segunda-feira, junho 30, 2008

O Pato Donald Contra O Mundo

- … e é por isso que pareço humano. Garanto que nunca experimentei qualquer droga.
- Sr. Pato Donald, apesar de todo o enquadramento surrealista desta audiência, permita-me continuar a questioná-lo. Que idade o sr. pato tem hoje?
- Já disse que tenho uns 30 e tais.
- E que idade tinha há 20 anos?
- Os mesmos 30 e tal anos.
- É curioso, não é? Em 20 anos, o Sr. Pato Donald não mudou nada.
- É claro que não, advogado pateta! Sou uma porcaria de personagem de banda-desenhada! Não envelheço, pôrra! É assim tão difícil de perceber?
- Objecção, sr. Juiz. O réu utilizou linguagem brejeira passível de alienar a audiência e não respondeu directamente à pergunta que lhe foi dirigida.
- Deferido.
- QUAC!
- Sr. Pato Donald, a D. Margarida queixou-se de algum distanciamento seu, diz que já não a ama como a amou nos anos quarenta, queixa-se da sua constante azelhice, afirma-se indignada pelo facto de nunca terem casado nem sequer terem consubstanciado nenhum acto sexual…
- Não sou a pôrra dum mamífero! Eu não f**o à missionário, caramba! Sou a porcaria de um pato antropomórfico, só isso! Por isso ando sempre nu da cintura para baixo e sem qualquer tipo de pudor! A Margarida… que se f**a! A tipa andava a ver se me metia os cornos com aquele palerma do Gastão para que eu reagisse intempestivamente e perdesse a cabeça para a levar a todo o tipo de eventos sociais para se pavonear… Pôrra!, muito ela já levou de mim! Eu sei que ela era o estereótipo de mulher feminista fútil, era um papel ingrato… mas caguei! Já estou noutra! Não estou para aturar mais sermões da parte dela! A minha relação com ela é estritamente profissional. Entro nos mesmos desenhos e ponto final. Fora dos lápis e canetas, sou eu num lado e ela noutro. Ela que se queixe do que quiser!
- Também os seus sobrinhos não têm uma opinião positiva a seu respeito, sr. Pato Donald…
- QUAC! O que é que os putos disseram?
- Disseram que é francamente possível o Sr. Pato Donald ser, no mínimo, co-responsável pelos actos de que é acusado…
- É sempre a mesma mer**! Eu é que represento a sociedade! Especialmente, os podres da sociedade! Nós, as personagens, temos sempre as costas largas! Somos sempre o bode expiatório! Eu, que sou um pato impoluto e que aturei esses três putos durante séculos… sem que os putos fossem meus! Isto é que é reconhecimento, hã?
- Eles salvaram-no muitas vezes em aventuras que estão bem documentadas…
- Pois, eles é que ficavam bem na foto! Era tudo “show-off”, os argumentistas é que eram parciais com eles, que eram novos e tal! Mas ainda não tinham aprendido a nadar e já andavam a fumar às escondidas! O Zé Carioca que conte o que eles fizeram uma vez numa festa privada lá no Rio de Janeiro! Ele que conte mais sobre essa “juventude iluminada”!
- Isso está a ser julgado num processo autónomo, Sr. Pato Donald.
- Para eles é só regalias, para mim nada! Mas eu digo: aquilo dos escuteiros-mirins era só paneleiragem, vão por mim.
- Objecção, sr. Juiz. Não aceitamos esse tipo de linguagem para descrever as sãs actividades do escutismo.
- Deferido.
- QUAC!
- E por último, sr. Pato Donald, a sua principal testemunha de defesa, o seu Tio Patinhas, ao invés de ser uma figura abonatória, atestou a sua deficiente condição mental e a sua propensão para actos tresloucados e acessos de fúria… sublinhando, e passo a citar, “o Donald não joga com o baralho todo” e “prefiro gastar um cêntimo com o Patacôncio a ter de passar um minuto fechado com o Donald num quarto escuro”. Que comentários lhe merecem estas observações?
- Ele foi comprado para dizer isso, só pode… investiguem se há algum pagamento para alguma das off-shores dele… Eu, que fiz tudo por ele, excepto favores sexuais, mereço isso? Fui inclusivamente violado por 6 dos Irmãos Metralha, incluindo o Avô, por defender a sua merdosa Caixa-Forte para quê, afinal? Esse velho raquítico abusou de mim descaradamente e eu é que venho a tribunal… Que se f**a o cota e a fortuna dele, o meu orgulho tem limites! É tudo falso! O maluco é ele! Escondam-lhe a moedinha nº1 e vão vê-lo a subir paredes! Se não fosse pelo seu dinheiro, já há muito que lhe tinham limpado o sebo num lar qualquer para animais abandonados…
- Quer dizer algo antes de lermos a sentença, sr. Pato Donald?
- Sim. Peninha! Peninha, ouve-me! Tens de me defender! Eu sou o teu grande amigo, lembra-te de mim! Acode-me! Diz-lhes que eu sou inocente!
- Eh pá, ó Donald… És um gajo porreiro, mas a verdade dos factos é bué difícil de saber… prefiro que arranjemos já um culpado qualquer que vista a pele do sistema e que nos tranquilize a todos.
- QUAC! Pulha! Medíocre! É tudo a mesma mer**! Hás-de cá vir, atrasado mental! Dou-te cabo desse cabelo hippie à chapada, vais ver! QUAC! QUAC!
- Ordem! Ordem! Na qualidade de juiz deste tribunal, dou como provada a culpa do réu Pato Donald no processo “Pato Donald Contra O Mundo” e as acusações de que o réu Pato Donald é o principal culpado pela crise económica mundial, bem como pelas situações de guerra do mundo, a escalada das tensões étnicas um pouco por todo o lado, a fome, 50% das doenças infecto-contagiosas contemporâneas e pelo Benfica não ser campeão sem as ajudas dos árbitros há mais de 15 anos. Condeno-o a 2 dias de trabalho forçado e depois pode ir para casa em prisão domiciliária. O reú pode recorrer, se quiser perder tempo – deste carimbo de mau da fita já nunca mais se vai livrar. E nós podemos todos ir para casa mais descansados, que já designámos um responsável por todo o mau estar que nos apoquenta. Fim de sessão.
- QUAC!

sábado, junho 28, 2008

A Brigada Canibal

Acabou-se o problema do sobrepovoamento das prisões. Chegou a nova elite policial, a brigada canibal.
Como o nome indica, estes agentes dedicam-se a apreciar a suculenta carne humana, em valentes dentadas nos facínoras por eles capturados. Os efeitos nos corpos dos delinquentes estão à vista de todos os que passam pelo Aleixo, Intendente ou Bela Vista.
O ex-proprietário da discoteca “Lambapiço”, um travesti com antecedentes criminais, que traficou borrachas verdes da Pelikan recheadas de cocaína e liderou de um pequeno grupo que praticava carjacking nas boxes das competições de karts, veio a terreiro acusar os meios alegadamente nada suaves infligidos pela insaciável brigada. É vítima típica da nova forma de exercer a autoridade.
“Roeram-me a perna!”, exclama num pranto compreensível; afinal, tinha-lhe sido arrancada uma fatia substancial do seu presunto sem recurso a qualquer anestesia. “Bandidos! Não há direito! Ahhhhhhh!!!!”, aflige-se o pobre travesti, agora que o sangue perdido começa a provocar-lhe tonturas e uma sensação levemente agoniante revolve-lhe o estômago quando parece ver a sua própria tíbia a sorrir-lhe à luz do dia, despida da sua cobertura de tendões e gordura dolorosamente arrebatada pela polícia canibal. Desespera por um analgésico, mas o máximo que os populares que o circundam possuem é um laxante e um rebuçado Floco de Neve. A intervenção das forças da ordem fora relampejante e apanhara de surpresa todo o bairro, entretido que este estava a incendiar contentores do lixo na via pública e a disparar inocentes tiros para o ar. A carrinha parou a escassos metros do grupo onde se encontrava o travesti e logo os membros da brigada, fulminantes, irromperam da carrinha. Consta que houve um agente corpulento que se atirou com um instinto assaz leonino à perna do incauto travesti e fincou-lhe os magníficos caninos na sua carne apimentada pelos altos e baixos de uma vida de desventuras. Qual tigre, paralisou a vítima e puxou o naco da perna do travesti, que, impotente, arregalou os olhos com choque e a extrema aflição da situação. Então, a polícia, gregária, reuniu-se e banqueteou-se com a caçada, satisfeita por ter castigado um delinquente. Também ficaram visivelmente agradados com a qualidade da carne, algures entre a qualidade da carne de avestruz e a de javali, mas mais doce. O agente Carrasqueira jurou mesmo que sentira um ligeiro travo a tomilho. Chuparam os dedos para bem aproveitar todo o resquício do sangue do marginal e sorriram, levando as suas demoníacas gulas aos píncaros do prazer. O travesti, ainda à espera das ligaduras, acusou a prática de “brutal. Isto não se faz nem a quem viola criancinhas de 5 anos”.
O comandante da divisão canibal, o tenente-coronel Salgado, fora consultor gastronómico do Burger King, mas aos 25 anos constatou que faltava algo na sua vida. E então converteu-se à antropofagia. Mas mesmo assim, Salgado sentia um vazio qualquer que urgia preencher. Inscreveu-se na polícia e logo se destacou quando mordeu o primeiro-ministro sueco no ombro aquando da sua recepção oficial. Refeito das críticas, deu o salto definitivo quando, sozinho, dominou à dentada um par de assaltantes de um banco na Baixa da Banheira. Ficou famosa a sua imagem a molhar o mindinho de um dos meliantes numa taça de mostarda. Agora, no conforto do seu gabinete, ladeado de arcas frigoríficas que conservam pedaços humanos de foras-da-lei ilustres, como os túbaros do um ex-membro da Gestapo e os tornozelos de um árabe terrorista, discorre com simpatia sobre os feitos da sua brigada. “Somos sensíveis, como qualquer pessoa. Mas gostamos de comer tripas de pessoas de meia-idade”. Não seria esta uma prática no mínimo pouco civilizada? “Não. Isso era dantes. Agora comemos tudo com sal e levamos sempre os babetes. Ninguém se suja”. Pouco dado a discutir os pontos eventualmente mais polémicos, “isso são insinuações de gente ignorante e insonsa”, o tenente-coronel prefere enaltecer os grandes méritos da sua tropa: “diminuímos em grande número as prisões domiciliárias e o grau de ocupação das penitenciárias decresceu drasticamente – lembro-me que fomos convidados para um mega festim em Alcoentre aqui há uns meses e demos cabo das alas A e B numa só noite. Enfardámos… como verdadeiros canibais! Até as cabeças chupámos! Houve uns quantos oficiais que esgotaram o stock de Água das Pedras, tal a congestão!”, lembra-nos, orgulhoso. E como é comer um vadio? “Geralmente, não como a cabeça, tem pouco conteúdo. Prefiro as miudezas e talvez uma costeletazita. Temos já um certo nível de requinte culinário. Aprecio mais os pretos, são mais selvagens e têm um sabor mais exótico. Mas o que dá mesmo gozo são os criminosos de colarinho branco. Têm mais gordura. O advogado Peres de Azevedo, aquele gatuno, era bem tenrinho. De uma vez comemos-lhe uma parte do pescoço, mas à segunda vez o roubo dele foi maior e comemos-lhe as pernas. Fizemos um grelhado maravilhoso mesmo lá na Ordem dos Advogados, espectacular, tudo pacífico, tudo perfeitamente controlado. Pelos vistos nunca mais roubou nada. O que é pena, porque acho que os braços dele também são deveras apetitosos”.
Ou seja, toda a gente parece estar satisfeita. A polícia, porque o crime não pára e motivos para uma boa refeição nunca faltaram. Os agentes estão felizes e convivem muito mais, agora que já é permitido assar um burlão no espeto. Os cidadãos sentem-se mais seguros ao ver os ladrões mutilados, coxeando ou arrastando-se pelas ruas da cidade em cadeira de rodas, desmembrados e decepados, cicatrizados e permanentemente inválidos em filas de espera dos centros de saúde ou à porta de farmácias. E os próprios ladrões, lá no fundo, sentem-se apreciados e desejados, algo que faz maravilhas à sua auto-estima. “Eu já pensei cá para mim: Nelito, tu podes tentar violar a amiga da tua filha que tudo te vai correr bem. Se conseguires e não fores apanhado, voltas a violá-la; se fores apanhado, a brigada canibal dará certamente um bom uso às tuas virilhas. Não tenho nada a perder”, declarou Cornélio Araújo, um perigoso assediador já maneta, cuja carne, garante o tenente-coronel Salgado, “promete fazer crescer água na boca de toda a esquadra. Já o imagino assado no forno com um raminho de salsa”.

sábado, maio 31, 2008

Portugal Pró-Fundo

1. A assembleia aprovou por maioria qualificada a outorga do título de sede de concelho às seguintes localidades:

Viana do Sal
Figueira da Pêra
Idanha-o-Basto
Unhais de Montemor Gordo
Mondim de Casal Vedras
A-da-Condeixa Agraço
Cabeceiras de Xira
Castelo de Espada à Comba Dão
Vila Pouca da Rainha-a-Nova
Santiago do Conde
Castro de Torres à Cinta
Benfica Franca do Hospital
Albergaria Velha dos Vinhos
Póvoa da Pampilhosa
Vila Celorico de Varzim
Linda-a-Cabeça
Foz do Botão
Baixa da Serra
Carrazeda Nova
Castanheira da Palmeira
Sarilhos Algodres do Cacém
Vila Real de Freixo-a-Pastora
Venda dos Pequenos da Beira
Oliveira de Aguiar
Ferreira de Canal Iria
Alcácer do Zêzere Tinto
Sever de Ansiães
Aldeia Nova das Raparigas Grandes
Macedo d’Aire
Proença do Corvo
Fornos de São Brás da Feira
Paços de Miranda
São João de São João
Leça da Cruz 
Carregal Caveira
Pedrógão da Moimenta
Torres do Balio
Figueiró Quebrado
Caldas de Arruda


2. Na mesma sessão, a assembleia vetou por unanimidade a atribuição do título supra-citado às seguintes localidades, por violação dos princípios lógicos observados na lei de bases do Sistema Administrativo Nacional:

Alcabaxide
Carnideche

3. A assembleia aprovou por maioria simples a moção de apoio à distribuição gratuita de alucinogénios a todos os deputados no hemiciclo apresentada pelo Dr. Durão Ferreira Cervan, reiterando assim a pretensão de repetir o verificado na presente sessão em todas as restantes sessões em que não haja disposição da assembleia para discutir temas de carácter estratégico.

4. A assembleia culminou a sessão com uma salva de palmas seguida duma salva de tiros.

5. Os sobreviventes afirmaram sob juramento esta sessão ter sido o fim da sua carreira política.

6. O Eng.º Mota Leite de Coissoró indicou numa primeira instância recorrer do juramento prestado pelo Dr. Patinha Bota, mas retirou a sua intenção ao ser perfurado fatalmente pela baioneta do Arq.º Macário Canas.

7. O meu sonho pessoal era ser como a Amy Winehouse, mas mais gordinho.

terça-feira, maio 20, 2008

Taça é Taça - Parte II

Mais uma homenagem do Outra Louça aos bi-campeões da Taça. Desta vez não houve sonhos destrambelhados com o Tonel a partir a taça. Nada disso. Tonel portou-se bem, como, aliás, toda a equipa. Foi uma tarde tranquila e pardacenta, com um vencedor justo e o passarinho Tiuí a constituir-se como o homem do dia. Apenas quero deixar três ou quatro notas.
Tiuí tem uma alcunha que pouco augura. A pujança da terceira ou quarta opção para a frente de ataque veio ao de cima e ele próprio deve ter ficado surpreendido pelo facto de ter acertado duas vezes nas redes pelo lado correcto. Aliás, Tiuí ainda nem sequer ensaiou um festejo de golo, parecendo um pouco perdido por ser a figura central da festa. Tiuí, tudo me leva a crer, nem sequer é um jogador de futebol na verdadeira acepção da palavra, mas apenas alguém que estava no lugar errado à hora errada. Também não me admiro que ele seja extraterrestre ou que tenha próteses de platina. A mística muito característica do Jamor contagiou Tiuí, mas temo que o efeito seja passageiro e que ele recupere para os seus piores níveis de sempre. Mas, pronto, já chega de bater no passarinho; o passarinho decidiu, está (bem) decidido.
Paulinho esteve em grande, como sempre nos habituou. Coxeou de forma determinante no acesso aos balneários, flectindo a perna direita com o jeitinho aprimorado pela experiência que só ele possui, incuntindo assim uma grande motivação na equipa. Permitiu que lhe arremessassem com várias latas de Gatorade em simultâneo e conservou aquele estóico sorriso mongolóide que tanto anima um balneário de futebol. Conseguiu não partir os óculos no meio da festa, o que é uma façanha dentro da própria façanha. Contabilizou três ou quatro modestas nódoas negras e uma escoriação no couro cabeludo na ressaca dos festejos, nada que não se recupere na pré-época que se aproxima. Na próxima época, Rochemback promete partir-lhe um osso qualquer ainda não especificado.
Ronny ficou ofuscado na tribuna de honra pela camisola de Liedson que Derlei fez questão de exibir. Via-se que estavam lá os calções e as pernas do nº8, mas a cara tinha sido tapada pelo jersey do Levezinho. Tudo por uma questão estética. Foi certamente um conselho sussurrado por Fátima Lopes ao Derlei, que procurou o tipo menos prendado do plantel para lhe tapar a fronha. Derlei esteve certeiro, mais do que quando esteve em campo. Ninguém se importou com o Ronny, nem mesmo o Luís Represas, tão solícito quando se trata de defender Timor e os timorenses. E ninguém me tira da cabeça que Ronny É timorense.
Por último, Purovic. Na minha opinião, Purovic é maluco. É mau jogador, para mais no sistema que o Sporting joga; não tem técnica nem grande jogo de cabeça para a altura que tem; protesta demasiado e em maus tons com os árbitros, como se fosse a estrela que, manifestamente, não é; e, muito importante, é a opção que se segue ao… passarinho Tiuí. O cartão de visita não inspira, de todo, confiança. Mas, acima de tudo, terá dificuldades cognitivas e perceptivas. Não bate bem, ponto final. Nem sequer tem graça, como o Paulinho. E aquilo não é um tique esquisito, como o do Izmailov. Acho que é mesmo pancada, é defeito e/ou feitio, aquele olhar esgazeado, o penteado semi-electrificado e toda a deselegância desengonçada que o caracteriza. Também acho que se enganaram no ponta-de-lança alto e esguio que queriam trazer – era o IbrahimOVIC e não o PurOVIC… É provável que seja dispensado, isto se alguém quiser um cabide imprevisível e que execute movimentos estranhos lá por casa.
Para terminar: os votos que o Jamor continue verde-Alvalade por mais algum tempo… e, se possível, com o gosto a dobradinha que escapa desde 2002.

sábado, maio 17, 2008

Österreich Unter Alles

Ich bin ein Österreicher! Sou doido por sangue e extremamente sádico. Gosto de cultivar a antipatia como os belgas de semear a pedofilia e os escandinavos de cometer suicídio. E podia ir mais adiante, estabelecer mais comparações, mas toda a Europa mete-me nojo. Já fui grande, eu mais os húngaros, mas agora sou um pequeno país que nem sequer tem entrada directa na Champions League e que pediu a língua emprestada ao grande vizinho germânico.
Por acaso, é uma língua que nos assenta como uma luva, é uma língua assassina e intimidadora como poucas. Mas isso não apaga a humilhação. Se não fizer nada de cruel, serei um paspalho periférico e mediano como… olha, como os portugueses, vá lá. E então, fiquei assim.
Para mim, a atrocidade não conhece limites. O melhor cartão de visita é constatar que Hitler, filho de uma beirã, afinal era austríaco. Encarcero os meus filhos em caves durante anos, escondendo-os da luz e da vida social. Se não tiver filhos, rapto o filho de alguém com a tranquilidade com que esmago um inocente insecto com as minhas botas cardadas. Em piqueniques familiares no sopé dos Alpes gosto de mutilar os membros dos membros da família, depois de me empanturrar com pickles envinagrados ao som de Mozart.
Bom velho Mozart, ele próprio um maluquinho, como manda a boa tradição austríaca. Até o Freud tinha sonhos anormais com a mãe dele, mas eu entendo bem a sua fixação. Todos nós somos muito apegados à família e consideramos o incesto uma forma de reforçar os laços familiares. A consanguinidade nunca nos fez mal.
Em contrapartida, o yodel é apenas uma patetice para desviar as atenções. Enquanto berro “yudl-ay-EEE-ooo” estou a pensar na próxima vítima. Que pode ser eu mesmo. Tenho os braços cheios de queimaduras de cigarro e escavacados a golpes de canivete suíço, que nós nem para fazer canivetes servimos. Apenas sabemos fazer bom uso deles. Se vejo uma tipa qualquer na rua que me meta impressão, infantil ou idosa, arranjo logo forma de a violar. À bruta, amarrada a um cipreste numa cercania de Innsbruck, dando-lhe com fiveladas nos costados e penetrando-lhe com bastões de basebol.
Temos uma capital cheia de pompa apenas para que não reparem nos cadáveres que despejamos no jardim assim que saímos de casa, após mais um serão de carnificina e sacrifício humano no conforto do lar. Os homens do lixo, já pouco impressionáveis, por vezes aproveitam pedaços em decomposição para oferecer à filha mais nova que os andava a chatear por uma Barbie. Os ossos ficam para o cão. É tudo natural.
Enquanto os turistas contemplam a monumentalidade dos palácios, nós enforcamos o vizinho por ele nos ter olhado de lado na Quarta-Feira. Os filmes de terror são estudados no ensino pré-primário e dissecados até à exaustão por boas professoras austríacas, daquelas que gostam de sexo sado-masoquista com velas quentes a pingar na pele e também de matar veados após o expediente, cortando-lhes as cabeças às dentadas para as expor na sala de estar. Também os alunos menos cooperantes são dissecados, literalmente, pelos seus colegas no recreio.
Em orgias de sexo e droga fornicamos e trocamos fluidos com todos os sexos, incluindo animais, sacerdotes e octogenárias. Ah, como são apetitosas as velhas... E os velhos. Não nos repugna a perversão. Aliás, ela é-nos tudo. O que é monstruoso para muitos é corriqueiro para mim. Mas admito ser mal compreendido. Por exemplo, José Figueiras casou com uma austríaca. Temo pela sua sorte.
Estou apenas a ser sincero. Basta olhar para os factos. Basta constatar a imprensa estrangeira. Não quero ser mais papista que o papa, nada disso. Alles klar, Herr Kommissar?

sexta-feira, maio 16, 2008

Ode a João Loureiro

Aqui fica uma singela homenagem à consideração dos Ban e do boavisteiro Manuel do Laço, que me partiu o coração quando chorou agarrado ao portão da Liga de Clubes, como se parte de si tivesse sido decepada a sangue frio pelas ríspidas e adverbiais palavras do sinistro, mas penteadinho, Ricardo Costa.

Considerem isto a retribuição de um favor pelas visitas que “Irreal Social” proporcionou ao Outra Louça. O João sabe bem do que é que falo quando me refiro a favores.

Arbitral
Coacção
Não é banal
Oh João
É fatal
Atracção
Fez-te mal
Foste ao pão

Gutural
Vozeirão
Da paternal
Protecção
Mas afinal
Tudo em vão
É o final
Da instituição

Susceptibilidade ferida
No túnel houve briga
Genealogia perfeita
É tudo a mesma seita

Natural
Despromoção
Coloquial
Argumentação
No jornal
A corrupção
O social
Em putrefacção

Voltar ao microfone?
Com escuta no telefone?
A megalomania
Estragou-te o dia

Parcial advocacia
Brutal burocracia
Do iceberg a ponta
A nacional afronta

quinta-feira, maio 08, 2008

Não Vou Ceder

Ele vai resistir. Já nos apercebemos do quão inútil é supor o inverso. A amálgama de sentimentos espúrios destas ocasiões chega-se à frente – eles são o orgulho, a obstinação e a persistência. Mexidos como ovos e atirados para a luz, esperando aterrar num qualquer fascículo de fábulas modernas, almejando alimentar folhetins e suscitar tertúlias de bairro.
A teimosia é dos burros, é substantivo semanticamente simples, ele é mais complexo. Não se percebe, todavia, se ele é um tubarão com cabeça de galinha ou uma formiga com cérebro de Einstein. Suspeitamos que há um traço que ele quer deixar, desconfiamos que ele quer que o mesmo seja indelével, duvidamos que ele possa cumprir os objectivos que delineou lá no alto, lá longe, onde as vistas mais comuns não alcançam.
Agora a montanha-russa já arrancou. Não há volta a dar, a saída faz-se em frente ao toque da sineta. Se ele quisesse, fechava os olhos e deixava-se levar pelos rodopios estonteantes. Mas não. Ele vai olhar de frente e enfrentar, batalhar, defender, atacar, aguentar. Resistir. Aturar-nos por termos que o aturar.
Ele não vai atirar a toalha ao imundo chão dos vencidos, é esta a sua causa, esta luta incessante pela individualidade, esta glorificação da singularidade, esta magnética atracção pela peculiaridade. Resiste porque já não há outra opção. Resiste porque é isso que está grifado na sebenta da sua ideologia. Resiste por estar agarrado a si mesmo e ele próprio agarrado a nada.
E quem diz ele, diz eu. No fundo, somos todos farinha do mesmo saco. Somos todos pães bolorentos e egocêntricos desta Humanidade. Desprezamos outras convicções. Fazemos de conta que somos a força das forças. Preferimos romper a coser. Resistimos.

terça-feira, abril 29, 2008

As Mulheres de Portugal

As mulheres do Minho são roliças e de faces vermelhas. Debaixo das saias escondem cantis com vinho, preferencialmente verde, com que ocultam os frondosos pêlos das pernas entretanto desbastados a golpes de rebarbadora. Têm orgulho do seu buço que faz inveja ao clone mais perfeito do Frank Zappa. Falam que nem altifalantes e são altamente fecundas, parem cinco vezes por ano se for preciso, só para os filhos as ajudarem na vindima. Nos tempos livres, guincham em ranchos folclóricos e peregrinam aos mais recônditos santuários católicos, naquilo que julgam ser uma inevitabilidade inter-geracional, ganhando com isso calosidades e joanetes nos pés.
Em Trás-os-Montes residem mulheres com o formato de alheira. Esquisitas e de aparência disforme, quase marciana, sofrem de epilepsia e de outras maleitas do foro neurológico e mental. São incrivelmente más a matemática, mas crêem que não. Dominam, contudo, formas de expressão esquisitas, entre as quais se encontra o swahili e o boshimane que ouvimos no filme “Os Deuses Devem Estar Loucos”. Aliás, foi oferecido a uma transmontana o papel de garrafa de Coca-Cola nesse filme, mas ela recusou alegando incompatibilidades religiosas e vertigens. Apenas 10% sabe o que é um transporte público. Têm medo da luz. Julgam que Lisboa é mais longe que o Brasil. Decididamente, são as mulheres mais misteriosas de Portugal.
No Douro Litoral encontram-se mulheres alcoólicas e javardas. A mulher desta região diz três palavrões por cada duas palavras e invectiva o padre com o mesmo à-vontade com que cospe no autarca em busca de votos no mercado do Bolhão. Lambuzam-se em comida e fazem amor que nem hienas com o cio. Têm paranóias com o Sul e ainda não conheceram ninguém mais charmoso que o Raul Meireles. Coleccionam posters do Tony Carreira. Todas, sem excepção, têm um parente em França e outro na prisão. Adoram facadas extra-conjugais, considerando que os maridos lhes fazem o mesmo. Não dão o braço a torcer, preferindo torcer os braços dos outros. Têm por hábito cear numa retrete aos Sábados e puxar os cabelos umas às outras nas matinés de Domingo.
Já a mulher das Beiras é a introspecção em pessoa. É a violência surda com aspecto pueril, verdadeiro Ole Gunnar Solskjaer (que era o “baby face killer”) para os mais incautos. Prefere os actos às palavras. Nunca se alonga demasiado em conversas, proferindo monossílabos pela garganta, qual ventríloqua. As mulheres desta zona suicidam-se amiúde antes dos quarenta, penduradas na figueira do quintal ou a golpes de sacho, quando se apercebem que não têm futuro para além de semear batatas. Têm filhos deficientes que ocultam a todo o custo da sociedade. Apenas fazem sexo com fins reprodutivos e decepam a sangue frio quem lhes tente engatar. Fazem os possíveis para disfarçar as suas formas femininas debaixo de xailes, mantas e lenços, mesmo se estiverem quarenta graus. Não admitem que gozem com o seu sotaque. Têm vários animais de estimação que desprezam e maltratam. Más como as cobras quando provocadas, não conhecem limites para a vingança. Hitler era filho de uma beirã. Estaline também. Salazar não.
A mulher amante da Natureza e do ar livre vem do Ribatejo. Gosta de andar com as mamas à solta e não faz a depilação nas virilhas. Ama desesperadamente tudo o que se assemelhe com um campino. Também ama o touro, se for preciso. Ingénua e descomprometida, já comprou dezenas de vezes a Torre Eiffel, entre outras burlas das quais é frequente vítima. Gosta de contemplar a paisagem enquanto lhe penetram por trás. Tem mau gosto, mas julga que isso é perfeitamente normal. Não sabe se há-de ser contra ou a favor das lisboetas porque não tem poder de decisão. Mole e infantil, ainda pensa que um unicórnio alado virá para salvar a sua vida. Nas cheias do Inverno, é sempre a primeira a mandar-se à água e a afogar-se. Tem orgasmos espontâneos quando ouve o cavalo a relinchar. Acredita no Pai Natal, no Benfica e nos políticos. As mulheres do Bloco de Esquerda são todas ribatejanas, com excepção da Joana Amaral Dias, que não é do Bloco de Esquerda. Fazem boa companhia, se não formos muito exigentes a nível intelectual.
A espampanância feminina portuguesa provém da Estremadura. Irritantes e arrogantes, as estremenhas julgam-se o centro do seu doentio universo. São as mulheres intrinsecamente mais detestáveis de todo o país, mas têm a sorte dos maridos lhes pagarem tratamentos de beleza que nunca fizeram por merecer. Acham que sabem tudo sobre sexo, mas nunca aprenderam a fazer sexo oral sem arranhar com os dentes. São alvo do ódio merecido das outras mulheres todas e têm QIs francamente limitados, que compensam com jactância e retórica em excesso. Sonham todas em emigrar para um paraíso da moda mundial, mas dão por si a comprar nos saldos dos outlets. Pensam claramente ser mais do que aquilo que verdadeiramente são e têm um sentido de humor semelhante ao de uma ratazana com cancro terminal. Enganam muita gente com as suas perucas compradas em bazares chineses. As mais audazes já vão no seu quarto implante de silicone, tentando assim colmatar o castigo que Deus, com toda a justiça, lhes impôs por toda a sua futilidade que chega a assumir contornos patológicos. São ateias, não por convicção, mas porque andavam a pintar-se com batôn em vez de irem à catequese.
Já no Alentejo as mulheres primam pela calma e lassidão. Não apreciam esforço físico que não o dos maxilares. São adeptas indefectíveis da posição de missionário, recusando qualquer outra forma de contacto sexual. Porém, colaboram em orgias numerosas, se lhes prometermos uma amizade para a vida. Têm medo da solidão e não é raro vê-las a bater com a cabeça nos sobreiros. Cheiram a queijo de cabra, compensando esse senão com seios extremamente volumosos que lhes advêm da carne de porco preto que comem quatro vezes por dia. Também cheiram mal dos pés. Não possuem maldade no coração, apenas conformação. Matam-se se lhes dissermos que têm uma linha descosida no casaco. Não suportam o frio mas também estão fartas do calor e, nesta indecisão, resignam-se e ficam a pensar durante horas. Não chateiam muito, a não ser quando vêem cordeirinhos a balir ao longe. Aí bem que podemos fugir, que elas não vão descansar enquanto não tosquiarem o animal. As alentejanas podem dar um suporte para livros fantástico.
No Algarve as mulheres envelhecem rápido. Com 15 anos, a algarvia já está pronta para entrar num lar de terceira idade. Falam rápido, de forma a que ninguém lhes perceba, disfarçando assim a sua tímida, mas presente, paralisia cerebral. Nunca dizem que não a um desafio. Cortejam estrangeiros nas praias, sonhando fugir para um destino menos lúgubre que Albufeira. Têm a mania que percebem de praia, mas nunca aprenderam a nadar. 5 em cada 6 afogamentos femininos em Portugal dão-se com algarvias. Menstruam-se pela primeira vez em salas de aula, confirmando o mito que todos pensávamos acontecer apenas em ficção. Intrujam os mais desatentos com um belo bronzeado que afinal não é mais que sujidade incrustada, daquela que não sai nem com glutões do Presto. Fazem amor com qualquer tipo com mais de metro e meio, desde que ele esteja disposto ao sofrimento. Têm apetites sádicos e gostam de feiras e mercados. Combinam caldeiradas e gaspachos apenas para gritarem umas com as outras sobre quem se esqueceu de pôr sal na comida.
Bem, só faltam as ilhas. É rápido. Nunca ninguém conseguiu decifrar uma nativa dos Açores, pelo que não há muito a dizer – todavia, ao que consta, também possuem uma vagina como qualquer outra mulher normal, pelo que valerá a pena a sua descoberta. Já as madeirenses são o deboche completo, dão de mamar aos filhos em jantares de gala e arrotam bolos de mel e bananas sem qualquer pudor em recepções de Estado. Depois pintam-se e andam de saltos altos em casa. São a excentricidade em pessoa e, com quase toda a certeza, 75% delas já teve sexo com o irmão, com o tio, com o pai ou com o turista alemão que lhe pagou uma corrida de sofá no Funchal.

Esta compilação sociológica é da responsabilidade do Dr. Urbano Saganowski Rodrigues e extraído da sua obra “Os Malmequeres – Uma Dissertação Físico-Química”, das Edições Ultraje, de Santo Tirso, ano 2008, pp. 45-48 (Direitos de autor bué reservados. A sério. Reservadíssimos. Depois não acreditem no que vos digo).

domingo, abril 27, 2008

Essa Doeu

Treinador (T) – Olha para estas críticas. Estão a dizer bem de ti.
Avançado de costas voltadas para o golo (A) – Ainda bem.
T – Ainda bem o car****. Passaram a temporada inteira a dizer que não valias nada. Insinuaram que o nosso departamento de prospecção estava feito com os empresários. Só agora te reconheceram valor. Oportunistas!
A – Marquei dois golos de belo efeito, mister.
T – Bah! Tiveste sorte. Tens de mandá-los dar uma curva, Serguey.
A – Eu respondo dentro de campo, mister.
T – Já sei o que vais fazer. Vais marcar um auto-golo na próxima jornada. Só para contrariar os elogios destes jornalistas. Eles vão sentir-se envergonhados por fazeres tanta burrada depois de te estragarem com elogios.
A – Mas, mister… Isso vai afectar os objectivos da equipa.
T – Eu quero que os objectivos da equipa se fo***! A nossa vida já está difícil, de qualquer maneira. Quero é calar a canalha dos jornalistas, trocar-lhes as voltas; quero que eles sintam vergonha daquilo que escrevem semana após semana!
A – Isso parece-me contraproducente. Devemos alhear-nos disso e concentrarmo-nos nos objectivos da nossa direcção.
T – Não sejas estúpido. Nós já não temos objectivos. Nunca os tivemos.
A – Bem… Eu não sei se consigo marcar um auto-golo…
T – Claro que consegues… com a tua tremenda falta de jeito, há-de ser fácil… se não for um auto-golo, que seja uma agressão violenta ou um duplo amarelo desnecessário.
A – Bolas, mister, mas o mister acredita ou não no meu valor?
T – Sinceramente?
A – Seja sincero comigo, mister.
T – Não.
A – Oh, fo**-se! Como é que hei-de render se nem o meu próprio mister acredita no meu potencial?
T – Não me venhas com desculpas. Sabes bem que tens dois pezinhos que parecem dois blocos de cimento e uma cabeça mais deformada que um acordeão furado. O teu potencial é algo imaginário.
A – Então porque me vieram buscar, se eu estava tão bem no recato da segunda liga cipriota?
T – Estava bêbado quando vi as cassettes de vídeo. Parecias-me um tipo espectacular. Mas eu queria era contratar o nº7.
A – Não acredito!
T – Acredita, Serguey. Não vales muito. Mas também não mereces que esses pulhas dos jornalistas andem sempre em cima de ti. Era sempre “Serguey, a risota”, “Serguey mete dó”, “Serguey equivocou-se na profissão”, mas agora foi “Serguey magistral”. Sacanas! Eu sempre a meter-te a titular na esperança que marcasses um golo. E agora marcaste dois! Mudaram logo as críticas! Não aguento esses gajos! Tens de fazer mer** da grossa já na próxima jornada! E depois tens de tentar fazer o jogo da tua vida!
A – Quer dizer que os nossos objectivos passam agora por confundir os críticos?
T – Sim.
A – E o presidente, o que vai dizer?
T – O presidente já está por tudo.
A – E como é que o grupo vai reagir?
T – O grupo só espera pelo fim da época. Não vai reagir. Não vai agir. Não vai fazer nada, parece uma cambada de vegetais ligados à máquina. Temos sorte se conseguirmos fazer três passes seguidos.
A – O mister teve aulas de motivação de equipas?
T – Não. Baldei-me. Fiquei a comer presunto com melão no hall de entrada e a beber moscatel enquanto engatava a relações públicas do curso.
A – Onde me vim meter…
T – Olha lá, algum respeito! Ao menos tenho planos para ti.
A – Isto não me parece muito desportivo…
T – O futebol é tudo menos desporto, Serguey.





A – Mister?
T – Sim, Serguey?
A – O mister ainda me ama?
T - …
A – Ama-me, mister?
T – Isso é difícil de explicar, Serguey.
A – Devo depreender que não me ama mais, mister. Como deixamos que isto acontecesse?
T – Eu…
A – Sim?
T – Eu ainda te amo, Serguey. Talvez já não de uma forma tão carnal como dantes, mas ainda te amo enquanto meu pupilo.
A – Então porque me maltrata desta forma, exigindo que eu faça algo que não consigo fazer?
T – O amor é assim, Serguey, uma bola que vai à trave, um falhanço escandaloso, uma queda aparatosa na área. O amor é uma bola nova da Adidas, daquelas que nunca se sabe qual é o rumo que vai tomar.
A – Não, mister, o amor não é isso. O mister não sabe o que é amar.
T – Está bem, posso não saber. O que eu quero é que entres em campo e te lembres de tudo de bom que escreveram sobre ti para fazeres mal. E vice-versa. Que faças o possível para contrariá-los.
A – Mister?
T – Sim, Serguey?
A – Estou confuso. Dê-me um beijo.
T – CHUAC!
A – Esse beijo não teve paixão.
T – Eu não tenho paixão, acho. Tenho é uma vontade enorme de estragar a vida dos críticos.
A – É triste viver com o ódio embrenhado no coração.
T – Cala-te, Serguey. Mostra-me apenas o que não vales.
A – Não sei se consigo.
T – Só precisas de ser tu mesmo.
A – Enfim… amamo-nos?
T – Amamo-nos, Serguey.
A – Bem, deixe-me então ir treinar atrasos ao guarda-redes…
T – Sim, vai… e lembra-te: para além de teu treinador, e teu amante secreto, sou o pior melhor amigo que alguma vez tiveste.
A – Não percebi.
T – Ninguém me percebe, Serguey. Nem mesmo quando jogo em 4-3-3.

domingo, abril 20, 2008

O Mega-Repolho

Em tempos houve o hiper-pepino. Agora há o mega-repolho.
Pasmai-vos, arautos da incredulidade, pois este repolhozão está aí para, adivinharam, quebrar mais um
record do Guinness. Assombrai-vos com a imperial envergadura deste vegetal, verdadeiro baluarte da robustez hortícola, o Mike Tyson da granja: 13,5 kg. O suficiente para alimentar vinte pessoas.
Pressupondo, claro, que as pessoas se querem alimentar dum record do Guinness. Entre tanto que há para comer, porquê macular de forma tão displicentemente grosseira a nobreza deste soberbo presente da Natureza?
Não seria bonito depois ouvirmos lamentar “Eh pá, era um grande repolho que me deu fama por quinze minutos, não há dúvida, mas que me deu uma caganeira do caraças depois de o comer”. Que será o mais certo.
Não comam o repolho. Nem por objectivos humanitários, pois a probabilidade do repolho alguma vez ser enviado para a Somália não é nada elevada. Não deixem que um mau laxante substitua a gloriosa memória duma verdura que teve o seu tempo e fez história, modesta, é certo; mas, caramba, é apenas um gigantesco repolho, que mais poderemos exigir dum vegetal? O seu destino natural era ser, na melhor das hipóteses, um pedaço na sopa do dia numa cadeia de restaurantes qualquer.
Não desmereçam o repolho. Quantos de vós já foram citados pela Lusa? Já nem digo pela France-Press nem sequer falo pela Reuters, mas pela Lusa. Quantas? Logo vi. Este repolho teve direito a mais que uma simples citação, teve uma breve biografia de vida, soubemos todos que medrou assombrosamente a partir de Fevereiro, assim que a chuvinha começou a cair, e posou de tronco inteiro para uma fotografia. E todos vós, invejosos e rancorosos, pesquisai o que quiserdes que o Google nunca vai mostrar a vossa fotografia de reles convencidos. Dói, mas tem que ser dito. Este repolho, e o pepino de Agosto, são mais famosos que nós.
Podemos fazer como os adeptos do Benfica, ou como as avestruzes, estou confuso (é um daqueles pássaros embrutecidos), e enterrar a cabeça na areia, mas este repolho tem de levar-nos a reflectir seriamente e a tentar perceber qual é o nosso papel na sociedade contemporânea. Neste labirinto de informações somos ultrapassados em mediatização por um vegetal. Alvitro, correndo o risco de estar a ser demasiado alarmista, que estaremos no limbo da desumanização em matéria de facto. Vejam lá isto e digam-me o que querem fazer a partir daqui. Comer o indefeso repolho soa-me a vingança cobarde, no mínimo.
Comam nabos, ao invés. Deste prodigioso quintal em Fronteira, no Alto Alentejo, a moda nem sequer é o repolho. É o nabo. Nabos senhoriais e imponentes, valentes e galhardos, mas que, porém, não deixam de ser nabos. E todos nós, posso dizer com frontalidade, sabemos que nabos estão por aí aos montes, pejando todos os lados, isto, isto tudo, tudo aquilo que nos rodeia e que podemos alcançar com a vista, no fundo, é só nabos. Estamos fartos de tanta nabice. Ou não fosse isto Portugal e nós todos portugueses, não é?, hã?!, grande nabo que tu me saíste, olha só aquele nabo, é só nabos na estrada, na rua, nabos, nabos, nabos, nem sequer são nabiças verdinhas, não; são nabos, nabos, nabos, cabeçudos; mas sempre nabos, nabos, nabos. Cabeçudos do caraças. Nabos.
Portanto, não fazem cá falta, é comê-los e ter bom proveito.
E também dizem que há peras e alfaces e mais-não-sei-o-quê de enormes proporções, tudo do bom e do gigante, tudo natural e condensado naquela mísera fracção de hectare. É ver cabazes cheios de hortaliças e legumes que nos fazem sentir lilliputianos a saírem das mãos do lavrador. Como deve ser maravilhosa a composição daquele húmus. As mãos do agricultor sentem-se orgulhosas, como se tivessem sido o sémen que fecundou aquele rico útero da Natureza com a sua sábia destreza. É a coroa de folhas de oliveira na sua cabeça e devemo-lo compreender. O sorriso é o mesmo que rasga a cara do pai embevecido ao ver o seu filho marcar um golo.
E é bom que Cristiano Ronaldo tenha alguém, ou alguma coisa, que ponha em causa o seu monopólio de afectos dirigidos aos portugueses reconhecidos internacionalmente. É bom e está aqui. Acudiu-nos para arrasar com este marasmo complacente. Abram alas para o repolho, com as suas larvas amarelas, fom, fom, fom.