terça-feira, julho 08, 2008

Urinando Pela Vida

A deliciosa notícia que provem do sul da Índia dá-nos conta de um pagamento no valor de um euro, efectuado pelas próprias entidades oficiais, a quem urinar no local apropriado – isto é, no urinol. Para além dos óbvios efeitos higiénicos da medida, a urina ainda vai ser recolhida e estudada na hipótese da mesma poder ser utilizada como “fertelizante”. Assim mesmo, para ajudar ao insólito da notícia.
Gostava que as nossas autoridades fizessem o mesmo. Aliás, sugiro um pagamento progressivo: passado o meio litro de mijo (e é de mijo que estamos mesmo a falar, urina é apenas um termo técnico), o “dador” seria recompensado com 0,5 € por cada decilitro adicional. Gostava que começassem já, no Verão – que é quando se ingerem mais líquidos e, logo, sai mais matéria. O défice que se lixe. O défice que vá com o mijo cano abaixo.
Afinal, precisamos de bons incentivos ambientais. Eu esticaria de bom grado os limites de capacidade da minha bexiguinha durante um dia inteiro de praia, apenas para não conspurcar as águas ou as finas areias do nosso Portugal. E depois iria mijar a uma retrete oficial qualquer, das muitas que se iriam instalar por todo o país, com a certeza que a minha aflição temporária se iria esvanecer com a solidariedade das autoridades sorridentes que esperariam pelo meu soberbo mijo pago a peso de… bem, não de ouro, mas pago consideravelmente bem para aquilo que eu acho que ele vale.
Vamos então fazer-nos à vida, dar-nos ao trabalho pelo mijo. Já vejo as senhoras secretárias a segurarem-nos a porta, “É urina? Para este lado, por favor”, casas-de-banho imaculadas e os incontinentes todos à porta com os bolsos cheios a tinir, desempregados, doutores e oportunistas a beberem jarros de água enquanto esperam pela sua vez de mijar num local autenticado com o selo da garantia Estatal, nós a exercermos o nosso dever cívico, a recebermos subsídios para esvaziar o depósito de mijo e sustentarmo-nos graças ao desempenho dos nossos preciosos rins.
O próximo passo será aproveitar as defecações intestinais, o cuspo e o pus. Ou seja, toda a merda, em bom português. Não quereremos as nossas ruas poluídas, não; iremos aos WCs do Estado e ganharemos todos com isso; todos, menos o orçamento público. Deixem estar, vejam isto como um investimento a longo prazo. Pensem no “fertelizante” que fará maravilhas à nossa amordaçada agricultura. Não se esqueçam do potencial retorno das fraldas usadas dos vossos bebés. Tragam a merda dos vossos animais também. Bostas de vaca serão bem vindas. Cagadelas de pássaro têm aceitação garantida. Tragam até mijo de peixe. A água toda também se aproveita. E o peixe, se for ao barulho, não fará mal. Vamos optimizar toda a merda deste mundo, chular o Estado em milhares de Euros e deixá-lo com a merda de nós todos nos braços. Viva o Estado previdente.
Vivermos às custas daquilo que não aguentamos dentro de nós é uma perspectiva assaz interessante. Ingeriríamos litros de água até sentirmos os olhos a nadar e relaxaríamos. Deitaríamos fora os nossos antiácidos e abraçaríamos os nossos laxantes, vê-los-íamos como os nossos novos cartões Multibanco em que o código… bem, o código seria simplesmente ir à merda. Deveríamos arriscar e copiar este exemplo indiano. Vamos mudar de paradigma em relação ao tratamento das nossas excreções. Assim como estamos, estamos na merda.

segunda-feira, julho 07, 2008

Schadenfreude

Eu não pedi por aquilo. Aquilo veio sem eu saber. Posto à frente da porta de casa, nu ao ar livre. Um tempo que levou tempo a perceber. Um dedo apontado ao teu cérebro. Um disparo de sarcasmo acertando em cheio nos teus nervos. Vivo para a não-vida. Falava de asas e tu já voavas. Não podia suportar tamanha petulância. Pedia emprestado coisas que nunca tencionava devolver. Urgia-me pelo vagar. Exalava um profundo fedor crítico. Satisfazia-me com a ruína alheia. Vencia pelo desgaste, vencia pelo empate, vencia pelo afogado. E gozava o teu insucesso qual pão de cada dia. Vi-te a cambalear num trapézio irresolúvel, ansiei o desastre, anunciei-me como o teu abutre de estimação. Aquilo tingiu-me de negro. Recebi o jacto imundo como uma monção, diverti-me com a espuma da humilhação, humilhei o teu rebaixamento até aos limites. O dentro veio para fora. Mostrei-me como sempre fui. Então estiquei-me no parapeito do delírio, destilei ironia gratuita das minhas entranhas e suspirei de alívio. Não fui eu, não fui eu. A calma cínica do espectador espalhou-se pelo meu sangue. A tranquilidade da sobrevivência passiva preencheu-me. Ainda bem que estavas por aí. Folgo em saber que és mesmo tu. É tão bom saber-te mal.

quinta-feira, julho 03, 2008

Despidas Para Matar

Eis o Verão e com ele mulheres desnudadas. Vamos poder apreciar o melhor da carne lusa (e não estou a falar dos porcos pretos do Alentejo nem de qualquer raça bovina charolesa), como também petrificar com o pior. O pior esquece-se facilmente com a quantidade dos exemplares de qualidade média/alta, que é o que convém reter. É uma excelente época para circular por aí em transportes públicos e à beira da água, ou qualquer lado onde o calor aperte.
Elas estão aí, vestindo-se (ou despindo-se?) para arrasar até com a mais empedernida fleuma masculina. Pressinto que as mulheres, regra geral, vestem-se (ou despem-se?) não para agradar à turba impregnada de testosterona, como seria lógico no mundo animal, mas sim para provocar inveja às outras mulheres. São tramadas, as gajas.
No fundo, tornam os homens em meros figurantes neste jogo fratricida de intrigas e pequenos detalhes: o que conta é captar a atenção das outras mulheres quando se desperta o interesse deles, exaltar o seu belo corpinho bronzeado e também as suas sandálias compradas em promoção. Isto para que as outras se sintam tentadas a copiá-la. Mais que quererem ser objecto de desejo, as mulheres querem é ser “trend-setters”. Se uma mulher sente que três homens repararam na sua chegada, o que verdadeiramente lhe importa é se houve três mulheres que notaram esse facto e se elas se remoeram por dentro por não terem sido elas o alvo das atenções. Sim, porque um homem elas têm sempre que quiserem, com maior ou menor esforço, mas o reconhecimento implícito da sua magnífica silhueta física por outras mulheres é um desafio mais duro e que exige muita subtileza. Vencê-lo reforça astronomicamente a moral.
O homem, por seu turno, não está para se queimar na fogueira das vaidades. É muito mais directo e honesto – quer um corpo feminino gostoso sempre por perto e dele retirar o máximo de prazer físico. Contenta-se com pouco, fica satisfeito apenas com a superficialidade. Os olhos, na maior parte das vezes e com grande desgosto, são os únicos que comem, mas nem por isso a simples contemplação deixa de ser deliciosamente imperdível. É nesta estação que os olhos comem a valer, sem nunca acusarem o risco de congestão.
Alguns decotes são mesmo impossíveis de resistir. Mesmo com a quantidade de silicone batoteiro que já se vislumbra por aí, e mesmo considerando que as generosas mamalhudas clássicas talvez já não sejam tantas como antigamente, um decote é um decote. Quer se designe como uma dupla de seios ou como um par de mamas, quer seja um pouco mais firme ou um pouco mais mole, quer seja de uma fogosa adolescente nos meandros da experimentação corporal ou de uma respeitável quarentona com um sensual aspecto austero, o peito feminino é sempre uma coisa linda de se ver. Quando elas nos aparecem de frente, com uma camisola que apresenta uma abertura saliente a descair até cá baixo, os olhos nem querem saber de mais nada. Vamos atrás até ao limite do tecido e tentamos ir um pouco mais além. Quantos ares embasbacados fazemos, quantos pescoços torcemos, quantas ilusões nos passam pela cabeça – a imaginação fertiliza-se com o Verão.
E depois há barriguinhas apetitosas – confesso que acho piada ao gesto delas quando baixam a camisola para esconder o umbigo, ou porque acham, num assomo pudico, que já estão a mostrar demais, ou porque acham que isso é apenas para rapariguinhas, ou porque ainda se querem convencer que não engordaram e que aquela camisola serve para este ano. E ainda há aqueles deliciosos rabos com as cuequinhas enterradas lá nos confins do rêgo, matéria na qual as brasileiras são campeãs. E há tanta coisa mais que fico por aqui, só para não me alongar demasiado. É que o corpo da mulher é quase como o de uma vaca (sem conotações depreciativas) – praticamente tudo se aproveita.
Elas sabem que tudo aquilo é para mostrar – o Verão é a grande montra anual das mulheres, é aqui que se processa o verdadeiro tira-teimas entre egos femininos. Elas passam os últimos meses da Primavera com rigorosas dietas, programas de ginásio e selecção criteriosa de roupas para dar nas vistas. Depois, há que controlar a celulite, tratar da depilação, escolher os cremes e vernizes mais adequados e nunca descurar os saldos da roupa. Todo este ritual de preparação prévio que se assemelha a um sacrifício nunca é descurado, regularmente, ano após ano. Só há que esperar pela primeira tepidez pós-Abril e, então, toca a mostrar o corpinho.
Nós cá estamos para desfrutar a paisagem. Sentimo-nos mesmo patéticos por não conseguirmos desviar o olhar arregalado da tipa que está sentada à nossa frente, mas sabemos que é inútil resistir e temos a desculpa que ela nos está a provocar ostensivamente. No Verão, mais do que no resto do ano, somos vítimas passivas e não nos queixamos.

segunda-feira, junho 30, 2008

O Pato Donald Contra O Mundo

- … e é por isso que pareço humano. Garanto que nunca experimentei qualquer droga.
- Sr. Pato Donald, apesar de todo o enquadramento surrealista desta audiência, permita-me continuar a questioná-lo. Que idade o sr. pato tem hoje?
- Já disse que tenho uns 30 e tais.
- E que idade tinha há 20 anos?
- Os mesmos 30 e tal anos.
- É curioso, não é? Em 20 anos, o Sr. Pato Donald não mudou nada.
- É claro que não, advogado pateta! Sou uma porcaria de personagem de banda-desenhada! Não envelheço, pôrra! É assim tão difícil de perceber?
- Objecção, sr. Juiz. O réu utilizou linguagem brejeira passível de alienar a audiência e não respondeu directamente à pergunta que lhe foi dirigida.
- Deferido.
- QUAC!
- Sr. Pato Donald, a D. Margarida queixou-se de algum distanciamento seu, diz que já não a ama como a amou nos anos quarenta, queixa-se da sua constante azelhice, afirma-se indignada pelo facto de nunca terem casado nem sequer terem consubstanciado nenhum acto sexual…
- Não sou a pôrra dum mamífero! Eu não f**o à missionário, caramba! Sou a porcaria de um pato antropomórfico, só isso! Por isso ando sempre nu da cintura para baixo e sem qualquer tipo de pudor! A Margarida… que se f**a! A tipa andava a ver se me metia os cornos com aquele palerma do Gastão para que eu reagisse intempestivamente e perdesse a cabeça para a levar a todo o tipo de eventos sociais para se pavonear… Pôrra!, muito ela já levou de mim! Eu sei que ela era o estereótipo de mulher feminista fútil, era um papel ingrato… mas caguei! Já estou noutra! Não estou para aturar mais sermões da parte dela! A minha relação com ela é estritamente profissional. Entro nos mesmos desenhos e ponto final. Fora dos lápis e canetas, sou eu num lado e ela noutro. Ela que se queixe do que quiser!
- Também os seus sobrinhos não têm uma opinião positiva a seu respeito, sr. Pato Donald…
- QUAC! O que é que os putos disseram?
- Disseram que é francamente possível o Sr. Pato Donald ser, no mínimo, co-responsável pelos actos de que é acusado…
- É sempre a mesma mer**! Eu é que represento a sociedade! Especialmente, os podres da sociedade! Nós, as personagens, temos sempre as costas largas! Somos sempre o bode expiatório! Eu, que sou um pato impoluto e que aturei esses três putos durante séculos… sem que os putos fossem meus! Isto é que é reconhecimento, hã?
- Eles salvaram-no muitas vezes em aventuras que estão bem documentadas…
- Pois, eles é que ficavam bem na foto! Era tudo “show-off”, os argumentistas é que eram parciais com eles, que eram novos e tal! Mas ainda não tinham aprendido a nadar e já andavam a fumar às escondidas! O Zé Carioca que conte o que eles fizeram uma vez numa festa privada lá no Rio de Janeiro! Ele que conte mais sobre essa “juventude iluminada”!
- Isso está a ser julgado num processo autónomo, Sr. Pato Donald.
- Para eles é só regalias, para mim nada! Mas eu digo: aquilo dos escuteiros-mirins era só paneleiragem, vão por mim.
- Objecção, sr. Juiz. Não aceitamos esse tipo de linguagem para descrever as sãs actividades do escutismo.
- Deferido.
- QUAC!
- E por último, sr. Pato Donald, a sua principal testemunha de defesa, o seu Tio Patinhas, ao invés de ser uma figura abonatória, atestou a sua deficiente condição mental e a sua propensão para actos tresloucados e acessos de fúria… sublinhando, e passo a citar, “o Donald não joga com o baralho todo” e “prefiro gastar um cêntimo com o Patacôncio a ter de passar um minuto fechado com o Donald num quarto escuro”. Que comentários lhe merecem estas observações?
- Ele foi comprado para dizer isso, só pode… investiguem se há algum pagamento para alguma das off-shores dele… Eu, que fiz tudo por ele, excepto favores sexuais, mereço isso? Fui inclusivamente violado por 6 dos Irmãos Metralha, incluindo o Avô, por defender a sua merdosa Caixa-Forte para quê, afinal? Esse velho raquítico abusou de mim descaradamente e eu é que venho a tribunal… Que se f**a o cota e a fortuna dele, o meu orgulho tem limites! É tudo falso! O maluco é ele! Escondam-lhe a moedinha nº1 e vão vê-lo a subir paredes! Se não fosse pelo seu dinheiro, já há muito que lhe tinham limpado o sebo num lar qualquer para animais abandonados…
- Quer dizer algo antes de lermos a sentença, sr. Pato Donald?
- Sim. Peninha! Peninha, ouve-me! Tens de me defender! Eu sou o teu grande amigo, lembra-te de mim! Acode-me! Diz-lhes que eu sou inocente!
- Eh pá, ó Donald… És um gajo porreiro, mas a verdade dos factos é bué difícil de saber… prefiro que arranjemos já um culpado qualquer que vista a pele do sistema e que nos tranquilize a todos.
- QUAC! Pulha! Medíocre! É tudo a mesma mer**! Hás-de cá vir, atrasado mental! Dou-te cabo desse cabelo hippie à chapada, vais ver! QUAC! QUAC!
- Ordem! Ordem! Na qualidade de juiz deste tribunal, dou como provada a culpa do réu Pato Donald no processo “Pato Donald Contra O Mundo” e as acusações de que o réu Pato Donald é o principal culpado pela crise económica mundial, bem como pelas situações de guerra do mundo, a escalada das tensões étnicas um pouco por todo o lado, a fome, 50% das doenças infecto-contagiosas contemporâneas e pelo Benfica não ser campeão sem as ajudas dos árbitros há mais de 15 anos. Condeno-o a 2 dias de trabalho forçado e depois pode ir para casa em prisão domiciliária. O reú pode recorrer, se quiser perder tempo – deste carimbo de mau da fita já nunca mais se vai livrar. E nós podemos todos ir para casa mais descansados, que já designámos um responsável por todo o mau estar que nos apoquenta. Fim de sessão.
- QUAC!

sábado, junho 28, 2008

A Brigada Canibal

Acabou-se o problema do sobrepovoamento das prisões. Chegou a nova elite policial, a brigada canibal.
Como o nome indica, estes agentes dedicam-se a apreciar a suculenta carne humana, em valentes dentadas nos facínoras por eles capturados. Os efeitos nos corpos dos delinquentes estão à vista de todos os que passam pelo Aleixo, Intendente ou Bela Vista.
O ex-proprietário da discoteca “Lambapiço”, um travesti com antecedentes criminais, que traficou borrachas verdes da Pelikan recheadas de cocaína e liderou de um pequeno grupo que praticava carjacking nas boxes das competições de karts, veio a terreiro acusar os meios alegadamente nada suaves infligidos pela insaciável brigada. É vítima típica da nova forma de exercer a autoridade.
“Roeram-me a perna!”, exclama num pranto compreensível; afinal, tinha-lhe sido arrancada uma fatia substancial do seu presunto sem recurso a qualquer anestesia. “Bandidos! Não há direito! Ahhhhhhh!!!!”, aflige-se o pobre travesti, agora que o sangue perdido começa a provocar-lhe tonturas e uma sensação levemente agoniante revolve-lhe o estômago quando parece ver a sua própria tíbia a sorrir-lhe à luz do dia, despida da sua cobertura de tendões e gordura dolorosamente arrebatada pela polícia canibal. Desespera por um analgésico, mas o máximo que os populares que o circundam possuem é um laxante e um rebuçado Floco de Neve. A intervenção das forças da ordem fora relampejante e apanhara de surpresa todo o bairro, entretido que este estava a incendiar contentores do lixo na via pública e a disparar inocentes tiros para o ar. A carrinha parou a escassos metros do grupo onde se encontrava o travesti e logo os membros da brigada, fulminantes, irromperam da carrinha. Consta que houve um agente corpulento que se atirou com um instinto assaz leonino à perna do incauto travesti e fincou-lhe os magníficos caninos na sua carne apimentada pelos altos e baixos de uma vida de desventuras. Qual tigre, paralisou a vítima e puxou o naco da perna do travesti, que, impotente, arregalou os olhos com choque e a extrema aflição da situação. Então, a polícia, gregária, reuniu-se e banqueteou-se com a caçada, satisfeita por ter castigado um delinquente. Também ficaram visivelmente agradados com a qualidade da carne, algures entre a qualidade da carne de avestruz e a de javali, mas mais doce. O agente Carrasqueira jurou mesmo que sentira um ligeiro travo a tomilho. Chuparam os dedos para bem aproveitar todo o resquício do sangue do marginal e sorriram, levando as suas demoníacas gulas aos píncaros do prazer. O travesti, ainda à espera das ligaduras, acusou a prática de “brutal. Isto não se faz nem a quem viola criancinhas de 5 anos”.
O comandante da divisão canibal, o tenente-coronel Salgado, fora consultor gastronómico do Burger King, mas aos 25 anos constatou que faltava algo na sua vida. E então converteu-se à antropofagia. Mas mesmo assim, Salgado sentia um vazio qualquer que urgia preencher. Inscreveu-se na polícia e logo se destacou quando mordeu o primeiro-ministro sueco no ombro aquando da sua recepção oficial. Refeito das críticas, deu o salto definitivo quando, sozinho, dominou à dentada um par de assaltantes de um banco na Baixa da Banheira. Ficou famosa a sua imagem a molhar o mindinho de um dos meliantes numa taça de mostarda. Agora, no conforto do seu gabinete, ladeado de arcas frigoríficas que conservam pedaços humanos de foras-da-lei ilustres, como os túbaros do um ex-membro da Gestapo e os tornozelos de um árabe terrorista, discorre com simpatia sobre os feitos da sua brigada. “Somos sensíveis, como qualquer pessoa. Mas gostamos de comer tripas de pessoas de meia-idade”. Não seria esta uma prática no mínimo pouco civilizada? “Não. Isso era dantes. Agora comemos tudo com sal e levamos sempre os babetes. Ninguém se suja”. Pouco dado a discutir os pontos eventualmente mais polémicos, “isso são insinuações de gente ignorante e insonsa”, o tenente-coronel prefere enaltecer os grandes méritos da sua tropa: “diminuímos em grande número as prisões domiciliárias e o grau de ocupação das penitenciárias decresceu drasticamente – lembro-me que fomos convidados para um mega festim em Alcoentre aqui há uns meses e demos cabo das alas A e B numa só noite. Enfardámos… como verdadeiros canibais! Até as cabeças chupámos! Houve uns quantos oficiais que esgotaram o stock de Água das Pedras, tal a congestão!”, lembra-nos, orgulhoso. E como é comer um vadio? “Geralmente, não como a cabeça, tem pouco conteúdo. Prefiro as miudezas e talvez uma costeletazita. Temos já um certo nível de requinte culinário. Aprecio mais os pretos, são mais selvagens e têm um sabor mais exótico. Mas o que dá mesmo gozo são os criminosos de colarinho branco. Têm mais gordura. O advogado Peres de Azevedo, aquele gatuno, era bem tenrinho. De uma vez comemos-lhe uma parte do pescoço, mas à segunda vez o roubo dele foi maior e comemos-lhe as pernas. Fizemos um grelhado maravilhoso mesmo lá na Ordem dos Advogados, espectacular, tudo pacífico, tudo perfeitamente controlado. Pelos vistos nunca mais roubou nada. O que é pena, porque acho que os braços dele também são deveras apetitosos”.
Ou seja, toda a gente parece estar satisfeita. A polícia, porque o crime não pára e motivos para uma boa refeição nunca faltaram. Os agentes estão felizes e convivem muito mais, agora que já é permitido assar um burlão no espeto. Os cidadãos sentem-se mais seguros ao ver os ladrões mutilados, coxeando ou arrastando-se pelas ruas da cidade em cadeira de rodas, desmembrados e decepados, cicatrizados e permanentemente inválidos em filas de espera dos centros de saúde ou à porta de farmácias. E os próprios ladrões, lá no fundo, sentem-se apreciados e desejados, algo que faz maravilhas à sua auto-estima. “Eu já pensei cá para mim: Nelito, tu podes tentar violar a amiga da tua filha que tudo te vai correr bem. Se conseguires e não fores apanhado, voltas a violá-la; se fores apanhado, a brigada canibal dará certamente um bom uso às tuas virilhas. Não tenho nada a perder”, declarou Cornélio Araújo, um perigoso assediador já maneta, cuja carne, garante o tenente-coronel Salgado, “promete fazer crescer água na boca de toda a esquadra. Já o imagino assado no forno com um raminho de salsa”.

sábado, maio 31, 2008

Portugal Pró-Fundo

1. A assembleia aprovou por maioria qualificada a outorga do título de sede de concelho às seguintes localidades:

Viana do Sal
Figueira da Pêra
Idanha-o-Basto
Unhais de Montemor Gordo
Mondim de Casal Vedras
A-da-Condeixa Agraço
Cabeceiras de Xira
Castelo de Espada à Comba Dão
Vila Pouca da Rainha-a-Nova
Santiago do Conde
Castro de Torres à Cinta
Benfica Franca do Hospital
Albergaria Velha dos Vinhos
Póvoa da Pampilhosa
Vila Celorico de Varzim
Linda-a-Cabeça
Foz do Botão
Baixa da Serra
Carrazeda Nova
Castanheira da Palmeira
Sarilhos Algodres do Cacém
Vila Real de Freixo-a-Pastora
Venda dos Pequenos da Beira
Oliveira de Aguiar
Ferreira de Canal Iria
Alcácer do Zêzere Tinto
Sever de Ansiães
Aldeia Nova das Raparigas Grandes
Macedo d’Aire
Proença do Corvo
Fornos de São Brás da Feira
Paços de Miranda
São João de São João
Leça da Cruz 
Carregal Caveira
Pedrógão da Moimenta
Torres do Balio
Figueiró Quebrado
Caldas de Arruda


2. Na mesma sessão, a assembleia vetou por unanimidade a atribuição do título supra-citado às seguintes localidades, por violação dos princípios lógicos observados na lei de bases do Sistema Administrativo Nacional:

Alcabaxide
Carnideche

3. A assembleia aprovou por maioria simples a moção de apoio à distribuição gratuita de alucinogénios a todos os deputados no hemiciclo apresentada pelo Dr. Durão Ferreira Cervan, reiterando assim a pretensão de repetir o verificado na presente sessão em todas as restantes sessões em que não haja disposição da assembleia para discutir temas de carácter estratégico.

4. A assembleia culminou a sessão com uma salva de palmas seguida duma salva de tiros.

5. Os sobreviventes afirmaram sob juramento esta sessão ter sido o fim da sua carreira política.

6. O Eng.º Mota Leite de Coissoró indicou numa primeira instância recorrer do juramento prestado pelo Dr. Patinha Bota, mas retirou a sua intenção ao ser perfurado fatalmente pela baioneta do Arq.º Macário Canas.

7. O meu sonho pessoal era ser como a Amy Winehouse, mas mais gordinho.

terça-feira, maio 20, 2008

Taça é Taça - Parte II

Mais uma homenagem do Outra Louça aos bi-campeões da Taça. Desta vez não houve sonhos destrambelhados com o Tonel a partir a taça. Nada disso. Tonel portou-se bem, como, aliás, toda a equipa. Foi uma tarde tranquila e pardacenta, com um vencedor justo e o passarinho Tiuí a constituir-se como o homem do dia. Apenas quero deixar três ou quatro notas.
Tiuí tem uma alcunha que pouco augura. A pujança da terceira ou quarta opção para a frente de ataque veio ao de cima e ele próprio deve ter ficado surpreendido pelo facto de ter acertado duas vezes nas redes pelo lado correcto. Aliás, Tiuí ainda nem sequer ensaiou um festejo de golo, parecendo um pouco perdido por ser a figura central da festa. Tiuí, tudo me leva a crer, nem sequer é um jogador de futebol na verdadeira acepção da palavra, mas apenas alguém que estava no lugar errado à hora errada. Também não me admiro que ele seja extraterrestre ou que tenha próteses de platina. A mística muito característica do Jamor contagiou Tiuí, mas temo que o efeito seja passageiro e que ele recupere para os seus piores níveis de sempre. Mas, pronto, já chega de bater no passarinho; o passarinho decidiu, está (bem) decidido.
Paulinho esteve em grande, como sempre nos habituou. Coxeou de forma determinante no acesso aos balneários, flectindo a perna direita com o jeitinho aprimorado pela experiência que só ele possui, incuntindo assim uma grande motivação na equipa. Permitiu que lhe arremessassem com várias latas de Gatorade em simultâneo e conservou aquele estóico sorriso mongolóide que tanto anima um balneário de futebol. Conseguiu não partir os óculos no meio da festa, o que é uma façanha dentro da própria façanha. Contabilizou três ou quatro modestas nódoas negras e uma escoriação no couro cabeludo na ressaca dos festejos, nada que não se recupere na pré-época que se aproxima. Na próxima época, Rochemback promete partir-lhe um osso qualquer ainda não especificado.
Ronny ficou ofuscado na tribuna de honra pela camisola de Liedson que Derlei fez questão de exibir. Via-se que estavam lá os calções e as pernas do nº8, mas a cara tinha sido tapada pelo jersey do Levezinho. Tudo por uma questão estética. Foi certamente um conselho sussurrado por Fátima Lopes ao Derlei, que procurou o tipo menos prendado do plantel para lhe tapar a fronha. Derlei esteve certeiro, mais do que quando esteve em campo. Ninguém se importou com o Ronny, nem mesmo o Luís Represas, tão solícito quando se trata de defender Timor e os timorenses. E ninguém me tira da cabeça que Ronny É timorense.
Por último, Purovic. Na minha opinião, Purovic é maluco. É mau jogador, para mais no sistema que o Sporting joga; não tem técnica nem grande jogo de cabeça para a altura que tem; protesta demasiado e em maus tons com os árbitros, como se fosse a estrela que, manifestamente, não é; e, muito importante, é a opção que se segue ao… passarinho Tiuí. O cartão de visita não inspira, de todo, confiança. Mas, acima de tudo, terá dificuldades cognitivas e perceptivas. Não bate bem, ponto final. Nem sequer tem graça, como o Paulinho. E aquilo não é um tique esquisito, como o do Izmailov. Acho que é mesmo pancada, é defeito e/ou feitio, aquele olhar esgazeado, o penteado semi-electrificado e toda a deselegância desengonçada que o caracteriza. Também acho que se enganaram no ponta-de-lança alto e esguio que queriam trazer – era o IbrahimOVIC e não o PurOVIC… É provável que seja dispensado, isto se alguém quiser um cabide imprevisível e que execute movimentos estranhos lá por casa.
Para terminar: os votos que o Jamor continue verde-Alvalade por mais algum tempo… e, se possível, com o gosto a dobradinha que escapa desde 2002.

sábado, maio 17, 2008

Österreich Unter Alles

Ich bin ein Österreicher! Sou doido por sangue e extremamente sádico. Gosto de cultivar a antipatia como os belgas de semear a pedofilia e os escandinavos de cometer suicídio. E podia ir mais adiante, estabelecer mais comparações, mas toda a Europa mete-me nojo. Já fui grande, eu mais os húngaros, mas agora sou um pequeno país que nem sequer tem entrada directa na Champions League e que pediu a língua emprestada ao grande vizinho germânico.
Por acaso, é uma língua que nos assenta como uma luva, é uma língua assassina e intimidadora como poucas. Mas isso não apaga a humilhação. Se não fizer nada de cruel, serei um paspalho periférico e mediano como… olha, como os portugueses, vá lá. E então, fiquei assim.
Para mim, a atrocidade não conhece limites. O melhor cartão de visita é constatar que Hitler, filho de uma beirã, afinal era austríaco. Encarcero os meus filhos em caves durante anos, escondendo-os da luz e da vida social. Se não tiver filhos, rapto o filho de alguém com a tranquilidade com que esmago um inocente insecto com as minhas botas cardadas. Em piqueniques familiares no sopé dos Alpes gosto de mutilar os membros dos membros da família, depois de me empanturrar com pickles envinagrados ao som de Mozart.
Bom velho Mozart, ele próprio um maluquinho, como manda a boa tradição austríaca. Até o Freud tinha sonhos anormais com a mãe dele, mas eu entendo bem a sua fixação. Todos nós somos muito apegados à família e consideramos o incesto uma forma de reforçar os laços familiares. A consanguinidade nunca nos fez mal.
Em contrapartida, o yodel é apenas uma patetice para desviar as atenções. Enquanto berro “yudl-ay-EEE-ooo” estou a pensar na próxima vítima. Que pode ser eu mesmo. Tenho os braços cheios de queimaduras de cigarro e escavacados a golpes de canivete suíço, que nós nem para fazer canivetes servimos. Apenas sabemos fazer bom uso deles. Se vejo uma tipa qualquer na rua que me meta impressão, infantil ou idosa, arranjo logo forma de a violar. À bruta, amarrada a um cipreste numa cercania de Innsbruck, dando-lhe com fiveladas nos costados e penetrando-lhe com bastões de basebol.
Temos uma capital cheia de pompa apenas para que não reparem nos cadáveres que despejamos no jardim assim que saímos de casa, após mais um serão de carnificina e sacrifício humano no conforto do lar. Os homens do lixo, já pouco impressionáveis, por vezes aproveitam pedaços em decomposição para oferecer à filha mais nova que os andava a chatear por uma Barbie. Os ossos ficam para o cão. É tudo natural.
Enquanto os turistas contemplam a monumentalidade dos palácios, nós enforcamos o vizinho por ele nos ter olhado de lado na Quarta-Feira. Os filmes de terror são estudados no ensino pré-primário e dissecados até à exaustão por boas professoras austríacas, daquelas que gostam de sexo sado-masoquista com velas quentes a pingar na pele e também de matar veados após o expediente, cortando-lhes as cabeças às dentadas para as expor na sala de estar. Também os alunos menos cooperantes são dissecados, literalmente, pelos seus colegas no recreio.
Em orgias de sexo e droga fornicamos e trocamos fluidos com todos os sexos, incluindo animais, sacerdotes e octogenárias. Ah, como são apetitosas as velhas... E os velhos. Não nos repugna a perversão. Aliás, ela é-nos tudo. O que é monstruoso para muitos é corriqueiro para mim. Mas admito ser mal compreendido. Por exemplo, José Figueiras casou com uma austríaca. Temo pela sua sorte.
Estou apenas a ser sincero. Basta olhar para os factos. Basta constatar a imprensa estrangeira. Não quero ser mais papista que o papa, nada disso. Alles klar, Herr Kommissar?

sexta-feira, maio 16, 2008

Ode a João Loureiro

Aqui fica uma singela homenagem à consideração dos Ban e do boavisteiro Manuel do Laço, que me partiu o coração quando chorou agarrado ao portão da Liga de Clubes, como se parte de si tivesse sido decepada a sangue frio pelas ríspidas e adverbiais palavras do sinistro, mas penteadinho, Ricardo Costa.

Considerem isto a retribuição de um favor pelas visitas que “Irreal Social” proporcionou ao Outra Louça. O João sabe bem do que é que falo quando me refiro a favores.

Arbitral
Coacção
Não é banal
Oh João
É fatal
Atracção
Fez-te mal
Foste ao pão

Gutural
Vozeirão
Da paternal
Protecção
Mas afinal
Tudo em vão
É o final
Da instituição

Susceptibilidade ferida
No túnel houve briga
Genealogia perfeita
É tudo a mesma seita

Natural
Despromoção
Coloquial
Argumentação
No jornal
A corrupção
O social
Em putrefacção

Voltar ao microfone?
Com escuta no telefone?
A megalomania
Estragou-te o dia

Parcial advocacia
Brutal burocracia
Do iceberg a ponta
A nacional afronta

quinta-feira, maio 08, 2008

Não Vou Ceder

Ele vai resistir. Já nos apercebemos do quão inútil é supor o inverso. A amálgama de sentimentos espúrios destas ocasiões chega-se à frente – eles são o orgulho, a obstinação e a persistência. Mexidos como ovos e atirados para a luz, esperando aterrar num qualquer fascículo de fábulas modernas, almejando alimentar folhetins e suscitar tertúlias de bairro.
A teimosia é dos burros, é substantivo semanticamente simples, ele é mais complexo. Não se percebe, todavia, se ele é um tubarão com cabeça de galinha ou uma formiga com cérebro de Einstein. Suspeitamos que há um traço que ele quer deixar, desconfiamos que ele quer que o mesmo seja indelével, duvidamos que ele possa cumprir os objectivos que delineou lá no alto, lá longe, onde as vistas mais comuns não alcançam.
Agora a montanha-russa já arrancou. Não há volta a dar, a saída faz-se em frente ao toque da sineta. Se ele quisesse, fechava os olhos e deixava-se levar pelos rodopios estonteantes. Mas não. Ele vai olhar de frente e enfrentar, batalhar, defender, atacar, aguentar. Resistir. Aturar-nos por termos que o aturar.
Ele não vai atirar a toalha ao imundo chão dos vencidos, é esta a sua causa, esta luta incessante pela individualidade, esta glorificação da singularidade, esta magnética atracção pela peculiaridade. Resiste porque já não há outra opção. Resiste porque é isso que está grifado na sebenta da sua ideologia. Resiste por estar agarrado a si mesmo e ele próprio agarrado a nada.
E quem diz ele, diz eu. No fundo, somos todos farinha do mesmo saco. Somos todos pães bolorentos e egocêntricos desta Humanidade. Desprezamos outras convicções. Fazemos de conta que somos a força das forças. Preferimos romper a coser. Resistimos.