sexta-feira, julho 17, 2009

Repórter Metal-Estrábico

- Estamos aqui no Sardoal, onde um violento incêndio DESTRUIU a habitação e os terrenos agrícolas do sr. Barquinho… um verdadeiro ESPECTÁCULO de devastação, verdade seja dita. CINZAS NEGRAS cobrem toda esta área, onde jazem igualmente algumas CARCAÇAS de animais que ainda fumegam ao sol… O INFERNO passou por aqui. Parece que nada sobrou, não é, sr. Barquinho?
- Ainda me resta um carneiro, que se conseguiu safar sabe-se lá como…
- Então? Você não tinha perdido tudo?
- Não, eu não disse isso…
- E você não se encontra deprimido?
- Bem, eu… realmente, não é uma situação fácil…
- Quando digo “deprimido” estou a querer dizer “angustiado”, “com aquela sensação que o mundo inteiro está de costas voltadas para si”, “naqueles dias em que parece que um anjo negro está a menstruar-se abundantemente sobre o seu corpo”… você está assim, ou não?
- Pois… estou um pouco…
- Sente a dor dentro de si, não sente? Assim como se ela estivesse alojada dentro do estômago e pronta a subir pelo esófago acima para ser vomitada?
- Há alguma dor, sim…
- Boa, boa, você está a entrar dentro do espírito! Agora, concentre-se na sua dor… pegue neste microfone e grite “FUCK JEEEEEESUUUUUUUUUUS!!!”, como se tivesse sido perfurado com várias agulhas a ferver simultaneamente… um voz cavernosa, cá do fundo; não é “fuck Jesus, sra. professora”, à moda da pré-primária; é “FUCK JEEEEEESUUUUUUUUUUS!!!”, como se fosse um Morbid Angel.
- O quê? “Fâque djiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiizââââââââââs”? O que é isso?
- Vai-lhe ajudar, prometo. Não lhe vai recuperar a casa nem as galinhas, mas é um paliativo espectacular, garanto-lhe.
- Acho que não consigo, não sei…
- Pronto… É timidez, não é? Então gritamos os dois, pode ser? Vamos gritar uma coisa mais fácil. Quando eu contar até três, gritamos os dois: “PAAAAAAAAAAAAAIIIIIIN!”
- “Peine”?
- Sem o “e” no fim.
- “Pein”?
- Isso! Mas forte, homem! Mesmo como um demónio das trevas! Lembre-se da sua agonia interior! Pense neste fogo que lhe estragou a vida! Raiva nesse grito, hã? Vamos lá… um…
- Peeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeein.
- Então? Que é isso? Só contei até um…
- Só sei contar até um.
- Ah… bom, mas não foi satisfatório, você não estava com a dor toda. Vamos lá repetir…
- Não me parece boa ideia. Isso não me está a ajudar por aí além…
- Bolas, homem! Satanás estabeleceu um contacto directo consigo! Destruiu-lhe a vida! Você sabe o privilégio que teve? Eu sonho com o dia em que Satanás venha ter comigo e me tatue um crucifixo invertido na testa com um ferro em brasa… e tenho que andar a dar cabeçadas na parede em incessantes headbangings enquanto ouço speed metal para sentir a verdadeira dor, à espera do toque do Diabo! Você não sabe a sorte que teve! O Diabo dá dentes a quem não tem nozes!
- Não foi Satanás. Foi o Zé Padeiro.
- O Zé Padeiro?
- Sim, foi ele que começou o fogo. Fez uma queimada de mato no quintal, deu-lhe o vento e… pronto, foi o que se sabe.
- E não sente a vingança da besta dentro de si?
- Não... O Zé Padeiro é bom rapaz… aconteceu-lhe desta vez, dantes já tinha acontecido a mim… Paciência.
- Não equaciona torturar-lhe um bocadinho…
- Hmmm… Talvez não lhe dê mais aguardente durante uns tempos… Mas, fora isso, não.
- Ou ler o livro de S.Cipriano assim só para distrair as ideias…
- Eu não sou muito católico, nem de igrejas nem dessas coisas todas…
- Nem um ritual com velas e animais mortos no meio da Serra de Sintra à noite…
- Não… Você sabe o que é uma queimada?
- O que eu sei é o alinhamento do novo álbum dos Manowar.
- Manowar? É uma debulhadeira?
- Não. São os reis do power-metal!
- Ah…
- Aqui vai: “Steel Hell “, “Powerking”, “Wheels Of Fire”, “Metal Lord”, “Fists & Iron”, “The Axes Of The Damned”, “Blade Machine”, “The Old Curse Of God's Hammer”, “Fight For Power And Fire (And Steel)”, “Hell Last Burning”, “Slave No Power” e “My Cute Little Pony”, que é uma faixa de bónus gravada em cima de uma Harley Davidson a caminho da Disneyland. Digo-lhe uma coisa: é BRUTAL!! METAL!!!! YEAH!!!!
- Ah…
- Saquei os mp3 na net. Já não compro cds.
- Está bem…
- Mas tenho uma t-shirt oficial deles.
- Pois…
- E você não tem nada, não é, sr. Barquinho?
- Ah, ainda vou tendo alguma coisinha… Como o carneiro.
- O carneiro… Ena pá, é isso mesmo!
- O quê?
- O carneiro é espectacular para o sacrifício!
- O quê? Chanfana?
- Bute lá sacrificar o carneiro! Não, não, espere: deixe-me ir buscar as facas góticas ao carro. E o manto negro.
- Mas… Mau, assim já não dá!…
- Tem toda a razão: falta um som à maneira. Exodus, pode ser? Também tenho Odious Mortem.
- Não, não, pare lá com isso, ninguém vai matar o bicho! Mas o que é que é isto, afinal?!
- Eu preciso de dor para me sentir realizado. Satanás está comigo.
- E ele quer um queijinho?
- Um queijinho?
- Destes queijinhos frescos que se safaram ao fogo.
- Mostre lá.
- Olhe aqui. Hã, maravilha, não é? Nós aqui na terra temos que ter algo para as visitas, mesmo que seja o Senhor Doutor do Mal.
- Por acaso Satanás é engenheiro. E esses queijos estão muito brancos.
- Como assim?
- Satanás não gosta de coisas brancas.
- Ele que imagine que isto é tipo… uma sobremesa esbranquiçada, vá lá…
- Satanás não come sobremesas. Só Suissinhos de framboesa. Têm muito cálcio.
- Vá, eu sujo o queijinho com…pode ser estrume?
- Não tem chocolate negro?
- O carneiro comeu todo o chocolate negro que tinha quando viu o fogo chegar.
- Seja estrume.
- Muito bem. Ora cá vai disto… pronto, e agora?
- Satanás agradece mas diz que já comeu.
- Ora bolas, e agora?
- Satanás aceita dinheiro.
- Dinheiro? Bem, não tenho assim muito aqui à mão… mas tenho ali umas poupanças que posso desenterrar debaixo da laranjeira queimada… Assim de quanto é que ele precisa?
- Quanto é a viagem de volta para a Reboleira?
- Para aí uns… sei lá, 20 euros.
- Então Satanás quer 80.
- Então mas…
- Despesas de representação. Está no contrato.
- Se é assim… Espere aí um bocadinho…
- Fico dolorosamente à espera. Já sinto o fogo a trepidar nas minhas veias… o sangue está a ferver… ah!, que espantosa agonia! DARKNESS IS MY MOTHER, BEAST IS WITHIN, UUUUUUUUUUUUUUUUH! FALLEN CHRIST EVERYWHERE, CRAWL IN PAIN! PROFANE MYYYYYYYYYYYYYYYYY SOOOOOOOOOOOOOOUUUUUUUUUUL!!! UUUUUUUUUUH! CRAAAAAAAAAAAAAAWWWWWWWWWWWWWWWLLLLLLLL IIIIIIIIIIIIIIIIIIINNNNNNNNNNNN PAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIINNNNN!!!!!! UUUUUUUH!
- Cá está.
- AHAHAHAHAH!, o mal triunfou outra vez! Mais uma ajuda para Satanás comprar um iPod! E você, sr. Branquinho, como é que vai sobreviver à catástrofe?
- Pronto, ainda tenho umas coisitas… mas vai ser quase como refazer a minha vida do um…
- Do zero, quer dizer…
- Não, mesmo só do um… porque eu só sei contar até um, já tinha dito.
- É verdade.
- Mas fiquei contente.
- É isso, também sentiu no fundo um prazer intenso por sentir a dor e a desolação da enorme perda, não é? Eu sei o que isso é.
- Pois… Não é bem isso; gostei de ter a imprensa por aqui a tentar manipular os meus sentimentos e a extorquir-me o pouco que me restava… Quero dizer… Isto é só para gente importante, não é?… Acho eu… Não, foi bom, foi muito bom, apesar de tudo. Valeu a pena perder tudo por cinco minutos no jornal das oito.
- Não, o senhor está a brincar!... Você está é dentro do espírito da dor! Você sentiu o chamamento das trevas! Eu estou a ler isso nos seus olhos!
- Eh pá, eu acho que é outra coisa… mas você é que é a da cidade…
- Quer ir ver o concerto dos Torsofuck ao Santiago Alquimista? Pago eu.
- E depois quem cuida do carneiro?
- Sacrificamo-lo na volta.
- Mas…
- DECEASED FAITH, ATROCIOUS SUICIDE! PROFANE MYYYYYYYYYYYYYYYYY SOOOOOOOOOOOOOOUUUUUUUUUUL!!! UUUUUUUUUH! UH! UH! UH! CRAAAAAAAAAAAAAAWWWWWWWWWWWWWWWLLLLLLLL IIIIIIIIIIIIIIIIIIINNNNNNNNNNNN PAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIINNNNN!!!!!!

segunda-feira, julho 13, 2009

Um Texto Sobre Nada

Não é fácil esvaziar nada do seu conteúdo. Nada tem muito que se lhe diga.

Tal quando eu te pergunto o que se passa e tu dizes “não se passa nada”, todavia eu vejo-te a babar como um cão à porta do talho enquanto vês o teu ex-namorado abraçado à tua ex-melhor amiga da maneira que tu sempre quiseste que ele te abraçasse e que ele nunca foi capaz de te abraçar, a entrar dentro do restaurante a que ele nunca te levou a comer a lagosta e que dantes lhe fazia uma enorme alergia, contigo ali a presenciares todo aquele filme de romance que já não era o teu sem seres capaz de fazer uma crítica isenta como um bom crítico de cinema, a espremeres os teus próprios lábios como um palestiniano não apertaria o pescoço a um judeu.
Tal quando eu digo que “está tudo bem, não é nada”, mas eles fracturaram o meu orgulho de forma exposta e levaram-no arrastado por duas mulas epilépticas pelas ruas em paralelepípedos desta cidade suja, para que toda a gente pudesse cuspir ácido em cima das suas feridas fundas um pouco mais, não fosse ele capaz de ressurgir de novo.
Tal quando ouvimos “não dói nada”, mas aquilo custou os olhos do nosso corpo todo e mais alguns que hipotecámos ao banco e nós nem sequer ficámos com uns pensos rápidos para camuflar os arranhões profundos da nossa inveja, nem com pasta de dentes para branquear o sorriso amarelo da nossa felicidade comprada em promoção.
Tal quando dizemos “não sei de nada” mas escondemos e conservamos o relatório detalhado de tudo aquilo que afinal conhecemos para referência futura, não vá o boomerang fazer a curva mais cedo que o esperado.
Tal quando lemos “não tenho nada contra”, mas nas entrelinhas existem chispas de sangue e olhos faiscantes de fúria demasiado evidentes, como se a tipografia se tivesse equivocado a colocar o nada e quisesse ter colocado o tudo.

Sabemos que o maior preconceituoso é o anti-preconceituoso, porque é ele quem procura o preconceito e dele necessita para sobreviver.
Sabemos que a hipocrisia é a roupa que veste o rei, nesta terra onde quem tem meio-olho cheio de ramelas já o é, e se não fosse a hipocrisia um enorme outlet acessível a toda a gente, já há muito que os monarcas dos nossos bairros iriam nus.
Sabemos que a meta-linguagem é apenas um termo bonito para andar às voltas de um abecedário e de um teclado de computador sem parar, sem concluir alguma ideia, sem nada dizer em concreto.

Mas… nada? O que é afinal o nada? Não conseguimos reduzir nada ao absurdo. Pelo contrário, tratamos nada como um absurdo. Nada serve para tudo. Tudo serve para dizermos que não é nada.
À falta de melhor explicação, nada é qualquer coisa diferente de conjunto vazio. Nada é aquilo que mói. Nada é a vergonha em reconhecer. Nada é tudo menos a insignificância que nos tentam impingir. Nada dificilmente será invocado pelo seu sentido literal numa sociedade que vive de aparências.
Mais qualquer coisa que isto e a definição do uso que correntemente atribuimos a nada corre o risco de ser nada, no sentido estritamente clássico do dicionário.

terça-feira, junho 16, 2009

Vou Descobrir o Paraíso

Pedro Álvares Cabral (PAC) e Vasco da Gama (GAM) deambulavam pela próspera Lisboa, num domingo soalheiro do Outono de 1499. PAC, ébrio e titubeante, vingava as suas agruras numa garrafa de rum, com os olhos postos nas rameiras que passeavam os seus andrajos à beira Tejo, na esperança que um mamilo mais encalorado lhe sorrisse e lhe ajudasse a passar a tarde. GAM, laureado com honras de Estado após o seu glorioso regresso da Índia, jactante com todo o seu prestígio acumulado, estava só a dar uma caminhada para facilitar a digestão; quando passassem as três horas, iria matar alguma coisa. O quê? O que houvesse à mão suficientemente vivo para morrer. Simples.
Dois espíritos antagónicos, porém dois heróis imortais que se tratavam por tu e que juntos escreveriam páginas brilhantes da antologia lusitana. Encontraram-se ali, mesmo no sítio onde hoje é o Lux.

GAM – Olha quem ele… és tu, man?
PAC – Man? Que é isso, pá?
GAM – Man, és o PAC. O PAC, man!
PAC – F**a-se, ó Vasco, ‘tou com uma ganda bezana, não ‘tou p’ra trocadilhos fatelas. Deixa-me mais é curtir as peixeiras da Ribeira…
GAM – Então, man, qual é? ‘Tá-se mal?
PAC – Eh,pá, ando fo***o com esta merda…
GAM – Então? Arranjaste escorbuto?
PAC – Não, pá.
GAM – Sífilis?
PAC – Essa merda é mais com os paneleiros do século XIX, não.
GAM – Cancro?
PAC – Qu’éssa merda?
GAM – É uma cena bué da má. Ouvi dizer.
PAC – Eh, pá, não é nenhuma doença, ca****o.
GAM – Então?
PAC – Eh pá, é esta merda.
GAM – O quê?
PAC – Este país, pá… Estou farto desta merda. Já não se pode.
GAM – Então mas… alguma coisa em particular?
PAC – Eh, pá, é tudo. Isto está feito sempre para os mesmos. É só pu**s e chulos. A merda dos nobres e da igreja. Não há paciência para tanta merda.
GAM – E o que é que queres fazer?
PAC – Vou bazar. Pá, cheguei ao limite. Isto já não é vida para mim.
GAM – E vais para onde? Flandres?
PAC – Quais Flandres, quais ca****os! Fo**-**, Bélgica, pá? Aquilo é só chuva e gajas gordas e muita brancas… nã, se é para bazar daqui, é para ir curtir um bom bocado.
GAM – Qual é a tua ideia, então?
PAC – Vou descobrir o Brasil, car***o!
GAM – Brasil? Qu’é isso, man?
PAC – Uma terra de gajas muita oferecidas, morenaças e com uns cus enormes. Uma terra onde faz calor todo o ano e onde só apetece andar nu e a f***r do nascer ao pôr-do-sol. Pumba, pumba, pumba! Aquilo é só dançar, comer fruta esquisita e f***r à discrição! Fo**-se, aquela merda é o Paraíso, car***o!
GAM – Fo**-**, como é que existe uma terra dessas?
PAC – ‘Tou-me a cagar; eu é que vou descobrir a terra, eu é que decido como aquela merda vai ser. E aquela merda vai ser uma farra do car***o, ouve o que te digo.
GAM – E isso fica longe?
PAC – É capaz de ficar um bocado… ainda não sei, nunca ninguém foi lá…
GAM – E como é que disseste que se vai chamar?
PAC – Brasil. Vem de “brasa”, que é o que todas gajas são por lá. Umas brasas do car***o. Mal posso esperar para descobrir aquilo. Já tenho tudo pensado. Vou logo comer uma nativa à canzana mal ponha os pés na praia e vou dizer ao Pêro de Caminha, aquele totó que tem a mania que sabe escrever, para descrever a f**a com todos os pormenores, tim-tim por tim-tim, desenhos e tudo, que é para depois a malta ficar a saber como é que são as coisas na terra do PAC. Fico logo com o pau feito só de pensar nesta merda! É do car***o, pá!...
GAM – Man, e como é que se vai lá ter?
PAC – Pá, como é que tu foste para a Índia?
GAM – Ui, man, não vás por aí…
PAC – Diz-me lá, pá, como é foste lá ter com os monhés?
GAM – Pronto, saí de Belém, ‘tás a ver?…
PAC – Sim…
GAM - … caguei no Velho do Restelo e fui em direcção à Madeira, sempre a abrir pela faixa da esquerda…
PAC – Sim…
GAM – …cheguei a Cabo Verde, virei à esquerda…
PAC – Então eu vou para a direita.
GAM – Qu’éque ‘tás a dizer, man? ‘Tás-te a passar, não? P’rá direita não há népia!
PAC – Já decidi. Tem de ser por aí. E assim também posso curtir o calor dos trópicos e ganho uma corzinha na pele, hã, que achas? Que é para me ambientar mais ao Brasil… bem pensado, não?
GAM – Man, pensa lá bem… Não queres vir comigo?
PAC – Eu depois vou lá ter contigo.
GAM – Man, a sério, eu deixo que tu bombardeies Calecut… vem lá comigo e deixa-te dessas merdas…
PAC – Não me fo**s, Vasco! Eu gosto de caril mas não ‘tou para aturar essas merdas! Vai lá para junto dos monhés à vontade e deixa-me com a minha cena!
GAM – Não é isso, PAC, eu só queria que tu…
PAC – Fo**-se, pá! És sempre “tu”, “tu”, “tu” e as tuas cenas! Sempre com essa do “ai, preciso de pimenta para o rei”, “ai, pelo Cabo da Boa Esperança é que é”, “ai, preciso de duas caravelas ou assino por Castela”, “ai, vou rebentar com aquela cidade com os meus canhões”… fo**-se, pá! E eu, car***o?!? E os meus sonhos? As minhas descobertas? A minha vida, pôrra?!? Eu também quero ter uma ponte e um centro comercial com o meu nome! Achas que é a andar atrás de ti que eu vou conseguir alguma coisa de jeito?
GAM – Talvez consigas meter o teu nome numa escola 2+3…
PAC – ‘Tás a ver? Até aquele merdas do Magalhães, pá, o Magalhães!...
GAM – Fo**-se, ganda vendido, esse gajo.
PAC - … o Magalhães, hã?, um porco de primeira… um gajo que não descobre nada, um gajo que se limita a andar às voltas!...Mas tem o nome num computador e o car***o… já viste esta merda, pá? Não é de um gajo se passar?
GAM – Que horas são?
PAC – Sei lá, ó car***o… para aí umas quatro da tarde.
(Vasco da Gama desembainhou a sua espada e fê-la atravessar todo o corpo do transeunte que vinha a passar. Não satisfeito, acendeu o rastilho do seu canhão portátil e destruiu duas embarcações de pesca e alguns casebres ribeirinhos pertença dos pescadores.)
GAM – Desculpa lá, tive de matar alguém e fazer alguns estragos, é recomendação do médico… se não mato alguém de oito em oito horas fico com uma enxaqueca insuportável, nem queiras saber.
PAC – Essa cena é fo***a, pá… o que é que aconteceu da última vez que não mataste alguém?
GAM – Fiquei com uns calores tão danados que rebentei com 50% da população de Moçambique.
PAC – Mais vale matar só um gajo de vez em quando, não é?
GAM – Iá, iá, então não… olha, queres passar lá pelo meu palácio para bebermos um runzito? Já vi que estás bem aviado de rum, mas queres vir?
PAC – Essa é outra… pá, eu vou descobrir uma terra de onde vou trazer cenas para fumar. Beber vai ser só uma parte da diversão. Fumar vai ser a outra parte. Só curtir.
GAM – Fumar?
PAC – Iá, ‘tás a ver? Tipo… pá, lá no meu Brasil vai haver bué dessa cena… não viste lá ninguém na Índia a fumar?
GAM – Não…
PAC – Pá… tens um pauzinho de tabaco que se chama… vamos lá, “cigarro”… aceso na ponta… e depois é chupar e mandar o fumo para fora.
GAM – Ah, estou a ver…
PAC - … e podes fazer rodinhas de fumo com a boca…
GAM – Ah, assim está bem, assim já parece porreiro.
PAC - … e a seguir a fo**r uma brasileira não há nada melhor do que uma cigarrada. Meu, vai ser uma cena altamente. Vai ser bué da cool fumar.
GAM – Estás cá com umas ideias… Não sei, não, man; até hoje nunca tinha ouvido ninguém dizer “cool” sem ser acusado de heresia… devias ir curar essa bebedeira antes…
PAC – Qual quê! Estou mais decidido que nunca. Não passa do próximo ano! Vais ver!
GAM – Pronto, man, pronto, são as tuas cenas, faz lá as tuas cenas…
PAC - … e que fique aqui registado: como símbolo da terra que eu vou descobrir, daqui a cinco séculos há-de estar aqui, neste sítio…
GAM - … neste sítio?
PAC - …pá, rigorosamente onde eu estou, ´tás a ver?; vai estar uma ganda casa de diversão nocturna com uma entrada que vai ser uma gaja de pernas abertas, ‘tás a ouvir?
GAM – Pfff, man… não acredito. Nem daqui a cinco séculos.
PAC – Meu, a maior casa de diversão nocturna de toda a Lisboa, ‘tás a ver?! Quem cá não entrar não é gente não é nada! E duas gandas pernas abertas, que é para um gajo entrar pela c**a e nunca mais querer sair daqui!... Beber, fo**r e fumar, beber, fo**r e fumar… Meu, eu vou descobrir o Brasil dê por onde der.
GAM – E tu acreditas que vai ser possível encontrar um paraíso assim?
PAC – Pá, meu, ouve; é tão certo como o Diogo Cão ser rafeiro.

domingo, maio 31, 2009

Cock Robin

Os Cock Robin talvez tivessem tido mais sucesso se tivessem mudado o nome para Penis Batman.

Esta piada é do caraças. Vejam lá: demonstra conhecimento da música pop dos anos 80, do cinema no geral e dos filmes pornográficos e de acção em particular, da banda-desenhada e da inclinação do Robin para o pénis. E junta todos estes ingredientes num pequeno tachinho, adiciona-lhes aqueles pozinhos de ironia até a mistura adquirir uma forma consistente e depois é servi-la ainda esquentada, para desfrutarmos daquele paladar pleno de verve e traquinice. Brejeira ma non troppo, não vai cativar muita gente porque muita gente não reconhece a verdadeira arte da escrita espirituosa nem que ela se despisse a um palmo de distância.
Mas isso não lhe retira o mérito. É só uma frase. Só um ponto final, sem vírgulas. Curta. Ainda podia ser mais curta, porém é suficientemente curta. Curta e boa. Podia-se torná-la mais comprida mas assim está bem. Não é por nada, mas é melhor não desperdiçar tanta boa disposição só de uma vez. As coisas boas requerem preguiça para podermos amadurecê-las na nossa cabeça, mariná-las nos nossos sentidos e digeri-las com um prazer dolente. E sempre em pequenas doses, que é para não parecermos uns pelintras culturais cheios de fome. É, eu não quero esticar-me muito. O segredo está na contenção, em portarmo-nos como autênticos snipers da palavra, estarmos atentos ao supérfluo e, pumba!, resumir tudo ao essencial. É tão bonito. “Cock” por “penis” e “Robin” por “Batman”. Um grande trocadilho com todas as letras.
E às vezes, as ideias brotam nas nossas ramificações neurológicas qual Primavera da inspiração, refulgindo como brilhantes pedaços do pensamento intelectualmente superior ao sol, numa incisiva torrente de consequências imprevisíveis.

- Por que lhe acusavam de ser homossexual nos anos 80, Batman?
- Gostava de Cock, Robin.

Brutal.
E é melhor ficar por aqui.
Fica para a próxima, está bem?
Eu sou preguiçoso, já disse.
E estas foram muito boas. Não me peçam mais por agora.
Aproveitem.

Espectáculo.
Muito, muito bom.
Uma criatividade que abraça mais que uma vertente cultural.
Não se vê todos os dias.
Não tentem ir por aí… Isto não tão fácil quanto parece…
Tem que parecer que é fácil, mas não é… nada disso…
Engana muito, eu sei…
É preciso é jogar com várias referências ao mesmo tempo…

- Tens cara de Cock, Robin.
- Mas meto Pussy Galore...

Pronto, já fui um bocadinho longe de mais… esta já ninguém vai lá. Bolas, pá!, eu devia ter parado! Podia ter acabado quando as coisas ainda estavam lá para cima. Deslumbrei-me com tanta facilidade. Foi pena, estava tudo a correr bem… Mas ainda é uma graçola com o seu encanto, não é?... tem a sua gracita… pois é, pois é… ena, tem feito muito calor, não tem?... hmmm… olha ali, o que é aquilo?

- Já arranjei Cock, Robin.
- "Remember The Promise You Made"?
- Foi só um tracinho "Just Around The Corner".

Muito à frente. Outro campeonato. Uma brincadeira lexical de elevado nível. Quando pensavam que as coisas iam irremediavelmente a deslizar para o fundo acontece a estocada final. Com esta já não contavam, pois não?
Mas já chega de tanta palha. Não me posso esquecer do pacto de contenção.
Agora é que é.
Chega de amostras grátis.
Agora só mesmo a valer.
Onde é que eu assino?

- Já ouviste os Cock Robin?
- Não; eu só os chupo, Batman.
- Como assim? Não os conheces?
- Sim, sim... conheço alguns dos Bosques.
- Dos Bosques, Robin?
- Robin dos Bosques, sim, sou eu.

domingo, maio 24, 2009

Taça É Taça - Parte III


Chegou o momento anual de seriedade do Outra Louça: uma abordagem à final da Taça de Portugal. A verdade é que o Outra Louça não é muito de efemérides e a final da Taça ainda nem sequer se jogou. E quando se jogar não vai contar com a presença do Sporting.
Sendo assim, analisemos sucintamente o que foi a época do Sporting, mais concretamente, o desempenho dos seus jogadores (exceptuando este último jogo em que uma série de lesões, castigos e sei lá que mais propiciaram a chamada de quatro juniores ao plantel principal e tornaram Romagnoli, mais do que uma séria hipótese para a titularidade, um elemento imprescindível do onze inicial – só para se ter uma ideia da dimensão destes condicionalismos).

Do lado mau/ decepcionante:
Os laterais – Abel talvez se sinta uma pessoa mais realizada se algum dia sacar um cruzamento bem medido na linha de fundo; como isso já não deve vir a suceder, mais vale preocupar-se com o cabelo e em emagrecer um bocadinho. Não esquecer que foi este o homem que marcou um golo por acaso em Old Trafford e que nem escondeu a felicidade dessa situação, de tão mau que foi o centro. Ou seja, ele próprio está consciente que anda nos limites há uma porção de tempo e que dificilmente ultrapassará o patamar de mediania que caracterizou a sua carreira.
Pedro Silva não é sequer um lateral; é um tipo que gosta de correr com a bola sempre em frente, sem noção do perigo; no fundo, é como um cão que se vê livre da trela e corre desalmadamente para a estrada onde virá um camião que o atropelará. Tem jeito para o lançamento do disco, mas isso raramente servirá de argumento para um lateral-direito decente.
Grimi prometeu; contudo, tornou-se mais célebre pelos seus conhecimentos noctívagos e nunca mais recuperou daquele lance contra o Porto. A lesão parece ter sido mais um acto de misericórdia que outra coisa.
Caneira especializou-se a cometer penalties e em arranjar lesões inoportunas, mas tem a desculpa de não ser lateral de raiz.
E de Ronny nem vale a pena falar.
Miguel Veloso e Yannick – dois irmãos, não de sangue, mas de inconsistência mental. Um já se refere a si na 3ª pessoa, vendo fantasmas junto à linha lateral e auto-vedetizando-se de uma forma que arrancaria muitos sorrisos trocistas, não fosse essa uma fórmula já gasta. O cabelo muda consoante os humores e talvez já só a Fátima Lopes vislumbre nele a capacidade de concretizar todo o potencial que estará algures lá dentro. O que é pena. Já Djaló, o comboio negro que avança mais rápido que a bola, foi castigado com a ausência total e o registo nulo de golos desde que em Basileia ficou triste por ter marcado o tento vencedor. O tipo ficou mesmo aborrecido e vai daí, tumba!, toma lá o que mereces. Ao contrário de Veloso, porém, não me parece que tenha tanto valor desperdiçado quanto isso; é mais um hype musculado da Academia do que propriamente o avançado por quem Portugal anseia.
Vukcevic – o maluco do Montenegro disse que queria ser operado ao ombro quando começava a re-despontar e teve a vontade feita. Enquanto ele estivesse anestesiado, podiam aproveitar a oportunidade e fazer-lhe uma incisão no crânio, a ver se lá se alojavam alguns bichinhos carpinteiros para então exterminá-los. O Sporting podia ganhar ali um grande jogador.
Rochemback - o gordo. Lentidão exasperante no meio-campo e nem um livre para amostra. Não foi de todo decepcionante, porque as expectactivas já não eram muito elevadas, mas em todo o caso recomenda-se menos picanha e mais desenvoltura. Estranho o peso que dá mostras de possuir no balneário. Ou talvez não, porque acaba por ser uma questão... de peso.

Do lado bom/ surpreendente:
Rui Patrício – sempre fui muito céptico com este gajo, é verdade; mas este ano, vendo bem as coisas, julgo que ele optou por despejar cola nas luvas ao invés da banha de porco que colocara o ano passado. Tenho de dar a mão à palmatória e reconhecer que houve progressos.
Daniel Carriço – agradável revelação, malgrado alguns deslizes. Pode vir a ser melhor que o Beto, o que não implica necessariamente arranjar uma gaja tipo Filipa de Castro.
Izmailov – tem cara de russo e é expansivo como um russo, o que será a sua melhor qualidade. Isto é, a discrição, que neste caso se alia à competência e ao grande espírito de equipa. Tem uma débil condição física mas é dos jogadores tacticamente mais inteligentes que já vi jogar. Consolidou a sua posição, apesar de tudo.
João Moutinho – não chegou, nem de perto, àquele que parece ter sido o seu píncaro de forma e que ocorreu, curiosamente, nos seus primeiros jogos com Peseiro, em 2004/05. Mas resistiu aos destemperos vocais fora de campo e foi sempre muito abnegado no relvado. Não é muito, mas é alguma coisa. Temo que Moutinho não passe do exemplo profissional e que nunca deslumbre. Nunca esqueceremos o lampião que ele é e ele só tem é mais que esforçar-se pelo leão enquanto por cá estiver (e ele ainda se deve aguentar uns tempitos mais por cá, digo eu).
Pereirinha – bons cruzamentos e velocidade. É melhor lateral-direito que Abel, embora isto não possa ser motivo de grande regozijo. Todavia, parece ser melhor como suplente que entra aos 60 minutos do que como titular que joga os 90. Apenas razoável +, mas a subir de rendimento. Para mim, nunca foi o flop que muitos auguraram que seria, talvez pela cara de miúdo e o seu diminutivo nome.
Derlei – equacionamos sempre a probabilidade de Derlei ser expulso ou contrair uma lesão durante o jogo, mas lá que dá gosto ver o ninja a movimentar-se na frente, lá isso dá. Também gosta de fazer bons jogos contra a lampionagem e a massa associativa reconhece e valoriza essa característica. Por mim, mais um anito.


Por fim, Liedson. Liedson não está mesmo plano dos demais. Julgo que Liedson olha à sua volta e sente um desespero interior por possuir um talento largamente acima dos demais e concluir que não tem acompanhamento. Liedson é um bife do lombo ao qual não souberam adicionar um molho au champignon. Vá lá, de vez em quando há uma ou outra batatinha frita. Ele defende melhor que muitos, ele tem mais inteligência que a maioria, é prendado tecnicamente, ataca como mais ninguém e, pronto, marca golos e resolve jogos. Não é despiciendo. Há que admitir: Liedson está desfasado deste Sporting e de todo o Campeonato português no geral. Não há ninguém como ele por cá. Sempre em alto nível desde que chegou em 2003/04, coleccionando os invariáveis títulos de melhor marcador da equipa e facturando com grande prazer aos milhafres que o detestam, ele sim, é a peça verdadeiramente insubstituível neste momento. A sorte do Sporting é ele ir a caminho dos 32 anos e já não despertar grande apetite por essa Europa fora. Apesar de tudo, não parece perder qualidades com o passar do tempo. Deve acabar a carreira no Sporting e isso seria, como diria o velho Artur Jorge… muito bonito.

domingo, maio 10, 2009

Maria


É bom saber que há marcas nas quais podemos confiar. A “Maria” é uma delas. Não temos dúvidas das potencialidades desta revista quando folheamos uma: fotografias e mais fotografias de toda a gente e mais alguma, inevitáveis dramas de amor, receitas de paixão, aconselhamentos para qualquer perversão, guias astrológicos indispensáveis, tudo sobre telenovelas e, acima de tudo, frases especialmente tentadoras para a descontextualização.
Os rumores da “Maria” são pipocas que estalam por cada página folheada. Os títulos da “Maria” são onanismos coscuvilheiros plenos de cor e pontos de exclamação.
E tem sido assim desde que nos conhecemos. A “Maria” nunca esteve mais gorda ou mais magra. Ela sempre foi um adorável vácuo de coisas vãs. Uma amiga sempre presente que nos dá a mão. Uma líder de mercado.
O máximo que podemos fazer é mostrar-lhe o nosso profundo respeito. Sejamos felizes como a “Maria” nos ensina.

domingo, maio 03, 2009

Cid

Reunião da administração. Marcada para as 10:00. Às 10:30 começam a chegar os primeiros membros.
- Tenho o PDA avariado – queixa-se o administrador #12.
- Faz «LOAD “”», resulta sempre – aconselha o administrador #3.
- Não dá.
- Não dá o quê?
- Não sei onde ficam as aspas.
- Clica no zero até aparecer.
- Já está.
- Já deu?
- Não.
O administrador #3 olha para o visor.
- Escreveste mal “LOAD”.
- Como é que é?
- Acho que é L-O-U-D-E.
- Achas que sim?
- Hmmm… Talvez seja melhor perguntar ao Cid do meu departamento.
Chegam mais alguns administradores. Logo começam a falar de temas importantes para a empresa.
- Tu viste aquele resultado extraordinário?
- O Cid contou-me quando vinha para cá.
- Deveu-se a uma má opção estratégica.
- Sem dúvida.
- Para a próxima o gajo já não deve substituir o lateral-esquerdo pelo avançado. Deu barraca. Perdemos o jogo estupidamente por causa disso. Ninguém estava à espera.
- Pensar que uma vez deixei de escolher o meu novo todo-o-terreno oferecido pela empresa só para ver um jogo destes tipos…
Chega por fim o chefe máximo. São 11:55. Começa a reunião.
- Meus senhores, temos de apresentar a versão final do Relatório & Contas até amanhã. Há alterações de relevo? – questiona o chefe.
- Sim, sr. Presidente – avança o administrador #60 – aqui na página 3, não gosto do bold da 3ª linha. E acho que ficava melhor se o parágrafo estivesse alinhado à direita, para condizer com o gráfico.
- Isso é crucial, caramba! Temos de refazer o relatório todo!
- Quanto é que isso custa?
- Sei lá. Uns milhões. O accionista paga.
- Quem é o nosso accionista?
- Boa pergunta. Vê aí na página 16.
O administrador #48 inspecciona a página 16.
- Não está cá nada!
- Mau… Tu queres ver que perdemos os nossos accionistas de referência? Deixa-me perguntar ao Cid…
O administrador #9 faz uma chamada nervosa ao Cid.
- Ah, não. Está aqui na página 17. É o Estado.
- Ah, bom. Então está tudo bem. Cid? Sou eu. Deixa estar, não é nada. Volta lá a instalar o novo sistema operativo nos computadores da empresa. E retira as pastilhas debaixo do tampo da mesa quando acabares o relatório de execução orçamental, está bem?
- Está tudo bem o quê?
- Aquilo que estavas a perguntar.
- O que é que era?
- Tu é que sabes!
O chefe coloca ordem na discussão.
- Meus senhores, tenho uma reunião marcada às 13:00 e ainda tenho de almoçar. Vejam lá onde é que tenho de assinar.
- É a reunião sobre a distribuição de resultados?
- Não. “Reunião” é um eufemismo para uma orgia ultra-secreta de sexo e drogas que vou ter em Londres. Os resultados já os distribuí.
- Ah, sim? – interessa-se o administrador #23 – e como ficou?
- 40% para mim, 40% para vocês, 15% transitam para o próximo ano, 5% de dividendos e o resto para os outros colaboradores.
- Óptimo. Parece-me justo.
- Eh pá, a gente não devia dar tanto aos outros colaboradores – adverte o administrador #5.
- Então porquê?
- A produtividade dos tipos decai de dia para dia. Os tipos andam na Internet o dia todo a ver sites de futebol ou sites de viagens para ir nas férias.
- Incrível – assinala o chefe – Os programas de motivação e formação profissional não deram em nada! Quanto é que gastámos nisso?
- Uns impressionantes 10 euros, sr. Presidente – elucida o administrador #55 – Sem contar com os post-its que oferecemos ao Cid.
- Terrível. Terrível!
O administrador #67 chega entretanto.
- Eh pá, nem queiram saber. Estava convencido que a reunião era no 4º andar e andei às voltas até encontrar a sala!
- Mas o edifício só tem dois andares e esta é a única sala de reuniões…
- Por isso mesmo é que andei perdido! E, ainda por cima, o elevador é extremamente lento!
- Devíamos comprar um elevador diferente – alvitra o administrador #31.
- Mas qual? – interroga-se o chefe – Não gostam da OTIS?
- Um Thyssen é que era.
- E um Efacec?
- Eh pá, isso ainda existe?
- Eu gostava de ter um elevador com espelhos. Para ajeitar a gravata, estão a ver?
- Não era mau pensado…
- É imprescindível que tenhamos um elevador só para a administração – impõe o administrador #11 – Não gosto de me encontrar com empregados malcheirosos. E aquele Cid é insuportável.
- Boa ideia, boa ideia – aprova o chefe – Não querem um cafezinho?
- Eu não posso, estou à rasca dos intestinos.
- Ó Cid, traga cafés para todos os membros da administração, menos para o Dr. Gonzaga… sim, sim… 84 cafés. E muito açúcar.
- Eu não posso comer açúcar.
- Cid, traga adoçante para o administrador #52…
- … eu sou o administrador #49, sr. Presidente.
- Eu não o Presidente, sou o administrador #72.
- O administrador #72? Eu pensava que ele tinha morrido!
- Não, esse era o #73. Eu sou o irmão dele.
- Ah, está bem.
- Cid, pensando melhor, cancele tudo. Traga antes umas sandes de leitão.
- Eu não como carne de porco – avisa o administrador #32 – Sou alérgico.
- Eu também não. Sou judeu – achega o administrador #49.
- Eh pá, estes gajos já chegaram aqui. Isto está bonito, está…
- Algum problema, pá?
- Não, nenhum… o sr. Presidente é que sabe.
Quando olharam para o lado, o chefe tinha desaparecido.
- Eh pá, agora é que isto ficou tudo tramado… O que é que fazemos?
- Esperamos até às 17:00. Se ele não disser nada, procedemos às alterações devidas e enviamos para a gráfica para estar pronto amanhã.
Chegam as sandes de leitão. Os administradores #32 e #49 ausentam-se e só voltam passadas umas quantas horas, acompanhados pelas respectivas famílias.
- Está bem. E quem é que vai fazer esse trabalho de revisão?
- Não olhes para mim. Tenho de sair às 15:00 para ir cortar o meu relvado.
- Faz o tipo da tua equipa.
- Quem? O Cid?
- Pois, o Cid.
- Porque é que não faz a tua equipa?
- Eh pá, não seja por isso…
- Quem é a tua equipa?
- É o Cid.
- Também? Quer dizer que nós dois comandamos o Cid?
- Pelos vistos…
- O Cid também é meu subordinado! – alerta o administrador #14.
- E o meu também! – ajunta o administrador #59.
- O Cid trabalha para mim desde que eu o trouxe para a empresa, tinha ele 14 anos! – relembra o administrador #36.
- Pá, mas quem é que fez o relatório?
- Foi o Baptista.
- Foi nada! O Baptista despediu-se em Janeiro!
- Ah, então foi o Cid.
- Boa, então o Cid é que deve fazer as alterações todas ao relatório!
- Sem dúvida.
- Querem chamá-lo até aqui e explicar-lhe tudo?
- Deixa estar, o gajo é esperto. Ele vai perceber quando colocarmos o relatório em cima secretária dele outra vez.
- Está bem.
- Esta reunião está a correr muito bem, não está?
- Optimamente. Está muito fresquinho. O Cid fez bem em ligar o ar-condicionado.
- Onde é que está o Cid?
- Está a trabalhar no plano de negócios e a imprimir os contratos de prestação de serviços para o administrador #21 dar uma vista de olhos.
- O quê? Só isso?
- Esse gajo é um folgado do caraças! O Baptista é que era!
- O Baptista tinha futuro… O gajo é que me indicou onde devia comprar o meu BMW.
- A sério?
- A sério. Agora o Cid… nunca vi sandes de leitão tão mal feitas!
- Devíamos cortar-lhe o bónus este ano…
- Bem pensado! – aprova o administrador #74 – Este ano já não lhe damos mais esferográficas da empresa!
- Por mim tudo bem.
(SILÊNCIO)
- Bem, então…
- Pois…
- Se calhar terminávamos a reunião, não?
- Já? – agasta-se o administrador #28, olhando para o relógio depois de ter acordado sobressaltado – Tão cedo? Eh pá, ainda tínhamos tanta coisa para discutir…
- Eh pá, já fizemos muito por hoje… - analisa o administrador #53 – Não me lembro de ter discutido tanto assunto importante em apenas 9 horas como hoje!...
- De facto… Bem… Então…
- Vamos lá entregar o relatório para o Cid refazer?
- Eh pá, o gajo que venha até cá. Estou demasiado cansado depois de ter estado sentado um dia inteiro a comer sandes de leitão.
O administrador #65 chama o Cid, após três números incorrectamente marcados.
- Sim… Cid, venha cá imediatamente buscar o relatório… tem de reescrever as 300 páginas para amanhã estar tudo pronto às 7:00 da manhã… quero lá saber que tenha de tratar dos fornecedores, isto agora é a sua prioridade… e fica cá durante a noite, se for preciso, que eu arranjo-lhe uma lanterna… pois é, Cid, seja mais eficiente da próxima vez. Então veja lá isso, que o sr. Presidente não admite falhas.
Pousado o telemóvel o administrador #65 desabafa:
- Estou farto deste Cid.
- É… o gajo demonstra pouco comprometimento…
- Olha!... O meu PDA está a piscar! – estranha o administrador #12
- Viste? Eu disse-te que ia resultar… - observa o administrador #3.
- Está giro, está… Bom, a que horas é a reunião de amanhã?
- Amanhã… não há reunião, acho eu… mas podemos perguntar ao Cid.
- Que maçada! Logo agora que tinha uma gravata nova para estrear e tudo! O que é que vamos fazer, então?
- Queres ir jogar golfe?
- Não sei… eu e os tacos…
- Então… sei lá… podemos dizer ao Cid para nos fazer umas massagens, por exemplo.
- Grande ideia! Estou cá com uma dor no fundo das costas… e sempre o Cid faz algo de útil pela nossa saúde.
- É. Temos de meter esta gente a mexer-se por nós. Para que é que eles são pagos, afinal?

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Enquanto Isso


Enquanto andavas pelo Hi5 eu matava metade do mundo com um espirro infectado. Enquanto deixavas mensagens abreviadas no Messenger eu comprava o T3 dos teus sonhos. Enquanto ias à praia alguém despachava o cancro da tua pele para a capa do 24 Horas. Enquanto fazias amigos no LinkedIn eu falia a tua empresa com uma apresentação Powerpoint feita aos tubarões. Enquanto filmavas o concerto do Ben Harper com o teu irritante telemóvel ele entrava em overdose e inspirava uma nova canção para o Lenny Kravitz. Enquanto davas voltas ao mundo eu dava voltas na cama a tentar parar de sonhar. Enquanto vias beleza num cão abandonado eu só via sarna e decepção. Enquanto fazias os possíveis para te integrar eu desintegrava-me directamente para o olho do buraco negro. Enquanto estavas na berra eu berrava as maiores atrocidades para dentro de uma lata enferrujada. Enquanto pagavas a um massagista para libertares a tensão eu massajava o meu ego com choques de 220 volts. Enquanto abanavas a cabeça por veres tanto potencial desperdiçado eu soltava vivas ao teu desapontamento de circunstância. Não sei se gostava de saber fingir tão bem como tu. Não sei até que ponto a verdade nua das coisas pode ser valorizada. Não sei até que ponto pode a despersonalização progressiva tornar-nos pessoas mais agradáveis. Não sei se tu sabes que as metáforas podem ser mais literais do que pensas. E que o que parece explícito não é nada disso. Enquanto pensavas que algo superior poderia sair daqui eu colocava um ponto final nas tuas expectativas.

sexta-feira, maio 01, 2009

Já Nas Bancas!

Não perca! Temos IMAGENS EXCLUSIVAS (extremamente mal montadas, mas ainda assim exclusivas) só para si!
São 4-casamentos-4, sem nenhum funeral (até ver)! Paulo Paraty e Leonor Pinhão assumem finalmente o seu romance que encheu páginas e páginas e páginas de papel higiénico! Paulo, depois de tantos anos a equipar de negro, cumpre o seu sonho de ir, finalmente, de branco! E Leonor fica felicíssima por poder finalmente urinar de pé sem complexos!
Mas não é tudo! Temos mais 3-casamentos-3 (isto é que é escrever!) só para si! Primeiro, um casal anónimo de perfil, que, apesar de tudo, promete fazer cair-lhe uma lagrimazinha! Depois, o casal sensação Filipa de Castro, a mamalhuda silicónica mais cobiçada pela Playboy portuguesa, e o velho mas espevitado Jerónimo de Sousa, que não deixou a luta por mãos alheias! Há a promessa firme de Jerónimo entregar Filipa ao povo, para gáudio da massa de desempregados! E por fim, João Malheiro faz rir o seu parceiro indicado pelo Cláudio Ramos com o seu timbre de voz inconfundível! É só rir com directores e ex-directores de informação do Benfica!
Ainda nesta super edição: Tony Carreira enche os bolsos com uma canção de homenagem à Gripe A, que ele prefere designar por “gripe suína”, por uma questão de “musicalidade”! E tudo isto sem máscara! Para quê? Ele nem precisa de abrir a boca!
E Eduardo Barroso descobre que Maya é a assassina! Ó Eduardo, isso estava na cara! E nas mamas de plástico também! Nem pareces cirurgião!
Finalmente, temos Guterres numa sessão fotográfica na Fonte da Telha a exibir o seu voluptuoso corpinho! Isso de ser Alto Comissário da ONU é melhor que várias sessões no ginásio, ó António! Não te metas a pau que tens logo a Rita Pereira à perna!
Compre JÁ!
Mas mesmo já, antes que você se decida pela VIP ou pela LUX! Já, car***o!