dois minutos está tudo feito, os azulejos salpicados de um branco pegajoso e um alívio interior. Durante momentos sente-se o orgasmo a bater como uma droga aditiva. É mesmo uma droga aditiva. O ritual será repetido aqui ou noutro lugar, não tardará muito.
Não há corações partidos no mundo de Sebastião. Ele já os reprimiu do seu mundo. Eles só faziam bem aos psicólogos e psiquiatras e tornavam-lhe num ser depressivo e auto-destrutivo. Não, corações partidos é que não. Não valia a pena lutar se o custo da perda fosse muito elevado. Era mais seguro jogar pelo retorno certo. E então Sebastião largou o mundo real e apostou no seu próprio mundo, aquele que nunca o desiludia. Os seus olhos olhavam para o espelho e gostavam do que viam. A sua língua apreciava o que Sebastião saboreava. O nariz tinha o mesmo gosto olfactivo que Sebastião. Enfim, só Sebastião podia compreender Sebastião – e ele ficou feliz por perceber esta evidência a tempo.
Então, Sebastião devotou toda a sua pré-adolescência, adolescência, pós-adolescência e fase-aparentemente-madura-mas-apenas-e-só-de-aspecto a cuidar de si para si. Por si. Limitado a um espaço físico e mental que apenas o abrangia, recolhendo imagens exteriores para se excitar, consubstanciando a sua excitação e fechando o círculo, em exercícios constantes e estimulantes de auto-aprendizagem. E tudo com o auxílio da sua impagável mão. Não achava que este estilo de vida fosse humilhante; humilhante era andar aos caídos, suplicando pela mulher divina que nos presenteasse com aquilo que só nós sabemos como gostamos, sem nunca a encontrar. Ou, tão mau quanto isso, observar a sua imagem de divindade cair por terra quando finalmente encontramos essa mulher, com gestos ou palavras que nós nunca sonhámos. É que por vezes o cérebro vai com o coração e trai-nos. Mas quando o cérebro vai com a mão, a satisfação está garantida. Sem mais delongas, sem mais explicações. A mão dá-lhe o que ele precisa e isso já é muito bom. É mesmo muito bom.
É a mão dele que agita freneticamente o seu sexo uma, duas, três, quatro, cinco, mais vezes por dia, louca de desejo, sempre pronta a acariciar, a apertar e a limpar os restos, nunca dando parte de fraca. Nenhum reumatismo, nenhuma artrite. Sempre para cima e para baixo, marcando o ritmo, açambarcando a batuta, coisa jamais vista.
Sebastião vive feliz, colhendo os onanismos por ele próprio semeados. Ele sabe que a sua mão sabe melhor o que ele quer que qualquer outra mulher. Só a sua mão tem aquele jeitinho especial de agarrar, de satisfazer, de manipular. Enfim, é uma mão; manipular é a sua especialidade. Mas nenhuma outra mão, nem a sua outra mão, conseguem exprimir assim tão bem semelhantes qualidades. “Esta mão caiu-me do céu”, agradece Sebastião.
Sebastião sem a sua mão não sobreviveria. Teria de ser reformatado. Mas isso dói. Custa reiniciar. “Deixa-te desses pensamentos, lembras-te da tua professora de matemática, aquela que tinha um grande par de mamas e andava sempre de saia curta? Queres relembrar-te dela, como ela estaria agora, hã? Queres, queres?”. Era a sua mão. Vai-te a ela, Sebastião.

segunda-feira, maio 31, 2010

Taça É Taça - Parte IV

Chegou o momento anual de balanço sportinguista. Um momento único de lucidez no blogue. E logo na altura mais difícil.
Por causa do tempo, claro, que já faz muito calor. Não menos despiciendo é o outro motivo: a época futebolística do Sporting, em termos globais.
Foi má? Teremos que concordar que sim. Não houve futebol, não houve resultados; repetimos o 4º lugar que conhecemos no final dos anos 80 e uma vez já há uma dúzia de anos, porém com piores exibições; jogámos talvez ainda pior que a pior época exibicional do Paulo Bento, mas nem uma tacita para amostra. Nem deu para ir a finais de nada.
Carvalhal foi irregular e julgo que se fez bem em tentar outra opção, mas o homem merecia mais respeito. Que foi coisa que Bettencourt, sinceramente, tudo fez para desmerecer. Não votei nele, agora é fácil assumir, mas não tenho prazer especial nisso. Tive alguns maus presságios, mas quando ganhou fiquei com esperança nele. O que podia fazer melhor? A outra alternativa também não cativava e um homem já na casa significava menos risco. Todavia, Bettencourt saiu-me um grande melão, aparentemente gostoso mas no final aguado.
Paulo Bento, ele mesmo o disse, ficou quatro meses a mais. Gosto muito dele, da sua disciplina trabalhadora, da distância desapaixonada com que avaliava os jogos, do seu timbre espanholado. Os espanhóis são muito mais competitivos que nós. E ganham. Enfim. Os jogadores e os jornalistas é que já estavam saturados. E só depois os adeptos. Os adeptos só manifestaram verdadeiramente o seu desgosto quando não se começou a ganhar e a distância para os outros a aumentar. Antes disso era só fumaça. O futebol não entusiasmante também não ajudava. Mas é só quando não se ganha que tudo se vai abaixo.
Carvalhal não tinha nada a perder. Não tinha muito tempo para ganhar. Não era fácil. Um começo aos apalpões, depois titubeante a descer, depois Everton e FCP e, quando tudo parecia encaminhado para uma época um pouco mais digna, Izmailov, Atl. Madrid, puf, Carvalhal perdeu o controlo. Como Sá Pinto já tinha perdido. E Carvalhal no meio de aquilo tudo, parecia uma criança a assistir aos pais a discutir, indefesa a um conto, agarrado ao seu ursinho. Neste caso, o ursinho de Carvalhal era a sua secreta esperança de permanecer pela pena dos outros. Não teve essa sorte. A sua boa-vontade esbarrou violentamente no muro de fogo canibal do Sporting. Ainda assim, mostrou resiliência psicológica.
Jogadores? Moutinho estagnado, todos com medo da próxima birra do instável Veloso, Yannick ao fundo no penoso final de época, Pongolle risivelmente caro, João Pereira a adquirir rapidamente os vícios malignos da equipa, Carriço apenas razoável (e baixo), e era o melhor (o que diz muito do estado da defesa), Izmailov embrenhado numa teia que tresanda a empresários por todo o lado, Pedro Mendes a prometer mais cérebro no meio-campo, Patrício foi evoluindo como pôde entre o ruído exagerado das críticas, Liedson exasperado e desmotivado. Foi mais ou menos assim e não vale a pena desenvolver mais.
Expectativas para o futuro? “Sei lá” parece ser o mais sensato. Bettencourt só pode melhorar, Costinha é um ponto de interrogação, Paulo Sérgio também é Bento e ficamos todos a aguardar. Dele só se exige mais músculo no balneário, melhores contratações, mais espectáculo e resultados mais agradáveis. Não é pouco. É antes um problema. Vamos testar quanta paciência haverá para tolerar mais fracassos. Dizem que não há dinheiro e desbarata-se no Pongolle, não deram no princípio a Paulo Bento o que deram a Carvalhal no meio e no final os jogadores parecem todos em subrendimento e estoirados. Mas a equipa tem de mandar alguém embora e buscar substitutos. Quantos desvarios mais se podem aguentar?
Resta-me aproveitar o Verão, pensar em coisas novas, espairecer, ver andebol. Ah, o andebol. Fez bem. Foi como se achássemos uma nota perdida no bolso depois de termos ficado sem a carteira. É o Pedro Solha, o Petric, o Fábio Magalhães e o Bjelanovic. É um pavilhão cheio a festejar em verde-e-branco, é o testemunhar da comunhão entre equipa e público num dia inédito de glória. O nosso ego mostrou que estava vivo a ver a Taça Challenge refulgir no pavilhão de Almada, perante sportinguistas em celebração efusiva. Nem sequer era o melhor desporto. Nem sequer era a melhor taça. Mas “taça é taça”, reza o título. E esta é a que nós ganhámos, ganhando bem e ganhando em primeiro. Foi escrever história com gato em vez de cão. O relativismo com que encaramos certas coisas dava para escrever tomos de papel daqui até à China.

terça-feira, maio 04, 2010

Uma Ideia de Graça

Até me espanta ainda ninguém ter tido esta ideia. A sério que sim. Quer dizer, é demasiado óbvio. Estou certo que a equipa de marketing do Modelo teve esta ideia, mas depois custava muito adquirir os direitos da canção “Poker Face” da Lady Gaga e meteram a Popota, essa inefável hipopótama de Natal, a gingar-se ao som dos Buraka Som Sistema no último Natal. Que por serem da Buraca estavam dispostos a ceder os direitos da canção por apenas um sabonete de haxixe e dois pares de ténis da Nike (dos mais caros, ainda assim).
Pois bem, aqui vai: METAM A POPOTA A CANTAR “POKER FACE” – “PO PO PO TA FACE; PO PO TA FACE… PO PO PO TA FACE; PO PO TA FACE”. Sucesso garantido.
Fig1. – Lady Popota é fotogénica e ousada como a verdadeira Lady Gaga.

Se eu disponibilizasse esta ideia perto do Natal ainda me podiam acusar de oportunismo. Ou de ser um gajo muito desequilibrado por gente ainda mais desequilibrada. Por isso, cá está, geniais marketeers: uma ideia completamente de borla em plena Primavera. Agora é convosco. Para mim, é este o próximo passo da Popota. Esqueçam as operações de solidariedade social. Isso é só fogo de vista para inglês ver. Vamo-nos focar decididamente no glamour desta anafada hipopótama. A Popota até é mais linda que a própria Lady Gaga e tudo. Pronto, esta última tem um nariz mais pontiagudo em vez das banheiras que Popota ostenta no lugar das narinas. Mas são ambas animalescas, escondendo os seus instintos vorazes atrás de um aspecto aparentemente cândido. Ambas desafiadoras: a Lady Gaga desafia o bom gosto e a Popota desafia os pais a comprar mais e mais e mais, sem receios da crise e das ameaças dos bancos à cata do crédito malparado. Têm muito em comum, embora a Lady Gaga faça mais jogging e por isso pareça um pouco mais elegante. Mas cheguem um brigadeiro de chocolate ao pé delas e o efeito será o mesmo: o brigadeiro desaparece num piscar de olhos.
Fig.2 – Popota sabe cantar e até utiliza o microfone para sacar chimpanzés inteiros do seu nariz. Em carne e osso.

E que tal colar a imagem da Popota ainda mais à da Lady Gaga? Isto é, tornar a Popota amiga da Madonna, frequentando grandes cocktails em Beverly Hills, lançando marcas de roupa, assinando videoclips provocadores, adoptando crianças do Burkina Faso? Que tal? Que tal vermos a Popota como uma pop star lá no seu íntimo?
Fig.3 – O Modelo a mostrar que sabe cobrir as necessidades dos seus consumidores.

Pois… Talvez não. Esqueçam lá esta última ideia. Acho que o mundo ainda não está preparado para tanto.

sábado, maio 01, 2010

Dia do Trabalhador

Estive a seguir todas as recomendações para ser feliz. Não me levar muito a sério, basicamente. Olhar para os outros sacanas que me espezinham com um sorriso na cara e pensar que tudo podia ser pior. Por exemplo, a minha filha podia andar com um preto das barracas, daqueles cheios de brincos e com as calças a rojarem pelo chão, boxers às riscas à mostra, espetando linguados no meio da rua como se não houvesse amanhã. Talvez não haja. Talvez haja uma rusga, finalmente, que ponha termo ao bairro social. Mas o mais certo é que não. Os sociólogos e os políticos não vão deixar. Eles gostam de cancros. Especialmente, os dos outros. É provável que as coisas continuem a arrastar-se como as calças dele. Pelo chão. Como será muito provável esse namorado momentâneo da minha filha vir a ser desempregado. Não apenas "estar" desempregado, porém "ser" um desempregado. Fazer do desemprego uma profissão. Está na moda, como ele próprio. É chique receber subsídios e chular o Estado. E ainda aparecer na MTV Portugal como um tipo muito cool. Chular o Estado é um desígnio nacional. A MTV Portugal, por seu turno, não deve ser levada a sério. E esse puto não se leva a sério. Ele não leva nada a sério. A vida para ele é um enorme gueto onde ele só faz de DJ e spraya tags nas paredes. Devia aprender com a ignorância dele, seria muito mais feliz. Estamos numa de não nos levarmos a sério. Minimizarmos as circunstâncias para aliviarmos a nossa alma de fardos desnecessários. Noutro dia esmaguei um pequeno insecto. Não lhe queria fazer mal, mas esborrachei-o. Acontece. Não foi nada de especial. Vai acontecendo. Ele morreu. Eu por cá ando. É assim a vida, construída de pequenos acontecimentos que para alguns são tudo e para outros pouco mais que nada. O truque está na trivialização sistemática dos actos. O tempo ajuda-nos a construir um aspecto blasé. A idade traz-nos coisas que julgamos estar em loop, um disco riscado que já nem sequer nos incomoda. A minha vida tem vindo a constituir-se por músicas de porcaria e dizem-me que essa é a banda sonora da minha vida. A música que se faz hoje em dia é muito má, ninguém parece dar por isso. Ligam-me sempre a músicas que estão nas playlists actuais e que eu não gosto, mas dizem que elas têm muito a ver comigo. Eu nunca me imaginei na última cena do meu filme com aquela música enquanto passam os créditos. Mas é mesmo assim. Há coisas que não conseguimos controlar. Nem devemos. Nem alguma vez iremos, se quisermos. É assim, ponto. Apenas há que ir tentando mudar. Enunciar citações alheias como forma de mostrar um grande aparato cultural. Soltar palavras chapa-5 na esperança que o nosso receptor ainda não as conheça e pense que somos um génio. Alguma coisa devemos ser. Nem que sejamos apenas o génio da banalidade. A preguiça quando se instala é pior que um pacote promocional da TMN, demora a ser extraída. A sombra da bananeira é tão reconfortante que nos esquecemos que um dia temos de voltar ao sol, à torreira do trabalho, que as bananas estão lá em cima e não caem só por si. São apenas bananas, mas estão lá em cima. E nós, que somos a reserva moral desta sociedade, vamos ficando cá por baixo. Deixados à sorte de bananas. Isto já lá não vai só com palavras, mas é o melhor que nós conseguimos fazer. Somos poetas e criativos, não gostamos de actuar, ainda chateamos alguém. E isso é chato. Sentamo-nos em casa a ver os outros falhar. Engordamo-nos em centros comerciais e damos dinheiro para clubes de futebol e para os nossos filhos se divertirem como nós nunca pudemos divertir-nos. Pensamos que isso é o melhor. Se é que sequer pensamos a sério. Se o fazemos, não devemos. E os putos vão crescendo estupidificados em frente ao computador e com os telemóveis de última geração. Não vão querer saber de nada para nada. Vão entrar num ciclo vicioso de alienação e aos 20 anos já estão hiperactivamente deprimidos e nunca mais vão recuperar. Temos fé que uma busca no Google resolverá os nossos problemas. Todavia, a internet também esconde um grande problema: estar acessível a tanta gente tão pobre de espírito. O que quer que isso seja hoje em dia. Queremos acreditar que será tudo para o nosso bem. Estive a pesquisar tantas formas de ser feliz, tantos links supostamente milagrosos, e enquanto isso o dia foi-se lá fora.
Um bonito dia de sol, um lindo dia de primavera, e eu aqui, abafado pelo peso da informação. A pós-
modernidade dá cabo de nós.

domingo, abril 11, 2010

O Que É Feito De Si, Lecas?

Lecas.
O popular Lecas.
Uma figura que nos marcou a todos.
Diria mais: uma figura que marcou a Humanidade.
O que é feito dele?
Façamos primeiro uma retrospectiva.

Lecas esteve em momentos marcantes da História. Umas vezes do lado dos perdedores...
... outras vezes do lado dos vencedores...
... mas, com o bom humor que se lhe reconhecia, acabou sempre por dar a volta por cima.

O pior estava logo ali ao virar da esquina.

A enorme pressão decorrente da apresentação de programas infantis acabou por iniciá-lo numa espiral de decadência.
Veio o sexo...
...as drogas...
...e, claro, o rock n' roll.
Foram tempos conturbados, em que Lecas, fiel a si próprio, se manteve polémico como poucos.
Mas Lecas acabou por cometer um erro fatal...
... pagando severamente por isso.
Agora o pior parece já ter passado.
Lecas, diz-se por aí, está bem e mais discreto que nunca, dobrando filmes de animação.
A sua preserverança mereceu um reconhecimento internacional, que estranhamente passou incógnito na nossa comunicação social.
Mas nós ficámos muito felizes por isso.
Porque nós jamais te esqueceremos.
A ti e à tua magnífica canção do golfinho ("O golfinho ou delfim/ é um animal/ por sinal inteligente/ como a gente", e depois havia uma parte sobre maminhas que abriu a primeira porta da sexualidade/zoofilia a muita gente).
Tu és nosso.

Vai com Deus, Lecas.

terça-feira, março 30, 2010

Damasco

O Damasco é ultra-profissional.
O Damasco já deixou de jogar à bola, mas está disposto a fazê-lo esporadicamente se lhe pagarem umas boas centenas de milhar de euros, dólares ou mesmo poços de petróleo ou minas de ouro. Algo realmente valioso, ele não é esquisito quanto à forma.
O Damasco diz que é do Sporting, mas salta quando o clube que lhe paga marca um golo ao Sporting. O Damasco diz que é do Sporting porque sabe que ali ainda pode ser capaz de sacar algum carcanhol no futuro, a avaliar pelo desespero que impera no clube. E agora que o clube começou a remunerar o presidente, o Damasco começou a ponderar melhor. Mas ainda é pouco para ele. 700 mil euros por mês ganha o Damasco a jogar ao berlinde numa exibição para crianças desfavorecidas patrocinada pela Unicef.
O Damasco criou a sua Fundação só naquela. Foi um tique de vedeta para o povo ver. As pessoas normais acordam ao Domingo e dão um peido debaixo dos lençóis, o Damasco abre uma Fundação. No fundo, a Fundação permite-lhe estabelecer laços diplomáticos com representantes grandes interesses para assim ter a oportunidade de firmar mais um ou outro bom negócio. As crianças e as causas são meros bibelots do grande palácio luxuoso em que se tornou a vida do Damasco.
O Damasco é peludo porque nenhuma revista foi capaz de lhe pagar o que ele exigia para se depilar e parecer como o Cristiano Ronaldo. Não é uma questão de estilo, é uma questão de dinheiro, ou falta dele.
Eu já tinha dito que se há imagem para o profissionalismo no dicionário ela deve ser a do Damasco.
Se pagarem bem, o Damasco é capaz de matar alguém que te chateie muito. Por mais um ou dois milhões o Damasco até é capaz de fazê-lo com requintes de maldade, como por exemplo despejar os corpos esquartejados numa lixeira perto do Bombarral. Mas se só lhe abordares com 10000 ou 20000 euros, o Damasco provavelmente só lhe vai fazer cócegas e ficas a arder com o dinheiro.
E depois diz ao Só Visto que não comenta. E se a Marta Leite Casta lhe implorar muito e vier lançada para saltar em cima dele e mamar-lhe todo, como ela tanto gosta, ele vai continuar a dizer que não. Mas se a Marta Leite Casta puser uma nota de 20 euros no meio das suas mamas, o Damasco vai ver o que pode fazer.
Se lhe propuserem um bom negócio o Damasco pode mesmo violar qualquer pessoa que aparecer por aí. Pessoas asquerosas requererão mais uns quantos milhões depositados numa conta bancária da Suíça como sinal.
O Damasco só dá esmolas aos pobres na rua se tiver como contrapartida um juro anual líquido de 10%, indexado à Euribor. Na verdade, o Damasco não dá, apenas investe.
O Damasco pode convencer o Paulo Coreia a concorrer para primeiro-ministro. E o Paulo Coreia ganhará e tornar-se-á no primeiro-ministro mais gordo e mais chinês da Humanidade. Basta que lhe forneçam dinheiro suficiente para comprar os votos do povo todo. Façam as contas: cerca de 4 milhões de batedeiras e torradeiras deverão chegar, mais a comissão – nunca menos de 500 milhões. A pronto.
O Damasco pode dizer que a família não tem preço, mas isso é uma questão a discutir. Depende de quão fundo forem os bolsos dos negociadores. Damasco avisa já que filhos e mulher vêm juntos no mesmo pacote e que não se desfaz deles em prestações. Isso é coisa de pobre e Damasco não é nenhuma loja Tien 21. Mas pode ser, se lhe pagarem melhor do que a Worten.
O Damasco pode comentar assuntos de política internacional e jogar ao Risco com o Nuno Rogeiro, mas por nunca menos que toda a dívida pública grega + spread de 5 pp. E pelo valor de mercado da EDP, PT, BES e Jerónimo Martins, o Damasco pode remeter-se a um espectacular blackout de fazer corar de vergonha o FC Porto.
O Damasco pode ficar na fila para ver os Tokyo Motel. Mas tem de ser ressarcido. Com um bom bónus, o Damasco até pode meter uma peruca, encher-se de rímel e cantar “Monsoon” com uma vassoura espetada no rabo, como os verdadeiros Tokyo Motel, subir ao palco e levar ao delírio milhares de adolescentes empedernidas.
Para o Damasco só há uma coisa imperdoável: não se perdoar ninguém por falta de dinheiro. Tudo é facilmente ultrapassável com um punhado de notas. E isto demonstra, mais que riqueza de espírito, uma enorme riqueza contabilística. Quero também dizer com isto que jamais poderei pagar as custas e eventuais indemnizações pelo processo difamatório que o Damasco algum dia me poderá mover.

4 comments:

Anonymous disse…
se bem preçebi, estás a flar do figo. es muito parvo para escreveres estas babozeiras sobre o mlhor jogador português de sempre. Não sei como à alguem tão anormal como tu. vai para o caralhp, invejozo.

Minhoquinha disse…
É Toki
o Hotel e não Tokyo Motel, seu ignorante. :P

Anonymous disse…
Hi! Just passing by to say you’ve got a nice blog! Keep going!
I need some advice so don’t you want to help me?
""

santos disse…
Rodrigues, você não presta. seu babaca. Brasil rumo ao hexa!

domingo, março 28, 2010